sexta-feira, 31 de maio de 2013

Crítica: Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989)

Lançado em 1989, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro e tem Peter Weir como diretor, que nos últimos anos realizou pouquíssimas obras como "Caminho da Liberdade". Um belíssimo e inspirador filme que nos faz pensar sobre como aproveitamos nosso dia, nossa vida, nos faz refletir sobre pelo o que se vale a pena viver. Uma obra milagrosa, magnífica, enfim...um clássico!

por Fernando Labanca

Tradição, honra, disciplina e excelência. Estes são os pilares que sustentam uma escola preparatória para garotos, com leis rígidas e uma doutrina conservadora. Neste local há jovens que estudam para serem médicos, advogados ou algum outro cargo importante, pressionados pelos pais e pela própria sociedade. Até que eles são apresentados ao novo professor de inglês, John Keating (Robin Williams), com seus métodos nada ortodoxos, ele tenta através da poesia, inspirar esses jovens e fugindo um pouco daquela antiga tradição, Keating acaba causando um certo impacto entre os outros professores e principalmente entre os alunos, que passam a refletir sobre o que realmente querem da vida. Keating os ensina a essência do "Carpe Diem", explorar a aproveitar o máximo o dia, os instiga a viver a vida como deve ser vivida, a viver uma vida extraordinária e principalmente, os inspira a perseguir suas paixões individuais e a lutar por elas. Eis que um grupo de alunos, como Neil (Robert Sean Leonard), Todd (Ethan Hawke), Charlie (Gale Hanson), Knox (Josh Charles), entre outros, tão empolgados com essa nova aula, pesquisam sobre a vida de John no colégio quando ainda era um estudante e decidem reabrir um grupo de estudos iniciado por ele anos atrás...a "Sociedade dos Poetas Mortos".


"Sou um poeta morto! Fui para os bosques viver de livre vontade para sugar todo o tutano da vida, para aniquilar tudo o que não era vida e para, quando morrer, não descobrir que não vivi"

Mais do que aprender, estar em uma escola sempre acaba tendo um significado maior, é onde crescemos como pessoas, uma jornada de auto descobertas, de novas experiências. "Sociedade dos Poetas Mortos" consegue com maestria traduzir esses sentimentos, colocando alunos que de início tão acostumados com a tradição, se veem inspirados por um professor, é então que ganham vida, e na poesia descobrem a liberdade, a fome de viver, de ser alguém. É belo a trajetória desses personagens, que aos poucos conquistam a coragem de se aceitarem pelo que são, pelo o que amam, descobrem que o sentido da vida não será encontrado nos estudos que os levarão a serem médicos, advogados, o sentido está na luta por aquilo que os inspira. É belo o que Keating acaba levando a estes jovens, o que se torna quase que impossível não se afeiçoar a este grande personagem, que mesmo já mais velho, é um novato no colégio, tem a coragem de um adolescente, pronto para quebrar certas regras. Chega até ser previsível o fato de que suas atitudes teriam uma consequência ruim, de que seria mal visto por seus superiores, no entanto, o filme, com seu belíssimo e bem trabalhado roteiro, nos surpreende em seu final, trazendo algo impactante, e aquele sorriso leve e involuntário que permanece durante toda a obra, some e dá lugar as lágrimas, a emoção.

Em seu elenco, jovens que hoje já não são mais tão jovens, como Ethan Hawke, capaz de realizar grandes cenas, já na época, provando seu talento e a naturalidade com que consegue atuar, assim como Robert Sean Leonard, totalmente espontâneo, construindo um personagem memorável. Destaque também para Gale Hanson e Josh Charles, e sem, é claro, deixar de comentar de Robin Williams e como é bom vê-lo em um papel dramático, mesmo que tão carismático, tão alegre, o ator trás muita emoção em cena, dá vida a John Keating, o defende, como se acreditasse me cada palavra que ele diz. "Sociedade dos Poetas Mortos" tem em seus personagens sua grande força, são neles que as mudanças ocorrem, tudo acontece em um só lugar, o roteiro então, vencedor do Oscar, prova seu brilhantismo através dos diálogos, da construção desses indivíduos, como uma pequena ideia lançada em seu início atinge cada ser ali apresentado e como cada um reage. É por fim, um filme de sentimentos, que expõe ideologias, trás questionamentos que nos fazem refletir, inevitável não pensar na própria vida enquanto se assiste a esta obra.

Um filme atemporal, que fará sentido ainda daqui muitos anos, mesmo sendo de época, a maneira como o roteiro trabalha os dramas pessoais, podem se encaixar em qualquer contexto, em qualquer sociedade. Vemos na tela, pessoas sendo pressionadas, pressionadas por um consenso, consenso de que jovens precisam estudar numa faculdade renomada para que exerçam uma atividade de respeito, fazer exatamente o que se esperam delas, o que a sociedade espera, o que os próprios pais esperam. "Sociedade dos Poetas Mortos" é exatamente sobre esta libertação, viver por aquilo que se ama e não por aquilo que um dia alguém disse ser o certo, o melhor. Enfim, um filme maravilhosamente bem construído por este grande diretor chamado Peter Weir, com argumento consistente, atuações convincentes e momentos que ficarão na memória. Brilhante, fantástico, emocionante! Recomendo.   

NOTA: 10

"Não lemos e escrevemos poesia porque é moda. Lemos e escrevemos poesia porque fazemos parte da raça humana. E a raça humana está impregnada de paixão. Medicina, Direito, Administração, Engenharia, são atividades nobres, necessárias à vida. Mas a poesia, a beleza, o romance, o amor, são as coisas pelas quais vale a pena viver."




sexta-feira, 24 de maio de 2013

Crítica: O Substituto (Detachment, 2011)

"(...)Nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo." 
Do diretor Tony Kaye, o mesmo de "A Outra História Americana", nos traz mais uma vez uma trama forte e intensa capaz de gerar grandes discussões. Muito mais do que um importante papel social, mais do que nos fazer refletir sobre a atual situação nas escolas, "O Substituto" nos faz pensar na vida e nas relações que temos com as pessoas ao nosso redor, é, acima de tudo, um relato duro, cruel e realista sobre a complexidade humana.

por Fernando Labanca

Conheci este filme por acaso, pesquisando sobre a filmografia de Tony Kaye, no qual nunca compreendi o porquê dele ter sumido mesmo depois de uma obra-prima como "A Outra História Americana", foi quando que me deparei com este que estava prestes a ser lançado, até então sem título em português e isso já era 2011. Até que depois de muito tempo, as pessoas começaram a assistir e me recomendaram e foi quando que me dei conta que sua passagem pelo Brasil foi praticamente nula, onde a última notícia que tive foi que a obra fora lançada diretamente nas locadoras, no qual chegara no começo deste ano, o que é uma pena, pois a meu ver, "O Substituto" é um filme raro e obrigatório.

Henry Bates (Adrien Brody) é este professor substituto que dá nome à obra, sempre optou por nunca se envolver com as pessoas com que trabalha, inclusive seus alunos, por isso, sempre preferiu ser este indivíduo temporário, que chega do nada e logo vai embora. Sua nova missão é trabalhar ocupando as responsabilidades de outro professor em uma escola pública, lugar onde passa a refletir sobre sua relação com aquele universo alheio a tudo, alheio ao mundo, onde nada lhe toca, nada lhe comove, onde vê alunos totalmente perdidos, jovens indiferentes. É neste mesmo lugar onde Henry se vê cercado por outros profissionais, que no íntimo de cada um, se sentem tão vazios quanto ele, seres tão miseráveis, vivendo numa obrigação contínua, sem razão, apenas pelo costume de viver. Eis que ele se depara com três mulheres que o farão ver sua trajetória de forma diferente, uma professora (Christina Hendricks), uma aluna (Betty Kaye) e principalmente uma jovem garota de programa (Sami Gayle) que passa a abrigar em seu apartamento, a resgatando de sua vida suja. São elas que farão Henry compreender sua importância e o quanto seu envolvimento pode salvar vidas.

"Temos a responsabilidade de guiar nossos jovens para que eles não terminem se desintegrando. Caindo no esquecimento. Tornando-se insignificante."


Um soco na cara. É isso o que "O Substituto" é. Poucos filmes tem este milagre da reflexão, não aquela reflexão bobinha de uma bela lição de moral que vem ao final, uma reflexão densa, que ao seu término nos faz perguntar: "e agora?". A escola como cenário nunca foi tão melancólica quanto neste filme, que funciona quase que uma extenção do longa-metragem francês "Entre os Muros da Escola". Em tom documental, vemos os relatos de Henry e dos outros professores enquanto trabalham numa escola pública, tão abandonada e tão real quanto qualquer escola que já tenhamos frequentado ou lido nos jornais. Tony Kaye denuncia a ruína do sistema educacional, de forma realista, impactante e com uma linguagem universal. Uma dura realidade, que ganha proporções ainda maiores quando são inseridos personagens tão miseráveis, tão distantes de si, sentindo o vazio diário, vazio que vem em resposta de um mundo que não os vê. "O Substituto" é um flagra do ponto limite desta situação, o limite de cada personagem, é como se em cada cena algo gritasse, "este é o mundo em que vivemos", podre, devastado e sem lógica.

"Independentemente do que tenha em mente, digo que há sentimento. Estou sendo honesto comigo mesmo. Sou jovem e estou velho. Tenho sido comprado e vendido tantas vezes. Sou difícil de encarar. Estou sumido. Sou simplesmente como você."

Henry Bates é como aquele homem cansado que vemos diariamente sentado no ônibus, prestes a viver sua rotina vazia, tão presente no mundo, tão distante de si. Se colocado em outro contexto, ele teria potencial para ser um herói, mas no universo em que vive só lhe resta tempo para suas crises existenciais, questionamentos de uma vida que não mais caminha, permanece. Ainda atordoado com seu passado que o impede de ver o futuro com mais clareza, mais esperança. Para transmitir toda essa mente confusa, colocaram Adrien Brody que se entrega ao personagem por inteiro, que comove com cada olhar, cada diálogo, onde tudo se torna ainda mais real quando os sentimentos de Henry passam a ser a sua verdade. O filme ainda nos presenteia com coadjuvantes de ouro, nomes pesados que me fazem entender ainda menos o porquê de não ter tido chance nos cinemas, todos sensacionais: Marcia Gay Harden, Christina Hendricks, Lucy Liu, Blythe Danner, James Caan, Bryan Cranston, Tim Blake Nelson e a novata Betty Kaye, a mais fraca do elenco. Entretanto, a grande surpresa fica para a belíssima e comovente atuação de Sami Gayle, também nova no cinema, mas que certamente tem um futuro promissor, realiza um trabalho admirável.

"O Substituto" já inicia de forma densa, é preciso estar preparado psicologicamente para enfrentar seus minutos, é do tipo que não funciona com os amigos em um divertido final de semana. Em suma, um filme único, belo, edificante, onde o diretor Tony Kaye se utiliza de uma linguagem poética para debater os problemas sociais e revelar os conflitos existenciais de seus personagens, havendo beleza em cada cena, em cada diálogo, auxiliado por sua constante e emotiva trilha sonora. Um mergulho na alma desses indivíduos, que como consequência, nos faz questionar sobre nossa própria existência. Recomendo.

"Acreditar deliberadamente em mentiras. (...)'preciso estar linda para ser feliz'; 'preciso de uma cirurgia para ficar bonita'. (...) Trata-se de um holocausto. 24 horas por dia, para o resto de nossas vidas. A energia que movimenta trabalha arduamente no nosso emburrecimento até a morte. Então, para nos defendermos e pelejarmos contra esse processo de emburrecimento de nosso pensamento precisamos aprender a ler, para estimular nossa própria imaginação, cultivar nossa própria consciência, nosso próprio sistema de crenças. Todos nós precisamos desta habilidade para defender, preservar nossas vontades próprias."

NOTA: 9







sábado, 18 de maio de 2013

Crítica: Inquietos (Restless, 2011)

Gus Van Sant é definitivamente um diretor imprevisível, enquanto consegue realizar obras como o polêmico "Elefante" ou o emocionante "Gênio Indomável", também é capaz de surgir na mídia mostrando seu grande esforço para ser o diretor da adaptação "50 Tons de Cinza". Realmente não dá para entender. E mesmo provando em alguns projetos sua ousadia como profissional, também é capaz de surgir com obras menores, sem criatividade e sem emoção, o que é o caso deste "Inquietos", tão distante da grande filmografia que ele realizou ao longo de sua carreira.

por Fernando Labanca

Conhecemos Enoch (Henry Hopper), um desajustado e solitário jovem, que vive com sua tia após perder seus pais em um acidente de carro, ainda quando era criança, e tem como melhor amigo, um fantasma de um piloto japonês, morto na Segunda Guerra Mundial. O acidente em sua infância foi trágico e ele precisou ficar um período em coma, o que o impediu de ver o velório de seus pais. Como compensação, ele cria uma rotina de assistir funerais de desconhecidos, e em uma dessas "visitas", ele conhece Annabel (Mia Wasikowska), uma garota tão desajustada quanto ele, com quem inicia uma relação amorosa. Porém, quando ela descobre que possui apenas três meses de vida, devido a um câncer, Enoch passa a ser parte essencial dessa sua nova descoberta, a morte. 


"Inquietos" mostra a morte de um ponto de vista diferente, sem ser melancólico, sem necessariamente ser o fim. A morte como parte da vida, como parte de qualquer trajetória, mais do que isso, a morte como recomeço. O personagem Enoch tem uma estranha relação com ela, perdeu os pais ainda pequeno e seu melhor amigo é um fantasma (Ok, essa última parte a gente ignora!), vai a funerais e se veste como alguém de outra época, um ser que definitivamente não vê muito sentido na vida, mas que entendeu e aceitou seu rumo. Annabel em nenhum momento se choca com sua dura realidade, mesmo quando finalmente encontra um motivo para querer viver descobre que pouco poderá desfrutar de toda sua felicidade. Felicidade que poderá ser resumida em um curto período de sua existência, no entanto, que já terá valido sua vida inteira. E ambos, juntos, enfrentam essa passagem, Annabel de entender a morte, de se desprender daquilo que a completa e Enoch de compreender a vida, mesmo quando aquilo que enfim lhe deu um sentido está prestes a partir.

Há muita beleza nesta obra, isso é inegável, o diretor Gus Van Sant entrega à morte, poesia. Figurinos, trilha sonora e fotografia, tudo em perfeito estado, prontos para entregar ao público uma obra para se lembrar. No entanto, isso não acontece e é no roteiro que se encontra sua grande falha. Escrito por alguém que provavelmente entende muito de morte, mas pouco da vida, onde seus conflitos e personagens parecem ter sido tirados de outro filme, não do mundo real. É tudo tão alienado e artificial a maneira como o casal vive e como tudo é explorado na trama, Annabel e Enoch que nasceram de um protótipo já criado para "jovens desajustados", com direito a nomes estranhos, conflitos familiares e manias bizarras como ler sobre insetos e Darwin e jogar pedras em trem (??), onde no fundo não passam de jovens normais, bonitos, com corte de cabelo moderno e um estilista de primeira. O roteiro tenta nos convencer de que eles não se encaixam na sociedade, mas a construção dos personagens é tão rasa, tão pobre que ficou bem difícil embarcar nesta jornada e acreditar em seus dramas.

Enoch e Annabel são os típicos personagens de filme "indie", são salvos, porém, pelas atuações, principalmente de Mia Wasikowska, que encanta facilmente e prova, mais uma vez, seu grande talento, apesar de jovem. Já Henry Hopper não decepciona, mas também não surpreende. "Inquietos" traz uma direção de Gus Van Sant morno, que não ousa, em um filme que possui uma boa premissa mas desperdiça o restante da trama com uma abordagem já retratada em outras obras. Confesso que tudo é muito bonito e bem feito, não deixa de ser adorável. No entanto, ironicamente, neste filme que fala sobre a morte, a única coisa que lhe faltou foi vida própria, resultando em algo sem personalidade, insosso. Fácil de gostar, fácil de esquecer.

NOTA: 7



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Crítica: Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997)

Nunca é tarde para ver um filme e "Gênio Indomável" é um daqueles que sempre vi a capa, sempre tive vontade de ver e nunca via, eis que tive a oportunidade e faço questão de colocá-lo aqui. É quase como um clássico dos anos 90, dirigido pelo renomado Gus Van Sant. Para aqueles que se surpreenderam recentemente ao ver Ben Affleck como diretor em "Argo", é válido lembrar que este cara, subestimado por muitos, já esteve por trás das câmeras antes, não só como diretor mas também como roteirista, o que é este caso, escrevendo ao lado do talentoso Matt Damon, onde aliás, venceram o Oscar de Melhor Roteiro. O filme fora lançado em 1998 aqui no Brasil.

por Fernando Labanca

Matt Damon, que além de escrever, protagoniza o filme. Ele interpreta Will Hunting, um jovem dotado de grande inteligência, mas que possui uma vida perdida, alguém que não sabe a que rumo seguir, além do fato de desperdiçar seu tempo se envolvendo em brigas de rua ao lado de seu amigo Chukie (Ben Affleck) e trabalhando em empregos que não exijam qualificação. Após inúmeras passagens pela polícia, Will exerce uma atividade como pena, limpando os corredores de uma faculdade, é onde, para surpresa de um dos mais renomados professores do local, Gerard Lambeau (Stellan Skarsgard), ele consegue encontrar a resposta de um indecifrável teorema matemático. Percebendo o alto potencial do garoto, Lambeau faz um acordo com o juiz, onde o jovem passaria a fazer terapia como forma de se livrar de sua sentença. Eis que depois de várias tentativas, o professor entra em contato com um antigo amigo, Sean (Robin Williams), um psiquiatra que possui um passado parecido com o deste gênio indomável. São nessas conversas com Sean, que Will encontra sua força para seguir em frente, superando seu difícil passado e encarando de vez seu futuro, tendo força inclusive para conquistar a garota que amava, Skylar (Minnie Driver).


"Gênio Indomável" possui um excelente roteiro, assinado por Matt Damon e Ben Affleck, que são amigos de infância, poderiam muito bem ter feito aquele filme descontraído, criado enquanto conversavam numa mesa de bar, entretanto, o que vemos na tela é uma obra densa e de grande complexidade. Eles nos convencem sobre cada relação ali tratada. sobre cada conflito, é tudo muito sensível, muito humano, ele nos toca aparentemente de forma sutil, mas quando menos percebemos estamos sofrendo por dentro, sofrendo por estes grandes personagens, extremamente bem escritos e muito bem interpretados. Há, certamente, descontração, nitidamente uma obra feita por amigos, por pessoas que se conhecem, há uma naturalidade em cada cena, em cada diálogo, e assim, rapidamente nos sentimos afeiçoados por cada situação.

O filme é cheio de grandes ideias, é daqueles que poderá ser visto e interpretado de formas diferentes, cada pessoa levará consigo algo, é uma obra que deixa rastros, nos faz pensar e refletir sobre muita coisa. É sobre amizade, sobre como pessoas podem ser salvas por outras, sobre como uma palavra, uma conversa, pode ser confortante, inspiradora. É de se analisar também o desenvolvimento de Will Hunting, aquele que evita o próprio crescimento, sua agressividade, sua loucura, é resposta de seu medo, medo de admitir a própria genialidade, mais do que isso, medo do desapontamento e foi apenas isso que o limitou, medo de ser decepcionado, seja quando não consegue aceitar os planos de Lambeau, seja quando evita um relacionamento mais profundo com Skylar. "Gênio Indomável" é a bela prova de que não está nos livros a resposta para uma vida plena, a resposta disso está no dia-a-dia, está na convivência, nas relações humanas, de que há uma diferença entre inteligência e conhecimento, de que um indivíduo não é apenas composto pelo conhecimento teórico que ele adquiri, seu conhecimento está relacionado ao que adquiriu com a vida, com as conquistas, perdas e a sabedoria de lidar com tudo isso. E que sucesso não é necessariamente conquistado por um diploma.

Outro grande mérito da obra são suas atuações. Matt Damon dá um belo show de interpretação, um personagem difícil mas que o ator conseguiu dosar bem cada uma de suas oscilações, melhor ainda é quando ele divide a cena com o mestre Robin Williams, que há muito tempo nos deve uma atuação tão boa como esta, se mostrando como poucos conheceram, um incrível ator dramático. Os coadjuvantes são ótimos também e possuem grande espaço e importância na trama, como Ben Affleck e Stellan Skarsgard, mas é Minnie Driver quem se destaca, realizando cenas surpreendentemente boas. É interessante como estes personagens surgem na trama, surgem como meros conhecidos, aquelas pessoas que passam por nossas vidas e mal reparamos, de repente, enxergamos todos como grandes amigos e quando menos esperamos estamos com um sorriso no rosto com cada diálogo, cada abraço, e assim, porém, sentimos também nossas lágrimas, por cada erro que cometem, cada confissão, cada despedida. Gus Van Sant é definitivamente um grande diretor, teve em suas mãos a difícil missão de transmitir a excelente ideia de Damon e Affleck, e conseguiu com grande êxito. Destaco também a belíssima trilha sonora. Um filme para se guardar na memória. Recomendo.

NOTA: 9



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Crítica: Hitchcock (Hitchcock, 2012)

Alfred Hitchcock é um dos nomes mais importantes da história do cinema, o diretor que trouxe para as telas alguns clássicos como "Os Pássaros" e "Um Corpo Que Cai", finalmente ganhou um filme para si, finalmente se tornou um personagem, o que de certa forma, ele sempre foi, aquela figura icônica tão cheia de manias e uma mente que poucos conseguiram compreender. Pelas mãos do novato Sacha Gervasi e na pele de Anthony Hopkins, Hitchcock revive e nós, como grandes cinéfilos, somos presenteados com esta inusitada trama sobre como ele acreditou em "Psicose", grande sucesso do cinema, mas que antes de ser lançado, era visto como fracasso.

por Fernando Labanca

Baseado no livro "Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose" de Stephen Rebello, conhecemos como nasceu esta obra-prima do cinema. Desde as primeiras inspirações, quando o diretor se depara com um caso policial que chamou a atenção da sociedade na época, os assassinatos de Ed Glein no estado de Wisconsin e sua estranha obsessão em querer compreender as mentes doentias. Hitch vive com sua mulher, Alma Reville (Helen Mirren), que aliás, sempre o ajudou na construção de seus filmes e o fez se tornar um dos nomes mais importantes da indústria cinematográfica. Porém, pela primeira vez indo contra o que ela achava, ele decide adaptar o livro Psicose e levar a história de Norman Bates para o cinema, um projeto extremamente arriscado, com uma história que poderia chocar muita gente e o fazendo inserir num gênero que até então pouco conhecia, o terror. Conhecemos, a partir deste momento, os bastidores do filme que todos apontavam como fracasso, o fazendo até mesmo hipotecar a própria casa para pagar as despesas. Vemos a contratação do elenco, Janet Leigh (Scarlett Johansson), a bela loira que faria a famosa sequência no chuveiro, Anthony Perkins (James D'Arcy) que interpretaria Bates e Vera Miles (Jessica Biel), atriz com que Hitchcock sentia uma certa decepção. Entre curiosidades dos bastidores, vemos a construção desta obra, vemos a história de como um diretor que já havia alcançado seu auge, arriscou tudo, sua fama, sua carreira, seu nome, simplesmente por acreditar em um projeto que ninguém mais acreditava.


Definitivamente, a maior graça de "Hitchcock" é saber que hoje Psicose é visto como obra-prima, aquele que revolucionou o terror, marcou sua carreira e definiu o que seria feito depois na história do cinema. O filme nos trás aquele sorriso irônico toda vez que ouvimos um personagem dizendo que o diretor estava errado, e hoje, o tempo provou o quão certo ele estava. É interessantíssimo ver toda a devoção dele neste projeto, a obsessão dele por assassinatos e querer compreender seu protagonista, o pedido de retirada de todos os livros de Psicose das lojas, impedindo que seu público lesse a história antes do filme, a vontade que ele tinha em ver as pessoas reagindo a este filme, se envolvendo, se surpreendendo ao seu final, ao mesmo tempo em que ele temia em que todos vissem Psicose como comédia, logo que se tratava de uma trama tão bizarra e seria impossível ser levada a sério. Interessante também é seu envolvimento com o elenco de seu projeto, a estranha relação que ele mantia com suas protagonistas, o seu esforço em querer vê-las como verdadeiras divas do cinema, o que acaba chamando a atenção seu desapontamento com Vera, interpretada por Jessica Biel, onde há anos atrás ela havia recusado um papel dele, foi como se ela o tivesse traído. Aliás, alguns acreditam que matar a protagonista no começo do filme foi quase como uma vingança do diretor para as beldades que o negavam.

Enfim, toda esta loucura dos bastidores não seria possível sem um personagem tão excêntrico para comandá-lo, Hitchcock na pele de Hopkins se torna não apenas divertido, mas complexo a ponto do próprio roteiro não conseguir desvendá-lo e este é um dos méritos do filme, não querer desvendar a estranha mente do diretor, seja do homem que fala sozinho, que dorme em cama separada de sua mulher, seja do homem que vigia uma estranha pela janela todas as manhãs sem nenhuma intenção aparente. Melhor ainda é quando este mesmo roteiro não tem a intenção de ser levado a sério, de relatar de forma realista os acontecimentos da época, é bizarro, o tempo inteiro trabalha com o inusitado, o inesperado, diverte facilmente com seu humor, seu deboche. "Hitchcock" não veio para decifrar nada, muito menos diminuir a imagem icônica do diretor, é um filme sem grandes pretensões que ainda assim consegue flertar com os amantes do cinema, os admiradores de Psicose e de Alfred. É irreal, tão absurdo e fantasioso quanto qualquer filme do próprio Hitchcock.

Anthony Hopkins agrada, apesar da maquiagem pesada que pouco dá para ver suas expressões, consegue construir um personagem bem diferente do que já fez em sua carreira, não tenta ser o diretor Hitchcock, não é uma imitação, é uma grande interpretação do que ele acredita ser este personagem. Entretanto, é Helen Mirren quem rouba a cena, a veterana trás força a seus diálogos e é ela quem acaba guiando a trama. Os coadjuvantes me surpreenderam bastante, Scarlett Johansson parece realmente ser aquelas belas atrizes de antigamente, suas expressões e seu jeito de falar é a prova de seu grande talento e seu esforço em compreender aquela época, aquele contexto. Jessica Biel também surge ótima, assim como James D'Arcy, assustadoramente parecido com Anthony Perkins. Ainda vemos a sempre incrível Toni Collette e Danny Huston. Além do bom elenco, o filme ainda possui outros pontos positivos com a incrível trilha sonora de Danny Elfman, o figurino e a bela construção dos cenários que nos levam de volta ao clássico dos anos 60.


Apesar de "Hitchcock" ser o título do filme, esta obra acaba sendo muito mais de Alma Reville, sua esposa, do que do próprio diretor. Psicose é apenas o pano de fundo para as intrigas deste casal. O que vemos é muito mais do que o esforço dele em realizar aquilo que todos eram contra. Alma acreditou neste projeto como sempre acreditou no que seu marido fazia, por fim, vemos a trajetória desta mulher, que abdicou tudo para viver esta estranha vida ao lado de Hitchcock, que o inspirou, que lhe deu força, que relevava suas manias, suas neuroses, que o ajudava inclusive a realizar seus filmes, sem ter seu nome estampado nos cartazes, sem ter seu nome reconhecido. Um filme leve, descontraído, que não pretende decifrar Hitchcock, muito menos ser tão bom quanto ele, que não nega o bizarro, o forçado, que não pretender ser levado a sério, o que de certa forma, não o impede de ser admirado, é para se ver e ser lembrado, com seus ótimos e divertidos diálogos e grandes atuações de seu poderoso e esforçado elenco. Nos prende no início e nos faz esquecer um pouco da vida real até seu final, com sua trama simples que é até mesmo capaz de emocionar. Recomendo.

NOTA: 8