domingo, 19 de agosto de 2012

Crítica: A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011)

Vencedor do Oscar 2012 nas categorias Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Maquiagem, "A Dama de Ferro" nos revela um pouco mais sobre a misteriosa vida de Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, a única mulher a encarar tal cargo político, nos mostra como ela criou sua voz para ser ouvida num mundo dominado pelos homens. Dirigido por Phyllida Lloyd, a mesma do musical "Mamma Mia!" de 2008.

por Fernando Labanca

No filme, Margaret (Streep), já bastante envelhecida, está prestes a publicar sua biografia, é neste período em que ela passa a reviver algumas lembranças. Se lembra de sua juventude (interpretada por Alexandra Roach), já decidida a fazer algo de importante em sua vida, uma jovem ativista lutando pelo o que era certo, é então que conhece Denis (Harry Lloyd) com quem se apaixona, ao mesmo tempo em que já começa a por seu pé na política. Se lembra de como foi nomeada Secretária da Educação e alguns anos depois Primeira-Ministra, a primeira mulher a ocupar a posição, é quando passa a sentir o peso do poder em sua vida, começa a fazer alguns sacrifícios, como se ausentar de sua vida pessoal, tanto quanto mãe quanto como esposa. Passa a construir sua voz, mostrar que ela era a líder, um obstáculo difícil quando todos ao seu redor eram homens.


Apesar da história ocorrer em um longo período de tempo, o filme se foca em alguns pontos mais específicos. Enquanto Thatcher permanece na política, vemos como plano de fundo algumas referências históricas, com destaque para a Guerra das Malvinas que ocorreu em 1982, e todas as importantes decisões que ela teve de tomar, além dos tantos manifestos dos britânicos, contra inclusive aos atos da primeira-ministra, onde em determinado momento é quase vítima de um atentado, mas sai ilesa. Entretanto tudo isso passa a ser pequenos detalhes, o que nos chama mesmo a atenção é a força da protagonista, como ela se comportava perante a tantas mudanças de seu país, perante a política, como precisava ser firme para provar seu poder e ser ouvida. Claro que o filme tenta amenizar seus atos, ela jamais é vista como vilã, por mais que muitos britânicos acreditem nisso. A personagem é muito forte, tem muita garra, diria até, complexa, mas acredito que tenha faltado mostrar a cara de Margaret de verdade, não colocá-la tanto quanto vitima de seus próprios atos, mesmo quando a personagem falha a impressão é que o roteiro está sempre a seu favor, faltou mostrar de fato o porquê de ser conhecida como Dama de Ferro, pois tenho certeza de que este simples apelido veio por meio de outros motivos, não só por ela ter a voz firme e não aceitar ideias opostas a sua.

Outro foco do longa é sua vida ao lado de seu marido, interpretado por Jim Broadbent, o detalhe, já revelado na primeira cena é de que ele já havia falecido, mas Margaret ainda conversava como se ainda estivesse ao seu lado. Tudo isso para ilustrar o fato de que ela teve que se afastar da mídia justamente por sua demência. E acaba que sendo um lado bastante negativo quando este passa a ser a "grande sacada" do roteiro, a todo tempo vemos os dois conversando e sabemos que ela está louca, tudo para comover o público, mas não funciona, surge como um ato de desespero dos roteiristas em emocionar aqueles que assistem, como se não apostassem no resto da trama, como se a vida política dela não fosse o bastante para preencher as quase duas horas de filme e para preenchê-la eles decidiram forjar esta relação um tanto quanto apelativa para um roteiro que busca em fatos reais contar uma história. O roteiro que é assinado por Abi Morgan (Shame, 2011) tem seus pontos positivos e negativos. É interessante o processo que ela cria para a protagonista, o caminhar de sua vida na política, como ela teve que crescer, como ela se tornou esta mulher forte. Como lado ruim, o filme tenta criar um certo ritmo frenético dos acontecimentos, onde por exemplo, os fatos históricos são jogados rapidamente na tela e nunca sabemos ao certo o que está acontecendo, há cenas curtas que parecem não contar nada de útil e tudo acaba ficando muito vago, desde as coisas que Margaret realiza no parlamento, sua juventude que passa voando diante de nossos olhos e seu relacionamento com os filhos pequenos, tudo muito jogado, sem a necessidade de criar uma linha de pensamento um pouco mais lógica.

O que acaba chamando e muito a atenção é o fantástico trabalho de maquiagem da equipe, muito merecido o Oscar. Conseguem colocar Meryl Streep em diversas fases da vida de Margaret sem parecer falso, tudo é muito real, muito bem realizado, destaque ainda maior para os momentos em que ela está bem velha, deixando a atriz irreconhecível. O figurino tem seu papel e fizeram um belo trabalho também, como o constante azul nas roupas da primeira-ministra, assim como ela realmente usava, e acaba também ilustrando o fato dela não se unir aos outros políticos, ter seus próprios ideais, mais do que ser a única mulher no parlamento, ela tinha outras razões para se destacar, para ser diferente dos outros. A direção de Phyllida Lloyd parece tirar bom proveito desses elementos, principalmente de Meryl Streep. Phyllida, por sua vez, construiu sua carreira no teatro, e quando pega uma responsabilidade tão grande quanto traspor para as telas a vida de Thatcher, ela acaba se empolgando e na tentativa de fazer algo grandioso ela perde um pouco a mão, tenta criar diversas formas para se contar a mesma trama, há utilização de câmera lenta, cenas com documentário fake, cenas filmadas como vídeos caseiros, cenas com vídeos reais de televisão, inclinação diferente de ângulos construindo algumas cenas um pouco estranhas, cortes bruscos, inserção de inúmeros planos numa mesma tomada, enfim, ela começa a vomitar informação demais na nossa mente, criando algo muito confuso, e tudo ocorre de forma tão rápida que fica difícil compreender qual era a verdadeira intenção da diretora.

O que fica claro, porém, ao término do filme é que tudo foi um cenário perfeito para Meryl Streep provar mais uma vez seu grande talento. É de fato, um filme de atuação, a vida de Margaret e todo o resto parecem pequenos diante do que esta atriz realizou em cena. Chega a ser assustador, seus trejeitos, seu modo de falar, de agir, sua voz, seu olhar, é grandioso o que Meryl fez aqui, um show de interpretação, quando achamos que ela já fizera de tudo em sua carreira, ela vem e nos surpreende. É belo seu trabalho, merece ser aplaudida, admirada. Faz este filme valer a pena. Alexandra Roach também merece destaque, irreconhecível pela maquiagem, consegue fazer uma jovem Margaret bastante coerente com a interpretação de Streep, e Jim Broadbent fazendo o que é sua especialidade, o velho carismático, ou seja, não fora um grande desafio para o ator. 

"A Dama de Ferro" é quase que obrigatório para quem admira Meryl Streep, marca um outro grande momento da atriz. Para quem procura descobrir mais sobre a ex-primeira ministra, este não é o lugar certo, a trama acaba que servindo para nos dar aquela curiosidade sobre quem fora esta mulher, o que acaba que não sendo um defeito, a proposta do filme não é contar a história dela, mas tentar entender suas razões, estudar sua mente complexa, claro que o roteiro não perde tempo em romantizar toda sua trajetória e a diretora nem sempre escolhe as melhores formas de passar sua ideia, muitos acontecimentos surgem de forma teatral e não muito realista, no entanto, não deixa de ser um belo filme, que consegue emocionar, que nos leva para dentro da história, que nos faz querer compreender quem de fato é esta dama de ferro. Por mais que tenha seus erros, é fiel a sua proposta. Recomendo, porque ver Meryl Streep no auge de sua carreira ainda se entregando tão intensamente a uma personagem não tem preço. 

NOTA: 7


sábado, 11 de agosto de 2012

Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012)

Em 2005 estreava nos cinemas "Batman Begins", do até então pouco conhecido Christopher Nolan. Na época, era somente mais um começo para o herói, dentre tantas histórias que o cinema já havia visto. Não sabíamos, porém, a grandiosidade de tudo aquilo, o que de fato aquele Nolan estava prestes a realizar. Hoje, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" chega com um final épico, algo que nos últimos anos não tivemos a chance de ver, a saga de um herói, incrivelmente construída, do início ao fim, eleva o nível do gênero para um outro patamar, faz qualquer outro já lançado parecer pequeno, sem graça. O público agradece, Nolan fez um bem para o cinema este ano.

por Fernando Labanca

A história ocorre oito anos após os ocorridos do último filme, onde a morte de Harvey Dent definiu os rumos de Gotham City. Ele passa a ser visto como herói, seu nome foi dado a uma lei onde devido a ela, os crimes desapareceram da cidade e o povo vive um tempo de paz, já Batman, é visto como aquele que causou a morte de Dent. Enquanto isso, Bruce Wayne (Christian Bale) se esconde na solidão de sua mansão, mas se vê obrigado a retornar quando Selina Kyle (Anne Hathaway), uma habilidosa e sedutora mulher cruza seu caminho e estraga seus planos. Ele, retorna como Batman também, ao compreender que a cidade ainda precisava de um herói, capaz de deter os terríveis planos de Bane (Tom Hardy), um homem que diferente de Bruce, nasceu na escuridão mas que também fora treinado por Ra's al Ghul (Liam Neeson), e passa a controlar Gotham levando a diante os ideais da Liga das Sombras.

"O Cavaleiro das Trevas Ressurge" é muito mais uma sequência de Batman Begins do que do segundo filme. Muitos elementos do primeiro filme retornam aqui, acredito eu, aconteceu devido a ausência do vilão Coringa, era a única ponta solta deixada do longa anterior e que não teve a chance de ser continuada. Coringa foi um personagem épico, genial, obviamente fez falta nesta história, mas o roteiro brilhante conseguiu construir inúmeros outros elementos que esta falta acabou sendo pequena, há muita coisa nova, personagens novos, e definitivamente, tudo é muito bom, cada detalhe, cada cena, cada novo ser que surge na tela, tudo com uma extrema qualidade, qualidade que há muito não se via no gênero. É interessante essa conexão que ele faz com o "Begins", é como se conseguisse de forma magistral fechar todas as pontas, fecha um ciclo, busca situações do passado e retorna de forma conveniente, onde tudo passa a fazer sentido, tudo tem um porquê, o que percebemos disso tudo, é que Christopher Nolan é um gênio, parece que tudo fora pensado desde o primeiro filme, pois cada pequeno detalhe faz a diferença, tudo se encaixa, uma trilogia muito bem planejada. 


O que mais surpreende no filme, porém, é a belíssima composição dos personagens. Em certo momento Batman diz aquilo que todos sabemos, Batman pode ser qualquer um de nós e essa é a grande sacada do herói e esta qualidade se torna mais nítida neste filme. Sem poderes especiais, sem apelações visuais, Batman é o que é e a seriedade com que o roteiro nos apresenta o herói, faz dele o melhor que já existiu no cinema, e a ligação que ele tem com a cidade de Gotham, a necessidade que ele tem em salvá-la, diferente dos outros heróis que possuem como única preocupação, se livrar do vilão. Bane como vilão, é definitivamente, menor que o Coringa e o Duas Caras, mas ainda assim se mostra um personagem interessante e bem construído, é assustador até, sua voz modificada e o modo como ele age, sem temer, decidido a implantar o terror e o caos, como mesmo diz, é um torturador, não do corpo, mas da alma, e é exatamente o que o vilão consegue, o medo que causa não é por sua força, mas o quão ele afeta o psicológico das pessoas, até mesmo do público. A outra grande sacada do roteiro é colocar Batman como coadjuvante, não porque o herói não tem força para levar o filme como protagonista, mas sim porque a história de como Gotham precisa ser salva não depende somente dele, porque os heróis são todos, o herói é aquele homem que coloca a mão no ombro de uma criança e lhe dá esperança, este é o Comissário Gordon que é um outro grande herói da trama, desde o primeiro filme, é aquele homem que não é enaltecido pela mídia, mas sempre esteve lá. A composição de Selina Kyle é genial, sua ambiguidade, nunca sabemos ao certo qual o caminho que ela irá seguir, mais interessante ainda é como em nenhum momento ela é chamada de "Mulher Gato". Ainda temos outros personagens fortes que surgem de repente, com destaque, e somente no final compreendemos o quão eles eram importantes na história, como o detetive John Blake (Joseph Gordon-Levitt) e Miranda Tate (Marion Cotillard). Além dos clássicos Alfred (Michael Caine) e Fox (Morgan Freeman). O roteiro incrivelmente consegue, durante as quase três horas de filme, dar destaque para cada um desses personagens, provando a força e a qualidade da obra. 

Assim como o segundo filme da trilogia e diferente de qualquer outro filme de herói já feito, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" trás e muito conteúdo. Não é uma história furada, não necessita de piadas e efeitos visuais exagerados para conquistar o público. Um filme que aposta na inteligência daquele que assiste, constrói uma trama rica em detalhes, com personagens perfeitamente inseridos e cheio de oscilações, complexos, até, eu diria. Um filme maduro, adulto, que leva sua ideia de forma séria e por isso consegue um respeito que nenhum outro filme do gênero conquistou. O longa trata como seu tema principal, o medo e é interessante como essa mesma palavra definiu toda a trilogia, como seus personagens tinham uma ligação com este sentimento. Batman que surge como aquilo que ele mais temia, os morcegos, surge para dividir com os bandidos o que ele tinha medo de encarar, assim como o Espantalho que usava como o medo alheio sua principal arma. E como um ciclo, a palavra retorna aqui e o que é debatido é justamente o medo da morte e como Bruce ausente deste medo era incapaz de compreender as ações de seu inimigo, como temer a morte não nos faz mais fracos, pelo contrário, nos faz mais fortes, pois sem a dúvida do que acontecerá no futuro, sem o receio de falhar, jamais crescemos, jamais encontramos a força suficiente para vencer, o medo trás consigo, a esperança. É belo, então o momento em que Bruce compreende isso, retornando em sua mente a imagem de seu pai e sua antológica pergunta..."porque caímos?", deixando um vazio para sua resposta e este mesmo vazio é preenchido por aquele sentimento em que todos os heróis do filme buscam em si mesmos, pois todos estão em busca de ressurgir, de se reerguer, acreditar no melhor, voltar a ter esperança. Caímos justamente para aprendermos a levantar.


Chega a ser brilhante o ritmo que este filme possui. Este é Christopher Nolan. Daqueles filmes que acabam e realmente bate aquela estranha vontade de levantar e bater palmas, pois é tudo magnífico. Cada cena parece algo memorável, desde a primeira sequência no avião que é simplesmente de tirar o fôlego, passando pela luta entre Batman e Bane, ausente de trilha sonora, sentimos a dor e cada pancada que os personagens levam, as perseguições, a presença de Selina Kyle, que por si só já é um espetáculo, o emocionante diálogo entre Bruce e Alfred, a antológica luta entre policiais e cidadãos no meio da rua, a explosão do campo de futebol, simplesmente genial. E cada um desses elementos fortalecidos pelo som, que assim como todos os filmes de Nolan, parecem diferenciados, fazem o coração parar de bater. A trilha sonora de Hans Zimmer é um show a parte, faltam palavras para descrever a grandiosidade de seu trabalho. Mas é claro que o filme também não escapa de alguns erros, chega a ser estranho como os personagens conseguem se encontrar tão facilmente numa cidade tão grande, sem contar que os heróis chegam sempre no momento e na hora certa, e são nesses momentos que o roteiro deixa a coerência de lado, ou a sequência em que Wayne fica preso, enrola no desnecessário, constrói acontecimentos um tanto quanto inverossímeis e a finaliza de forma bastante clichê e forçada. Entretanto, os erros se tornan pequenos quando há tanto acerto. Um conjunto perfeito de uma direção impecável de Christopher Nolan, com um roteiro genial, inteligente e muito bem detalhado, inserção de personagens ricos interpretados por um grupo de atores talentosos e dispostos a fazerem algo de qualidade, com cenas que ficarão na memória depois de muito tempo. Mais do que um filme memorável, é aquela obra que a gente faz questão de não mais esquecer, pois é algo único e raro.

O longa conta com um grupo de atores admiráveis. Christian Bale é o Batman, ponto. A verdade é que ele acaba sendo o ator que menos tem chance de mostrar talento na trama, mas nenhum outro ator na pele do herói conseguiu convencer tanto quanto ele. Mas o destaque mesmo são os coadjuvantes. Anne Hathaway rouba a cena, a maneira como a atriz se comporta frente as câmeras, capaz de transmitir toda a ambiguidade de sua personagem, auxiliada por sua beleza e carisma, faz muito mais do que ser a heroína sexy, é uma atriz talentosa que deu o seu melhor e entra para a lista do que houve de melhor na trilogia. Tom Hardy, infelizmente tem sua voz alterada, seu rosto escondido, é um grande ator, mas some. Joseph Gordon-Levitt é outro grande destaque na história, tem cenas ótimas, emociona em alguns de seus diálogos e se mostra um dos melhores atores de sua geração. Marion Cotillard, surge menor para uma atriz vencedora do Oscar, e temos sempre a sensação de que ela merecia mais e poderia ter feito algo melhor. Já o veterano Gary Oldman se mostra ainda mais a vontade como Gordon e se destaca por sua grande atuação, assim como Michael Caine que emociona e tem uma performance admirável.

"O Cavaleiro das Trevas" de 2008 foi um filme incrível, de fato, um dos melhores do gênero, conseguiu então, em 2012, um grande concorrente, e o que parecia impossível, Christopher Nolan faz uma sequência a altura de seu antecessor, não o superou, o segundo longa é ainda o ponto alto dos três filmes, no entanto, como conjunto, vemos aqui uma das trilogias mais fantásticas dos últimos anos. Recomendo. Como escrevi anteriormente, Nolan fez um favor para o cinema este ano, mostrou como se faz uma história de um herói, como criar algo grandioso, como se faz um blockbuster sem subestimar a inteligência de seu público, mostrou o que é um final épico, para uma trilogia épica.

NOTA: 9,5





quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Crítica: Valente (Brave, 2012)

A cada ano a Disney Pixar lança um filme e sempre carrega junto de si aquela expectativa no público e a dúvida se o próximo projeto será tão bom quanto os anteriores, logo que a empresa é responsável por verdadeiras obras-primas nos últimos anos, como "Toy Story", "Wall-e" e "Up". E depois de um sucesso atrás do outro sempre veio a pergunta, até quando eles reinariam? E "Valente" vem ao cinema como a prova de que infelizmente a Pixar não passar por sua melhor fase, carente de um bom roteiro, carente, por incrível que pareça, de inteligência e criatividade, itens que estiveram presentes em todos os filmes e que devido a eles nos afeiçoamos às suas animações.

por Fernando Labanca

A Disney desde muito tempo foi aquele estúdio que nos apresentou um mundo lúdico dos contos de fadas, o universo das princesas, dos reis e rainhas. Com um cenário medieval, mais precisamente, uma antiga Escócia, a Pixar retorna ao universo das princesas, entretanto com um tempero a mais, temos como heroína a princesas Merida, aquela que vai contra os padrões, que não aceita aquele velho destino de qualquer filha de um grande reino, casar e ser líder, agir como uma mulher respeitada, seguir ordens. Para seu desespero, Merida conta com a ajuda de sua mãe, que se mantém ao seu lado para lhe dar ordens e ditar tudo e como ela deve ou não deve agir. Eis que Elinor, sua mãe, decide realizar um torneio, colocando três primogênitos de três reinos diferentes, para que disputem a mão de Merida, que não aceita e decide lutar pela própria mão. Como último ato de querer fugir daquilo que já lhe estava pré-estabelecido, ela encontra uma poção mágica capaz de mudar sua mãe e como consequência, seu destino. 


A premissa de "Valente" é ótima, não há como discutir isso, reconstruindo o universo clássico de uma princesa, lhe atribuindo características novas, Merida é de fato, uma personagem interessante, jovem, querendo viver a vida e não simplesmente aceitar sua vidinha comum. A relação que ela tem com a mãe fortalece ainda mais a idéia, quando a rainha vai contra a tudo o que sua filha diz, jamais aceitando suas atitudes, muito comum numa relação mãe-filha. O filme ganha força neste momento, mas é logo destruído quando de repente, muda seu foco e a trama segue por um caminho não tão óbvio, mas muito sem graça. O filme começa com um torneio que tinha tudo para ser interessante, homens disputando por aquilo que a protagonista jamais entregaria, é então que o roteiro simplesmente ignora esses fatos iniciais e segue mais no drama familiar, o grande problema é que para revelar esses conflitos, eles transformam a mãe num urso e pronto, a porta para o fiasco é aberta e a trama vai decaindo a cada passo que segue. Quando soube que a história seria centrada nesta relação entre as duas, isso me animou, mas acabou sendo decepcionante. Os conflitos entre Merida e Elinor são facilmente resolvidos, sem um grande momento, sem grandes inovações, longe do que conhecemos dos roteiros da Pixar. A trama ainda reserva um espaço para o humor que não faz rir e se mostra pobre e por vezes forçado, além de uma forjada aventura, aquela mostrada nos trailers, onde tudo se resume a princesa correndo com seu cavalo por cenários limitados, sem ter que enfrentar nenhum perigo ou nenhum obstáculo, tudo muito rápido, muito fácil, que não diverte e nem empolga.

O que chama mesmo a atenção em "Valente" é seu visual, a cada ano as técnicas em animação se mostram ainda mais aprimoradas e o filme revela um nível assustador, desde os cenários bastante realistas, aos riquíssimos detalhes dos personagens. É claro que o que mais se destaca é o tão comentado cabelo da protagonista. É simplesmente belo, extremamente bem feito, mas chega a ser um grande problema quando o grande atrativo do filme é o cabelo da personagem e não as "aventuras" que ela está vivendo. A trilha sonora ajuda a compor a trama, composta por Patrick Doyle, ele realiza um trabalho bom, mas que não vai além do que se espera de uma história medieval, nada que fique na cabeça ao seu término. 

"Valente" vale por seu visual, apenas. Parece um exercício do estúdio para treinar e mostrar o quão a animação está avançada, mas dessa vez, bem diferente do que a Disney Pixar realizou nos últimos anos, acabou deixando a inteligência e um bom roteiro de lado, optando por caminhos fáceis e sem nenhuma criatividade. E no fim, a sensação que fica é que ele vai contra a tudo o que desenvolveu em sua premissa, a liberdade daquela jovem e aquela ousadia de querer fazer as coisas diferentes, fugir do padrão, tudo parece errado em seu final, pois toda a desgraça que acontece entre a família foi causada por sua ousadia, o que podemos concluir disso? Faça tudo o que te mandam fazer, não fuja dos padrões. Pois bem, a Pixar resolveu pôr isso em prática e fez exatamente o que a trama dizia, não ousou, não arriscou e nisso, acabou realizando seu mais fraco trabalho, longe de ser lamentável, o filme tem suas qualidades, é bem feito e isso é inegável, no entanto se mostra limitado demais, pequeno demais, fraco para um estúdio que nos provou que tudo era possível. 

NOTA: 6