segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cinema: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011)


Vencedor do Palma de Ouro de Melhor Filme no último Festival de Cannes, "A Árvore da Vida" mostra o retorno de um dos diretores mais aclamados da indústria, Terrence Malick (Além da Linha Vermelha, Terra de Ninguém), que em quase quatro décadas de carreira, estréia seu quinto filme, apenas. O longa, também, levou cerca de quatro anos para ser editado, mostrando o aprimoramento quase que obsessivo do diretor, e na tela vemos o resultado perfeccionista e cheio de belos detalhes. "The Tree of Life" conta com Brad Pitt e a novata Jessica Chastain no elenco.

por Fernando Labanca

Texas, década de 50, conhecemos Jack (Hunter McCracken), um garoto que vive com seus dois irmãos e seus pais, a Sra. O'Brien (Jessica Chastain) que mantém uma conexão muito forte com a natureza, enxerga beleza nas coisas mais simples, além de manter um relação muito íntima com Deus. O pai (Brad Pitt) é o patriarca, gosta de provar que ele é quem manda no lar, é rígido e não aceita desrespeito às suas regras. E através do jovem e inocente olhar de Jack, veremos a rotina desta família, os conflitos com o pai, o ciúmes que mantém de seu irmão mais novo, e a vontade de querer mais atenção e ter uma relação mais profunda com o pai, a intenção de compreender Deus assim como a mãe ao mesmo tempo em que O questiona. A beleza da mãe e toda a harmonia que ela consegue transmitir, as brincadeiras no jardim, as conversas e a liberdade que sentiam na ausência da rigidez do pai.

E essa história de família vai além, desde os primórdios da história, o início de tudo, o Big Bang, passando pela evolução humana, década de 50 no Texas, anos mais tarde, a perda de um dos filhos e o desiquilíbrio emocional que se instala, até muitos anos depois, Jack (Sean Penn) perdido em sua rotina no mundo contemporâneo, tentando encontrar algum sentido para sua vida e relembrando sua jornada e tudo o que marcou para sempre em sua mente e o transformou no que ele é hoje.


"A Árvore da Vida" dá um volta enorme para contar a jornada de uma família, mas o filme vai muito além disso, mostra o quanto nossa história se iniciou muito antes do que nós lembramos, a nossa vida é só uma pequena parte na história do universo. Terrence Malick transforma a vida em poesia, é um ode a vida, ao milagre que existe e pouco percebemos, nossa árvore genealógica se iniciou muito antes, houve grandes acontecimentos para hoje estarmos vivos, logo, cada amanhecer, cada anoitecer, uma brincadeira de família, um simples abraço, uma conversa, um olhar, é tudo um pequeno pedaço de um plano maior, é um milagre. O quanto nós somos pequenos diante do universo, mas o quanto cada pequena ação de um dia pode nos marcar, o quanto as conexões que fazemos a cada dia com as pessoas que amamos nos é impostante, e uma época feliz assim como a infância pode nos definir para sempre, pode ter valido uma vida inteira.

Terrence Malick testa aqui um cinema completamente novo, fora dos padrões, não há um roteiro organizado, não há começo, meio e fim, há apenas imagens (e belas imagens) com diálogos soltos como narrações em off, são como poesias ilustradas. E digo com toda a certeza, foi uma das experiências mais profundas e emocionantes que tive numa sala de cinema este ano, é bom ver algo novo, original, mas é melhor ainda ver algo feito com tanto cuidado, com muita alma, é tudo muito sentimental, cada palavra ali parece ter sido selecionada e feita para mexer com o público, faz com que nos emocionemos em cenas simples como um simples almoço de família, é tocante, é um projeto único, feito com verdade, para ser refletido e ser levado em nossas memórias durante muito tempo.

O visual é fantástico, fiquei realmente sem palavras, visualmente falando, o filme mais lindo de 2011 até agora, cada imagem ali é de tirar o fôlego, é tudo muito belo, as cores, o modo como a câmera as captura, é surreal. Fotografia impecável. Para aprimorar nada melhor que uma boa trilha sonora, Alexander Desplat foi o selecionado e fez, digamos, um trabalho excepcional.

O longa peca por distanciar o público em várias passagens, como uma longa sequência nos mostrando detalhadamente a evolução humana, praticamente estava diante de um documentário ciêntífico, quase me esqueci que havia uma história acontecendo ali, acredito que tenha sido um grande erro, desiquilibra o que estava ótimo, quebra o clima totalmente. Além de vários diálogos soltos que temos que deduzir quem é o destinatário, é feito de forma interessante e bastante bonita, confesso, mas nem sempre funciona. Mas o pior de todos os erros, foi a inserção de Jack adulto, na pele de Sean Penn, o personagem não faz o menor sentido, aparece em algumas cenas, não fala, e parece completamente perdido, deslocado, não há como compreender sua existência, até mesmo o próprio ator confessou recentemente que não entendeu sua presença no filme.

Não há o que comentar de Sean Penn, lamentável. Brad Pitt, por sua vez, constrói um personagem interessante, mas longe de ter uma grande atuação, faz muito bem, mas nada surpreendente. O destaque fica para os novatos, a bela Jessica Chastain está irretocável, brilha assim como a trilha sonora e as imagens surreais, está perfeita, convense como a mãe dedicada e esposa submissa, há tanta beleza e leveza em seu olhar, enfim, fantástica. O jovem Hunter McCracken é quase que um protagonista, é ele quem vai nos guiando, há muito força neste pequeno ator, como há poucos diálogos, os sentimentos se prendem no olhar, e seu olhar é poderoso, consegue transmitir os sentimentos um tanto quanto complexos de Jack.

"A Árvore da Vida", mais uma vez, é um filme belo, tanto no visual, quanto no roteiro, nas atuações, na trilha sonora, enfim, um conjunto de elementos em estado perfeito capaz de criar uma das obras mais marcantes do ano. Terrence Malick faz um incrível trabalho, me lembou por muitas cenas o cinema de Stanley Kubrick, principalmente em "2001: Uma Odisséia no Espaço", desde a riqueza de detalhes, ao silêncio, a lentidão, a perfeição. Há sim seus erros, mas são pequenos no meio de tantos acertos. Um projeto poderoso, grandioso, que fala sobre a vida e todos seus desdobramentos, sua complexidade, sua intensidade, seus mistérios, seus milagres, e sobre os caminhos que seguimos, no caso, o diretor nos apresenta dois: o caminho da graça, o dom de Deus e da natureza, a vida terrena. Recomendo, um filme memorável.

NOTA: 9



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Cinema: Melancolia (Melancholia, 2011)


Vencedor do Prêmio de Melhor Atriz no último Festival de Cannes para Kirsten Dunst, "Melancolia" marca o retorno de um dos diretores mais polêmicos do cinema, o dinamarquês Lars von Trier. Sempre apostando num estilo mais ousado que o normal, consegue fazer o que alguns julgam de impossível, consegue chocar e mexer com os sentimentos do público de forma bem intensa, assim como "Dançando no Escuro" (2000), "Dogville" (2003) e "Anticristo" (2009). Em seu mais novo trabalho, o diretor que também assina o roteiro, faz uma mistura de drama com ficção ciêntífica.

por Fernando Labanca

Assim como em outros trabalhos do diretor, "Melancolia" também é dividido em capítulos, mas neste caso, em apenas dois: Justine e Claire. Um é uma continuação do outro, mas são bem distintos em suas idéias. Na primeira parte, vemos o passar de uma só noite, o casamento de Justine (Kirsten Dunst), já no segundo, o roteiro nos apresenta a aproximação de um outro planeta, o que poderia ocasionar uma colisão com a Terra, logo, o fim do mundo.

Na noite de seu casamento, Justine aparenta estar feliz com o grande acontecimento, até que tem uma série de atitudes estranhas e inesperadas e aos poucos vai se mostrando um tanto quanto depressiva, e todo aquele evento passa a ser um mar de superficialidade, ela fingindo que está feliz e os convidados fingindo se divertirem. Tudo fora um presente de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu cunhado, o arrogante John (Kiefer Sutherland). Justine não se encontrava ali, estava infeliz e a grande noite passa a ser um evento de decepções para todos, logo que suas atitudes acabam que tendo consequências.

Na segunda parte, conhecemos Claire e sua rotina, com seu marido e seu pequeno filho. John é um cientista e soube da notícia da aproximação de Melancolia, um planeta que estava se aproximando, e sua colisão com a Terra poderia ter terríveis consequências, mas sabia que havia uma pequena probabilidade disto acontecer. Até que ela recebe em sua casa, sua irmã, Justine, agora, de forma abatida, depressiva ao extremo, sem mais fé na vida, ela já não se importa com seu fim, diferente de Claire, que tem esperança de uma salvação, mas quando percebe que tudo está indo para o caos, acaba perdendo seu controle e equilíbrio emocional que sempre provou ter.


"Melancolia" começa com uma série de imagens um tanto quanto estranhas, uma espécie de prelúdio nos antecipando de alguns eventos futuros, ao som de música clássica, von Trier nos apresenta seu filme mais completo, visualmente falando, é tudo hipnotizante, é belo, suas cores, a fotografia é fantástica, mesmo não fazendo sentido algum de imediato. Toda trilha é instrumental e forte, conversa bem com as cenas, e consegue transmitir as emoções de forma correta, mas seu visual é o que realmente mais chama a atenção. É diferente, parecem quadros de pinturas reais, nos remete um pouco uma mistura de pré-rafaelismo com surrealismo.

O roteiro é lento, tudo acontece de forma gradual. No primeiro capítulo, ele nos mostra a superficialidade daquela noite de Justine e como ela se encontrava num estado profundo da depressão, já na segunda, vemos a transformação gradual de Claire para este estado de choque. Isto é o que vemos de imediato, como primeira parte de uma interpretação, já na segunda parte desta interpretação, assim como todo trabalho de Lars von Trier, é uma obra bem pessoal, subjetivista, como consequência, cada público enxerga os eventos de maneira particular também, o filme deixa isto em aberto, não há como chegar numa conclusão concreta. O que vejo, na verdade, é a Melancolia aparecendo como duas formas distintas, uma emocional e uma mais física. Como forma de sentimento, a melancolia toma conta das personagens, em Justine ela já fazia parte e vamos assistindo ela indo ao fundo poço, diferente de Claire que vai se degradando, aparentemente era o pilar da família, forte e equilibrada, mas quando a vida é questionada e ela se depara com o caos, ela perde o controle, é onde realmente conhecemos ela, quando enxergamos sua fraqueza, ainda há uma terceira oposição, que seria John, aquele elemento na história que parece suportar tudo, mas compreendemos que isto era apenas uma casca que ele vestia, e acaba que tendo a mais surpreendente atitude dentre todos. E melancolia, em forma física, a peça que vai guiando os acontecimentos e graçás a sua presença, conhecemos os verdadeiros limites de cada personagem.

Lars von Trier também questiona a vida, existe realmente algum motivo para querermos viver? Vemos isso em Justine, que abatida não mais enxerga o porque de torcer contra o choque com Melancolia, e não possui palavras para fortalecer sua irmã, só consegue dizer que existe infelicidade, nem sempre as coisas são boas com a gente. É interessante analisar também o relacionamento com Justine com seu pequeno sobrinho, onde ele passa o filme inteiro tentando criar uma conexão maior com ela sem perceber o estado crítico em que ela se encontrava, é quando que no final, ela lhe oferece a única coisa que ela podia ali naquele momento, mesmo que não acreditasse, a esperança, era somente isso que ele precisava e somente ela percebera. "Melancolia" também nos prova o quão pequenos nós somos diante do universo e o quão sózinhos estamos neste grande planeta, e quando vemos ao filme temos este sentimento de solidão, parece não haver mais nada na Terra, somente aquela mansão onde vive a família. Esta é a ficção científica de von Trier, ele não perde tempo mostrando o quanto a colisão poderia afetar o mundo, mas sim, aquelas quatro pessoas.

Kirsten Dunst está realmente fantástica, não haveria como compreender Justine somente com o texto, precisávamos de uma grande atriz para transmitir toda a bagunça que há na mente da personagem, todas as suas oscilações, do humor ao tédio, da felicidade à forte depressão, da superficialidade de seu sorriso, do vazio do seu olhar, da esperança inexistente, do cansaço de seu andar, enfim, personificação incrível. Charlotte Gainsbourg também faz bonito, já havia trabalhado com Lars von Trier em "Anticristo" e prova aqui mais uma vez seu grande talento. Kiefer Sutherland até que me surpreendeu, não vi ali na tela um Jack Bauer, vi um ator competente. De resto do elenco, ótimos atores, personagens inúteis que nada alteram o resultado final, despediçando nosso tempo com seus diálogos.

Como citei acima, há um certo desperdício de tempo em "Melancolia", poderia ter sido resumido, sem sombra de dúvida, é um filme longo, por sua monotonia, parece ser mais longo ainda. Na primeira parte, no casamento, há ótimas sequências, mas quando percebemos que mais da metade delas poderiam ter sido cortadas pois nada explicam o que já era difícil e não fazem diferença alguma na conclusão final, digamos, dá uma certa raiva. Personagens entram e saem de cena e perguntamos, o que foi isso? Era realmente necessário? Falo disso, principalmente quando penso na presença do ótimo Stellan Skarsgard que faz o chefe de Justine, é simplesmente inútil sua passagem e o pior que há inúmeras delas, além de vários outros personagens que não fazem o menor sentido. Na segunda parte, há vários diálogos e cenas desnecessárias, é tudo muito parado, já havíamos percebido o quando Justine estava mal, mas parece que Lars von Trier não queria deixar dúvidas nessa parte, assim como as inúmeras verificações da aproximação de Melancolia, são chatas, não precisava.

E este foi o maior erro do filme, se extender por pouco, toda esta extensão não facilita sua compreensão, é tudo muito aberto, subjetivista, a reflexão maior acontece em nossa mente e não na tela, pelo contrário, parece ser algo vazio, cenas bizarras saídas da mente de Lars von Trier, o filme em si, é pouco reflexivo, é ousado somente no visual, suas idéias parecem pequenas, não há diálogos marcantes, é longe de ser criativo e intenso quanto "Dogville" ou polêmico quanto "Anticristo", é uma obra pequena perto de sua grande carreira, não que eu esperasse um filme prontinho, com conclusão dada de mão beijada, mas acredito que seja possível se fazer obras subjetivistas, com aberturas para reflexões mais profundas. No fundo, "Melancolia" não vai muito além de uma sequência de imagens nonsenses, feitas por um diretor superestimado. Vale conferir, mas não espere muita coisa, confesso que tinha grandes expectativas, e no final, senti uma grande decepção.

NOTA: 5



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cinema: Super 8 (Super 8, 2011)


Em 2009 surgia nos cinemas "Star Trek", mostrando os eventos iniciais desta famosa franquia, grande responsabilidade para um diretor quase que iniciante, JJ Abrams, a mente por trás da série "Lost" encarou o desafio e fez não só um dos melhores filmes daquele ano, como uma das mais fantásticas ficções científicas desta década. Era fato, a sétima arte revelara um talento. Este ano, Abrams surge com "Super 8" e prova de vez que é um dos bons diretores da atualidade, numa trama criativa que relembra os clássicos da década de 80, para guiá-lo ninguém melhor que Steven Spielberg, que trabalha aqui como produtor. O cinema precisava relembrar o que já foi bom, "Super 8" veio na hora certa.

por Fernando Labanca

Verão de 79. Joe Lamb (Joel Courtney) é um garoto apaixonado por cinema e junto com seus amigos, Charles, Martin e Cary tentam concluir um filme caseiro de terror trash para participarem de uma competição local de jovens cineastas. Até que devido a um acidente, sua mãe falece, tendo que conviver apenas com seu pai (Kyle Chandler), que nunca soubera exercer a função de pai muito bem, sempre muito afastado e nunca compreendendo os sentimentos do filho. Joe, então, decide rodar o filme e esquecer seus problemas, tudo melhora, aliás, quando a atriz convidada para a única personagem feminina da trama é a garota que estava afim no colégio, Alice (Elle Fanning). Até que certa noite, quando eles resolvem filmar numa estação ferroviária, acontece um evento curioso, um trem em alta velocidade atravessa os trilhos chocando com uma caminhonete, causando uma enorme colisão.

Deste acidente, uma teia de acontecimentos começa a surgir na pequena cidade Lillian. O exército que já rondava o local passa a ir atrás de pistas para o ocorrido e compreender o que aquele motorista fazia naquele momento, o mesmo fazem os garotos que percebem que não fora um mero acidente. Não muito tempo depois, coisas começam a desaparecer, além de cachorros e pessoas, deixando um ar de mistério e suspense por todas as ruas. Mas havia uma Super 8 no memento da colisão que poderá revelar muitas respostas.

Este ano, "Super 8" iniciou uma divulgação pesada, desde teasers nos cinemas ou pequenos vídeos na internet que nada revelavam do que realmente se tratava o filme. Esse mistério valeu a pena, essa curiosidade que eles conseguiram plantar no público (pelo menos em mim, deu certo) fez com que cada cena ali na tela fosse uma grata surpresa. Há um mistério que cerca o filme inteiro e a maneira como ele é guiado é digno de grande produção Hollywoodiana, há um bom suspense e JJ Abrams acerta mais uma vez, sabe guiar esses acontecimentos. O roteiro é fantástico, em questão de minutos, inúmeros fatos ocorrem, toda a história se altera e tudo flui de forma objetiva, clara, sem parecer forçada ou acelerada. Tudo acontece em seu tempo, mas sem muitas enrolações, o mistério funciona muito bem e nos prende do início ao fim! Trabalho de gênio.



Trabalho de gênio de JJ Abrams, não só por ter conseguido amarrar o suspense, mas por ter feito algo de altíssima qualidade, resgatou o que houve, não necessariamente de melhor no cinema, mas de uma fase cheia de ingenuidade e que sentimos falta às vezes, filmes como "ET" ou "Goonies", onde crianças são as protagonistas, e há aquela aventura bem desenvolvida e todo um clima de inocência, que entretem e diverte. "Super 8" é uma belíssima homenagem a este cinema que ficou para trás, uma homenagem as nossas "sessões da tarde", mas diferente de todo o resto que trabalha em Hollywood, JJ Abrams resolveu não adaptar ou refilmar algo já criado, ele encarou o desafio de fazer algo novo, e utilizando deste clima nostálgico para inserir uma trama completamente diferente. A idéia funciona muito bem, a história é bem simples, poderia muito bem ter sido criada na década de 80, assim como os clássicos de Spielberg que ainda fazem sentido nos dias de hoje. E toda esta nostalgia mesclada com a tecnologia que o cinema possui, há grandes efeitos, mas felizmente ficam em segundo plano.

Por outro lado, "Super 8" peca pela sua conclusão. O roteiro arma toda uma estrutura gigantesca, com grandes acontecimentos e querendo ou não, nasce dentro do público uma expectativa muito alta a cada minuto, esperamos um grande final, surpreendente, e infelizmente isso não ocorre. O filme termina e fica um certo vazio, não teve o final que merecia, a razão para todo o mistério é simples demais, parece pequeno diante de todo o filme. Mas ainda assim, este defeito não destrói o beleza do longa, o propósito dele é ser simples. Ainda vemos na tela, ótimas locações, e uma bela construção dos anos 70/80, desde os cenários ao fantástico figurino, tudo remete perfeitamente aquela época e aos filmes que vimos deste tempo.

Quem brilha mesmo na obra, é sem sombra de dúvida seu elenco de jovens atores, garotos, que agem como garotos e que conseguem levar o filme nas costas com tranquilidade, são verdadeiros protagonistas, que nos guiam, nos diverte e nos emociona em determinadas partes. As atitudes desses meninos convencem, desde a paixão pelo cinema, a relação familiar e a descoberta de um novo amor. Joel Courtney, com mais destaque na trama, funciona bem, assim como os outros garotos com quem contracena. Os veteranos Kyle Chandler e Noah Emmerich também não decepcionam. Mas o destaque de "Super 8" vai para a interessantíssima Elle Fanning, que vem desenvolvendo um ótimo trabalho nos cinemas, e aqui ela brilha e logo nas primeiras cenas vemos seu grande talento.

Sim, "Super 8" tem seus pequenos defeitos, mas ainda digo com toda a certeza, é um dos filmes mais interessantes que fora lançado nos cinemas este ano, por revitalizar uma parte morta na sétima arte, um estilo que se perdera no caminho, e ainda assim conseguir ser original. É muito bom ir ao cinema em pleno 2011 e se deparar com uma idéia como esta, me senti entrando numa máquina do tempo, quando os filmes que hoje vemos na "sessão da tarde" eram lançados em tela grande. Aliás, ao ver "Super 8" realmente me senti vendo um filme "sessão da tarde" e pela primeira vez senti que isso não era um defeito e sim uma grande qualidade, é um ótimo filme sessão da tarde, que merece ser visto, apreciado. Palmas para JJ Abrams, mais uma vez: TRABALHO DE GÊNIO!

NOTA: 8


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cinema: Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, 2011)


Comédia romântica para homens. Um grandioso elenco fortalecendo o gênero e provando que clichês bem usados podem resultar grandes obras.

por Fernando Labanca

Da dupla de diretores Glenn Ficarra e John Requa que ano retrasado lançaram o mediano, mas ainda assim bastante original, "I Love You Phillip Morris" com Jim Carrey, estreiam essa comédia romântica com pitadas de drama e com um resultado bastante superior a obra anterior. Não, não é mais um no gênero, apesar dos clichês foge do padrão, dessa vez o foco são os homens e não há uma só história a ser contada, na tela, aparecem diversas situações, ora cômicas, ora dramáticas, que nos mostra de forma eficiente os obstáculos a serem enfrentados quando se ama alguém.

Em uma mesa de um restaurante, Cal (Steve Carell) pergunta a sua esposa, Emily (Julianne Moore) o que ela gostaria, é então que a verdade surge, ela queria o divórcio. Assim, simples, rápido, a vida deste pacato homem se desmorona. Depois de anos de casados, Emily já não sentia aquela forte paixão do início do relacionamento, para piorar, transou com um colega de trabalho, o bonitão David Lindhagen (Kevin Bacon). Perdido, desolado, ele sai de casa e passa as noites reclamando de seu pobre destino num balcão de um bar, é onde conhece Jacob (Ryan Gosling). Jacob, por sua vez, frequenta o mesmo bar para por em prática todo seu dom de sedução e conquistar de forma barata as mais belas mulheres, até que se depara com um "não" certa noite, vindo de uma jovem extremamente interessante, Hannah (Emma Stone), mas isso foi só um porém, não muito tempo depois se depara com aquilo que tomaria seu tempo, salvar a vida de um cara, desolado no balcão do bar, havia algo naquele solitário indivíduo que precisava de uma solução.

Jacob passa a ensinar Cal a se comportar como um "homem de verdade", que sabe conquistar, muda suas roupas e seu corte de cabelo, mas mesmo se dando bem com a mulherada, Cal percebe que a felicidade só poderia ser encontrada com sua esposa, aquela que ele realmente amava. Enquanto isso, seu filho, Robbie (Jonah Bobo) passa por uma triste desilusão amorosa, logo que sente uma atração muito forte por sua babá, alguns anos mais velha que ele, a bela Jessica (Analeigh Tipton), que por sua vez, sente uma forte atração pelo pai dele, Cal. Ainda há Hannah que mesmo bem sucedida em sua promissora carreira de advogada, percebe que sua vida amorosa não passa por uma boa fase, logo que esperou durante muito tempo ganhar um pedido de noivado de seu namorado, decide então, partir para outra, encarar um novo desafio, ou seja, dar uma chance aquele cara do bar que recebeu seu não.


Eu diria que foram, mais precisamente, 118 minutos muito bem preenchidos, história assinada por Dan Fogelman, mais conhecido por escrever roteiros para animações, como os ótimos "Bolt", "Enrolados" e "Carros", aqui ele escreve de forma bastante inteligente e direta todas essas histórias, de desilusões e confusões amorosas, onde cada trama é bem respeitada e tem seu merecido espaço, nenhuma acaba com o brilho da outra, e todas são bem desenvolvidas e muito bem concluídas. A direção de Glenn Ficarra e John Requa evolui desde "I Love You Phillip Morris", é bem feito, o trabalho com os atores foi fantástico, há um ótimo ritmo em todas as histórias, sabe divertir, emocionar e encantar de forma eficiente.

Os clichês aqui aparecem em muitas passagens, há discursos que muitas vezes parecem ter sido tirados de outros filmes, por vezes, nem respeitando a personalidade de cada personagem. Entretanto, são tão bem encaixados no roteiro, tem fundamento, faz parte daquele contexto, nada surge de forma forçada, diria até, que tudo é muito adorável. Em certo momento, numa discussão com sua esposa, onde as coisas ficam mais claras para o casal, o personagem de Steve Carell declara "Que clihê", isso porque a cena ocorria debaixo de chuva, e vamos ser sinceros...que clichê! Por outro lado, é genial o fato do próprio filme brincar com isso, ele mesmo se admite clichê, logo, uma das sequências mais fantásticas do filme. E pela obra admitir isso, tudo o que surge na tela, parece ter sido desculpada, parece fazer parte de uma brincadeira, na verdade, aceitamos o piegas em "Amor a Toda Prova" e o pior, torcemos por eles. Enfim, há inúmeras sequências incríveis, confesso que quero muito ver de novo e me deparar com todas elas novamente.

O elenco é soberbo. Steve Carell é incrível, sou fã de "The Office" e tudo o que este grande ator faz, sabe fazer comédia como poucos e ainda se arrisca no drama e sempre funciona. Julianne Moore é uma daquelas atrizes que já não precisam provar mais nada, já contribuiu demais para o cinema e já provou inúmeras vezes seu talento, aqui ela faz o mesmo de sempre, mas é Julianne Moore, mesmo quando ela faz o "mesmo de sempre", ela arregaça. Ryan Gosling tem trilhado um caminho interessante em Hollywood, há anos atua, mas ainda não teve seu merecido espaço, espero que vejam seu talento, é um bom ator e aqui ele diverte em cena e convense com seu Jacob. Entretanto a maior graça de "Crazy, Stupid Love" é sem sombra de dúvida Emma Stone, é sempre bom vê-la em cena, seu carisma enche a tela, faz ótimas sequências, é bastante expressiva e faz o filme valer a pena. Marisa Tomei aparece como uma estérica, o que é ótimo, porque ela faz estéricas como ninguém e sua participação diverte bastante. Ainda temos os veteranos Kevin Bacon e John Carroll Lynch, bons. Outro destaque são para os mais novos, Jonah Bobo e Analeigh Tipton, que mesmo iniciantes, convensem e muito com seus respectivos personagens.

Uma comédia romântica como poucas. Assistindo ao filme eu via inúmeros elementos que me fizeram ter a certeza de que eu estava diante de algo brilhante. Jacob é aquele conquistador incorrigível, se acha o maioral, ao mesmo tempo que mostra ter alguns segredos, a trama nos prende a ele, queremos descobrir quem realmente é este homem, analisar toda sua mudança durante o filme é algo interessante também, enfim, não darei spoilers, mas há uma ligação maior entre ele e Cal. A relação de Cal e Emily até que emociona, é bem simples, mas os pequenos diálogos nos mostra a fragilidade do casal e torcemos por eles. Jessica, a babá, passa por aquela fase onde a ingenuidade é perdida, o roteiro trabalha brilhantemente em sua pequena trajetória, onde a complexidade de sua personalidade é mostrada de forma sutil e cômica, dando brilho ao longa. E ainda o pequeno Robbie, que tem a coragem de fazer loucuras por amor, por não ter o medo e falta de coragem dos adultos. O Amor em diferentes idades, diferentes tempos, diferentes pontos de vista, e todas essas tramas se fundem de forma, digamos, até que surpreendente, não há como esperar as surpresas que a obra reserva para os minutos finais. É piegas, é clichê, mas é muito bom também, vale cada segundo. O fato de ter seus pequenos defeitos não desfaz o fato de ser um filme inteligente, e mesmo quando parte para o absurdo, politicamente incorreto, sabe ser maduro. Uma obra de qualidade, como poucas, que convense tanto no drama quanto na comédia, emociona tanto quanto diverte, sabe ser complexo, maduro e inteligente e mesmo assim entreter os menos exigentes. Recomendo.

NOTA: 8,5


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Crítica: Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, 2010)

Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Atriz para a veterana Nicole Kidman, "Rabbit Hole", com tradução brasileira forçada "Reencontrando a Felicidade", mostra não só uma das melhores performances femininas deste ano, como também a força de um elenco poderoso sob o texto de um roteiro inteligente, capaz de emocionar sem fazer muito.

por Fernando Labanca

Confesso que o filme nunca me chamou a atenção por nada, o título nacional ajudou bastante para o meu preconceito, Nicole Kidman é uma atriz que admiro mas estava afastada e fazia tempo que não a via fazendo algo de qualidade, até que ele chega nos cinemas bem tímido mas recolhendo críticas altamente positivas, me fez pensar duas vezes, felizmente.

O longa dirigido por John Cameron Mitchell, narra a história de um estranho casal, Becca (Kidman) e Howie Corbett (Aaron Eckhart), vivem naquele típico subúrbio norte-americano, jardins impecáveis na frente de mansões que escondem famílias "felizes". A estranha rotina do casal é logo confirmada, perderam recentemente um filho, atropelado por um carro em alta velocidade. A partir de então, tentam de diversas formas, esquecer o que aconteceu.

Passam a frequentar uma reunião para pais que perderam filhos, é onde Howie conhece Gaby (Sandra Oh), uma mulher que perdera seu filho há 8 anos e a todo este tempo está tentando se recuperar, quadro que Becca faz questão de não vivenciar, deseja viver em paz em curto tempo, passa a retirar detalhes de sua casa que o lembre, tenta encontrar respostas para o fato, é quando que reencontra com Jason (Miles Teller), o jovem que matou seu filho e que tenta se recuperar também, está prestes a terminar o colégio e devido ao ocorrido se fixa numa idéia mirabolante para a criação de um livro, se fecha na fantasia, na idéia onde pessoas entram pela "toca do coelho" e encontram a verdadeira felicidade, felicidade que jamais seria encontrada na vida real.


A ideia de "Rabbit Hole" é bem simples, o segredo da obra está nos pequenos detalhes, na maneira como o roteiro tenta resolver seus conflitos, na maneira como as personagens encaram seus problemas, está em cada diálogo e em cada pequena ação. Em suma, o filme é bem original, a trama já fora vista antes em outras obras, mas o jeito como ela acontece é bem diferente, não força a barra, não tenta ser melodramático e em nenhum momento as personagens agem de forma clichê, tudo o que é dito tem fundamento, é verdadeiro, e acima de tudo, é humano.

A direção de John Cameron é incrível, faz tomadas muito bem elaboradas e sequências dignas de admiração. O roteiro, mais uma vez, vale a pena conferir, é vendo tal pérolas como esta que me faz ter a certeza de que ainda existe vida inteligente em Hollywood. A trilha sonora, intrumental, sempre chega na hora certa e sabe guiar os momentos mais tensos até aos mais dramáticos. Ainda há humor e muito bem inserido, aliás.

O que dizer de Nicole Kidman? É até complicado avaliá-la, fiquei surpreso este ano ao vê-la em "Esposa de Mentirinha", mas sua presença em "Reencontrando a Felicidade" compensou tal fiasco, esta é a verdadeira Nicole Kidman, que sabe fazer drama como ninguém, sua personagem é complexa e cheia de oscilações, ela encara perfeitamente o desafio, sua indicação ao Oscar não foi exagero, ela simplesmente dá um show. Seu companheiro de cena, Aaron Eckhart também fez bonito em cena, é um ótimo ator e no papel certo ele sempre consegue convenser, é carismático e domina seu texto e seus diálogos com Kidman são fantásticos, há um belíssimo jogo de cena entre os dois atores. Dianne Wiest faz a mãe de Becca e me surpreendeu bastante, tem mais uma grande performance em sua carreira, assim como Sandra Oh, a eterna Christina Yang de Grey's Anatomy (que só por ela já vale a série) que está fantástica no filme. E a revelação Miles Teller, jovem e que consegue contracenar com Kidman sem perder o brilho, emociona e também convence em seu papel.

Uma obra emocionante, que comove sem exageros ou melodramas, uma trama objetiva, sem rodeios, que consegue com muito êxito mexer com os sentimentos do público, justamente por focar no humanismo de seus personagens e a loucura que se torna a vida deles após a morte de um filho, que como todos dizem, é a pior dor do mundo. Um filme que fala sobre religião, vida e morte de forma natural e corajosa. Melancólico, denso e intenso, sem um grande final feliz ou frases de grande inspirações, seu intuito não é esse, e por isso, o título nacional um tanto quanto equivocado, eles não tentam reecontrar a felicidade, eles tentam conviver com seus dramas, com os problemas, aceitá-los. O longa fala dessa aceitação da vida, dos obstáculos, e dessa vontade que sentimos às vezes de querer jugir, esquecer tudo, entrar pela toca do coelho e viver num mundo mágico, onde a felicidade seja realmente possível. Recomendo.

NOTA: 9