quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Crítica: Ted (2012)

Uma longa piada de mal gosto.

por Fernando Labanca

Escrito e dirigido por Seth MacFarlane, o criador da série de sucesso "Uma Família da Pesada", que resolve arriscar num longa-metragem apostando naquilo que ele sempre fez de melhor, o politicamente incorreto, através de piadas ofensivas e referências nerds. Na tela, ele nos mostra o pequeno John que ignorado pelos meninos de sua idade, procura um novo amigo e é assim que seu desejo mais íntimo se realiza, através de um milagre, seu ursinho Ted se torna real. John (Mark Wahlberg) cresce e mesmo depois de anos, conta com Ted para tudo, o problema é que ele tem uma incrível namorada (Mila Kunis), que passa a questionar sua relação com seu urso de pelúcia, é neste momento em que precisa tomar a decisão mais importante de sua vida, sobre quem ele deve escolher para continuar ao seu lado. 

 "Ted" é definitivamente algo bem diferente, algo que não se vê com muita frequência nos cinemas. O que de início pode parecer bizarro o fato do ursinho ganhar vida, o roteiro consegue driblar muito bem esta estranheza e transforma este inusitado evento em algo natural e logo nos primeiros minutos nos convencemos sobre aquela ideia. Desde o surto dos pais de John até as entrevistas em programas televisivos, acreditamos, pois Seth faz a brincadeira parecer bem real e tudo funciona. O grande problema, porém, é que funciona nos primeiros quinze minutos. Não demora muito até que a novidade deixa de ser novidade, quando isso acontece, o pobre roteiro não consegue mais preencher seu tempo com alguma coisa útil, o nível das piadas continua o mesmo, são até que divertidas e por vezes bem interessantes, mas o filme se torna algo vazio quando a única coisa boa a oferecer são suas piadas, não mais sua história que depois dos primeiros minutos já não nos oferece mais nada, pura enrolação. É nítida a intenção de MacFarlane, um grande pretexto para por em uso seu humor politicamente incorreto e mostrar toda sua referência nerd, entretanto para se fazer cinema é preciso muito mais que isso, comédia é mais que piadas aleatórias que nada alteram a trama, infelizmente Seth provou não compreender isso.


O roteiro é problemático. Depois de apresentar os personagens e seu universo, nada mais acontece e até seu final são misturadas na tela situações lamentáveis, num filme que nada tem a dizer, tenta ainda colocar uma lição de moral como se estivesse passando uma linda mensagem. Não, não está. Para piorar tenta inserir outros gêneros que nunca funcionam. O romance entre o casal principal é decepcionante e nem mesmo a relação dos dois foi capaz de prender minha atenção, já o bizarro suspense na parte final, coloca o ator Giovani Ribisi em situações "vergonha alheia" num personagem totalmente fora de contexto que infelizmente tem grande importância na trama. Como diretor, Seth MacFarlane também decepciona, ao perceber que de fato não há nenhuma grande cena no filme, muito pelo contrário, uma montagem pobre, sequências feitas por alguém sem nenhum intuito de fazer um cinema de qualidade.

Esperar uma grande atuação de Mark Wahlberg é querer demais, faz o mesmo de sempre. É uma pena que nem mesmo Mila Kunis conseguiu salvar o filme, é linda e carismática, mas sua personagem é fraca. O urso Ted acaba sendo o grande destaque, infelizmente, apesar de ser um bom personagem, não teve o que fazer ali além de fumar e fazer piadas ofensivas. Dizem que cada filme tem sua proposta e que é necessário compreender o universo que cada um está inserido, como se filmes como este não pudessem ser crucificados pois dentro "de sua proposta" são corretos. Compreendo a proposta de "Ted" e ainda assim o vejo como uma grande bomba, não estou o comparando com nenhuma obra prima do cinema e também não esperava ver um longa com diálogos complexos e personagens profundos, no entanto, não acho errado esperar no mínimo inteligência e originalidade de qualquer filme que assista, e este de fato, passou bem longe desses critérios. Enfim, pretendia ser polêmico e inovador, mas é pequeno demais para alcançar tal feito, é chato e muito mal elaborado. Uma grande decepção.

NOTA: 3



domingo, 28 de outubro de 2012

Crítica: Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania, 2012)

Foi-se o tempo em que filmes de animação tinham um bom roteiro como sua principal arma, onde os estúdios não só se preocupavam com as novas técnicas, havia por trás de tudo, uma grande ideia. "Hotel Transilvânia" vem, assim como as outras animações mais recentes, ilustrar este novo cenário do gênero, excelente no visual, fraco de história.

por Fernando Labanca

Conhecemos este tal de Hotel Transilvânia, onde os monstros curtem suas férias longe dos humanos, seres que os tem perseguido durante séculos. Comandado pelo Conde Drácula, que usa aquele mesmo lugar para cuidar de sua filha, Mavis, no qual está prestes a completar 118 anos. Perdeu sua esposa há muito tempo e desde então, a protege da crueldade do mundo além daqueles portões, no entanto, Mavis sonha em conhecer o mundo. Para completar os 118 anos dela, Drácula conta com a ajuda de seus antigos companheiros, Frankenstein, a Múmia, Homem Invisível, entre outros, para mais uma tradicional e entediante festa. Seus planos mudam por completo, quando um mochileiro pirado, Wayne, vai parar no Hotel acreditando ser uma festa a fantasia, para não por tudo a perder, Conde o faz agir como um monstro também, porém, ele acaba conhecendo Mavis, com quem acaba se apaixonando.


De início a ideia até parece boa, mas não demora muito até tudo se tornar assustadoramente ruim. A premissa é interessante, não há como negar, a história do Conde Drácula como pai superprotetor, as mentiras que ele conta para proteger sua filha, a vontade de Mavis em conhecer o mundo, a relação dela com aquilo que mais desejava conhecer, um humano, sem saber, pois este se faz de monstro, o fato de existir um local onde esses monstros se escondem, enfim, há um roteiro preocupado em detalhes e com essas e outras grandes sacadas o filme nos apresenta uma boa introdução. Eis que a cada cena, a cada nova situação, o roteiro vai mostrando sua fragilidade e o quanto sua boa premissa é desperdiçada, personagens fracos e diálogos que insistem num humor pobre, com direito a piadas relacionadas a arrotos e similares que há anos não fazem mais graça e para piorar às vezes perdem tempo com sátiras que carecem de originalidade, como a cena mostrada de "Crepúsculo", como se nenhum outro filme tivesse feito esta mesma piada. 

Para piorar, temos no comando da animação, Genndy Tartakovsky, o criador de alguns dos maiores sucessos em séries animadas, como "As Meninas Super Poderosas" e "O Laboratório de Dexter". É um cara talentoso, caso contrário, não teria em seu currículo tantos acertos, no entanto, ao se colocar no comando de um longa-metragem, parece esquecer que o contexto é outro, as necessidades são outras. Assim, "Hotel Transilvânia" é guiado de forma frenética, sem pausas nem vírgulas, onde um amontoado de personagens e situações são jogadas na tela, seguindo exatamente o mesmo dinamismo de um episódio de desenho animado, logo seu ritmo cansa, ainda mais quando percebemos que nada de fato está sendo contado, entra e sai de personagens, de piadas mal elaboradas, onde cenários e locações são pouco explorados, por exemplo, o grandioso Hotel não passa de dois cômodos, o quarto de Mavis e o salão principal, muito pequeno para o gênero, não funciona, há todo instante temos o sentimento de que falta algo. O filme então, acaba não indo além de um pobre desenho animado divertido que passa na televisão em um sábado qualquer, em uma emissora qualquer, facilmente esquecido. 

Ainda há uma grande chance de conquistar as crianças, é claro. Piadas fáceis e história redondinha com direito a romance e número musical no final, nada que não tenha dado certo antes. Como cinema, infelizmente, é um grande equívoco, apesar do belo visual tem uma mistura de clichês mal inseridos e personagens extremamente caricatos.

NOTA: 4




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Crítica: 50% (50/50)

Mais uma pérola do cinema indie norte-americano que vai direto para as locadoras aqui no Brasil, sem ter a chance de conquistar um público. Baseado em fatos reais, mais especificamente na história de como o escritor Will Reiser, o mesmo que roteirizou o filme, enfrentou seu câncer. A luta contra a doença mostrada de forma leve, descontraída, com muito humor e palavrões, mas sem deixar de ser comovente.

por Fernando Labanca

Joseph Gordon-Levitt interpreta Adam, saudável rapaz que certo dia descobre que tem câncer e que tem apenas 50% de chance de sobreviver. Tem apoio de sua namorada Rachel (Bryce Dallas Howard) mesmo mostrando nítido desconforto com a situação e ainda tem que aturar o descontrole de sua mãe (Anjelica Huston). Para piorar tudo, descobre que estava sendo traído por Rachel, através de seu grande e fiel amigo, Kyle (Seth Rogen), aquele que faz de tudo para levar vida e humor a sua rotina e ajuda a enfrentar as dificuldades de estar doente. Adam ainda passa a se encontrar com uma analista, Katherine (Anna Kendrick), iniciante na profissão, mas que logo percebe que seu cliente precisava muito mais do que termos técnicos.

O cinema indie tem como característica trazer leveza aos assuntos sérios, as definitivas comédias dramáticas, ou como alguns dizem, as dramédias. Foi assim com a gravidez na adolescência em "Juno" ou até mesmo a catástrofe do fim do universo no recente "Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo". Não há dor ou conflito que este gênero não possa trabalhar. A luta contra o câncer é a premissa da vez e o que de início pode parecer clichê, "50%" vai muito além do "fazer rir para não chorar", não dispensa o humor, muitas vezes politicamente incorreto e o que em muitos filmes a vítima sai chorando pelos corredores, aqui, o protagonista sai feliz com sua erva, jamais compreendendo a intensidade do problema. No melhor do estilo "Judd Apatow", mesmo que este não esteja envolvido no projeto, temos Seth Rogen representando a nova geração das comédias e tudo funciona bem e diverte. Inevitavelmente, o longa cai no drama, seria difícil fugir por completo, mas felizmente, este não é um problema, muito pelo contrário, é através do drama que o filme alcança seu ápice, é nele que conhecemos a fragilidade dos personagens, é quando o roteiro passa a humanizar cada um deles, é então que compreendemos a profundidade da obra e o quanto ela se difere das demais já lançadas. 


Mais do que a história de um jovem lutando contra uma doença, é sobre como sua doença altera a vida das pessoas ao seu redor, ou até mesmo como altera sua relação com elas. É bastante interessante a personagem vivida por Bryce Dallas Howard, apesar de pouco explorada, onde através da pena que sentia de Adam foi incapaz de magoá-lo, omitindo o fato de não gostar mais dele, como se não pudesse haver mais problemas em sua vida além do câncer. A relação que o mesmo tem com sua mãe é outro ponto alto do roteiro, o distanciamento que ele tem com ela, onde somente a doença foi capaz de uni-los. É belo também a história dos iniciantes, Adam que não sabe como viver sem saúde, que não sabe lidar com os obstáculos, que não é capaz nem mesmo de sofrer justamente por não compreender o que é ter câncer, no outro lado, temos Katherine, a analista, iniciante na profissão, que mal sabe cuidar de seu cliente, é então que ao decorrer da trama, um acaba percebendo o quanto precisa do outro, mais do que um cliente para cuidar, mais do que aprender, ela precisava sentir. São nestes momentos em que se comprova a qualidade do roteiro assinado pelo próprio Will Reiser, que consegue fugir dos clichês, fugir do dramalhão, mas sem deixar de ser complexo, profundo e emocionante.

Joseph Gordon-Levitt mais uma vez provando ser um grande ator, se destacando ainda mais nas cenas dramáticas. É divertido vê-lo atuando ao lado de Seth Rogen, a dupla funciona, por vezes, tudo parece um grande improviso como a excelente sequência em que Adam raspa cabeça, mesmo que Rogen não seja capaz de fazer nada mais além do que já mostrou em outros filmes. Anna Kendrick é uma querida, a película se torna ainda mais encantadora com sua performance, com aquele jeitinho único que só ela sabe fazer. Eis que ainda vemos na tela a veterana e sumida Anjelica Huston, em mais uma grande atuação, construindo algumas das melhores cenas. Enfim, elenco afiado interpretando personagens muito bem escritos, através de um roteiro bem elaborado que enche a tela de bons diálogos, que mistura humor e drama de maneira eficiente. De bônus uma incrível trilha sonora, não só a instrumental composta por Michael Giacchino, mas também a excelente seleção de músicas, entre algumas bem alternativas, ainda encontramos Radiohead e Pearl Jam. Perde alguns pontos por demorar a decolar, até a metade do longa, tudo parece um pouco perdido, mas logo se recupera e prova sua força e qualidade. Recomendo.

NOTA: 8,5



sábado, 13 de outubro de 2012

Crítica: Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place, 2011)

Nasceu no Festival de Cannes do ano passado, no qual concorreu na categoria Melhor Ator para Sean Penn. É o primeiro trabalho em solo norte-americano do italiano Paolo Sorrentino e conta, através de um road movie bastante peculiar, a trajetória de um ex-astro do rock decadente em busca de vingança.

por Fernando Labanca

Conhecemos Cheyenne (Sean Penn) e seu estranho mundo, é um astro da música que não pisa no palco há mais de duas décadas, chegou aos cinquenta anos e vive de sua antiga renda ao lado de sua companheira (Frances McDormand) numa mansão. No entanto, age como nos tempos em que era um rockstar, como se fosse um adolescente, transvestido daquilo que ele não é, fala de modo estranho, age de forma excêntrica, sem muitas responsabilidades e com muito pouco com que se preocupar. Eis que decide viajar para Nova York, assim que recebe a notícia que seu pai estava mal de saúde, um homem com quem não conversava há trinta anos. Porém, chega tarde demais, ele havia falecido e como último ato para seu pai, decide se vingar, partindo pelas longas estradas dos Estados Unidos, em busca daquele que o torturou no campo de concentração de Auschwitz nos tempos de guerra.

"Tem algo errado aqui, não sei o que é, mas tem." Esta frase é dita por Cheyenne durante todo o filme, diante de cada situação bizarra que enfrenta em sua vida. Curioso o fato desta mesma frase traduzir o sentimento que senti durante toda a trama, há algo de muito errado em tudo aquilo, mas é sempre difícil de definir exatamente o que é. Assim que o filme termina se instala um sentimento de vazio, um road movie que não nos leva para longe, que viaja mas não sai do lugar. A impressão que fica é que Paolo Sorrentino pensou em seu roteiro em partes, mas se esqueceu de visualizá-lo como um todo. Tudo é extremamente bem feito, cenas cheias de detalhes, muitos deles desnecessários, mas tudo acontece com um cuidado que chega a ser comovente, a direção de Sorrentino é definitivamente primorosa, as situações mostradas nos prende pela excentricidade, pela curiosidade de compreender aquele universo, há também diálogos inteligentes que por vezes surpreendem. No entanto, enquanto esses elementos funcionam perfeitamente bem isoladamente, se tornam incoerentes quando vistos como um todo, uma sequência de situações aleatórias, que separadas, são belas, mas juntas, não funcionam, é como se não fizessem parte de uma mesma ideia. É extremamente nonsense sua busca por vingança, a relação daquele astro com o Holocausto, pensamentos tão distantes que não há um porquê de estarem no mesmo roteiro. Chegamos ao seu fim e mal nos lembramos de seu começo, logo que não há nenhuma ligação entre eles. 


"Aqui é o Meu Lugar", apesar de sua nítida incoerência narrativa, possui seus momentos brilhantes, isso devido a belíssima direção de Sorrentino, que constrói cenas muito bem planejadas, visualmente falando, é então que a fotografia se torna um grande destaque. A trilha sonora é outro ponto positivo, enaltecendo cada cena, cada sentimento. Alguns diálogos, também, são quase uma bela poesia, "Há muitas formas de morrer, a pior delas é continuar a viver", "antes do inferno, havia meu lar", entre outras vindas de um roteiro bem escrito e bastante inspirador. Muito desses diálogos servem para costurar a personalidade do protagonista ao decorrer do filme, é ele a grande atração de tudo, o longa cativa pela peculiaridade de sua vida e de sua jornada, mesmo que no fim, ela não chegue a lugar algum. Para isso, Sean Penn em mais uma boa atuação de sua carreira, porém alguns trejeitos soam forçados como a soprada constante em seu cabelo caído na testa e de fato não se compara aos grandes momentos do ator no cinema, mas ainda assim, se destaca, consegue traduzir bem este estranho homem, sem parecer cômico demais, exagerado demais, trás naturalidade, algo que parecia impossível. Ainda revemos a sempre ótima Frances McDormand e conta com algumas boas participações de um elenco desconhecido, tendo com uma das melhores sequências, a participação da irlandesa Kerry Condon que emociona por sua delicadeza. E como curiosidade, a ilustre presença de David Byrne, o vocalista da banda Talking Heads, no qual o próprio título do filme teve como inspiração uma de suas canções.

Vale pele originalidade e pela qualidade, por mais que tenha seus defeitos, não deixa de fazer parte de um cinema raro. Mesmo fora de seu país, Paolo Sorrentino realiza um trabalho, no mínimo, interessante, pecou em seu roteiro, que mesmo possuindo bons diálogos e boas intenções, não consegue criar um foco em sua narrativa, construindo um amontoado de situações aleatórias, desperdiçando uma premissa que de início pareceu boa, deixando seu grande personagem vagando em direção ao nada, onde sua complexidade e peculiaridade são ignoradas em prol de um destaque sem fundamento, o campo de concentração de Auschwitz, a história de seu pai, as torturas que sofreu, enfim, não era o momento para tais discussões, logo que tudo acaba sem grandes conclusões. No entanto, ainda consegue divertir em diversas passagens e emocionar com a trajetória de Cheyenne, este homem que esqueceu de crescer, que mais do que ir atrás de vingança, foi atrás de uma dor real, que fizesse ele sentir algo profundamente, mesmo que esta dor não fosse sua, queria sentir vida, a vida que o vazio de sua rotina o fez esquecer. 

NOTA: 7





quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Crítica: Rock of Ages - O Filme (Rock of Ages, 2012)

Desde a estreia de "Moulin Rouge" em 2001, que marcou a retomada dos musicais, a indústria cinematográfica percebeu que ainda existia espaço para o gênero nas telas,. Desde então, os principais nomes da Broadway passaram a ter suas adaptações para o cinema. A adaptação da vez é "Rock of Ages", história contada através dos clássicos do rock da década de 80/90 que conta com a direção de Adam Shankman (Hairspray) e com grandes nomes no elenco como Tom Cruise e Catherine Zeta-Jones.

por Fernando Labanca

Através das canções de Journey, Guns n'Roses, Bon Jovi, entre outros, conhecemos a trajetória de Sherrie (Julianne Hough), a garota boba do interior, que saiu da cidade pequena em busca do grande estrelato. Seu sonho era ser cantora e por ironia do destino, acaba conhecendo Drew (Diego Boneta), que trabalha no bar de uma grande casa de shows de rock, que tem como dono Dennis Dupree (Alec Baldwin), que por sua vez, tem uma grande arma para o grande sucesso do local, as apresentações da banda Arsenal. Stacee Jaxx (Tom Cruise) é um mega astro do rock, vocalista da banda que pretende seguir carreira solo, mas tem em seu pé atrapalhando seus planos, seu próprio empresário, Paul (Paul Giamatti). É então que Drew decide colocar Sherrie para trabalhar no local, e juntos lutam em crescer, pois ambos almejam o mesmo destino, a música, no entanto, a vida não é nada justa e nada fácil e logo se veem caminhando caminhos totalmente opostos do que estavam planejando. Para piorar, a primeira dama da cidade, Patricia Withmore (Catherine Zeta-Jones) está decidida a acabar com a promiscuidade que o rock infestou pela cidade.

É preciso gostar e compreender o formato de um musical para apreciar o filme. Músicas que surgem do nada, personagens que começam a cantar no meio da rua como se fosse a coisa mais natural do mundo. Para muitos, isso ainda pode parecer estranho, entretanto, se admirar essas liberdades que o gênero permite, "Rock of Ages" se torna um programa bem interessante. Adam Shankman que já dirigiu "Hairspray- Em Busca da Fama", demonstra entender como os musicais funcionam e faz deste filme um grande espetáculo, seja visual ou sonoro. Por vezes parece que o foco do longa nem é seu roteiro, sua trama fica a todo instante no segundo plano, onde as canções cantadas por um elenco afiado é quem realmente brilha. Por um lado isso é ruim, temos a sensação de estarmos vendo uma maratona de clipes, onde a história pouco importa. Por outro lado, as cenas são tão bem feitas, as coreografias, as performances convincentes e geralmente divertidas dos atores e uma seleção rica de canções que provavelmente farão muita gente cantar junto, prendem a atenção e fazem o ingresso valer a pena. No fundo "Rock of Ages" é uma grande brincadeira, funciona quase como uma sátira dos musicais, abusa dos clichês e não tem vergonha em admiti-los, usa das músicas para compor grande parte das piadas, não destruindo a imagem do rock, muito menos a dos musicais. Uma brincadeira bem realizada, bem intencionada, que funciona grande parte do tempo.


É bom deixar claro que o filme não foi feito para quem curte rock, aliás, provavelmente, estes poderão sair até um pouco decepcionados. É uma versão bem mais limpinha e mais bonita, infelizmente, por vezes, parecendo algum episódio de "Glee". O filme tem atitude, as canções são boas e as adaptações e mash-ups ficaram interessantes, mas é nitidamente destinado a quem admira musicais e não para os que ouvem rock e se identificam com aquelas bandas. Grande parte disso ocorre por colocarem Julianne Hough e Diego Boneta como protagonistas. Ela, cantora country e atriz iniciante. Ele, ex-ator de Rebelde. Enfim, além de estragarem grande parte das cenas, não há nada que nos faça convencer que eles fazem parte daquele universo, não há química entre eles e os diálogos são bem fracos. São assim que os coadjuvantes surgem e fazem deste filme algo melhor. Tom Cruise é quem definitivamente mais se destaca, surpreende, eu diria. A trama acaba criando um certo suspense em torno do personagem, como se ele fosse algo grandioso, digno de muito respeito e, de fato, Cruise merece muito respeito ao interpretar Stacee Jaxx. Faz dele o que há de melhor em "Rock of Ages", convence e muito no palco, canta bem e rouba a cena. Catherine Zeta-Jones é outro ponto bem positivo, infelizmente, pouco aproveitada. Mary J.Blige canta maravilhosamente bem, mas sua personagem acaba tendo um destaque desnecessário, está ali para cantar mesmo. Russell Brand e Alec Baldwin fazem uma boa parceria, divertem e fazem alguns bons números musicais. Malin Akerman surge para algumas cenas mais ousadas e não decepciona ao soltar a voz. 

Se Julianne Hough não convence com sua personagem, pelo menos não atrapalha os números musicais. Tem espaço para ela no excelente mash-up "Just Like Paradise / Nothin' But a Good Time" e "Shadows of the Night". Boneta também não faz tão feio na boa introdução ao lado de Russell Brand e Baldwin em "Juke Box Hero / I Love Rock n' Roll". Tom Cruise surpreende em "Wanted Dead or Alive", de Bon Jovi e "Paradise City" do Guns. E Zeta Jones que surge encantadora e fatal em "Hit Me With Your Best Shot", de Pat Benatar e ao lado de Russell a ótima "We Built This City / We're Not Gonna Take It", dois dos melhores momentos do filme. Ainda temos outras excelentes performances como em "Here I Go Again" de Whitesnake e "Every Rose Has Its Thorn" do Poison. Enfim, música de qualidade não falta ao decorrer de "Rock of Ages" e a cada cena, uma nova boa surpresa, que dá aquela vontade de ter a trilha sonora e faz com que saímos da sala de cinema com um sorriso no rosto, cantando os refrões viciantes.

"Rock of Ages" tem lá seus defeitos e são bem nítidos. Seja pelos clichês, a falta de química do casal irritante principal, o humor, às vezes apelativo, a ausência de uma boa história para contar. No entanto, ainda assim, entra para a lista dos musicais que merecem ser vistos, como disse anteriormente, é uma grande brincadeira, que em nenhum momento tem a intenção de ser levado a sério. É no fundo, uma piada muito bem realizada, que funciona como cinema e não compreendo por ter sido tão ignorado aqui no Brasil. A história é boba, pequena, mas em nenhum momento cria um desinteresse. O filme segue por bons caminhos, agrada, diverte, e nos faz querer cantar, ou seja, tem tudo o que um bom musical tem. E de bônus, um grande elenco cantando excelentes canções. Recomendo. 

NOTA: 8



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crítica: Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo (Seeking a Friend to the End of the World, 2012)

A catástrofe do fim já foi tema de diversos filmes, seja em ficções científicas com direito a explosões e muitos efeitos, seja nos dramas mais intimistas como "Melancolia" de Lars Von Trier ou o mais recente "O Abrigo". O gênero da vez a alcançar tal premissa é o cinema indie norte-americano, com personagens excêntricos, boa trilha sonora e referências a cultura pop, o fim do mundo nunca foi tão divertido e gostoso de se ver como nesta obra. 

por Fernando Labanca

Acompanhamos as últimas semanas da Terra, logo que o asteroide Matilda está prestes a colidir com o planeta. É então, que cada grupo de pessoas reage de uma forma diferente. Há aqueles que surtam, botam fogo nas ruas e se suicidam e há aqueles que passam a ver cada dia como se fosse o último, aproveitando a vida como nunca. E há Dodge (Steve Carell) que não se encaixa em nenhum grupo, vive sua vidinha pacata como se nada fosse acontecer, acabara de ser abandonado por sua mulher e todos os dias vai vender seguros num escritório. Sua rotina muda quando Penny (Keira Knightley), uma vizinha até então desconhecida vai parar na sua porta, e ao descobrir que ela mantinha correspondências dele em seu apartamento, percebe que essa ironia do destino havia destruído sua vida, isso porque a pessoa que Dodge mais amava tentava se corresponder com ele, é então que a ficha cai, ele vai morrer sozinho, sem alguém para amar. 

Decidida a arrumar seu grande erro, Penny o leva numa jornada para reencontrar a tal mulher do passado, e é nesta jornada que eles encontrarão com diversas pessoas, cada uma com seus medos e teorias e passam a usar deste tempo para refletir sobre suas próprias vidas, sobre o que perderam pelo caminho e ainda podem resgatar. 


"Vocês ouvirão a contagem regressiva para o fim dos dias, junto com todos os seus clássicos favoritos do rock". É assim que o longa metragem escrito e dirigido por Lorene Scafaria se inicia, já deixando bem claro sua verdadeira intenção e é com esta mesma personalidade que o roteiro é guiado, do começo ao fim. Utilizando da ironia e estranheza daquele universo como base de seu humor, aproveitando desta situação tão inusitada para criar, aliás, recriar o fim do mundo, de uma forma jamais vista antes e que agrada pela originalidade e surpreende ao ser tão eficiente e tão equilibrado, o roteiro que transita de forma natural entre a comédia, romance e drama, parece não perder a linha em nenhum momento e se firma como uma das mais brilhantes e interessantes obras sobre o tema. Eficiente, por conseguir trabalhar todas as questões possíveis, os noticiários que nos informam sobre o ocorrido e todo o processo que aquela sociedade enfrenta, de forma clara e muito bem desenvolvida ao decorrer do filme, ainda deixando espaço para os conflitos vividos pelos protagonistas, que divertem e emocionam na medida certa. É válido citar outra grande qualidade do roteiro, como cada pequeno detalhe parece fazer diferença no resultado final, seja elementos simples, como o passado de Peny com a família, o fato dela dormir demais ou sua afeição pelos LP's, onde tudo parece muito bem pensado, arquitetado para seu gran finale.

É interessante como "Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo" consegue transmitir tantas ideias e tanto sentimento. Em uma das cenas mais brilhantes do filme, Dodge participa de uma festa no subúrbio, mais do que explorar a superficialidade dos norte-americanos, ele explora a superficialidade dos humanos, onde uma mulher se questiona sobre o porquê não poder sair da linha, viver a vida loucamente enquanto todos fazem o mesmo, mas ela precisa se segurar pois tem uma imagem a zelar. Acredito que seja sobre isso, sobre como nós, seres humanos, com medo do amanhã, com medo das consequências, medo do que podem falar, de como os outros nos veem, nos fechamos ao mundo, às possibilidades, como saber que existe o amanhã nos impede de ser quem realmente somos, seria mesmo necessário o fim do mundo para aprendermos a viver a vida como deve ser vivida? Longe da obviedade "viva como se fosse o último dia", o filme nos traz uma deliciosa sensação, a simplicidade das coisas, a nostalgia de um tempo onde as relações eram mais verdadeiras, e assim como os LP's da protagonista, onde a qualidade do som foi trocado pela praticidade da tecnologia, infelizmente, assim aconteceu com as relações humanas. E tudo isso é tratado com bastante delicadeza e humanismo.

No decorrer da história, vamos nos deparando com diversas participações especiais no elenco, como Melanie Lynskey, Adam Brody, Martin Sheen e todos se destacam. Mas é Steve Carell e Keira Knightley que dominam a tela, e com seu tom mais intimista, a trama tem a relação deste inusitado casal como seu principal foco. Carell parece confortável neste tipo de papel e se sai bem, assim como Keira, que apesar de mais uma vez surgir histérica, convence como a louca Penny e acaba surpreendendo em diversas passagens, como quando conversa com sua família pelo telefone ou na cena final, emociona de forma intensa e se mostra bastante competente. 

Um filme original, divertido e extremamente comovente, que vai na contramão do que já foi feito sobre o caos universal, onde cada cena é uma surpresa, nunca sabemos qual os próximos passos dos personagens. O longa termina e fica em nossa mente suas reflexões, passamos a imaginar como seria viver num mundo como aquele retratado, onde somos realmente livres, onde todas as pessoas se igualam, o dinheiro e o status já não significam mais nada, onde a única coisa que nos resta são as relações, o amor, a amizade, e do que vale a vida sem essas coisas? E para fechar com chave de ouro, "Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo" nos apresenta, eu diria, um dos melhores finais que o cinema presenciou este ano. Surpreendentemente bom, acaba emocionando muito mais do que parece, de forma intensa e impactante. Uma experiência única e prazerosa, uma grata surpresa indie. 

NOTA: 9,5