sexta-feira, 27 de maio de 2011

2 em 1: Tron












Quando "Tron - O Legado" chegou nos cinemas ano passado, fiquei realmente interessado logo pelos trailers que nos mostrava aquele visual novo e impactante. Decidido a assistí-lo, fiz o que sempre faço, pesquiso antes na internet para ver exatamente do que se trata a obra e para minha surpresa, descubro que o filme na verdade era uma continuação de uma ficção ciêntifíca dos anos 80. E antes de assistir "O Legado" fiz questão de ver o primeiro, o que ocorreu há poucas semanas atrás e logo após fui atrás da continuação, não só para fazer uma comparação, mas seguir uma linha cronológica e não correr o risco de ficar perdido na segunda trama. Aqui, então, eu vos escrevo o que achei sobre ambos projetos, que são separados por um período de quase 30 anos.

por Fernando Labanca



Tron - Uma Odisséia Eletrônica (Tron, 1982)

Um dos primeiros filmes da história a usar os efeitos da computação gráfica de forma tão ampla, é quase o filme inteiro de efeitos especiais, que pouco se conhecia na época, entretanto, "Tron" não foi um marco, produzido pela Disney e com Jeff Bridges como protagonista, o filme fora esquecido pelo tempo.

Na trama, conhecemos a "ENCON", uma grande companhia que trabalha no desenvolvimento de programas de computador de extrema inteligência. Não muito longe dali, Kevin Flynn (Bridges) é um ex-funcionário da empresa, um expert em criações de video-games, mas fora demitido e obrigado a trabalhar em uma Arcade por conta própria, tudo isso pois Ed Dillinger (David Warner) rouba suas idéias e é promovido a Vice-Presidente.

Alan Bradley (Bruce Boxleitner), amigo de Flynn e ainda funcionário da Encon, acaba de desenvolver TRON capaz de monitorar O Programa de Controle Mestre (MCP) criado por Dillinger. O MCP por sua vez, controla tudos os programas e é capaz de detectar invasores, o que ocorre quando Flynn cria CLU, um programa invasor da Encon para descobrir e revelar a todos a grande farsa de Ed. É então que Bradley e sua namorada Lora (Cindy Morgan) vão atrás de Kevin avisar que CLU fora detectado e seu plano fora por aguá a abaixo.

Até que Flynn resolve fazer o impossível, através do computador de Lora, dentro da Encon, invadir o próprio sistema, o que ele não esperava é que Lora desenvolvera uma máquina capaz de digitalizar objetos do mundo real para o mundo digital e por um incidente, Flynn se depara com um mundo novo, cibernético, o mundo dos programas, manipulados por MCP que captura novos programas e faz suas análises, se fosse inútil seria descartado, caso contrário o testariam em jogos de gladiadores. Entretanto, Kevin não passava de um Usuário, e lá acaba encontrando Tron e junto com ele, tenta vencer esses jogos e conquistar seus objetivos.


Um grande achado, admito. Um filme perdido no tempo mas que tem lá seu valor. Valor principalmente histórico, apesar de não ter tido reconhecimento, até por ser um filme fraco comparado com outras ficções ciêntíficas, mas por ser um dos primeiros a ser quase que inteiramente feito em computação gráfica. É interessantíssimo assistí-lo e analisar como o cinema evoluiu e o que a tecnologia era capaz de fazer naquela época e o que ela é capaz de fazer hoje. Foi muito arriscado fazê-lo, mas para a idéia de "Tron" não haveria outra forma para fazê-lo senão se arriscar numa tecnologia que ainda não sustentava essa grandeza de efeitos. Hoje quando vemos, parece tudo muito estranho, chega a dar dor de cabeça, mas é preciso analisá-lo como um filme de 82, e por isso, merece destaque, está longe de ser comparado a outros filmes da época como Blade Runner que fora lançado no mesmo ano, mas como havia dito, tem seu valor.

Mas o defeito mesmo da obra foi na hora de construir seu roteiro. A história é nova e bem criativa, aliás, com ela seria possível fazer um grandioso filme, mas isso não ocorreu. "Tron" não tem ritmo, é cansativo, nem mesmo os efeitos nos prende e a trama não é bem desenvolvida. Parece uma sequência de imagens que estão ali acontecendo, mas em nenhum momento nos sentimos interagidos com ela, não há como torcer por nenhum personagem, o filme acontece sózinho e não nos convense. Não há uma grande surpresa nem uma grande cena e ainda há diálogos vazios que nada expressam.

Vale conferir pela tecnologia usada, como forma de análise e perceber como os recursos de hoje permitem um resultado muito mais avançado e muito mais belo, visualmente falando. A história é bem original que nos desperta uma certa curiosidade por conhecer este mundo, que para nossa geração faz tudo muito sentido, mas acredito que naquela época, "usuário" e "bits", entre outras palavras desse universo fizeram muita gente desistir de compreendê-lo. Mas faltou desenvolver melhor a história e os personagens e nos levar para dentro deste mundo, poderia muito bem dizer que, se este filme fosse feito nos dias de hoje e com a tecnologia que temos daria um grande filme, mas isto ocorreu, ano passado e vejo que faz muito sentido resgatar "Tron" para os dias atuais e construir novamente este mundo mas com os recursos avançados.

NOTA: 5



Tron - O Legado (Tron Legacy, 2010)

Não como refilmagem, mas sim uma continuação, a idéia de trazer "Tron" da década de 80 para a nova geração foi certamente uma grande sacada, não só porque hoje há tecnologia para sustentar este universo, mas porque mesmo depois de 28 anos, a linguagem desta obra é muito atual, provando o quão avançado estava "tron" de sua época quando fora lançado. Desta vez, dirigido por Joseph Kosinski, enquando o diretor do anterior Steven Lisberger volta como produtor, e ainda contando com Jeff Bridges no mesmo papel.

Assim como na vida real, muitos anos se passaram desde o término dos últimos acontecimentos. Flynn se tornou presidente da Encon e ainda tem Bradley como seu braço direito. Teve um filho, Sam, mas sempre foi muito ausente. Enquanto isso, no mundo digital, são criados ISO's, programas inteligentes que não foram desenvolvidos por Usuários, CLU, o programa de Flynn os vê como vírus e decide exterminá-los, mas o próprio Fynn e Tron o impedem, nascendo ali uma inimizade que custaria a liberdade de Kevin, que fica preso novamente no mundo cibernético, não deixando rastros no mundo real. Muitos outros anos se passam, CLU passa a seguir um caminho inesperado perdendo o controle de si mesmo, quer invadir a Terra a continuar sua destruição para fora daquele mundo, entretanto, para isso, precisava de um programa criado por Kevin, capaz de materializar coisas digitais, que se encontrava exatamente no "disco" de Flynn, disco que todos possuem onde contém todas as informações e memórias de um "programa".

Para isso, CLU envia uma mensagem para Bradley para que ele retormasse e se tornasse seu refém, mas quem retorna é Sam (Garrett Hedlund), a anos tentando encontrar respostas do desaparecimento de seu pai, e sem compreender o que realmente significava tudo aquilo, se depara com um mundo novo, Sam é detectado como um programa e não como um Usuário, passando assim, pelo mesmo processo que Flynn passara anos atrás. Até que é salvo por Quorra (Olivia Wilde), uma ISO que o leva finalmente até seu pai. A partir de então, Sam, Quorra e Kevin tentam chegar a um portal que seria aberto para o mundo real, mas até lá, teriam que enfrentar programas terríveis que querem a todo custo as informações de Flynn.


Assistindo a "Tron-O Legado" dá para entender o porque da Disney resgatar este universo, ainda há muito o que contar, um mundo muito amplo e cheio de novas possibilidades, mas agora com a vantagem de se ter recursos para se produzir longas-metragens desse porte. A história desta sequência ainda é bem criativa, aproveita bem os termos tecnológicos e dialoga com a nova geração, mas ainda comete os mesmos erros do anterior, que é ainda não conseguir envolver o público por inteiro, falta criar um interesse maior, a trama mais uma vez acontece sem nos convenser tanto, e que apesar da originalidade do projeto, falta uma mão mais segura para comandar tudo isso, de um roteiro que consiga desenvolver as tramas (e sub-tramas) e um diretor que dê mais ritmo, pois ainda há passagens cansativas e que não despertam nenhum interesse. Mas vale lembrar que Joseph Kosinski é iniciante, então, digamos, foi um bom começo.

Não há como ver a este filme e não se encantar com o visual. Estéticamente falando, o filme é fantástico. As luzes de néon, a iluminação, o design futurístico, figurinos interessantes, enfim, toda a direção de arte se empenha para fazer algo de qualidade e conseguem. Mas o melhor de tudo isso, é que conseguiram não só fazer algo belíssimo, mas também conseguiram reconstruir aquele universo de 82, houve muito respeito da equipe técnica por justamente respeitar aquilo que havia sido criado e melhorá-lo, tudo o que vimos no primeiro aqui retorna, mas muito melhor, visualmente. Portanto, quem admira o original, dificilmente se decepcionará com a segunda parte, há todo um cuidado para manter a idéia do primeiro, e por isso, tem seu valor. Outro ponto muito positivo é sua trilha sonora, composta por Daft Punk e suas batidas eletrônicas que se encaixam perfeitamente nas cenas, incrível!

Garrett Hedlund já não é mais novato no cinema, por mais que ainda seje um rosto desconhecido por muitos, o ator cresceu como profissional e se dá bem como protagonista, convense, e seu personagem é melhor desenvolvido do que Jeff Bridges no original. Este, que retorna ainda como Flynn, que deve ter se divertido, reprisando quase 30 anos depois, o mesmo papel, e se sai melhor também, óbvio, anos de experiência e um Oscar nas costas, e ainda há toda uma história interessante para seu personagem, seu envolvimento com o filho, é tudo muito bobo, para falar a verdade, mas ainda assim, faz com que o filme flua melhor que o primeiro, não deixando de ser algo vazio só para mostrar um mundo diferente, onde os personagens são meras peças de tabuleiro, aqui eles existem e tem sentimentos, um ponto positivo para "O Legado". Ainda há Olivia Wilde, sempre bela e isso é o suficiente para Quorra, e o versátil Michael Sheen, caricato ao extremo como vilão secundário, mas interessante.

Visualmente, muito melhor, é claro. Aliás, pelo visual já vale muito a pena conferir "Tron-O Legado", que aliás, seje até um filme feito para mostrar uma nova tecnologia e um visual impactante, onde a história é um mero pano de fundo, mas também este não foi o primeiro e nem será o último longa a fazer isto, mas que consegue divertir e entreter, consegue, ainda não por completo devido aos defeitos como falta de ritmo e um fraco desenvolvimento das tramas, e os inúmeros clichês, enfim, inovação aqui é só no visual. Vale ainda citar, que recomendo ainda ver o primeiro antes de chegar no segundo, facilita e muito a compreensão de alguns detalhes. O filme termina e não nos esquecemos dele alguns segundos depois, assim como ocorreu em "Uma Odisséia Eletrônica", mas também está longe de ser uma obra memorável, ainda há muito o que melhorar, logo que em breve veremos "Tron 3" e não me surpreenderia em ver muitos outros vindo por aí...! Dá para arriscar, mas ainda não espere muita coisa.

NOTA: 6.5

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. The World, 2010)

Baseado na HQ de Bryan Lee O'Malley, o filme dirigido por Edgar Wright, o mesmo de "Todo Mundo Quase Morto", trás as aventuras de Scott Pilgrim que para ter a garota de seus sonhos teve que lutar por ela, literalmente!

por Fernando Labanca

Scott Pilgrim, aqui interpretado por Michael Cera (de Juno e Superbad), é um jovem nerd, que divide seu quarto com seu amigo homossexual (Kieran Culkin) e tem uma banda de rock, a "Sex-Bob-OMB!" com outros colegas. Vive em Toronto, Canadá e acaba de conhecer uma garota, bem mais nova que ele, Knives Chau (Ellen Wong), completamente apaixonada por Scott e amiradora fiel de tudo que ele faz e diz.

Eis que sua vida muda completamente, quando vê Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), a tal garota de seus sonhos, fica loucamente interessado por ela e toda sua estranhesa, por seu olhar vazio e por toda emoção que ele não transmite e seus cabelos que sempre estão de cores diferentes. Começa então, a meio que persegui-la para ter uma chance de ao menos ter alguma conversa com ela. Até que isso acontece, Scott conhece Ramona, mas o que não imaginava é que para tê-la ele precisaria lutar, isso mesmo, lutar com todos os ex-namorados dela (um mais bizarro que o outro), que possuem poderes especiais e surgem sempre quando ele menos espera. A partir de então, Scott Pilgrim entra numa batalha inusitada e cheia de surpresas, tudo para ter Ramona Flowers!


"Scott Pilgrim Contra o Mundo" chamou a atenção dos cinéfilos por sua inovação estética, insere toda essa trama no universo nerd, com referências à HQ's e principalmente Video-Games, suas batalhas, realmente parecem ter sido tiradas de um jogo, desde sua trilha sonora, ao visual, passando por pequenos detalhes, como "ganhar vida extra" entre outras coisas. Edgar Wright faz com seu filme, o que Robert Rodriguez fez com "Sin City", até hoje a obra mais inovadora no quesito HQ, com aquele visual que conseguia transmitir com precisão suas referências. "Scott Pilgrim" foi a obra que mais chegou perto do universo dos "Video-Games" e conseguiu, com muita competência e com muita qualidade passar essa idéia.

Edgar Wright é um dos bons diretores da atualidade e com este filme consegue provar isto. O longa tem um bom ritmo, seja na comédia, que aliás tem ótimas sacadas e um humor afiado ou nas cenas de ação, com direito a câmera lenta e ainda estilosas onomatopéias. Soube trabalhar muito bem com os efeitos visuais, e toda a estética do filme é interessante, a fotografia é incrível. Destaque para a equipe que conseguiu fazer uma incrível e muito detalhada transição da HQ de Lee O'Malley para o cinema. Uma obra cheia de detalhes e curiosidades que nos prende a atenção, é tudo muito novo e original.

O problema de "Scott Pilgrim Contra o Mundo", não é exatemente o roteiro, mas sim a idéia, o propósito. Quanto a idéia de transmitir o universo dos 'video-games', nota 10, entretanto, no quesito história fica devendo e muito. Não colou a história de um jovem que precisa lutar com os ex-namorados de uma garota para poder ficar com ela (WTF?), para mim, não fez o menor sentido, mesmo entrando na vibe do filme e em todo seu clima nostálgico, a história não convense. Chega ao ponto de ser boba, isso mesmo, a trama é boba, tudo ocorre maravilhosamante bem até que do nada aquele jovem normal e nerd começa a dar uns mortais e consegue manusear espadas (???) e todo mundo lida normalmente com tudo isso acontecendo, como se fosse muito natural no meio de um show, surgir alguém dando início a uma batalha com direito a poderes especiais e dizendo que você é obrigado a participar dela para ter a garota que ama, fala sério!!! Não faz sentido, é uma idéia muito pequena e completamente sem lógica. E o pior é que em nenhum momento sentimos que Ramona faria o mesmo por ele, em nenhum momento sentimos que ela realmente o ama, então...qual o sentido de passar por isso?? Nenhum.

A escolha no ator principal também me incomoda. Michael Cera insiste em fazer o mesmo, a mesma face, a mesma expressão, o mesmo tom de voz, a única sorte que ele teve é que Scott Pilgrim é o mesmo personagem que ele havia feito em todos seus outros filmes. Quando vi "SuperBad" até achei engraçado, mas depois descobri que ele só conseguia fazer isso, perdeu a graça e aqui é complicado vê-lo em cena e assistir sua performance nada inovadora. O resto do elenco convense e são eles que dão o ritmo ao filme, Mary Elizabeth Winstead consegue provar talento mesmo quando sua personagem não transmite emoção, mas tem carisma e Ramona é bem cool e chama a atenção. Destaque para Kieran Culkin que há anos não aparecia num filme, rouba diversas cenas como o amigo gay de Scott, sem trejeitos e com naturalidade. Ainda tem a doce e carismática Anna Kendrick como irmã de Pilgrim e o sempre interessante Jason Schwartzman, estranho como sempre.

Enfim, vale a pena, principalmente pelo visual inovador e todas suas referências, mesmo quando a história fica devendo. A originalidade de "Scott Pilgrim Contra o Mundo" se limita a sua estética e a pequenos detalhes de cada cena que nos remetem a elementos do universo nerd, e por essa experiência, vale a pena. Destaque para a ótima direção de Edgar Wright e ao jovem elenco de atores promissores (exceto de Michael Cera). É algo novo e por mais que a história seja simplória, não a vimos em nenhum outro lugar (felizmente), portanto é uma obra acima de tudo, original, tem seus pontos altos e baixos, as qualidades superam, mas é inevitável não ver seus defeitos e com tantos elogios que ouvi e li sobre este filme, não pude deixar de sentir, por mais que eu tenha lutado para que isso não acontecesse, decepção, admito que vi para gostar e dar nota 10, mas não foi dessa vez...Recomendo, mas ficou abaixo de minhas expectativas!

NOTA: 6.5


Obs: Quem tiver a oportunidade de ver em "DVD" vale mais a pena ainda, os 'extras' são ótimos e o final alternativo é melhor.





GAME OVER

domingo, 22 de maio de 2011

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean - On Stranger Tides, 2011)




Um dos filmes mais aguardados do ano, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas, é a continuação de uma das sagas mais queridas do cinema e uma das mais lucrativas da história. Diferente das três partes anteriores, que estavam sob o camando de Gore Verbinski, este é dirigido por Rob Marshall, responsável por filmes como "Memórias de Uma Gueixa" e o vencedor do Oscar "Chicago". Johnny Depp volta para interpretar Jack Sparrow, ou melhor, o Capitão Jack Sparrow, e Geoffrey Rush como o Capitão Barbossa. Os outros dois protagonistas da saga, Keira Knightley e Orlando Bloom, infelizmente não voltaram, entram em cena, os veteranos Penélope Cruz e Ian McShane, como o mais novo vilão. Tive o prazer de ver a sequência e aqui estou para escrever o que achei, mas já digo de início, qualquer comentário é muito suspeito, logo que sou e admito, um eterno fã de Piratas do Caribe!

por Fernando Labanca


Aguardei e muito esta sequência, desde as primeiras notas da continuação de "No Fim do Mundo", acompanhei as notícias e novas imagens e tudo referente a "Pirates of the Caribbean - On Stranger Tides". Confesso que as mudanças no elenco e principalmente do diretor fez diminuir minhas expectativas, e desde então estive ciente de que não haveria como ser melhor ou pelo menos tão bom quanto os outros três filmes, o que de certa maneira, foi bom pensar assim, portanto, não houve decepções, logo que de fato, este é bem inferior aos outros.

O filme começa com Gibbs (Kevin McNally) um dos ex-integrantes do Pérola Negra, sendo arrastado para a forca, mas com a intervenção de Jack Sparrow que vai até Londres salvar a pele de seu antigo companheiro, consegue ser salvo da morte, mas a Corte Britânica ainda está na cola de Sparrow, que o prende, é onde ele reecontra o Capitão Barbossa (Geoffrey Rush) que agora trabalha para o Rei e tem como objetivo o mesmo de Jack, encontrar a lendária fonte da juventude e ele sabe que o Capitão trapaceiro tem as coordenadas, mas ele foge. Enquanto isso, Barbossa rapta Gibbs que tem a posse do mapa para a fonte, e agora com um novo barco e uma nova tripulação tem que chegar ao local antes da frota da Espanha que também está a procura da fonte.

Em Londres, Sparrow descobre que está havendo boatos de que ele está recrutando marujos para uma jornada em busca da fonte da juventude, o que é óbvio que não está. É quando descobre que esta farsa foi iniciada por Angelica (Penélope Cruz) um antigo caso não resolvido do passado do Capitão, que pretende ir atrás deste local para salvar a vida de seu pai, o Barba Negra, que por sua vez o captura e o coloca em seu barco como um simples empregado. Barba Negra é um misterioso Capitão, capaz de ressucitar coisas mortas e "zumbificar" seus tripulantes e precisa da fonte para não morrer, logo que há uma profecia que diz que um Pirata com perna de pau irá matá-lo. Entretanto, há um antigo ritual que precisa ser feito antes de "dar dias de vida" para uma pessoa, e para isto, ele terão que capturar uma sereia e conseguir sua lágrima, eles conseguem Syrena (Astrid Berges-Frisbey) que acaba se apaixonando pelo marujo e religioso Philip (Sam Claflin). E nesta jornada, todos enfrentarão os perigos desses mares e acontecimentos misteriosos, além de serem testados como pessoa para descobrir quem será aquele que será "salvo".


Para minha felicidade e para felicidade daqueles que também curtiram os outros filmes, esta quarta parte, respeita e muito o que já foi feito, é o mesmo estilo, o mesmo humor e...o ótimo Jack Sparrow está de volta e tão bom quanto antes! Rob Marshall como diretor não decepciona, consegue manter e muito bem a saga, entretanto, por mais que isso seja uma coisa boa, ele também não inova em nada, tudo que vemos na tela não nos surpreende, é tudo muito igual ao que já foi feito por Gore Verbinski. É válido citar, que "Navegando em Águas Misteriosas" me lembrou bem mais o filme original, "A Maldição do Pérola Negra", por ser redondinho, melhor explicado, sem as explosões e barulhos de "O Baú da Morte" e sem o roteiro confuso e complicado de "No Fim do Mundo". Neste, não há cenas mirabolantes de ação e aventura com muitos efeitos especiais, simplesmente não há, não há nenhuma cena marcante que fica em nossa mente assim como nos filmes anteriores, e o roteiro, além ser bastante original e criativo é melhor explicado que os dois últimos, mas também não empolga quanto estes.

"Navegando em Águas Misteriosas" é um show solo de Johnny Depp e seu Jack Sparrow, somente o que vemos são suas trapalhadas, seu jeito bêbado de ser e por isso, tem a a chance de brilhar mais, tem mais espaço, é ele quem guia a trama praticamente sozinho. Isto tem seu lado bom e seu lado ruim, o lado bom é que é Jack Sparrow, ponto. O lado ruim é que a trama não permite que os outros personagens apareçam, não há espaço para eles, e portanto nenhuma história que convença. Nem mesmo a presença de Penélope Cruz fez de Angelica uma personagem de maior destaque, o vilão não dá medo e também não empolga, o que é uma pena, Penélope e Ian McShane são atores que estavam ali dispostos a fazer algo de qualidade mas simplesmente não tiveram a chance, assim como Keira Knightley e Orlando Bloom nos anteriores, que eram outros protagonistas, interagiam com a história, faziam parte dela e devido a isso, fizeram tanta falta neste quarto filme, talvez nem seja a presença dos atores, mas sim, personagens carismáticos que interferissem mais no roteiro, que tivessem espaço para, digamos, acontecer no filme.

Johnny Depp brilha com seu Jack Sparrow e só por ele já vale o ingresso, suas aventuras ainda estão ótimas, é realmente hilário os acontecimentos e a maneira como sempre resolve seus problemas, sua falta de cavalherismo e ética e seu jeito único de ser, fantástico! Penélope Cruz está linda e se encaixou bem na trama, mas sua personagem não tem espaço para crescer e nem a atriz de provar algum talento, o mesmo ocorre com Ian McShane, seu Barba Negra é interessante e poderia nascer ali um bom vilão, mas não foi dessa vez, é incomparável com os temíveis Barbossa do primeiro e o antológico Davy Jones de Bill Nighy do segundo e terceiro. Geoffrey Rush mais uma vez incrível na pele do Capitão Barbossa e é o único coadjuvante que se destaca. Para suprir a falta do casal principal, colocaram Sam Claflin e a modelo Astrid Berges-Frisbey, mas faltou trama para os dois e pouco intereriram no resultado final, mas também não decepcionam.

O ponto alto do filme, além de Depp e Rush, é a trilha sonora feita pelas composições de Hans Zimmer, elas ainda empolgam e muito quando aparecem e é, talvez, a única coisa que fica na cabeça depois que o filme termina. É até estranho pensar de que se trata de uma continuação de "No Fim do Mundo", que terminou maravilhosamente bem, com um espetáculo de efeitos visuais, em cenas mirabolantes de fazer os olhos brilharem e o queixo cair, com sequências de fazer o coração quase sair para fora. Neste, esqueça tudo o que ocorreu anteriormente, é quase como um reinício, não espere pelas cenas marcantes que tinha em todos os filmes, aqueles finais com reviravoltas e sequências de tirar o fôlego, ainda acontecem coisas muito legais, admito, o roteiro (ainda de Ted Elliott e Terry Rossio), como disse anteriormente, ainda é interessante e criativo, diverte fácil e tem um ótimo ritmo, mas muito do que mais funcionava nos outros filmes aqui se perdeu.

Mas vale muito a pena, ainda é "Piratas do Caribe", ainda tem a aventura de boa qualidade, que nos prende, uma história interessante. Ainda terá aqueles cenários paradisíacos e belas imagens, junto com a ótima fotografia, figurinos bem feitos e aquela brilhante trilha de Zimmer. Dificilmente os fãs da saga se decepcionarão (tanto), ainda é um ótimo entretenimento, blockbuster de qualidade, coisa rara. Mesmo sendo inferior que os demais, por inúmeros motivos, não deixa de cumprir sua função de divertir e encantar aqueles que assistem. A essência de "Piratas do Caribe" ainda permanece...recomendo!

NOTA: 8,0


Obs: O 3D não faz diferença alguma, foi só uma medida para lucrar mais, não melhora as imagens, pelo contrário, nas cenas mais escuras (e existem muitas delas) é quase impossível enxergar os detalhes, então para se ter uma imagem menos danificada, prefira o 2D!


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cinema: O Noivo da Minha Melhor Amiga (Something Borrowed, 2011)

Desde quando foram lançadas as primeiras imagens e roteiro de "O Noivo da Minha Melhor Amiga", e somado a este título super criativo, pensei comigo mesmo: "mais uma comédia romântica!". Mas não se deixa enganar pela capa ou pelas sinopses, "Something Borrowed (no original)" transforma uma história batida em algo divertido, novo e original!

por Fernando Labanca

Já deu para perceber pelas minha resenhas, que ainda tenho esperança no gênero 'comédia romântica', sempre quando são lançadas fico de olho, porém, a maioria estão abaixo de minhas expectativas, e quando me deparo com pérolas como esta, tenho a certeza de que não estou errado em apostar neste estilo de filme. "O Noivo da Minha Melhor Amiga" é a prova de que é possível se fazer coisas muito decentes a partir deste gênero.

O longa é baseado no livro de mesmo nome da autora Emily Giffin, produzido pela atriz Hilary Swank e dirigido por Luke Greenfield (de "Show de Vizinha"). Na trama, conhecemos Rachel (Ginnifer Goodwin) que ao completar 30 anos, começa a refletir sobre as escolhas que fez na vida, sobre o sucesso que nunca alcançou, enfim, crise da meia idade. Em seu pleno aniversário, sua melhor amiga, Darcy (Kate Hudson) aproveitando o ar festivo da noite, conta a todos que está noiva de Dex (Colin Egglesfield), que por sua vez, foi um grande amigo de Rachel na época da faculdade, quando ambos moravam fora e que graças a ela, Darcy o conheceu. O grande problema é que a aniversariante sempre foi afim do bonitão, mas nunca teve a coragem de admitir isso e correr atrás do que desejava, pior para ela, que agora sim, acabara de perder todas as chances.

Na mesma noite, porém, quando todos já a tinham ido embora, Rachel e Dex conversam e depois de algumas bebidas, acabam transando. No dia seguinte, atordoados com o acontecimento e um tanto quanto duvidosos sobre o que realmente estavam fazendo de suas vidas, tentam ao máximo esconder de Darcy o ocorrido, enquanto esta se preocupa com os preparativos do casamento. E nestes preparativos, envolviam algumas viagens, e Rachel como madrinha, é obrigada a estar por perto do casal o tempo todo, e para não ficar sozinha, leva seu melhor amigo Ethan (John Krasinski), enquanto Darcy lhe apresenta Marcus, um verdadeiro idiota, deixando Dex sempre com ciúmes, mas também nunca conseguindo tomar uma atitude.


E o filme segue desta maneira, mostrando duas pessoas, Rachel e Dex, completamente apaixonados um pelo outro, mas que por medo de agirem com o coração, sem ligar para o que os outros iriam dizer, acabam se afastando daquilo que realmente queriam. Na idade dos 30, ambos se veem em uma grande encruzilhada, viver no conforto que a vida já lhes proporcionou, deixando tudo como está e ser aquele eterno coadjuvante, ou tomar as rédeas do jogo, tomar uma atitude, seguir o que desejam e não o que os outros esperam deles.

"O Noivo da Minha Melhor Amiga" funciona quase como uma comédia dramática, utilizando o bom humor para nos mostrar o drama e conflitos que rodeiam a mente de seus personagens, conseguindo nos emocionar tanto quanto nos faz rir. É tudo muito inteligente a maneira como esses conflitos vão sendo guiados, muito longe de ser comparado com qualquer outra comédia romântica, há extrema humanidade dentro de cada indivíduo ali mostrado na trama, é tudo muito verossímil, a luta de alguns tentando encontrar a saída para seus dramas particulares, numa atitude que só dependia de um 'sim' ou não', mas na vida nem tudo é tão fácil assim. As atitudes de Rachel e Dex são tão irritantes quando verdadeiras.

Não é sempre que se depara com um filme como este, respeita todos os personagens, há uma ótima trama para cada um deles, nos convence em seus dramas, e ainda mais se tratando de uma comédia romântica, isto é realmente raro. Como eu já havia dito, é uma história batida, a mocinha que tem um caso com o noivo da melhor amiga, não há como esperar muita coisa, entretanto, o filme é recheado de boas surpresas, pega essa premissa já muita utilizada e coloca elementos muito originais, como os diálogos e as atitudes dos personagens, e tudo ocorre de uma maneira inteligente, sensível, realista e muito madura. Essa maturidade com que retrata a relação das pessoas me lembrou muito "Ele Não Está Tão Afim de Você" que também fora protagonizado por Ginnifer Goodwin. Os diálogos é um charme a parte, daqueles que ficamos tentando lembrar quando o filme termina. Outro detalhe que me agradou e muito, foi o cuidado do roteiro quanto as relações afetivas, há um bom destaque para todas as relações, como se cada personagem tivesse sua importância, compreendemos a amizade de Rachel e Darcy e nos afeiçoamos a elas e percebemos o quanto seria difícil Rachel magoá-la, não há como, também, não adorar os momentos de Rachel com Ethan, e o principal, a relação de Dex com a mocinha, que torcemos para que dê certo do início ao fim, e há uma ótima química entre todos os atores, facilitando essa comunicação entre o público. Além de tudo isso, o longa de Luke Greenfield faz utilização de flash-backs, muito bem inseridos na trama, e partir deles, passamos a conhecer as paixões, os erros e as angústias que ficaram no passado e que terão ou não uma segunda chance no presente.

O elenco é primoroso. Ginnifer Goodwin dá o tom certo para a composição de Rachel, temos a vontade de ir lá e chacoalhá-la e quando enfim ela toma uma atitude de verdade, ficamos emocionados, pelo menos eu fiquei e muito., além do mais, ela não é aquela atriz com o perfil 'padrão de beleza hollywoodiano', tem uma face nova, ela é linda, mas tem seu diferencial, uma atriz promissora. O galã e desconhecido Colin Egglesfield não decepciona e apesar de novato convense bastante. John Krasinski foi uma outra ótima escolha para compor Ethan, é dele que vem alguns dos melhores momentos do filme (como ele se fazendo de gay para afastar uma mulher estranha que fica o tempo todo na sua cola...hilário!), ainda há um pouco de 'Jim', seu personagem na série "The Office", mas não estraga no resultado final e brilha na tela. Mas quem brilha mesmo é a veterana Kate Hudson, não poderia ser outra atriz a não ser ela a fazer Darcy, sua composição beira a perfeição, sua chatice, suas frescuras, sua alegria de viver, somado a seu charme e extremo carisma, a atriz é um dos pontos mais positivos do longa, compõe uma coadjuvante marcante, e sua personagem é uma grata surpresa.

Enfim, daqueles filmes que vemos, não esquecemos e queremos ver milhões e milhões de outras vezes. Há sem sombra de dúvida os clichês, mas usados na hora certa e na dose certa para encantar, emocionar e divertir. Elenco afiadíssimo numa bela trama, que vai muito além do óbvio, foi além de minha expectativa, uma das melhores comédias românticas que chegou nos últimos anos, recheado de bons momentos, que nos fazem rir com seu ótimo humor e também nos emociona com seus personagens muito bem construídos, com direito a um final maduro, e portanto, surpreendente. A direção de Luke Greenfield é segura, não inova em muita coisa, mas também não erra em nada, há também belíssimas paisagens, ótimos cenários e locações, destaque para excelente trilha sonora, que tem papel fundamental da história e parece fazer toda a diferença, que vai de Natasha Bedingfield a Radiohead. Sou só elogios para este interessante, sensível e maduro projeto, que chegou sem fazer barulho e pelo jeito vai embora sem muita gente ver, o que é uma pena, um filme que merece ser visto. Uma deliciosa surpresa. Mais que recomendado!

NOTA: 9


domingo, 15 de maio de 2011

Cinema: Thor

Mais um herói da Marvel chega aos cinemas para preparar o terreno do tão comentado "Os Vingadores". Mas felizmente, "Thor", para minha surpresa, vai mais além do que só mais um filme de herói e mais do que só uma ponte para futuros projetos.

por Fernando Labanca

Numa introdução impecável, rápida e objetiva, conhecemos o Reino de Asgard, liderada por Odin (Anthony Hopkins) que tem em suas mãos aquele tão famoso martelo, onde mantém todo seu poder. Entretanto, seu destino era entregar, em determinado momento, seu poder para um de seus filhos, Thor (Chris Hemsworth) ou Loki (Tom Hiddleston). Quando os dois completam a idade suficiente para comandar Asgard, Odin faz sua escolha, entregando o poder à Thor.

Porém, haviam outros reinos que durante muitos anos viveram em guerra, houve, então, um decreto de paz, e que exatamente na comemoração de Thor, um dos reinos quebra este contrato, o reino de Jotunheim, habitado pelos Gigantes do Gelo, invadindo Asgard. Thor, então, como primeira atitude de um Líder, vai a Jotunheim com seus companheiros reagir a ofença, quebrando de vez o contrato de paz, levando a fúria de Odin, que retira seu martelo, lhe retirando todos seus poderes e lhe expulsando de Asgard, o levando para a Terra.

Na Terra, conhece uma equipe de pesquisadores, Jane (Natalie Portman), o professor Andrews (Stellan Skarsgard) e a estagiária Darcy (Kat Dennings), que ao procurarem, através de satélites, alguns mistérios vindo do céu, se deparam com este ser estranho e se assustam com sua personalidade nada humana, machão, grosseiro e se "achando" o herói. O martelo, por sua vez, foi parar na Terra também, lançado pelo próprio Odin, onde o homem que conseguir recuperá-lo será digno de tal poder. Nisso, a S.H.I.E.L.D entra em ação, através de seu principal agente (Clark Gregg), botam um fim nas pesquisas da equipe de Jane e montam uma complexa estrutura ao redor do martelo, preso num concreto.

Thor, então, tenta reencontrar o objeto que lhe devolveria os poderes, e conta com a ajuda de Jane, que já não havia mais o que perder, ao mesmo tempo que tenta compreender a vida deste ser nada previsível. Enquanto isso no Reino de Asgard, Loki começar a armar um grande plano para ter enfim, o que ele sempre desejou, o poder para si, nem que para isso, tenha que dar um fim em seu próprio pai ou enviar seres do mal em busca de seu irmão. Percebendo, então, que a Terra seria palco de terríveis acontecimentos, Thor decide agir e descobrir e verdadeiro sentido de ser um herói.


O roteiro funciona, nunca li nenhuma HQ, e não me senti perdido na história, o filme consegue conquistar um novo público, levando a trajetória deste herói criado por Stan Lee para aqueles que não conheciam e facilmente entrarão neste universo. O roteiro consegue aproveitar muito bem seus minutos, nos apresentando seus personagens com competência, nos envolvendo com cada um deles, conhecemos suas tramas, seus conflitos, e toda a história é muito bem desenvolvida, não se prendendo nas cenas de ação e muitos efeitos, mas se preocupando mesmo em nos mostrar quem é Thor.

A direção de Kenneth Branagh (Hamlet) é incrível, faz deste filme algo maior. Os ângulos em que ele capta as imagens, a maneira como ele nos guia, é tudo muito diferenciado, consegue trazer beleza para sequências simples, como a que Thor tenta sob o cair da chuva retirar seu martelo do concreto, era para ser só mais uma cena, mas não foi, entre outras passagens em que ele consegue transformá-las em belas imagens. Ajudado com a boa fotografia, e a ótima construção dos cenários, as sequências que ocorrem "nesses reinos" são fascinantes, e é claro, não poderiam faltar, os ótimos efeitos especiais, que não decepcionam. Outro ponto positivo é o humor, muito bem inserido, há cenas realmente engraçadas.

Chris Hemsworth como Thor surpreende, simplesmente por ser um ator novato, mas mesmo assim, deu conta do recado, soube carregar a responsabilidade de ser o protagonista e encarou seu personagem de frente, convense, consegue passar todo aquele jeitão "machão", mas sem perder o carisma. Natalie Portman sempre boa, mas Jane poderia ter sido interpretada por qualquer atriz começo de carreira, não precisava ser ela, só mais um nome para estampar nos cartazes, é como se Natalie fosse boa demais para o papel, mas mesmo assim, não decepciona. Do restanto do elenco, se destaca Anthony Hopkins, com uma força que não via há muito tempo no ator, uma vontade de fazer algo de qualidade, e conseguiu, encarna Odin com perfeição. Outra revelação é Tom Hiddleston, que interpreta o vilão Loki e surpreende e muito, incrível em sua performance, levando em consideração, que a construção de seu personagem foi um dos pontos positivos da trama, um dos bons vilões que surgiram no universo dos heróis...

"Thor" é um filme completo, boa história, direção segura, bons atores no elenco, interpretando bons personagens, além de uma parte técnica impecável. Efeitos especiais na dose certa, respeitando tanto aqueles que curtem uma boa aventura, quanto aqueles que esperam um pouco mais de conteúdo. O filme empolga, há sequências de brilhar os olhos, e ainda um final que não é tão previsível. A comparação com os outros filmes da Marvel é inevitável, é de longe superior a todos os filmes do "Hulk", porém fica lado a lado quando comparado a "Homem de Ferro", diria que é tão bom quanto. Mas isto falando na primeira aventura de Tony Stark, se comparado a segunda parte, "Thor" é muito melhor. Peca pelo excesso de "S.H.I.E.L.D" no roteiro e a toda hora querer justificar os meios que levarão a "Os Vingadores", mas tirando isto, o filme é ótimo, recheado de bons momentos. Não me decepcionou e acredito que não irá decepcionar muita gente também. Enfim, recomendo, entretenimento de qualidade!

NOTA: 9


domingo, 8 de maio de 2011

Cinema: Rio

Um dos filmes mais comentados do ano, até agora, "Rio", animação dos mesmos criadores de "A Era do Gelo", trás novamente o brasileiro Carlos Saldanha como diretor, responsável pelos dois últimos capítulos da saga.

por Fernando Labanca

No filme, conhecemos a jornada da arara Blue. Foi capturado quando recém-nascido nas florestas do Rio e levado para um lugar muito distante, por um incidente, acaba caindo no meio do trajeto e parando em Minesota, Estados Unidos. É encontrado por Linda, uma garotinha que o leva para casa e o cuida como um animal de estimação. Os anos se passam e com ela, Blue conhece os mimos de sua dona e o conforto de se viver entre quatro paredes. Até que certo dia, surge o brasileiro Tulio, especialista em cuidados de aves, viaja a procura de Blue, a única arara azul macho restante da fauna do Brasil e como ele havia encontrado a fêmea, tenta levá-lo ao Rio para que a espécie procrie novamente.

Depois de muita insistência, Linda aceita e viaja ao lado de Blue e Tulio para o Rio. Blue, asssustado com sua nova realidade tem de encarar seu futuro, um encontro marcado. Enfim, conhece Jade, a única restante de sua espécie, mas a arara não é tão fácil de domar e no instante em que deveriam se conhecer, eles são raptados pelo jovem Fernando, um garoto sem pais e que vive nas favelas do Rio, manipulado por uma gangue especializada em tráfico de animais. Então, Jade e Blue tentam a todo custo fugir, mas as coisas dificultam, quando ele revela que não sabe voar, e para piorar a situação tem uma terrível cacatua na cola das araras.

Eis que eles conseguem fugir, e Blue parte em uma interminável busca pelo sua dona, e Linda por sua vez, ao lado de Tulio tenta reencontrar seu grande amigo perdido. E nesta jornada, Blue vai conhecer animais exóticos, vai se deparar com as maravilhas deste país, conhecer um pouco da cultura deste povo e mesmo que deixou de ter a obrigação de se envolver com Jade, Blue não desiste de tentar conquistá-la.


Para começar, minhas expectativas quanto a "Rio" eram grandes, pensei que enfim um filme iria levar uma boa imagem do Brasil para o exterior, que sempre se limitou a mostrar as favelas, violência, samba, carnaval e futebol, sim, estes elementos existem, mas o Brasil vai muito além de "só" isto. Ainda mais contando com um brasileiro como diretor, era quase inevitável pensar que ele mostraria algo a mais de nosso país. Mas infelizmente não, Carlos Saldanha reúne todos os estereótipos possíveis do Brasil e não altera em nada nossa imagem. Sambra, carnaval, futebol, mulata com bunda grande, pessoas que não se importam tanto com o trabalho (contanto que no final do dia eles sambem), com direito a um segurança que por baixo de seu uniforme, há uma fantasia de carnaval!!! Somado a tudo isso, o tráfico de animais e a naturalidade como as pessoas encaram as coisas ilegais. Seria muita hipocrisia dizer que nada disto existe, mas o roteiro não se esforça para levantar novas possibilidades, mostrar outros lados, nossa música, por exemplo, vai muito além do samba e "olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...". O "jeitinho brasileiro" de ser, vai muito mais além do que só querer se dar bem pelas custas dos outros, vai mais além do que só querer sambar no final do dia. Isto não é o Brasil, mas sim uma imagem mal feita já criada e Carlos Saldanha, como um carioca e como diretor do filme, faz permanecer.

Como idealizador de tudo isso, Saldanha peca, e como diretor...também. "Rio" carrega os mesmos defeitos que ele cometeu na saga "A Era do Gelo", onde o original se encaixa no grupo das melhores animações já feitas, mas quando ele entrou no comando, dirigindo as continuações, fez as aventuras de Sid, Diego e Manfred derrapar feio, principalmente na segunda parte. "Rio" não possui um bom ritmo, uma história arrastada, cheio de diálogos desnecessários, que tentam a todo custo ser engraçados, mas não conseguem. O humor é fraco e no máximo que consegue é arrancar algumas risadinhas, tudo muito sem sal. O filme é mais aventura que comédia, entretanto, nem a aventura empolga. Há personagens até carismáticos, mas falta história para cada um deles, faltou desenvolver uma empatia entre o público e eles, nem mesmo por Jade e Blue, não há aquela química de casal mesmo. Blue é até engraçadinho e certos momentos dá até dó dele, mas como protagonista, precisava de mais. Sua relação com Linda é uma das poucas que convensem, ela por sua vez, é uma das poucas que me despertou certo carisma.

O roteiro também é fraco, parece uma costura mal feita de tantas outras animações já feitas. Blue, tem um pouco de um "Happy Feet" que sapateia e não canta, no caso da arara que deveria voar, mas não voa. Aliás, isto de não voar tenho a sensação de já ter visto em outro lugar. Ainda há nele um pouco dos animais de Madagascar que saíram do conforto de um zoológico para encarar a floresta real. Há macacos espertos que sabem manusear equipamentos tecnológicos, lembrando um pouco os pingüins de Madagascar também. Enfim, há um pouco de tudo, a todo momento tive a sensação de já ter visto, o roteiro não cria nada, absolutamente nada de novo, até mesmo os vilões caricatos ao extermos estão lá, e sem contar os dois capangas atrapalhados. Clichês atrás de clichês.

O que resta de bom em "Rio" e é por ele que vale a pena, é o visual. Animação riquíssima em detalhes, tudo em perfeito estado, as cores, tudo muito Brasil, a equipe de animadores conseguiram com extrema competência, traspor para a tela imagens belíssimas, passando pelo Corcovado por belos ângulos e ainda uma sequência de tirar o chapéu onde os personagens vão parar no Sambódromo, onde estava ocorrendo um desfile de samba. Cada detalhe, as fantasias, a música, as cores dos desfiles que vemos a todo ano, estão lá, muito bem representados.

Vale lembrar que "Rio" está conseguindo bastante críticas positivas, e muita gente vem curtindo a aventura de Blue. Então não vou dizer nada parecido com "Passem longe", dá para arriscar, cada um tem seu gosto e tem muita gente gostando. Adoro animações e filmes infantis, não perco um, mas "Rio", infelizmente foi muito abaixo de minhas expectativas, vale pelo visual, nada a mais.

NOTA: 5


quarta-feira, 4 de maio de 2011

4 em 1: Woody Allen


Passa décadas e décadas e Woody Allen continua sendo um dos diretores mais importantes do cinema, isso porque ele tem conseguido manter a média de um filme por ano e ter conseguido o feito de sempre se manter acima da média, o que não é pouco. Não é meu diretor favorito, mas é aquele que sempre que posso, faço questão de ver seus filmes, tenho uma certa simpatia e curiosidade por seus projetos. Suas obras se constituem basicamente de bons diálogos, grandes atores em seu elenco, tramas lineares, sem uma grande reviravolta ou clímax, mas ainda assim, filmes agradáveis. Pensando nisso, resolvi comentar os últimos que vi deste grande cineasta, sendo os quatro de três décadas diferente, e podendo assim, mostrar que sua inspiração para fazer um bom cinema não se perdeu no decorrer desses anos. Em todos, Woody não só dirige como também escreve seus roteiros.

por Fernando Labanca



Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977)

Para muitos, sua obra-prima. Com este veio seu reconhecimento pela indústria cinematográfica, venceu importantes prêmios como o Oscar de Melhor Diretor (o único de sua carreira) e Melhor Roteiro. Foi uma espécie de homenagem a sua musa, Diane Keaton, que por sua vez, se destacou na trama e conquistou o Oscar e Globo de Ouro de Melhor Atriz.

A história é basicamente a jornada de um casal. Woody interpreta Alvy Singer, um humorista judeu, fazendo aquele típico papel de Woody Allen, um cara que não acredita em muita coisa, intelectual ao extremo, tem opinião formada sobre tudo e cabeça dura. Eis que conhece uma cantora, a interessante Annie Hall, aquela mulher por qual todos os homens se apaixonariam, inteligente, madura, independente e bem humorada. Não muito tempo depois de se conhecerem, decidem morar juntos.

E nesta de passarem muito tempo um ao lado do outro, dividindo experiências, se inicia aquela tão famosa crise conjugal. Começam a enxergar os defeitos e imperfeições do outro, então vem os conflitos e intrigas, se separam, e depois percebem que não conseguem viver separados. E passam as semanas, os meses, e a história vai se repetindo, e Alvy e Annie Hall entram num ciclo vicioso, cheio de bons e maus momentos, histórias traumáticas e inesquecíveis, duas pessoas completamente diferentes em pesamentos e ideais, mas que simplesmente não conseguiam seguir em frente sem a companhia do outro.

Moderno para época, inspirador para toda uma geração. Uma espécie de "500 Dias Com Ela" da década de 70, tem todo aquele charme de Nova York e personagens bem escritos e atravéz de flash backs vamos conhecendo e compreendendo a história de um casal e o porquê de seus problemas. Recheado de bons momentos e cenas hilárias (talvez, um dos filmes mais engraçados de Allen até hoje) ainda completamentadas, é claro, dos ótimos diálogos deste grande roteirista.

Diane Keaton brilha e mereceu e muito seus prêmios, Woody Allen não faz mais do que o mesmo de sempre, o mesmo personagem, a mesma atuação. Chega até ser um pouco irritante em determinadas sequências, com aquelas falas intermináveis cheia de referências e demostrando toda sua intelectualidade, cenas completamente descartáveis. Mas no geral, o filme funciona, muito do que Woody fez aqui, se repetiu em seus próximos filmes, uma deliciosa comédia romântica e um filme bastante inteligente e muito bem produzido. Para muitos, sua obra-prima, e vendo pelo ângulo de que foi lançado em 1977, realmente é um marco, entretanto, já vi filmes melhores de Allen, como "Match Point" de 2005, logo, olhando para trás e vendo tudo o que ele já realizou, é um dos bons de sua carreita, mas não o melhor.

NOTA: 7

OBS: O que foi essa tradução do título???!!! De Annie Hall para "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa"???!! Uma das piores já feitas...




Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, 1996)

Um dos filmes pouco comentado de sua carreira, tive a curiosidade de vê-lo principalmente por seu grandioso elenco. Passando pela novata na época, Natalie Portman e atrizes como Drew Barrymore e Julia Roberts, na qual também admiro. Também tem além de Woody Allen como protagonista, há Alan Alda, Tim Roth e Edward Norton.

Através de Dj (Natasha Lyonne, de "America Pie") conhecemos sua complicada família em Manhattan. Seus pais são divorciados, sua mãe (Goldie Hawn, lembra?) agora casada com outro homem (Alan Alda) e que levou para casa seus filhos (Natalie Portman, Lucas Hass e Gabby Hoffman) e que agora pode dizer que tem três novos irmãos. Também tem uma outra irmã, só que legítima, Skylar (Drew Barrymore), que está loucamente apaixonada por Holden (Edward Norton) e ambos estão prestes a se casar. O pai de Skylar e Dj é enfim, o complicado Joe (Allen) que ainda é apaixonado por sua ex-esposa, mas mantém um relacionamento amigável com a nova família que ela construiu.

Joe, por sua vez, viaja para Viena e é onde conhece Von (Julia Roberts), que por coincidência do destino é justamente a paciente na qual DJ espiava no consultório de uma psicóloga que tinha como vizinha, logo, sabia justamente o que Von procurava num homem e passa a auxiliar seu pai para conquistá-la, e Joe, então, passa a mentir para a bela moça, interpretando o cara de seus sonhos. Em Manhattan, Skylar conhece um ex-detento (Tim Roth) esperando ser acolhido novamente pela sociedade, é quando ela se apaixona por ele e passa a questionar seu futuro casamento.

Agora coloque toda esta história e misture com canções. Sim, "Todos Dizem Eu Te Amo" é um musical, já imaginou todo este elenco soltando a voz? Pois é, mas o resultado não foi tão positivo assim, as músicas são chatas e muito irritantes e a história muito bobinha e não empolga em nenhum momento. Dentre todos que vi de Woody Allen, eis o pior. Personagens mal escritos, não torcemos por nenhum deles, não há química entre nenhum ator, nenhuma história convense e não vemos a hora de terminar este espetáculo de tortura.

Woody, o mesmo de sempre. Coragem ele ter escalado Natalie Portman para fazer ponta, depois de ter feito, maravilhosamente bem "O Profissional". Drew Barrymore, descartável em um dos momentos mais fracos de sua carreira, Julia Roberts também descartável, não tendo nenhuma química com Allen. Edward Norton me surpreendeu, apesar do filme ser ruim, esbanjou carisma e mandou bem nas cenas musicais, provando ser mais versátil do que eu imaginava. Goldie Hawn e Alan Alda, bons em cenas. Enfim, um excelente elenco perdido nesta trama fraca, cansativa e sem nenhuma boa surpresa.

NOTA: 4 (pelo elenco)



O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, 2001)

Ás vezes Woody Allen se arrisca em histórias no qual ele poderia botar tudo a perder, seu talento está em comédias românticas e foram nelas em que ele dedicou grande parte de sua carreira. "O Escorpião de Jade", ao meu ver, se encaixa naqueles projetos em que ele fugiu do habitual e resolveu se arriscar por caminhos em que ele desconhecia.

Decáda de 40. Desta vez, Woody interpreta C.W Briggs, é um talentoso investigador de seguros, ele tem o dom de compreender a mente dos bandidos, saber exatamente seus passos e capturá-los. Muitos de seu departamento não são muito a favor de seus inusitados métodos, eis que surge neste mesmo departamento, a bela Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt), responsável por reorganizar o local. Uma mulher madura e inteligente e que mantém um caso com o chefe (Dan Aykroyd), sendo este seu ponto fraco. Woody detesta a presença de Betty e vice-versa, ambos desconfiam a todo tempo um do outro.

Até que numa noite de diversão entre os colegas, todos vão para a apresentação de um hipnotizador que acaba escolhendo C.W e Betty para testar seu dom e utilizando poderes do Escorpião de Jade, hipnotiza o casal e toda vez que pronuncia determinadas palavras, eles adormecem e passam a agir estranhamente, como dois apaixonados, como tolos manipuláveis. Eles voltam para realidade sem se darem conta do ocorrido. Eis que o mesmo hipnotizador entra em contato com C.W e pronunciando a "palavra mágica", faz com que o investigador passa a fazer exatamente o que ele mande, inclusive a roubar jóias preciosas. Durante o dia, C.W tem a missão de investigar esses roubos, sem imaginar que é ele mesmo quem está roubando, para piorar, Betty fica na sua cola e começa a juntar pistas que indicam o que ela sempre duvidava, a farsa de C.W.

Diferente de muita coisa que Woody já produziu. Me lembou um pouco sua produção de 2006, "Scoop-Um Grande Furo", misturando humor com mistério e funciona. A história é bem inusitada e agrada fácil, pela originalidade e mais uma vez, pelos diálogos inteligentes e engraçados. É tudo muito novo e único, mas sem deixar de ter aquela simplicidade de Woody Allen, está longe de ser uma mega produção, cenários e locações bem simples e sem nenhum exagero.

Woody em boa forma, como ator também inova, escreve para si, um dos personagens mais diferentes em que atuou, não é o intelectual chato e por isso agrada e nos envolve em sua jornada. É delicioso sua parceria com Helen Hunt, deslumbrante e muito bem em cena, formam um casal divertido e surge entre eles uma espécie de "guerra dos sexos", os diálogos são hilários, a forma como um insulta o outro, ele criticando sua falta de caráter e seu coração de pedra enquanto ela não se limita ao insultar sua velhice e sua doenças fututas. Dois personagens interessantes, que se ligam por meios inusitados e é sempre muito agradável vê-los em cena. Ainda há a presença da bela Charlize Theron, em uma pequena participação, mas adorável.

Divertido, criativo, uma história interessante, ingênua mas que funciona, pela direção segura de Woody Allen, mas principalmente pelo bom roteiro que criou. Surpresas boas do começo ao fim, atores competentes em cena, diálogos bem elaborados, humor afiado e de muito bom gosto. Uma obra pequena, mas de boas idéias e intenções. Nos mostra a vida de um casal completamente diferente, que para ficarem juntos e se dizerem apaixonados, precisavam estar hipnotizados, como se a razão, como se estiver com pés no chão, não os permitia viver como queriam, ás vezes é necessário que esqueçamos um pouco o real, esquecer a razão para viver aquilo que os outros julgam impossível para nós.

NOTA: 8



Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009)

Penúltimo trabalho de Woody Allen a ser lançado, é uma obra assim como tantas do diretor, bastante pessoal, aqui ele reserva um texto para expor seus pensamentos, a maneira como ele vê a vida, mas desta vez ele escolhe alguém para dizer o que sente ao invés dele mesmo interpretar, coloca Larry David (um dos criadores da série cômica Seinfeld) como protagonista e o resultado é simplesmente incrível.

Logo de início, Woody Allen quebra uma regra do cinemão clássico, o protagonista conversa literalmente com a gente, olha para a câmera e diz o que pensa e já logo nos alerta de que não se trata de uma obra muito agradável, irá mostrar a vida como ela é, ingrata, injusta, o palco para os céticos e não para aqueles que acreditam, seja numa vida de sucesso, seja aqueles que acreditam em "alma-gêmea".

Woody Allen interpreta, ou melhor, Larry David interpreta Boris, aquele cara que já chegou na época da vida que ele mesmo denomina "Whatever Works", onde tudo funciona, qualquer coisa dá certo, qualquer trabalho, onde ele é um aposentado que dá aulas de xadrez para crianças e se irrita facilmente pela incapacidade delas em entender o jogo!!! Ou qualquer mulher, não mantém relação com ninguém e nem mesmo sente falta de sexo, já não acredita mais em paixão.

Até que certo dia surge em sua porta Melodie Saint Ann Celestine (Evan Rachel Wood), uma jovem (que diz ter 21 anos) que fugiu de casa em busca de uma vida livre em Nova York e pede abrigo para o senhor, que se faz de durão mas acaba aceitando sem compreender muito bem os motivos que a levaram para lá. Ingênua e sem nenhuma malícia e sem muito conteúdo na cabeça também, desperta uma certa pena da jovem que a acolhe e ela vai ficando, durante dias, semanas, os dois vão se conhecendo, e ele vai tentando lhe apresentar um pouco mais de conteúdo, logo que ele é cheio das verdades e tem opinião formada sobre tudo, sobre a vida, amor, sexo e morte (já havia tentado suícidio algumas vezes, então era algo que ele entendia muito bem). Nisso, Celestine acaba se apaixonando, se encanta pela intelectualidade que nunca vira igual e nesta de "tudo pode dar certo", Boris se deixa levar e eles começam a namorar.

Eis que a mãe da moça, Marietta (Patricia Clarkson) chega e se espanta com o novo namorado de sua filha, mas decide ficar em Nova York e acaba se deixando levar pelo clima da cidade, muda de vida e se torna uma grande artista. Enquanto isso, ela tenta encontrar um cara que faça mais o estilo de sua filha. Entretanto, além de ter sua sogra planejando sua separação, o que Boris também não imaginava é que quanto mais conversava com Celestine, mais inteligente ela ficava, a jovem passa a absorver tanta informação que cresce como pessoa, começa a criar sua própria opinião e nisso, passa a enxergar uma vida cheia de possibilidades, que vai muito além de estar com Boris. Melodie, diferente dele, ainda acreditava em tudo e queria permanecer acreditando em tudo.

Inteligente, acaba surpreendendo, mesmo depois de tantos anos e tantos filmes, Woody ainda consegue realizar coisas novas e de boa qualidade e "Tudo Pode dar Certo" marca um dos ótimos trabalhos do diretor, um de seus melhores desta década. O interessante desta obra é o desenvolvimento de Melodie como pessoa, a evolução dela e é exatamente o que somos, a cada dia acordamos como uma nova pessoa, a cada informação nova, cada conteúdo, nos faz crescer. E o mais interessante ainda é entender que era Boris quem lhe dava conteúdo, mas por ironia, quanto mais ela evoluia, mas ela se afastava dele. Um pouco triste, mas é Woody Allen, ele consegue inserir humor onde não teria. Aliás, o humor aqui é incrível, ótimas sacadas.

Larry David se sai incrivelmente bem como protagonista e se encaixa perfeitamente em seu personagem. Escolha certa de Allen, é arriscado dizer, mas diria até que Larry demostra uma versatilidade que Woody jamais conseguiu mostrar como ator. Patricia Clarkson mais uma vez ótima. Mas o destaque vai para a jovem, mas já veterana no cinema Evan Rachel Wood, com uma atuação incrível, delicada, sensível e apaixonante, através de sua grande performance conseguimos compreender sua evolução, apesar da sutileza do roteiro. Qualquer atriz loira, bonitinha e nova no ramo conseguiria fazer, mas Woody acerta em sua escolha também, e Evan Rachel faz desta que poderia ser uma personagem boba, em uma doce interpretação, um retrato encatador daqueles que ainda sonham e acreditam em algo.

Woody Allen sempre nos mostra aquele ser cético, que não acredita em mais nada, que não vê beleza em mais nada e de imediato é disso que ele nos informa que a obra seria, mas na verdade não é. O filme é mais sobre mudanças, então diria que é algo genial quando no ínicio nos prova como a vida é feita para não acreditarmos em nada, sem mais sonhos ou esperanças, mas no final percebemos que tudo pode dar certo. Delicioso, encantador, um Woody Allen mais inspirado do que nunca.

NOTA: 9


2 em 1 - Woody Allen: "Manhattan" e "Melinda e Melinda"
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