sexta-feira, 16 de março de 2012

Crítica: Melhor é Impossível (As Good as It Gets, 1997)

Vencedor do Oscar 1998 de Melhor Ator para Jack Nicholson e Melhor Atriz para Helen Hunt, "Melhor é Impossível" é um longa-metragem norte-americano que conta com a direção de James L.Brooks, mais conhecido por ser roteirista e produtor executivo da série de TV "Os Simpsons". Além do seriado, James trabalhou como diretor em filmes como "Laços de Ternura" (1983) e "Espanglês" (2004). O filme em questão é uma comédia dramática, mas que alcança, devido a seu ótimo roteiro, momentos de grande emoção com seu romantismo.

por Fernando Labanca

Jack Nicholson interpreta Melvin Udall, um escritor de romances de Nova York e que sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, que não pisa nas rachaduras das calçadas e joga fora seu sabonete após um único uso, sem contar outras tantas manias que ele utiliza para se sentir bem consigo mesmo. Não o suficiente, Melvin é racista, homofóbico e misantropo, aquele que tem aversão a qualquer outro tipo de vida. Com todas essas características, o escritor tem grandes problemas de convivência, principalmente com seu vizinho homossexual, Simon (Greg Kinnear) e com a garçonete Carol (Helen Hunt), a única que compreende suas estranhezas e o modo como ele gosta de ser atendido, mas se irrita facilmente quando ele resolve abrir a boca.


Tudo muda na vida de Melvin Udall quando Simon é agredido e passa a ter um fracasso total em sua profissão, entrando em uma profunda depressão e Udall é o único vizinho que aceita cuidar do suicida pois tinha uma grande simpatia por seu cachorro, animal que faz nascer sentimentos desconhecidos no escritor. Para piorar, Carol sai do restaurante para cuidar de seu pequeno filho que sofre de asma. É então, que para ter sua garçonete de volta, Melvin contrata um médico particular ao garoto, para que ela pudesse trabalhar e servi-lo. De imediato, achando tudo estranho, Carol compreende que o irritante senhor havia salvado sua vida. E numa troca de favores, a vida de Melvin, Carol e Simon irão se entrelaçar de formas inimagináveis. Três pessoas completamente diferentes com uma única coisa em comum, o medo de encontrar a normalidade em suas vidas. 

"Melhor é Impossível" conta com um roteiro brilhantemente escrito também por James L.Brooks. É um dos pontos altos do filme. Tudo o que vemos na tela é de extrema originalidade, não remete a quase nada do que o cinema já fez. E assim, cada passo das personagens se torna inesperado. A total ausência dos clichês a torna uma obra imprevisível. Interessantíssimo a composição dessas personagens, aliás. Melvin Udall é muito bem desenvolvido na trama, a construção de suas estranhas características o fazem um indivíduo muito único na história do cinema. Assim como a garçonete Carol, com seu medo de ter uma vida normal, feliz, pressionada por suas responsabilidades. A união desses indivíduos acaba que resultando em cenas adoráveis e de extrema inteligência. O roteiro de Brooks também se destaca por seus diálogos, muito originais, que surpreendem. Há muito humor, um humor diferente mas que funciona quase sempre. Os diálogos se tornam ainda mais interessantes quando o filme se joga no romance, e surpreende também, pois no meio daquela comédia surge um romantismo tão belo, tão profundo, cheio de boas intenções e emociona. Desde o comovente pedido de desculpas de Carol às belíssimas declarações de amor de Melvin, tudo muito bem escrito, algo a ser admirado. 


Jack Nicholson é Jack Nicholson. É um grande ator e isso é inegável. O que ele faz na tela é maravilhoso, sabe ser cativante, engraçado, sabe muito bem emocionar, é expressivo e sem ele, a força desta incrível personagem não seria nítida. Consegue com perfeição demonstrar este "estranho mundo de Melvin". Helen Hunt também realiza um trabalho admirável, surpreende muito na tela, faz cenas que chegam a ser memoráveis, se entrega com vontade, convence. Acredito que ela tenha sido o grande brilho do filme, uma atriz poderosa, que chega em cena e faz qualquer diálogo ser melhor do que já é. Não foi a toa que Nicholson e Hunt levaram o Oscar para casa. Ainda temos o coadjuvante de ouro, Greg Kinnear, no papel de sua carreira. É incrível o que o ator faz, principalmente na primeira metade do longa, Greg consegue carregar muita emoção em seu olhar. E ver os três atores contracenando é algo que já vale e muito a pena conferir a obra. Além deles, Cuba Gooding Jr, ótimo.

Com uma direção segura de James L.Brooks, que soube mostrar o melhor de seus atores, além das belas composições de diversas sequências, o filme ainda possui a bela trilha sonora de Hans Zimmer que realça ainda mais o trabalho de Brooks. "Melhor é Impossível" peca por alguns conflitos repetitivos na trama, como as diversas discussões entre Melvin e Carol que parecem começar sempre do mesmo ponto, sempre pelos mesmos motivos e terminam sempre da mesma forma, e mesmo que nessas discussões o brilhante roteiro soube inserir belíssimos diálogos, ainda não foi suficiente para apagar o sentimento de "déjà-vu". Vale por esses incríveis diálogos, vale pela originalidade da obra, pelos belos momentos românticos, que mesmo sendo uma comédia soube emocionar muito mais que filmes do próprio gênero romance. Vale principalmente pelas incríveis atuações de Jack Nicholson, Helen Hunt e Greg Kinnear. Divertido, original, inteligente, romântico e emocionante. Recomendo.

NOTA: 8



segunda-feira, 12 de março de 2012

Crítica: Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, 2011)

Baseado na obra de Jonathan Safran Foer, o longa indicado ao Oscar de Melhor Filme este ano, narra a história de um garoto que perdeu o pai no fatídico 11 de setembro, sendo muito mais do que apenas uma homenagem às perdas desta data, "Tão Forte e Tão Perto" é um drama competente, extremamente bem dirigido por ninguém mais que Stephen Daldry, nome por trás de belíssimos projetos como "Billy Elliot", "As Horas" e "O Leitor", sendo este, apenas seu quanto filme e por incrível que pareça, sua quarta indicação ao Oscar.

por Fernando Labanca

Assim como em 1999, Stephen Daldry lançava ao cinema um ótimo protagonista mirim, Jamie Bell em "Billy Elliot", neste seu novo trabalho, coloca o jovem Thomas Horn para guiar toda a história. Horn interpreta Oskar Schell, um garoto que tem a síndrome de Asperger, possuí graves problemas de comunicação e interação social, encara o mundo de outra forma e para isso conta sempre com a ajuda de seu pai, Thomas (Tom Hanks) que inventa diversos "mistérios" na cidade de Nova York para incentivar seu filho a interagir com a sociedade enquanto fizesse suas "investigações". Até que Thomas falece por uma ironia do destino, estava presente no World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. Oskar, então, se vê perdido no mundo, sem chão. Eis que ele encontra, guardado nas coisas do pai, uma chave dentro de um pequeno envelope com o nome "Black". 

A partir deste momento, o garoto resolve ir atrás de todas as famílias Black's da cidade, acreditando que encontraria um segredo importante guardado por seu pai. Desenvolve, então, um roteiro rico em informações e detalhes para sua incrível jornada, para isso, passa a contar com o auxílio de um misterioso vizinho (Max Von Sydow), um senhor mudo que se comunica através da escrita. E a cada porta em que bate, uma nova vida que conhece, uma nova história. E a cada passo que dá, mais perto se vê de seu pai, porém, mais longe se vê de sua mãe (Sandra Bullock).


"Tão Forte e Tão Perto" me surpreendeu e muito e acredito que possa surpreender muitas pessoas também. É aquele filme que chega do nada, ninguém espera muita coisa e quando ele termina, aquele sentimento de imensa satisfação. A verdade é que eu não esperava muita coisa, desde que vi seu nome entre os indicados ao Oscar, não acreditava em seu potêncial e nem que pudesse existir algum motivo para o filme estar ali. Também achava que seria mais um clichê hollywoodiano sobre o 11 de setembro. O longa de Stephen Daldry mereceu estar entre os indicados e é mais ou tão poderoso quanto qualquer outro indicado este ano. O ataque terrorista, aqui, serve como pano de fundo de uma história muito mais profunda, o roteiro não usa do ocorrido para criar a emoção ou pena no público, o roteiro é bom demais e não se permite a isso, consegue ir muito mais além, emociona, mas não por isso. Emociona pelo todo, por toda a trajetória de Oskar, sua relação com o pai falecido, os fantasmas de suas lembranças, emociona pela delicada relação com sua mãe, ou por inúmeros outros detalhes de uma trama muito bem escrita, que não força a barra e não exagera ao tentar criar esta comoção no público, como muitos críticos vem apontando, a empatia para com as personagens vem fácil, logo, nos vemos envolvidos por seus dramas. Vale citar que os conflitos na família gerados pela morte do pai são fortes e nem sempre trilham pelo caminho fácil e pelo clichê, vemos então, ótimas cenas, que comovem pelos bons e surpreendentes diálogos.

O roteiro tem a assinatura de Eric Roth, conhecido por seu trabalho em "Forrest Gump" e "O Curioso Caso de Benjamin Button". É interessante notar algumas pequenas semelhanças na sua escrita, o talento que ele tem para criar algo grandioso, pegar uma personagem, seja Forrest, Benjamin ou agora Oskar, e colocá-lo diante de uma jornada, onde ele acaba se envolvendo com outras histórias e acaba tirando lições destas novas relações. Este mesmo roteiro, surpreende em outros detalhes, como a personificação do garoto, a maneira como trabalham suas manias e estranhezas, ajudado sempre pela ótima direção de Daldry. Achei interessante também as voltas que a história dá, ganha força ao não seguir uma linha cronológica correta, por vezes nos revelando eventos passados e que fazem toda a diferença, melhor ainda é seu final, onde um pequeno detalhe revelado muda toda a forma como estávamos vendo a história, o roteiro nos mostra uma outra perspectiva, acaba sendo inovador essas sacadas e por elas o filme ganha fôlego, onde a cada instante, uma nova informação. O roteiro não usa sua premissa inicial, o segredo do pai, para prender a atenção do público, consegue criar diversos elementos interessantes na trama para isso. O talento de Roth é nítido, infelizmente não sei avaliar como adaptação, mas como cinema, tudo funciona perfeitamente bem. 

As atuações é outro ponto alto do longa. Thomas Horn, o jovem protagonista consegue e com muito êxito passar as emoções de sua personagem, mesmo que Oskar seja chato e extremamente irritante, o ator mandou muito bem e soube guiar o filme, trabalho difícil, talento provado. Os coadjuvantes são de grande peso, Tom Hanks faz uma pequena participação e convence, fazia tempo que não o via tão a vontade e tão bem num filme. Mas os grandes destaques ficam para o indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante, Max Von Sydow, o senhor mudo e consegue dizer tanta coisa sem ao menos dizer, passa tanta emoção sem usar nenhuma palavra, belíssima performance. Assim como Sandra Bullock, que surpreende e muito na pele da mãe do garoto, se destaca nas cenas dramáticas, para minha surpresa, está mais ousada que o normal, se entrega de forma fantástica, emociona e constrói algumas das melhores cenas do filme. Ainda vemos ótimas participações de Viola Davis, Jeffrey Wright e John Goodman.

Com um elenco poderoso, um roteirista de primeira como Eric Roth e um dos diretores mais brilhantes do cinema norte-americano, Stephen Daldry, não teria como dar errado. Daldry soma este poderoso filme a sua belíssima filmografia, e assim como todos seus outros trabalhos, realiza algo admirável, soube guiar o ótimo roteiro, faz ótimas sequências, contando com o auxílio da incrível trilha sonora de Alexandre Desplat, além da bela fotografia. Perde um pouco de pontos pelo excesso de narração em off, por vezes, revelando o que já estava na tela e por algumas atitudes exageradamente estranhas de Oskar que acabam o afastando do público. Para se ver, se envolver, se emocionar, admirar. Hollywood já realizou inúmeros filmes sobre 11 de setembro, mas nenhum conseguiu ser tão completo como este. Recomendo. 

NOTA: 8,5




quarta-feira, 7 de março de 2012

Crítica: Reino Animal (Animal Kingdom, 2010)

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o longa independente e australiano ganhou notoriedade pelas diversas indicações à prêmios importantes de cinema na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, para a desconhecida Jacki Weaver, incluindo o Oscar 2011. Lançado nos cinemas ano passado aqui no Brasil, o filme surpreende pela grande qualidade, com pouco custo e totalmente fora dos padrões do Festival de Sundance. Para quem procura algo novo, bem feito e fora do circuito hollywoodiano, "Reino Animal" é uma ótima escolha. 

por Fernando Labanca

O filme começa com uma cena bastante inusitada. Joshua "J" Cody (James Frecheville), um jovem que aguarda a chegada da ambulância para levar sua mãe morta por overdose de drogas. Sem saber o que fazer, liga para sua avó distante, Janine 'Smurf' (Jacki Weaver). Há muitos anos perdera contato com seus parentes e agora passa a viver com eles, na mesma casa. Vovó Smurf e seus três filhos, Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o foragido da polícia e um dos bandidos mais procurados do bairro, Andrew 'Pope' (Ben Mendelsohn), além de Barry Brown (Joel Edgerton) que mora fora. Uma família que tem uma matriarca, mas são os homens que comandam e comandam a cidade também, por seus crimes e ações ilegais. É neste cenário que J é colocado, num ambiente onde a violência reina e é obrigado a se adaptar a ela. Eis que surge um detetive (Guy Pearce) que decidido a encontrar provas concretas para prender os membros da família, começa a usar o jovem, prometendo uma salvação e lhe mostrando que ali não era seu lugar. 


O reino animal. Já dizia Darwin, os mais fortes sobrevivem. Há outras teorias que provam que a sobrevivência está relacionada com a adaptação. É exatamente sobre isso que o roteiro coloca em pauta, a adaptação dos seres humanos. "J" não pertencia aquele mundo, mas foi obrigado a fazer parte daquilo, era uma questão de sobrevivência, ignorando seus ideais, seus valores. O roteiro também nos apresenta esta inusitada família como verdadeiros animais, que seguem firme na cadeia alimentar, matando para sobreviver, são caçadores que temem a todo instante se tornarem a caça, além de suas atitudes grosseiras que por vezes assustam, ações de homens que usam somente a razão, que ignoram qualquer tipo de emoção, que já não se importam com o que é certo ou errado. A mãe coruja que cuida de seus eternos filhotes em seu ninho. Vemos também a reflexão sobre a nossa missão aqui neste reino animal que é a vida, sempre buscando um espaço para se encaixar, sempre procurando um grupo para se fazer parte.

Dirigido por David Michôd, o australiano realiza um trabalho admirável, suas movimentações de câmeras são geniais e nos apresenta cenas brilhantes. É interessante como um filme de baixo custo se concentra tanto em sua realização, é tão bem cuidado, a fotografia é belíssima e tudo na tela funciona perfeitamente bem. Mesmo sendo um filme independente, Michôd não levou seu trabalho "nas cochas", levou muito a sério, se preocupou em mostrar ao mundo um cinema australiano de alta qualidade. Vale a pena ver o filme somente por sua grande direção, é belo como tudo é mostrado, a câmera lenta, os cenários, em junção com uma trilha sonora que remete a algo grandioso, memorável. Tudo muito estiloso. É isso o que "Reino Animal" é, estiloso, cool. 

As atuações estão corretas, no geral. Apenas vemos Guy Pearce de conhecido no elenco e fez o que tinha de fazer, não surpreende, mas cumpre bem sua função. Joel Edgerton, Sullivan Stapleton e Luke Ford estão bons, convencem bem seus respectivos personagens, cada um com sua característica, e Ben Mendelsohn como o tio mais procurado pela polícia local, faz uma personagem bem diferente que aos poucos vai se mostrando quase como um psicopata, frio e calculista e acaba surpreendendo. Já o protagonista, James Frecheville, é bem fraco, chega a ser lamentável algumas de suas cenas, mas é notável que o diretor percebeu as limitações do ator e deixou para os coadjuvantes fazerem as partes mais difíceis. E não há como não reparar e prestar maior atenção em Jacki Weaver, devido as indicações e aos prêmios que recebeu por sua interpretação. A meu ver, tem uma atuação boa, mas nada oscarizável, a personagem é incrível, surpreendente, eu diria e tem seu grande momento na reta final do longa, onde faz um discurso sobre os novos rumos da família e seus aliados, é de arrepiar!

"Reino Animal" é um filme bastante inovador, recheado de bons e inesperados acontecimentos, com ótimas reviravoltas, onde eventos que acreditávamos que aconteceriam apenas no final, acontecem nas primeiras, com um constante clima tenso, com boas atuações, personagens extremamente interessantes e cativantes e uma história que prende do início ao fim, com direito a grandes cenas que permanecerão na memória, isso, principalmente, à ótima direção de Michôd, não deixando de citar o ótimo roteiro, muito bem escrito também por ele. Enfim, um filme surpreendente e muito bem realizado, com idéias bem desenvolvidas, mostrando o poder de um cinema que eu desconhecia, o australiano. Sim, um filme poderoso, que merece ser encontrado já que é desconhecido por grande parte das pessoas. E para completar, um final memorável. Recomendo!

NOTA: 9





domingo, 4 de março de 2012

Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

Baseado na obra escrita em 2003 por Lionel Shriver, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" estreou ano passado no Festival de Cannes, em competição, sendo indicado a Melhor Diretor para Lynne Ramsay. O filme mostra de forma bastante complexa e intrigante o nascimento de um psicopata, só que por um outro ponto de vista, o da própria mãe. Para escrever o livro, por sua vez, a autora havia se baseado em casos reais de massacres em escolas, ato que se tornou comum, infelizmente, e o filme consegue com perfeição resgatar este realismo das situações e por isso é uma obra tão chocante. 

por Fernando Labanca

Casos como o Massacre de Columbine de 1999, nunca saiu da mente dos norte-americanos. Jovens que por algum motivo entram em suas escolas e cometem o crime, o assassinato de outros adolescentes. A mídia está aí para condenar estes indivíduos e seus pais, que muitos julgam serem os principais culpados. O trauma, a violência, a ausência de bons valores, vem do berço, como muitos acreditam. O filme, assim como o livro, mostra exatamente o que não queremos compreender ou que ignoramos, a vida dos pais deste jovem, mais precisamente, neste caso, a vida da mãe. O que aconteceu nesta família? Como ela era como mãe? O que ela fez para ele? Perguntas que muitos fazem para encontrar uma justificativa ao ato criminoso, entretanto, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" em nenhum momento tenta entregar essas justificativas, mas sim, nos levar fundo ao psicológico das personagens, entrar na mente delas, sem moralismos ou respostas fáceis, a difícil jornada de uma mulher e tudo o que ela viu, sentiu e sofreu e nos deixa fazer nossas próprias conclusões. 

Sem seguir uma linha cronológica correta, do presente ao passado, e vice-versa, conhecemos Eva (Tilda Swinton) que mora em uma pequena casa, é mal vista pelos vizinhos que a encaram e a humilham sempre que podem, ela tenta se reerguer na vida pois algo de muito terrível aconteceu em seu passado. Neste mesmo passado, a união com o homem que amava, Franklin (John C.Reilly) e logo o nascimento de Kevin. Com a chegada do bebê, Eva percebe que perdeu o que mais admirava, a liberdade, não consegue aturar os berros de seu próprio filho e se vê presa na pele de uma mãe que nunca sonhou ser. Vemos Kevin crescendo e aos poucos vai mostrando uma personalidade misteriosa, encara sua mãe, lhe diz coisas que crianças não sabem, a chantageia, goza de suas imperfeições e falhas. Já adolescente (Ezra Miller), suas atitudes pioram, surge um jovem quieto, com segredos e Eva se vê perdida nesta situação, ao mesmo tempo em que se assusta e teme pela vida das pessoas que ama, ela tenta se reaproximar, tentar criar um elo que jamais conseguiu ter, o elo entre uma mãe e um filho. E o filme segue até o grande momento, onde descobrimos o que aconteceu na vida desta mulher e deste jovem, um ato que definiu suas vidas.


"Precisamos Falar Sobre o Kevin" é um filme difícil. É duro, é cruel. A diretora Lynne Ramsay em nenhum momento tenta aliviar a tensão e constrói uma obra impactante, onde este mesmo impacto surge em cenas simples, uma pequena sequência que mostra a rotina das personagens, a tensão está ali, no clima, há uma atmosfera pesada em cada uma delas. Seja ainda em cenas como quando Eva descasca a sujeira de sua parede ou quando Kevin come suas unhas, com closes, que nasce em nós, uma sensação de desgosto, de inquietação. Neste quesito, a diretora realiza um trabalho excepcional, o uso das câmeras, os cortes, a edição rápida que nos empolga e nos hipnotiza em cada situação mostrada. Palmas para o roteiro, também de Ramsay, onde ela consegue colocar na tela momentos cruciais para a compreensão de tudo, onde cada cena parece querer dizer algo, nada do que vimos está ali por acaso, tudo tem um motivo, um olhar, uma expressão, um diálogo, cada pequeno elemento da história tem um motivo para estar ali e muito dizem sobre o que queremos saber. A verdade é esta, o longa nos oferece todos os argumentos que precisamos para formar nossa opinião, as perguntas, as respostas, estão ali, a diferença é que nós, como público é que temos que formulá-las, o roteiro não as entrega. Ramsay não usa sua obra para gerar respostas, não tenta encontrar uma moral para a história, nem julgar o que há de certo ou errado numa situação como esta.

O roteiro também acerta ao não seguir uma ordem cronológica dos fatos, assim, consegue criar no público, uma curiosidade, o filme nos mostra logo de início que algo muito grandioso aconteceu na vida das personagens, mas não revela o que, e a partir deste evento conhecemos o que houve antes e depois dele. Não há como não se prender na história, a vontade de querer saber o que houve, o porquê daquela mulher ser tão vazia, tão sofredora. Mas antes mesmo de chegar ao fim, o filme consegue impactar, por cada cena, as atitudes de Kevin realmente assustam, vê-lo tentando acertar sua mãe com uma flecha ou pouco se importando quando sua irmã perde um dos olhos, é de uma frieza tão grande e faz de Kevin um dos personagens mais incríveis que o cinema viu nos últimos anos. Ver Eva como mãe chega a ser até brilhante, o filme nos mostra um outro lado da moeda, onde ela chega ao ápice de chegar perto de uma britadeira na rua para não ouvir os choros de seu filho ou dizer sem nenhum remorso "você destruiu meus sonhos" para o bebê enquanto brincam. A relação de Eva e Kevin é o que há de melhor do longa, é de um nível tão complexo que parece que nossa mente demora a acreditar no que vê. E o final? Nada menos que chocante, um soco forte na alma, e o realismo como tudo acontece faz com que tudo seja mais doloroso, mais difícil de encarar, de engolir.

Tilda Swinton. Uma atuação antológica, sem mais. A atriz brilha e marca, acredito eu, o melhor momento de sua carreira. Se entrega de corpo e alma, se deixa levar pela trama e pelos conflitos de uma forma tão real, tão natural, convence e por isso nos faz sofrer com ela, sua personagem é tão intrigante, tão fascinante, e ela soube trabalhar perfeitamente as nuances de Eva, seus sorrisos forçados, seu olhar afastado e vazio, suas expressões que parecem contar toda uma trajetória. O jovem Ezra Miller também caiu perfeitamente no papel de Kevin, realiza um trabalho notável e sem sua grande atuação o filme não teria o mesmo poder, vale citar ainda as crianças que fizeram as outras fases da personagem e mandaram muito bem. John.C.Reilly sem muito destaque, está correto.

A trilha sonora "alegre" entra em oposição aos conflitos pesados da trama, como se a todo instante algo na vida daquelas pessoas estava errado, alterada de alguma forma. Destaque pelas grandes atuações, direção e roteiro brilhante de Lynne Ramsay, que conta com uma ótima edição e fotografia, que nos transforma em sádicos, pois acaba que sendo uma experiência extremamente agradável assistí-lo, mesmo se tratando de uma trama tão densa, tão violenta, tão forte, pois é uma obra muito bem realizada, como cinema é um primor só, de um nível extremo de qualidade. É realmente muito difícil dissertar sobre este filme, uma obra que nos faz refletir sobre o assunto, esta estranha personalidade dos psicopatas, e isso ocorre na tela de uma maneira, confesso, como nunca havia visto antes. Sabe emocionar sem forçar nenhuma situação, funciona também quase como um terror psicológico, nos amedronta pelas ações das personagens, por seus diálogos inesperados e chocantes, é realista, é pesado, é cruel, uma obra grandiosa, impactante, agonizante, que nos faz esquecer por completo nossa realidade, que é quase impossível se sentir indiferente a ela. Um filme que lhe tira o chão, lhe tira a alma, parece difícil voltar a respirar ao seu término. Enfim, maravilhoso, e mesmo ignorado pela Academia do Oscar, é definitivamente superior a seus indicados. Como alguns acreditam, talvez, os norte-americanos não estejam prontos para encarar esta triste verdade, não desta forma. Brilhante, memorável...o melhor filme do ano, até agora, fato!

NOTA: 9,5