quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Crítica: Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971)

Fracasso de público no ano em que foi lançado, 1971, “Ensina-me a Viver” foi ganhando ao longo dos anos o status de cult. Foi um dos pioneiros do cinema indie norte-americano, uma produção corajosa que foi muito além do que estava sendo realizado na época, sem intenção de ser moralista ou retratar a realidade do país, vemos um projeto intimista, delicado e que nitidamente serviu de referência para muito do que é produzido hoje no gênero. 

Por Fernando Labanca

Muitos apontam seu fracasso na época, devido a sua trama um tanto quanto absurda, que chocou a sociedade, pois não estavam preparados para ver o relacionamento amoroso de um jovem de vinte anos com uma senhora de setenta e nove. Sim, isso é muito absurdo e justamente por isso torna a obra tão marcante e tão única. 

Conhecemos Harold Chasen (Bud Cort), um jovem rico e solitário, que vive com sua mãe separada, e tem um estranho vício, executar falsos suicídios, além de visitar regularmente funerais de desconhecidos. É numa dessas visitas que ele conhece Maude (Ruth Gordon), uma senhora que tem este mesmo costume, entretanto, diferente dele, é extremamente de bem com a vida, faz sempre o que lhe vem a cabeça, sem se importar com o que é errado ou não. E com aquele clássico pensamento de “viver cada dia como se fosse o último”, Maude vai apresentar a Harold o que é vida, viver intensamente através da arte, da música, é então que dessa inusitada amizade surge o amor, o problema é que a mãe de Harold está a procura de uma mulher para ele se casar e Maude, definitivamente, está longe de ser o que ela espera para seu filho. 


Para uns, um dos mais belos e sinceros filmes da década de 70, para outros, uma das maiores histórias de amor que o cinema já viu. Meu repertório não é tão grande para fazer essas afirmações, mas posso afirmar que “Harold e Maude” foi um dos romances mais originais que já vi e com sua trama bizarra, absurda e inusitada, acaba que despertando sentimentos novos, abrindo possibilidades jamais vistas e que o cinema nunca mais teve a ousadia de repetir, não de forma tão incrível, tão sensível. E a construção de seus personagens é tão humana, relatando sentimentos cabíveis para nossa atual sociedade, fazendo com que a obra se torne atemporal, compreensível aos nossos olhos, nos afeiçoamos aos personagens e as situações ali mostradas. Isso porque, o diretor Hal Ashby, não sei afirmar se era um vanguardista, mas com certeza, realizou um filme que muito se assemelha ao cinema contemporâneo, a construção de seu protagonista e suas questões existencialistas, os diálogos ágeis, a naturalidade entre os atores e principalmente o uso da trilha sonora, acaba acentuando esta impressão, com belas canções do folk acústico de Cat Stevens, onde músicas como “Don’t Be Shy” e “If You Want to Sing Out, Sing Out”, compostas para o filme, funcionam bem na tela e são relevantes para a trama. Curiosamente o álbum oficial de “Ensina-me a Viver” somente fora lançado em 2007.

“Harold e Maude” é uma sequência bem orquestrada de diversos elementos, e desde a primeira cena, maravilhosamente bem montada, onde Harold se enforca na sala de sua mansão enquanto sua mãe fala ao telefone, passando por todas as sequências realizadas por este competente diretor, Hal Ashby, é tudo tão belo, os cenários, as locações, os diálogos, a fantástica (e viciante) trilha sonora e principalmente ver estes dois personagens tão únicos, interpretados por dois ótimos atores, numa história de amor tão excêntrica, ousada, é interessante como a diferença de idade, ao início nos causa um certo estranhamento, mas ao conhece-los, é inevitável não torcer por eles. Harold, o jovem que mantém uma relação com a morte e cada vez mais parece se distanciar do que é vida, do que é real, simplesmente por não ter encontrado seu espaço no mundo, e Maude, a senhora, o oposto, tão cheia de vida. Características que geralmente são atribuídas inversamente, e este contraste parece fazer bem aos dois, pois se completam. 

“Ensina-me a Viver” relata a história de duas pessoas que se libertam de qualquer consenso da sociedade, que vivem aquele exato momento, sabemos, como público, o quão tudo aquilo é loucura, uma paixão que jamais poderia ir adiante, mas esta é a beleza deste filme, ignorar qualquer obstáculo, pois quando o amor é real, transcende qualquer barreira. Acredito que faltou um pouco mais de emoção em seu final, ele simplesmente acaba, a trama parece necessitar de um final mais forte e isso não acontece, mas isso é pouco perto da genialidade e grandiosidade desta obra. Inteligente, ousado, que diverte com seu humor negro e emociona com sua sensibilidade. Recomendo.

NOTA: 9 


 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Crítica: Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013)


Com tantas falsas promessas que tivemos este ano no cinemão de Hollywood, onde trailers foram tão mais interessantes que as obras em si, “Homem de Ferro 3”, “Além da Escuridão – Star Trek” e “Guerra Mundial Z” foram alguns deles, finalmente me deparo com um blockbuster honesto, encontrei justamente o que fui atrás ver, sem enganação. Diversão fácil, efeitos especiais espantosos, robôs gigantes lutando contra monstros. Pode até parecer bizarro para alguns, mas “Círculo de Fogo” é extremamente interessante, vai muito além, vemos uma narrativa bem pensada, um universo fantasioso sólido, que convence, que faz jus a boa carreira deste incrível diretor, Guillermo del Toro. 

Por Fernando Labanca

Por trás da alta tecnologia nesta obra futurística, “Círculo de Fogo” é de fato, um filme nostálgico, que aposta justamente na memória daquele que assiste. É como um sonho de qualquer garoto, que sentava no chão e juntava seus brinquedos, imaginando que eles fossem enormes, lutando entre si, sem nenhum motivo aparente, pelo simples ato de destruir um ao outro. Imagina se existisse um filme assim? Pois bem, Guillermo del Toro fez, e fez muito bem.  E muito mais do que só colocar robôs e criaturas gigantes lutando e usando uma cidade inteira como arena, construíram um universo para tudo aquilo, uma trama bem pensada. E bebendo de diversas referências, seja do anime “Evangelion”, do filme "Godzilla" ou dos antigos seriados japoneses, se baseando sempre nesta cultura pop nipônica, “Círculo de Fogo” é como uma versão bem feita de Power Rangers ou Jaspion, é também tudo o que “Transformers” de Michael Bay tentou ser um dia, mas não conseguiu em três filmes, este consegue nos primeiros minutos. 

Na trama, a Terra passa a ser invadida por monstros gigantescos, os Kaijus, que surgem das profundezas do Oceano Pacífico, após a formação de rachaduras nas placas tectônicas. Para os deterem, o governo passa a investir no programa Jaeger, construindo robôs enormes e os colocando para lutar contra os monstros. Para isso, são necessários dois pilotos para haver uma conexão neural, quanto maior a conexão entre essas pessoas melhor será o combate. Raleigh (Charlie Hunnam) é um piloto, que após perder seu irmão em uma luta, é chamado pelo Comandante Stacker (Idris Elba), anos depois, para pilotar sua máquina em Hong Kong. Lá, ele passa a dividir sua consciência com Mako (Rinko Kikuchi), uma mulher que tem motivos de sobra para querer destruir as criaturas.


O mais interessante em “Pacific Rim” são as soluções que o roteiro encontrou para tornar aquele universo em algo acreditável. São pequenos detalhes que fazem da obra um blockbuster completo, longe de ser vazio ou aleatório, construindo uma trama sólida, com bons personagens e razões convincentes para tudo aquilo estar acontecendo, elementos raríssimos quando se trata de filmes do gênero. E através de diálogos ou até mesmo de cenas mostradas em noticiários, acreditamos naquele mundo, naquelas possibilidades, seja pelo piloto de Jaeger que virou rockstar, dos monstros que viraram brinquedos, dos traficantes que se sustentam pela venda dos restos das criaturas, enfim, detalhes bem pensados que melhoram a trama e que fazem as falhas de diversas sequências, bizarrices ou acontecimentos totalmente distante de qualquer lógica serem desculpadas. Afinal, “Círculo de Fogo” foi feito para diversão, e pela primeira vez este ano, não me senti incomodado de não ficar o analisando, vendo seu roteiro ou profundidade em seus personagens, justamente pelo fato de que o que ele me oferece é tão mais do que eu esperava, porque ele consegue divertir de forma pura, uma aventura ingênua até, daqueles para se ver com a família, se divertir com as cenas, com as lutas, com direito a personagens secundários cômicos, diálogos simples, ótimas e variadas locações, história redonda, típicos daquelas aventuras antigas, um cinema feito para diversão, mas que se difere de qualquer blockbuster com o mesmo objetivo lançado este ano, simplesmente porque este foi bem pensado, bem realizado. 

Se no trailer o que víamos eram apenas robôs e monstros, nos surpreendemos ao nos deparar com sua história, mesmo que limitada e extremamente simples, os personagens estão ali e não foram esquecidos pelo roteiro. Seu elenco, praticamente todo desconhecido não faz feio. Charlie Hunnam como protagonista não é nenhum grande ator, mas não decepciona, e divide a cena com a sempre interessante Rinko Kikuchi, mas acaba sendo ofuscada principalmente quando a trama volta no tempo e vemos sua personagem criança, e nisso conhecemos uma pequena atriz, assustadoramente talentosa. Idris “we’re cancelling the apocalypse” Elba também se destaca, apesar de alguns diálogos sofríveis. O alívio cômico, para minha surpresa, funciona, Charlie Day e Ron Perlman estão ótimos e nos fazem ficar ainda mais vidrados no filme. 

Em suma “Círculo de Fogo” pode até não ser um grande sucesso neste ano, há rumores  que sua sequência possa não existir devido seu faturamento abaixo do esperado. Não importa, a verdade é que o filme conquistou grande parte daqueles que assistiram, e entendi o porquê assim que comecei a vê-lo. Me senti como uma criança vendo um filme de robôs, me senti totalmente preso as boas sequências de ação e deslumbrado pelos excelentes efeitos especiais e sonoros. Uma obra para os nerds, uma obra para as crianças ou para os adultos que ainda não se esquecerem de como ser uma. Finalmente um blockbuster que respeita seu público, que é honesto, é a prova de que não precisa muito para divertir aqueles que assistem, basta fazer bem feito. Guillermo del Toro conseguiu isso e em grande escala. Recomendo.

NOTA: 8,5








quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Crítica: Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate, 2004)

Remake da obra de John Frankenheimer de 1962, este novo longa tem a direção de Jonathan Demme, conhecido por dirigir o clássico “O Silêncio dos Inocentes” e tem em seu elenco, nos papéis principais, Denzel Washington, Meryl Streep e Liev Schreiber. O filme é surpreendente e se firma como um dos melhores thrillers políticos dos últimos anos. 

Por Fernando Labanca

Guerra do Golfo, soldados norte-americanos acabam caindo numa emboscada, mas todos são salvos pelo ato corajoso do sargento Raymond Shaw, que acaba ganhando uma medalha de honra. Anos depois do acontecimento, Raymond ainda vive sob o prestígio de seu passado, é filho de uma famosa senadora (Meryl Streep) que o colocou, representando seu partido, como candidato a vice-presidente. Por outro lado, o Major Ben Marco (Washington) vive assombrado por pesadelos, sempre se deparando com uma cena, onde ele e seus soldados passam por uma lavagem cerebral, o que acaba o intrigando, pois nunca conseguiu se lembrar exatamente como aquela emboscada terminou. Decidido a encontrar respostas sobre o passado e entender se tudo isso é paranoia sua ou uma lembrança recuperada, Ben começa a perseguir Raymond, pronto para provar que sua teoria é real e que todos são vítimas de uma das maiores conspirações políticas da história norte-americana. 


A verdade é que pouco ouvi falar sobre este filme, não tinha expectativa alguma sobre ele e mal imaginava do que se tratava, por isso me surpreendi tanto, porque sem esperar nada, me deparei com uma obra grandiosa, extremamente bem realizada por este experiente diretor, Jonathan Demme, que sabe muito bem como conduzir um bom suspense, que fisga seu público desde o início, me senti hipnotizado, como havia tempo em que não ficava em algum filme do gênero. Há um clima pesado e sombrio em “Sob o Domínio do Mal”, Demme dá outra forma para o medo, ele está presente nos olhares, nos diálogos e na maneira com que cada cena é montada, nos entregando uma obra perturbadora, realista mesmo se tratando de uma trama um tanto quanto fantasiosa, mas é tudo muito sério e vejo isso como o maior trunfo da obra, ter se levado a sério, por mais absurda que seja sua ideia, o roteiro acredita nelas e como consequência, nós, acreditamos também. 

Se no filme original de 62, a trama girava em torno da Guerra Fria, os roteiristas aqui, souberam muito bem trazer seus conflitos e mistérios para outro cenário, a Guerra do Golfo, além de mostrar de forma bastante interessante os bastidores da política numa época de eleições, ambiente perfeito para relatarem com inteligência esta paranoia norte-americana e neste clima de incertezas inserem seus personagens, onde nunca sabemos ao certo quem são, o que realmente fizeram, o que é real ou o que não é. E se utilizando do termo “Síndrome do Golfo” é onde paira a dúvida sobre seu protagonista, seria ele um lunático, perturbado pelos tempos de guerra, ou realmente o mundo não é exatamente como todos pensam? E numa trama surrealista, nos deparamos com sequências chocantes, que nos fazem ficar refletindo muito tempo depois que o filme acabou, toda esta história de lavagem cerebral, pode até parecer um pouco bizarra no início, mas é tudo tão bem guiado pelos roteiristas e diretor, que por fim, tudo se encaixa, faz sentido, e devido a isso, “Sob o Domínio do Mal” se torna tão assustador, por mais surreal que seja, é inevitável não ligar a trama complexa do filme com o que foi a política ao longo dos anos, vemos uma teoria de conspiração tão detalhada que estranhamente duvidamos da realidade. 
 
Denzel Washington está ótimo no papel de Ben Marco, sua paranoia, seu desespero pela verdade, é tudo muito convincente, é mais um bom momento na carreira do ator. Podemos dizer o mesmo para a veterana Meryl Streep, que quando achava que já tinha visto de tudo por ela, me deparo com mais uma grandiosa e espetacular interpretação, é memorável o que a atriz realiza em cena, seus longos discursos chegam a arrepiar, e a relação de sua personagem com seu filho, interpretado pelo também ótimo Liev Schreiber, é tão complexa e ao mesmo tempo assustadora. No elenco ainda vemos coadjuvantes de peso, como Jeffrey Wright, em aparição rápida mas muito eficiente, Kimberly Elise, carismática e muito boa, Jon Voight e Vera Farmiga. 

Apesar de ter quase dez anos desde seu lançamento, “Sob o Domínio do Mal” parece não ter sido descoberto ainda, espero que um dia seja, que seja também apreciado, é uma obra genial, extremamente relevante para o gênero, um thriller político raro, um dos melhores que já vi, ágil, com diálogos fortes, um roteiro muito bem desenvolvido, repleto de reviravoltas surpreendentes e sequências impactantes que ficarão na memória. Um suspense hipnotizante, perturbador, inteligente, que surge com tantas ideias, teorias complexas, que farão muitos pararem para pensar, duvidar da própria realidade. Recomendo.

NOTA: 9,5



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Crítica: Super (Super, 2010)

Um depressivo filme de comédia, que trás a história de um homem comum que decide combater o mal. O longa nos mostra como seria na vida real se um herói realmente existisse, sem poderes, apenas armado de sua angústia e sua vontade em salvar a pele da mulher que ama. Dirigido por James Gunn, este louco filme trás uma grande atuação de Rainn Wilson. Engraçado e melancólico, “Super” é a saga de um herói como nunca se viu antes.

Por Fernando Labanca

Frank (Rainn Wilson) é um cara que não teve muito do que se orgulhar em sua vida. Distante de sua mulher (Liv Tyler), ele a vê com outro homem, o traficante Jacques (Kevin Bacon), o que o deixa irritado, pois ela é uma ex-viciada e está indo novamente ao mau caminho. Frank, desde criança, sempre teve alucinações, e acredita que Deus falou com ele e tocou em seu cérebro, a partir de então, sente que é o escolhido para um grande ato, e chegando a conclusão que para se tornar um herói a única coisa que precisaria era escolher combater o mal, Frank então se torna Crimson Bolt, compra HQ’s, faz seu uniforme e começa a sair nas ruas para destruir tudo aquilo que acredita ser errado, proteger os inocentes das forças obscuras do mal. Como todo herói que se preze, ele passa a ter o auxílio de Boltie (Ellen Page), a jovem prodígio. E munido de todo o rancor que sentiu sua vida inteira, Frank vai fazer de tudo para chegar até seu arqui-inimigo, Jacques, para enfim salvar a pele da mocinha, o grande amor de sua vida. 


“Por que tive tanto azar em minha alma nascer neste rosto repulsivo? Este cabelo que não fica no lugar. Com esta personalidade ridícula e idiota. As pessoas me olham espantadas, Deus, posso perceber. Ficam pasmas como algo tão estúpido e idiota possa existir. Por que sou assim?”

“Super” pode pegar muita gente de surpresa, por inúmeros motivos, e a chance de se surpreender até o final é muito grande. Aparentemente uma comédia descompromissada, o filme vai ganhando aos poucos uma complexidade rara quando se trata de filmes de heróis, aliás, este é melancólico, realista, mostra com muita sensibilidade as fraquezas de seus personagens, onde jamais conseguimos julgá-los por seus atos, pois são, acima de tudo, humanos, humanos que erram mesmo quando lutam para acertar. O grande mérito da obra foi justamente trazer esta complexidade a seu protagonista, Frank é definitivamente um grande personagem, com sua baixa autoestima, com seu rancor que guardou a vida inteira, tudo isso intensificado pela excelente atuação de Rainn Wilson, que sendo um comediante, surpreende, pois consegue trazer uma carga dramática forte e impactante para a tela. É interessante, também, o fato de jamais a trama coloca-lo como coitado, pois ele também erra e em nenhum momento o roteiro engrandece sua fragilidade ou desvaloriza suas falhas. 

O filme também surpreende por sua violência, de um jeito positivo, pois mostra o total descontrole de Crimson Bolt, que na pele do herói não mede esforços em querer matar o simples cara que furou a fila. “Super” dá voz a uma sociedade tão acostumada a esses acontecimentos, seja de um assalto, de um roubo ou do simples ato de furar a fila, a verdade é que no dia-a-dia nos irritamos com tanta coisa e Crimson Bolt é justamente a libertação desta raiva enrustida. Frank é por fim, o anti-herói, que tão enlouquecido age como o vilão, que mata sem piedade. O que faz dele um herói? O que o difere de um vilão? São questões como essas que ficam em nossa mente, mas o filme nos alerta, a verdade está apenas no coração de Frank e não cabe a nós, como público, chegar a uma conclusão sobre suas atitudes.

O elenco é ótimo, Rainn Wilson me surpreendeu muito, realiza cenas fantásticas. Ellen Page é até interessante e sua personagem é boa, mas a atriz não se distancia de outras interpretações que já realizou. Entre os coadjuvantes, os bons Kevin Bacon, Liv Tyler, Nathan Fillion e Michael Rooker. A direção de James Gunn é eficiente, consegue trazer este tom depressivo e realista para as cenas, além da ótima trilha sonora, que se destaca. 

Entretanto, o que acabou me incomodando em “Super” foi que, por fim, o filme acaba se desviando da sua premissa inicial, e mesmo com seu realismo e aquele esforço em trazer o herói para a vida real, parece que o roteiro não conseguiu trazer grandes inovações ao seu final, com direito a explosões gigantescas, perseguições, tiroteios, e acaba limitando seus bons personagens a apenas o herói, o vilão e a mocinha. Ou seja, se no início ele nos apresenta algo tão diferente e acaba criando uma expectativa de que tudo caminhará para algo inovador, o filme se perde, e termina como qualquer outro filme de herói, não consegue trazer uma solução original para aquele universo, o que é uma pena, tinha tudo para ser memorável. Em suma, vale pelos atores, principalmente por Rainn Wilson e por inúmeras boas cenas e diálogos, é um filme que diverte mesmo sendo tão melancólico, sabe dosar bem sua sensibilidade e emoção com a ação, que é bastante empolgante. Apesar das falhas, gostei. Recomendo. 

NOTA: 7,5

“Eu meio que acho que a felicidade é valorizada demais. As pessoas passam a vida toda buscando-a como se fosse a coisa mais importante do mundo. Pessoas felizes são meio que...arrogantes.”



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Crítica: Bem-vindo aos 40 (This is 40, 2012)


“Bem-vindo aos 40” é uma espécie de sequência/prequel da comédia de grande sucesso “Ligeiramente Grávidos” de 2007, que contava com os protagonistas Seth Rogen e Katherine Heigl. Dessa vez, ainda dirigido por Judd Apatow, o longo foca no casal de amigos que apareceram no primeiro, Pete e Debbie, interpretados Paul Rudd e Leslie Mann. Tinha tudo para dar certo, uma boa ideia, ótimos atores e um diretor competente, entretanto, as longas duas horas e meia deste filme só nos faz ter certeza de que foram horas perdidas de nossas vidas em uma obra que nada tem a contar.

Por Fernando Labanca

Vemos o casal na semana em que ambos completam quarenta anos. Para uns, a idade do sucesso, para outros, aquele momento da vida onde o ser passa a refletir sobre suas escolhas. Pete e Debbie, que vivem numa situação financeira complicada e que batalham diariamente para sustentar a casa, onde também moram as duas filhas, Sadie e Charlotte, que vivem brigando. Nesta semana, os dois decidem fazer as coisas diferentes, se alimentar melhor e se aproximarem mais um do outro.

Gostei muito de “Ligeiramente Grávidos”, gostei ainda mais de “Funny People” (2009), comédia desconhecida com Adam Sandler e Seth Rogen. E tudo o que vem com o selo de qualidade “Judd Apatow”, sempre acaba criando uma certa expectativa. Por isso, “Bem-vindo aos 40” é tão decepcionante, tem o mesmo clima dos filmes anteriores, aquela comédia sutil sobre pessoas comuns, com situações bem contadas, diálogos ágeis e inteligentes com pitadas de drama. Para minha surpresa, presenciei seu pior filme em anos. As fortes características de seu cinema continuam e a boa direção também, mas a originalidade e a inteligência não. 


O filme demora a decolar, mostrar a que veio, joga situações aleatórias na tela e não consegue convencer em nada. O problema é que esta impressão permanece até seu final e até lá ficamos na espera de acontecer algo, ficamos somando os diálogos tentando achar um sentido para tudo aquilo, mas não há. Os bons atores em cena contribuem para nossa expectativa de que ele vai melhorar, até porque conseguir colocar Melissa McCarthy, Jason Segel, Chris O’Dowd, John Lithgow, Albert Brooks e a revelação Lena Dunham no mesmo elenco, devia haver uma razão. A conclusão é que Judd Apatow apenas quis reunir seus amigos para fazer um filme, esqueceu o roteiro, esqueceu o público. 

O problema piora quando resolvem estender este imenso vazio por duas horas e meia. A duração não é um defeito quando se tem o que contar, o que é bem diferente deste caso. Todas as cenas de Megan Fox são descartáveis, não consegui entender o que ela faz ali, e todas as situações envolvendo ela, a loja de Debbie e os furtos realizado pela também descartável Charlyne Yi. Jason Segel, sem sal, também não acrescenta a trama. Além dos coadjuvantes inúteis que servem apenas para somar cenas desnecessárias que nem ao menos fazem rir, Judd Apatow resolveu inserir situações patéticas e concluí-las de forma ainda mais patética. O que dizer da insistente referência a “Lost”? Não contentes, resolveram contar o final da série também, fazendo uma bizarra ligação com a relação de Pete e Debbie. As filhas do casal é outro problema, onde o diretor as coloca em cena apenas por serem suas filhas na vida real, mas esquece de escrever algo decente a elas, que irritam em nível extremo, quando surgem ou estão brigando ou estão berrando, é chato e de péssimo gosto. 

“Bem-vindo aos 40” é, por fim, uma sequência de erros, tinha uma premissa interessante, mas o roteiro se perde em tantas tramas e situações desnecessárias, que não emocionam e não divertem, que ao seu final fica apenas a sensação de um tempo de nossa vida perdido. O filme parece a todo instante se esquivar em se aprofundar em algo, de tirar melhor proveito de seu tema, provando que tanto sua ideia inicial como se aproveitar dos personagens de “Ligeiramente Grávidos” foram apenas motivos furados para seu desenvolvimento. Vale por Paul Rudd e Leslie Mann, que não trazem nenhum atuação inovadora, mas pelo menos funcionam muito bem juntos, possuem uma bela sintonia, há certamente uma deliciosa naturalidade entre os dois e somente eles nos fazem aguentar até o final. 

NOTA: 5




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Homem Que Incomoda (Den Brysomme Mannen, 2006)

Lançado no Festival de Cannes em 2006, o filme norueguês chegou a ser apresentado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, apenas em 2010. Se trata de uma obra única, um cinema raro e de extrema qualidade, com sua história tão inusitada, fantasiosa, mas ao mesmo tempo, tão perto de nossa realidade.

por Fernando Labanca

Andreas é um homem que certo dia desembarca em uma cidade, sem saber exatamente como chegou ali, se depara com pessoas que o recebem muito bem, são aparentemente todos felizes e cada ser ali exerce uma função, em uma rotina totalmente regrada, é então que esta "vida" lhe é apresentada, tem um trabalho a fazer como contador de uma grande empresa e tem seu próprio apartamento, e assim vai se adaptando aos padrões daquele mundo. Aos poucos, ele vai percebendo que tem algo de errado com o lugar, as pessoas ali parecem não sentir, não se envolvem emocionalmente com nada, conversam sobre futilidades e pouco se importam com suas relações. Eis que Andreas acaba conhecendo um homem que parece ter as mesmas dúvidas que ele, parece sentir exatamente o que ele sente, a falta de uma vida, de cheiros, de sons, pequenos detalhes que não mais existem nesta cidade sem saída.


"O Homem Que Incomoda" desperta o interesse logo em sua primeira cena e conseguiu me prender facilmente até seu final. A história é de uma originalidade extrema, daquele tipo que é difícil encontrar hoje em dia, por isso é altamente recomendável, simplesmente por ser diferente. A maneira como a trama nos é apresentada, os personagens, os ambientes, tudo com muito cuidado e o roteiro, tão rico em detalhes, ganha força ao instigar aquele que assiste, jamais subestimando a inteligência de seu público e sem o uso de uma narração em off, recurso tão insistente no cinema atual, nos dá margem para nossa própria interpretação, nos deixa livres para acompanhar a obra, jamais nos entregando o que se passa na mente de seus personagens e nunca revelando os porquês, nem de onde vieram, como foram parar ali, nem como este "mundo" começou. O cinema não precisa disso, o público aprendeu e se acostumou a ter, as razões, os motivos, mas não precisamos e este é o grande mérito da obra, por compreender isso e desta forma, desperta em nós, sentimentos tão fortes, pois nos instiga e nos surpreende, sem manipulações.

Se trata de uma história bem inusitada, curiosa, tudo é tão estranho que chega a ser cômico. O longa constrói em detalhes este mundo, até certo ponto fantasioso, onde os moradores nada sentem, vivem como seres programados, que despertam nenhum tipo de sentimento, é então que a inquietação e o surto de seu protagonista, aquele que veio de fora, transmite exatamente o que nós sentimos ou pensamos, e tudo isso ocorre muitas vezes, sem seus personagens dizerem nada, apenas com as imagens compreendemos o que se passa ali. É interessante este "mundo fantasioso" relatado, pois ele muito se assemelha ao modo como vivemos, uma forte crítica a sociedade contemporânea, tão vazia, sempre em busca dos mesmos sonhos, uma casa, um emprego, a vida de sempre, a rotina de sempre. O filme questiona justamente aonde foram parar aqueles sentimentos mais genuínos que completam a jornada de um ser humano, a valorização das coisas simples, seja a risada de uma criança ou o gosto de um chocolate quente, pois são essas coisas que definem o que é vida, são essas coisas que trazem sentido a ela e a cada vez mais elas se perdem. E o modo como esta ideia é transmitida, resulta em um final tão perturbador, depressivo, angustiante, mas que de certa forma, nos inspira, pois nos instiga a querer encontrar e apreciar essas "pequenas coisas".

A direção de Jens Lien é fantástica, nos entrega cenas muito bem construídas, auxiliado pela ótima trilha sonora e fotografia. O roteiro é simplesmente genial, como disse anteriormente, é montado sempre apostando na inteligência de seu público e o resultado é extremamente positivo, um filme que é difícil classificá-lo a qualquer gênero ou de chegar a uma conclusão correta. Recomendo. 

NOTA: 9,5