terça-feira, 24 de julho de 2012

Crítica: Na Estrada (On The Road, 2012)

Um dos candidatos na categoria Melhor Filme no último Festival de Cannes, o novo longa do brasileiro Walter Salles traz para as telas uma obra que eu diria inadaptável, publicada em 1957, "Pé na Estrada", a obra do norte-americano Jack Kerouac é considerado a bíblia da "geração beat" e uma das obras literárias para importantes do século XX. Serviu como grande influência da juventude dos anos 60 e relata como um diário a vida dos jovens da contracultura, que se perdiam em meio de sexo, drogas e jazz, que amavam a arte, a poesia, a literatura, que viviam à margem dos acontecimentos da época. Mais do que uma adaptação quase que impecável, mais do que um grande respeito à obra original, o que vemos é um filme belo, inspirador, e o que parecia impossível, tão complexo e poético quanto o livro.

por Fernando Labanca

Jack Kerouac, autor de livros, após viver o momento de sua vida que ele denominou como "vida na estrada", resolveu escrever num rolo de quilômetros de papel toda sua incrível jornada, sem respeitar parágrafos nem capítulos, ele colocou no papel tudo o que recordava. Seu livro, então, foge completamente do padrão, não há começo, meio e fim, é tudo linear, sem deixar de ser interessante, não há clímax, mas ainda assim surpreende. E o filme de Walter Salles logo de início tinha já um grande obstáculo, adaptar o inadaptável. Mais do que contar a trajetória de Jack, sua obra vai muito além de uma história, é sobre sentimentos, sensações, sobre as relações que ele tinha com as pessoas que ele se deparava em seu caminho. Uma tarefa nada fácil, e com o brilhante roteiro de José Rivera (com quem Salles trabalhou junto em "Diários de Motocicleta") e com produção de ninguém mais que Francis Ford Coppola, a equipe desenvolveu algo admirável, que para muitos seria impossível, logo que durante anos tentaram adaptá-lo, mas não conseguiram. Um filme que faz jus a sua obra original.

Conhecemos Sal Paradise (Sam Riley), o alter ego de Jack Kerouac, que após a morte de seu pai, tenta se concentrar para terminar seu livro, sem grandes inspirações. Eis que conhece, junto com seus outros amigos hipsters, Dean Moriarty (Garrett Hedlund), casado com uma jovem menor de idade, Marylou (Kristen Stewart), ele acabara de sair da prisão e vive sua vida como um grande vigarista, mais do que isso, ele vive uma vida sem limites e é ao lado dele que Sal inicia sua jornada na estrada. E durante vários meses, Sal e Dean de perdem numa louca viagem, sem destino, sem razão, conhecem pessoas, se apaixonam, abandonam, curtem a música, a poesia, numa época pós-guerra, onde os jovens estavam a procura de novas descobertas, experimentações, como sexo e drogas. E no meio disso tudo, eles crescem, uma longa jornada de autoconhecimento.



"Na Estrada" é um filme complicado de analisar. Ele se assemelha e muito ao livro e devido a isso pode assustar grande parte do público. Ele já inicia contando uma história, sem a necessidade de introduzir aquele que assiste a trama ou aos personagens. Tudo ocorre muito rápido e muitos ficarão sem entender as razões pelo qual tudo acontece. Isso é ruim pois ele afasta aqueles que nada conhecem sobre a obra, entretanto, isso acaba que sendo seu maior triunfo, pois vai muito além do que o cinema costuma mostrar, pois vai além do que esperamos de um filme comum, ele consegue traspor para a tela todo um pensamento, todo o sentimento que a obra original tinha, aquela que um dia inspirou toda uma geração. É belo o que Walter Salles realiza aqui, pois o roteiro poderia muito bem ter caído no lugar comum, ter colocado inúmeros clichês para contar a mesma história, ter criado um clímax e um final chocante. Mas não, ele vai contra aos padrões e assim consegue manter toda a beleza e originalidade de Jack Kerouac, longe de ser pretensioso, sendo complexo e emocionante sem ter a intenção, onde mantêm a simplicidade das cenas e a poesia dos diálogos.

A partir da narração em off do personagem principal, entramos a fundo em sua viagem, o filme nos convida a viver durante aqueles minutos a verdade que tenta mostrar. De diversas cidades norte-americanas, conhecemos inúmeros personagens, cada um com sua peculiaridade, cada com seu drama, todos vivendo um só ideal, a liberdade, a vontade de viver. E todos são mostrados de forma bastante convincente, e em poucos minutos nos afeiçoamos aos rostos que surgem, pois é tudo muito real, muito humano. Nós somos Sal Paradise, perdidos naquele universo e querendo desfrutar de tudo um pouco, seguindo atrás daqueles loucos, querendo ser loucos como eles, e assim como Sal, criamos em nós uma certa devoção à Dean Moriarty, ele passa a ser nosso ídolo, nos apaixonamos por ele. Essa conexão acontece justamente pela maneira como cada ser ali dentro da trama é desenvolvido, onde não há como definir ou chegar a alguma conclusão sobre nenhum personagem, criamos em nós uma certa curiosidade sobre cada um, são tão humanos, e por isso, complexos, que oscilam a cada instante, que surpreendem por seus atos. Além de tudo isso, a trama acontece como uma verdadeira viagem, ao som de boa música, da belíssima trilha sonora de Gustavo Santaolalla, auxiliada pelas belas paisagens devido a fotografia que também merece destaque. A direção de Walter Salles é bastante segura, consegue extrair o melhor de cada ator, o melhor de cada situação, parece conhecer aquele cenário como ninguém e faz tudo isso se tornar real, a intensa viagem de Jack e seus sentimentos, sua paixão pela vida, sua devoção pelos loucos, pela poesia, pela liberdade.


E toda essa realidade se torna ainda mais forte com este grande elenco. Sam Riley trás muita emoção e muita alma em seus poéticos diálogos e se sai muito bem como Sal Paradise, mas acaba sendo ofuscado por seu parceiro, que definitivamente rouba a cena, Garrett Hedlund, que faz de Dean Moriarty um personagem memorável, realiza belíssimas cenas, tem uma atuação segura e ousada, consegue demonstrar todo espírito aventureiro, toda aquela sede de vida, toda deliciosa loucura de Dean. A surpresa do filme fica para Kristen Stewart, que deixa de lado toda sua falta de expressão e encara sua personagem, como se renascesse, atua de verdade como se pela primeira vez ela tivesse a intenção de fazer algo bom, se joga na pele de Marylou, se mostra muito mais a vontade frente as câmeras. Já os coadjuvantes que surgem rapidamente pela trama conseguem em poucos minutos o que muitos atores não conseguem durante um filme inteiro, todos surpreendem e esbanjam talento, como Amy Adams, irreconhecível ao lado do sempre ótimo Viggo Mortensen. Kirsten Dunst provando mais uma vez trilhar o caminho certo em sua carreira, se mostrando cada vez mais talentosa. Nos emocionamos também com o desconhecido jovem ator Tom Sturridge, na pele do poeta Carlo, ainda vemos Alice Braga, bem a vontade em cena, Terrence Howard, Elizabeth Moss e o veterano Steve Buscemi, mais ousado do que nunca.

"Na Estrada" provavelmente dividirá o público, entre aqueles que o odeiam e aqueles que o amam. Não é nada convencional, nada que se possa ver com os amigos num final de semana para se divertir. É uma proposta nova, diferente, ousada. Um filme que resgata um idealismo, que resgata toda uma geração, que vai na contramão daquele cinema que se vende e segue no caminho daquele cinema raro, que não procura um final óbvio, que não procura personagens óbvios, que não tenta encontrar soluções e nem razões para fazer o público se sentir mais confortável. Pois é justamente o que a viagem de Jack Kerouac significava, um momento de experimentação, de uma vida livre, que não procura definições, era uma jornada sem destino, e o que para muitos pode parecer uma obra sem foco, vejo de forma contrária, que aliás, se visto apenas com os olhos, "On The Road" não passará de um filme vazio, é preciso entrar nesta estrada, entender as razões daqueles jovens e o contexto em que eles estavam inseridos, é preciso entender que existem outras maneiras de se fazer cinema, de se trazer conteúdo. Um dos melhores momentos de Walter Salles, um marco neste ano. Um filme acima de tudo, inspirador.

NOTA: 9,5


terça-feira, 17 de julho de 2012

Crítica: O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012)

Ignorando completamente a trilogia de Sam Raimi (2002 -2007), assistimos a um novo início do Homem Aranha, dessa vez na pele do ator Andrew Garfield e com a direção de Marc Webb (500 Dias Com Ela). O filme revela, a meu ver, a falta de criatividade em Hollywood, sem ter mais o que lançar de novo, acaba se perdendo em remakes e reboots, agindo como se a obra original jamais tivesse existido. Existem casos em que o original é ruim e o que eles tentam é refazer tentando melhorar as falhas do anterior, mas não é este o caso, a trilogia conquistou fãs e recebeu inúmeros elogios e de fato nunca haverá uma razão para ter sido ignorada dessa forma. O reboot é bom, entretenimento que vale a pena, mas infelizmente não cumpre sua premissa básica, ser melhor que o original e este acaba sendo seu maior defeito. 

por Fernando Labanca

Nesta nova versão, Peter Parker (Garfield) ainda é aquele nerd do colégio que não é bem visto pelos populares, sente uma forte atração pela bela Gwen Stacy (Emma Stone) que não demora muito tempo para notar a presença do jovem. Quando criança, Peter havia sido abandonado por seus pais e a razão disso nunca lhe fora explicada e desde então vive com seus tios Ben (Martin Sheen) e May (Sally Field). Eis que certo dia ele encontra alguns objetos de seu pai e através deles passa a verificar seu passado e seguindo algumas pistas descobre um antigo amigo, o cientista Curt Connors (Rhys Ifans) e através dele tenta descobrir um pouco mais sobre seu pai, e nisso acaba se envolvendo em sua pesquisa, um longo estudo sobre mistura de genes de diferentes animais. Como consequência, Peter é picado por uma aranha em uma das salas da Oscorp, a partir de então, passa a ter algumas novas e inusitadas características, e passa a usar seu novo "dom" para agir como herói nas ruas violentas de sua cidade. Para sua surpresa, porém, o experimento de Connors falha e o cientista se transforma em seu pior inimigo, o lagarto. 


"O Espetacular Homem Aranha" tem como principal função dar um novo início ao herói, partindo do zero, possibilitando uma nova trilogia e novos caminhos para os personagens. Neste ponto, o longa de Marc Webb acerta, consegue fugir do que Sam Raimi já havia feito, procura outras alternativas e como estrutura, o novo filme pouco se assemelha com o original. Vemos na tela, um outro Peter Parker, surge mais natural, mais engraçado, mais jovem e isso faz bem para a trama e o talento do expressivo Andrew Garfield contribui e muito. Por outro lado, por mais que a presença de Tobey Maguire não seja tão marcante quanto a de Garfield, a composição e o desenvolvimento de Peter Parker original se mostra superior, parece sofrer dilemas um pouco mais intensos e se depara com conflitos ainda maiores e toda a forma como o Homem Aranha compreende seus poderes e como tudo se inicia, ainda fico com a versão anterior, logo que dessa vez, tudo ocorre de forma muito rápida, parece não haver processos, uma cena ele não tem poderes, na próxima ele já sabe como lidar com eles, em uma cena ele se mostra interessado pela mocinha, na próxima ela já o convida para conhecer a família. Por falar na mocinha, ela ganha destaque simplesmente por ser Emma Stone, mas infelizmente pouco interage com a história, está presente somente para ser o par romântico e diga-se de passagem, as cenas do casal são bem feitas e são devido a elas que o filme acaba se aproximando ainda mais de seu público. Entretanto, Mary Jane de Kirsten Dunst parecer ter maior importância na trama, existe toda uma história da personagem que se desenvolve durante a trilogia. Já o vilão, o lagarto, está longe de ser tão bom quanto qualquer outro vilão da versão original, há algumas sequências lamentáveis como sua invasão no colégio e outras em que ele parece que vai destruir tudo, mas temos a impressão que ele não põe medo em ninguém e a cidade quase não se altera com sua presença, mesmo ele sendo um lagarto gigantesco e "aterrorizante".

O filme tenta se apegar também ao passado do pai de Peter Parker e usa isso como "aquilo que a trilogia não havia mostrado", se firma nisso como se fosse sua grande revelação, o que acaba sendo decepcionante. Naquela velha história onde nada é revelado para se poder fazer um segundo filme essa trama fica vazia e sem respostas e pouco que descobrimos sobre ela não é nada surpreendente e nada que nos faça querer saber sobre ela. Como já havia dito, o pior defeito do longa é a existência da trilogia original, onde consegue superá-la em pequenos pontos, como seu humor, as boas cenas de ação e de romance, mas no geral, fica devendo, se mostra um filme de ação como qualquer outro de herói, com direito aos velhos clichês, como o herói observando a cidade pela ponta de um prédio, ele tirando a máscara para dizer algo importante, aliás ele faz isso demais como se não entendesse o lance de ser um herói mascarado, além do vilão que nasce de um experimento malsucedido. Enfim, pouco inova como cinema, tenta fugir da versão anterior, mas não consegue fugir dos velhos hábitos do gênero ação.

No entanto, "O Espetacular Homem Aranha" tem como grande ponto positivo a escolha de seu elenco. Andrew Garfield já havia provado ser um grande ator em filmes como "A Rede Social" e "O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus" e aqui ele se mostra a vontade na pele do herói. Já Emma Stone mostra mais uma vez seu enorme carisma e convence na pele da mocinha, que aliás, não é tão indefesa quanto o de costume. Destaque também para os tios de Peter, Martin Sheen está incrível na pele do Tio Ben, assim como Sally Field, que para minha grande surpresa, consegue fugir de seus trejeitos da série "Brothers and Sisters". O vilão de Rhys Ifans está normal, não decepciona, mas também não surpreende. 

Os efeitos especiais estão bons, apesar da composição do vilão por vezes parecer um pouco bizarra, mas no geral, agrada. O 3D faz sua parte, faz diferença em determinadas cenas. Um filme que diverte pelo bom humor e por seus personagens interpretados por grandes atores, tenta focar a trama mais na história de Peter e não tanto no vilão, mas acaba falhando neste quesito, pois o roteiro não consegue criar nada de tão interessante. Aliás, o roteiro é bem óbvio, não vai além dos caminhos já percorridos por outros filmes e é quase que impossível não compará-lo ao original, que a meu ver, não o supera. Um filme, de certa forma pretencioso, que pretende ser melhor que o primeiro, mas não consegue. Que pretende revelar uma grande novidade jamais revelada sobre o herói, mas falha em sua premissa. Que pretende ser mais emocionante, mas também não consegue, os dramas de Peter nunca aparecem de forma palpável, se tornando um mero filme de ação que tenta trazer uma carga psicológica ao personagem e não consegue devido ao razoável roteiro e nisso a trilogia de Sam Raimi teve mais êxito, sem a intenção de emocionar, emocionava mais e sem a intenção de ser tão grandioso, conseguiu ser mais memorável. Muito aquém de um diretor que um dia realizou "(500) Dias com Ela. Vale a pena, mas infelizmente não foge do rótulo..."mais um filme de herói". 
  
 NOTA: 6,5




terça-feira, 10 de julho de 2012

Crítica: Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012)

Baseado num seriado norte-americano que fora transmitido pelo canal ABC no final da década de 60, "Sombras da Noite" parecia ser o cenário perfeito para o retorno do visionário Tim Burton, longe das telas desde 2010 com o fraco "Alice no País das Maravilhas". Um filme de época, com direito a fantasmas e uma família disfuncional, elementos que Burton já havia trabalhado antes e mostrado todo seu talento, seja em obras como "Beetlejuice", "Edward Mãos de Tesoura" ou "Noiva Cadáver", entretanto, o diretor carece, diferente desses citados, de um bom roteiro e o resultado acaba que sendo um pouco decepcionante diante de tanta expectativa que girava em torno deste seu retorno. 

por Fernando Labanca

Com mais uma parceria entre Tim Burton e o ator Johnny Depp, aqui o astro interpreta Barnabas, que teve o desprazer de conhecer Angelique (Eva Green), uma bruxa que se apaixona perdidamente por ele no final de século XVIII e devido a sua paixão sem limites, usa seus poderes para matar não só Barnabas como também a bela Josetta (Bella Heathcote), aquela a quem o jovem era apaixonado. Quase duzentos anos depois, mais precisamente no ano de 1972, ele retorna do mundo dos mortos, como um vampiro, sedento por sangue e sem compreender que os anos se passaram. É então que ao chegar em sua mansão, conhece sua família, seus descendentes, cheia de problemas, o garoto que vê fantasmas, a jovem (Chloë Moretz) que gosta de fugir dos padrões, a médica que não aceita a velhice (Helena Bonham Carter), o pai ausente (Jonny Lee Miller) e a mãe que tenta ser o pilar de tudo isso (Michele Pfeiffer), sendo que apenas ela sabe a verdadeira situação de Barnabas. A partir de então, ele tenta recuperar o status da família, reerguer os negócios de pescaria e enfrentar a grande rival, Angelique, que ainda vive e ao saber do retorno do amado tenta a todo custo tê-lo de volta, nem que para isso, ela precise matá-lo outra vez.


Como havia escrito no início, "Sombras da Noite" carece de um bom roteiro. Escrito por John August e Seth Grahame-Smith, não é, porém, a todo momento que eles falham. A introdução é incrível, a maneira como as personagens nos são apresentadas, a rotina mórbida daquela família, a chegada de Barnabas a um mundo que ele desconhece, gerando sempre boas piadas, enfim, tudo é colocado no seu devido lugar e funciona tudo perfeitamente. Para melhorar, ouvimos alguns bons diálogos, humor esperto, bem elaborado, até mesmo nos momentos mais românticos, a dupla de roteiristas se mostraram inspirados. Entretanto, quando o filme caminha para seu final é que a fraqueza daquela estrutura vem a tona. Em um seriado de TV, ter inúmeras tramas é sempre uma qualidade e também pelo tempo, é sempre possível trabalhar diferentes situações de uma mesma história. No cinema, porém, se não houver um roteiro firme que sustente tanto elemento é difícil não fugir do fracasso e é o que ocorre aqui, e em sua conclusão, parece não conseguir arranjar um final decente para cada um desses elementos e tudo acaba de um jeito apressado e nada lógico, desrespeitando toda a trama, chegando a desrespeitar o próprio público, que envolvido na magia daquele universo lúdico e bizarro de Burton se depara com soluções patéticas, onde nada faz realmente muito sentido.

Johnny Depp está lá mais uma vez, cheio de maquiagem interpretando um personagem estranho. Há anos atrás, isso surpreendia, hoje, não mais. Sua atuação é ótima, isso é inegável, mas não vai além do que esperamos dele. O resto do elenco cumpre sua função, por vezes caricatos demais, outras, quase que no piloto automático, Michele Pfeiffer, Jonny Lee Miller, a sempre encantadora Chloë Moretz, a sempre presente Helena Bonham Carter, o divertido Jackie Earle Haley e a novata Bella Heathcote, um pouco sem sal, mas agrada.  O grande destaque, porém, fica para a veterana Eva Green, com seu olhar hipnotizante e seu persuasivo sorriso, a atriz definitivamente rouba a cena, demonstra compreender a brincadeira de Burton, brilha como a vilã e faz tudo ao seu redor parecer pequeno.

Não há como analisar Tim Burton sem não citar o visual de sua obra que mais uma vez é um dos pontos positivos. Com uma bela fotografia e cenários bem construídos, o visual agrada e remete e muito aos trabalhos anteriores do diretor, como "Sweeeney Todd", "Edward" ou "Big Fish". Ainda vemos belos figurinos bem detalhados e que ajudam nas composições das diferentes épocas retratadas. Aliás, muito do que vi em "Sombras da Noite" me remeteu a outras obras de Burton e isso de certa forma é bom, aquele clima de aventura familiar como em "Beetlejuice" e toda aquela forma excêntrica com que ele trata a morte como em "Noiva Cadáver". No entanto, aqui tudo parece um pouco menor, seja pela simplicidade das ideias, sem grandes inovações ou pela simplicidade do próprio formato, onde há poucas locações, tudo parecendo um teatro ou uma pequena série de TV e isso foge bastante da grandiosidade "Burton". Entretanto, por mais que seja uma obra menor do diretor não figura entre os piores dele e se colocado perto de filmes como "Marte Ataca", "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" e "Alice", de fato, parece genial. Apesar de seu péssimo final, consegue divertir e envolver o público em sua trama. Recomendo, mas não tenha pressa, terá o mesmo sentido se visto dublado e com intervalos comerciais daqui alguns anos na TV.

NOTA: 7


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Crítica: Quero Matar Meu Chefe (Horrible Bosses, 2011)

Pegando carona no humor ágil de "Se Beber Não Case", a comédia dirigida por Seth Gordon (Surpresas do Amor, 2008), trás também um trio de protagonistas masculinos, os atores cômicos Jason Sudeikis, Jason Bateman e Charlie Day, bem menos conhecidos do grande público que o trio de coadjuvantes, aqueles que roubam a cena, Jennifer Aniston, Kevin Spacey e Colin Farrell. Se no longa de Todd Phillips, o bando de lobos enchia a cara por pura diversão, a premissa desse se mostra bastante diferente, quando o trio, aqui, para se livrar da opressão no ambiente de trabalho decidem fazer algo bem inusitado, matar seus respectivos chefes. A diversão vem fácil, criatividade, nem tanto.

por Fernando Labanca

Conhecemos os três amigos, que se encontram a noite numa mesa de bar para lamentar a pressão que sofrem no dia-a-dia, mais especificamente, no local onde trabalham. Nick (Bateman) que se mata em seu escritório para conseguir uma promoção, mas só o que consegue é ser traído por seu próprio chefe (Spacey), além de ter que aturar seu constante mau-humor e sua falta de caráter. Kurt (Sudeikis) que após a morte de seu adorável chefe (Donald Sutherland) vê o cargo sendo ocupado pelo herdeiro Bobby (Colin Farrell), o filho idiota e irresponsável que não tem noção de como comandar uma empresa. Já Dale (Charlie Day), enfrenta o problema que nenhum dos outros dois consegue ver como um sério problema, é assediado por sua chefe gostosona e ninfomaníaca (Aniston), mas detesta ter que enfrentar isso por ser apaixonado por sua noiva. Até que decididos a por um fim nisso tudo, eles chegam a conclusão que a única saída é matando seus superiores, é então que eles partem para uma louca jornada, descobrindo o "submundo" do crime e tentando encontrar soluções viáveis para as mortes. 


"Quero Matar meu Chefe" consegue agradar fácil, isso devido ao bom roteiro que leva seus protagonistas a uma inusitada trama, onde cada passo é uma nova surpresa. O fato deles quererem matar seus chefes em nenhum momento parece agressivo demais e em nenhum momento nos convencemos de que a morte seja realmente a única saída, mas para um filme de comédia aceitamos esse pequeno detalhe e embarcamos na história. É tudo muito hilário essa jornada, o trio planejando as mortes mesmo não sabendo como, três homens completamente comuns se envolvendo num assassinato acaba que gerando boa piadas e sequências bastante engraçadas, dando espaço a algumas referências como O Silêncio dos Inocentes, CSI e até mesmo Woody Allen. Consegue ainda manter um certo suspense em toda a trama e este talvez seja um dos grandes triunfos da obra, por prender a atenção do começo ao fim, desde as invasões que o trio faz da privacidade de seus chefes até a curiosidade que nos cerca sobre como esses personagens irão morrer, se é que o plano vai realmente dar certo. O ótimo roteiro acerta também quando nos surpreende em diversas passagens, onde foge completamente do que imaginávamos, se tornando assim, até certo ponto, uma trama imprevisível. Mas peca justamente quando prevê na metade da história como tudo iria terminar, é então que tudo caminha exatamente como o próprio filme havia revelado, tendo então, um final planejado, sem nenhuma surpresa, indo na contramão do que supostamente era, algo original e surpreendente.

O filme tem uma grande arma nas mãos, a composição de seus excêntricos personagens, que por vezes se tornam mais interessantes que a própria história. Entretanto, ao mesmo tempo em que tem com seus personagens um ponto positivo, são eles também que prejudicam algumas passagens. A personagem Julia Harris, por exemplo, chama muito a atenção por ser interpretada por Jennifer Aniston, a atriz se mostra a vontade e desenvolve trejeitos novos, bem diferentes do que havia feito em toda sua carreira, no entanto, está perdida na trama, parece a única que não faz realmente parte de todos os planos, é a única que não interage com outros personagens e a única que parece não ter uma razão para ser assassinada. Colin Farrell aparece pouco, apesar de estar bem caricato, diverte, mas é pouco explorado pelo roteiro. O trio de protagonistas é bastante comum e por isso, perde espaço para os coadjuvantes, isso porque os veteranos do elenco tem a chance de provar talento em composições inovadoras. Jason Sudeikis agrada e assim como Jason Bateman, tem carisma. O pior dos três é sem sombra de dúvida, Charlie Day, que desenvolve algum dos piores momentos do filme, é chato, irritante, imaturo e perde grande parte de seu tempo gritando e agindo de forma caricata e forçada. É então que vemos na tela um tal de Kevin Spacey, e aponta como o grande vilão da história, mais do que isso, o grande personagem do filme, numa atuação admirável, é por ele que a obra vale a pena. Tem ainda boas participações de Jamie Foxx e Julie Bowen.

"Horrible Bosses" é divertido, acima de tudo, entretêm e nos faz esquecer um pouco da realidade, mas não vai muito além. Parece pequeno, é como um episódio bem feito de alguma série cômica de TV, onde os conflitos são fáceis e são resolvidos de forma sem graça, longe de ser algo memorável e bem perto de ser um sucesso na Tela Quente. Vale para reunir um grupo de amigos e dar algumas gargalhadas, vale ainda mais para presenciar Kevin Spacey, e é por ele e pelo bom roteiro que a obra consegue se manter acima da média.

NOTA: 7


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Crítica: Solteiros Com Filhos (Friends With Kids, 2011)

Não muito conhecida aqui no Brasil, a roteirista e atriz Jennifer Westfeldt, de "Beijando Jessica Stein" (2001), retorna depois de tantos anos no mesmo gênero, a comédia romântica, não aquela repleta de clichês e situações forçadas, constrói uma trama madura, original e com pitadas de drama, que emociona e consegue de forma bastante espontânea trazer grandes reflexões. 

por Fernando Labanca

"Solteiros Com Filhos", de longe, até parece uma continuação de "Missão Madrinha de Casamento", isso porque, Westfeldt reúne em seu novo longa, Kristen Wiig, Maya Rudolph, Jon Hamm e Chris O'Dowd, que estiveram juntos na comédia lançada ano passado. Mas não se engane, em nada se assemelha com o filme de Paul Feig, longe das piadas escatológicas e do humor quase que pastelão. O que retorna é a nítida química que existe entre todos eles, parecendo grandes amigos que se reuniram para realizar um projeto, o que de fato, é um dos pontos mais positivos, pois torna toda a obra em algo verossímil, convincente. 

Conhecemos os seis amigos inseparáveis já na fase adulta. Dois casais, Leslie e Alex (Rudolph e O'Dowd) que parecem terem sido feitos um para outro, cheios de planos e compromissos e Missy e Ben (Wiig e Hamm) que possuem uma ligação sexual bastante forte. Além deles, a dupla de amigos, Julie (Westfeldt) e Jason (Adam Scott), aqueles que ligam de madrugada para conversar sobre assuntos idiotas e dividem todas as experiências de vida. Eis que a vida dos amigos muda, quando os dois casais avançam para o próximo estágio, a paternidade. É então que, Julie e Jason analisando o quão amargos e infelizes os quatro amigos se tornaram após o nascimento dos filhos, eles decidem inovar. Desde muito tempo, sonhavam em ser pais, mas temiam o casamento, o compromisso, a rotina, queriam estar ligados com a pessoa a quem mais admiravam sem correr o risco disso ter um fim. Pois bem, os dois tem um filho juntos, mas longe de todas as regras de um casamento oficial, continuam amigos e felizes e toda essa revolução acaba afetando a vida de todos os amigos, pois é quando todos passam a refletir sobre as decisões que tomaram. 


Comédias românticas existem de monte, mas poucas conseguem ser tão eficientes, como é o caso desta. Nos apresenta uma história um tanto quanto simples, mas o roteiro é tão bom que consegue se expandir dentro da tela, é bastante original, foge dos clichês, nos apresenta personagens humanos com conflitos possíveis e convence em cada diálogo, cada situação. É eficiente pois joga uma idéia e o bom roteiro consegue explorar todas as possibilidades disso e alcança êxito boa parte da trama. O roteiro de Jennifer Westfeldt é primoroso, conta toda uma história sem a necessidade de contá-la em detalhes, como por exemplo, a trama acontece durante vários anos e compreendemos inúmeros acontecimentos, principalmente dos coadjuvantes sem a necessidade de mostrá-los, um único diálogo, um único olhar, já deciframos o que nos fora omitido. Como é o caso do casal Missy e Ben, que em poucas cenas na tela, é construída toda uma história e os personagens são bem desenvolvidos, mesmo sem espaço. Melhor ainda quando o roteiro não se limita ao casal principal e todos os conflitos que eles sofrem, ganha muitos pontos quando vai além do que esperamos, quando nos revela o quanto as ações do casal afeta os outros amigos, quais são as consequências que cada personagem sofre. Brilhante. 

Não teria o mesmo efeito sem as grandes atuações. Jennifer Westfeldt, não a conhecia e me surpreendi. Confesso que foi muito bom vê-la em cena, um rosto novo, o que faz tudo ser ainda mais interessante. Nos revela de forma convincente seus sentimentos, desde sua infantilidade e ingenuidade, seu medo de se magoar e sua naturalidade com que enfrenta as situações inusitadas de sua vida. Melhor ainda é quando ela divide a tela com outra grande surpresa, Adam Scott, que realiza alguns dos melhores momentos do filme, de coadjuvante esquecível, Scott prova ser um ator promissor, talentoso. Dentre os coadjuvantes, todos se destacam de forma positiva, da espontaneidade à bela química que o quarteto possui, fazendo as cenas parecer quase que um improviso, Kristen Wiig surpreende num papel mais dramático que o de costume, é uma pena que tem pouco espaço, e seu parceiro Jon Hamm esbanja carisma, juntos, funcionam perfeitamente bem. Assim como Maya Rudolph e Chris O'Dowd que demonstram grande afinidade e convencem. O longa ainda conta com participações de Edward Burns e Megan Fox.

"Solteiros Com Filhos" peca em seu final e peca feio. Com pressa de terminar ou medo de não conseguir vender seu filme, Jennifer nos entrega uma sequência furada, que não faz jus a tudo o que havia construído, toda a originalidade e inovação se perde, vai contra a própria personalidade criada para seus personagens. Um desastre. Entretanto, o filme como um todo é quase que genial, foge do que é convencional, nos oferece uma obra interessante, com ideias bem desenvolvidas que consegue fazer o público refletir, pensar no que já viveu, pensar nas decisões que irá tomar no futuro, o quanto o casamento pode transformar a vida de alguém, mas diferente de todos os outros filmes, o longa coloca alguns "porém", a união de um casal, o nascimento de um filho, tudo ocorre de forma real, portanto, longe de ser um conto de fadas, há a tristeza, o desencantamento, nos mostra a vida de forma palpável, verossímil. Não é aquela comédia que fará o público dar gargalhadas, haverá risos contidos, não desmerecendo o humor, que aliás, funciona. Mas é nos momentos mais românticos e dramáticos que o filme ganha força, onde alcança seu clímax numa incrível cena onde os personagens de Jon Hamm e Adam Scott se enfrentam num jantar entre os amigos, colocando para fora as diferenças que cada um enxerga sobre o casamento, é então que Jason faz uma belíssima declaração para Julie. Não uma declaração de amor, uma declaração de amizade, aquela amizade verdadeira que a gente luta a vida inteira para encontrar. Esta é a intenção do filme, nos fazer pensar sobre o que é melhor na união entre duas pessoas, sobre o quão triste para um filho é ver seus pais serem infelizes pois antes de tudo, não foram amigos. Uma nova definição para o que é família. Original, brilhante, maduro e surpreendentemente, emocionante. Um raridade. Recomendo.

NOTA: 8,5