sexta-feira, 30 de maio de 2014

Crítica: A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985)


Premiada comédia de Woody Allen, "A Rosa Púrpura do Cairo" é uma grande homenagem do diretor ao cinema. E com uma ideia bastante criativa, Allen, mais uma vez, nos entrega um roteiro brilhante, inteligente e repleto de boas sacadas. Um dos melhores do cineasta.

por Fernando Labanca

Conhecemos Cecília (Mia Farrow), uma garçonete que trabalha duro para sustentar seu marido bêbado e violento, e não há esperança de uma vida melhor, ambos vivem nos tempos difíceis da Grande Depressão. A única coisa que alivia sua realidade é o cinema, onde assiste inúmeras vezes as sessões de seus filmes favoritos. Eis que indo pela quinta vez assistir "A Rosa Púrpura do Cairo", Cecília é surpreendida ao ver o herói do filme, no qual era apaixonada, Tom Baxter (Jeff Daniels), sair da tela grande e seguir em sua direção lhe oferecendo uma vida melhor, exatamente aquela que existia no cinema. O problema começa quando os personagens do filme não conseguem mais realizar a história sem ele, fazendo com que o ator que o interpreta, Gil Shepherd (Daniels) decida ir em busca de sua própria criação, o impedindo desta loucura de querer viver a vida real.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Crítica: Praia do Futuro (2014)

Lançado no último Festival de Berlim, no qual concorria ao Urso de Ouro, "Praia do Futuro" marca o retorno do diretor cearense Karin Aïnouz (Madame Satã, O Céu de Suely) e conta com atuações marcantes de Wagner Moura e Jesuíta Barbosa. Uma produção caprichada, que cria na tela, cenas de uma beleza irreparável. Uma obra rara, que não se prende a um tema, mas que expõe de forma intensa, sensações.

por Fernando Labanca

Difícil escrever sobre este filme. Não é do tipo que tem uma história pronta e personagens de fácil compreensão. Acredito que assim como qualquer obra de arte, "Praia do Futuro" poderá significar coisas diferentes para outras pessoas, cada um verá algo, sentirá algo, não há uma única maneira de encará-lo e compreendê-lo, portanto, naturalmente, uns poderão amá-lo, outros, odiá-lo, consequência desta trama que é tão subjetiva, tão ampla, tão aberta. Escrevo aqui, o que vi, e só digo de antemão, fiquei extasiado.

Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas na Praia do Futuro, em Fortaleza. Certo dia,  falha ao não conseguir salvar uma vítima de afogamento, porém acaba conhecendo o amigo desta mesma vitima, o alemão Konrad (Clemens Schick), com quem acaba se envolvendo. Até que Donato resolve morar ao lado dele em Berlim, abandonando seu trabalho e sua família. Anos depois, quando Ayrton (Jesuíta Barbosa), seu irmão mais novo, completa dezoito anos, resolve ir atrás dele, entender as razões por ele ter ido embora, entender o porquê aquela vida não o satisfazia.



sábado, 17 de maio de 2014

Crítica: Fruitvale Station - A Última Parada (Fruitvale Station, 2013)


Sucesso no Festival de Sundance de 2013, no qual levou o Grande Prêmio do Júri e do Público e vencedor no Independent Spirit Award pela direção estreante de Ryan Coogler, "Fruitvale Station" causou certo burburinho pelas premiações, no entanto, acabou sendo ignorado pelo Oscar. Um drama realista e impactante, que trás uma história universal capaz de causar indignação, que deixa um vazio em seu final por se tratar de algo que infelizmente faz parte de nosso cotidiano, de nossa cultura.

por Fernando Labanca

Na virada do ano de 2008 para 2009, na estação de trem de Fruitvale Station, San Francisco, um momento é registrado por câmeras dos passageiros inconformados, Oscar Grant (Michael B.Jordan) e um grupo de amigos se veem cercados por policiais em uma disputa armada, sem nenhuma razão aparente, culminando num evento trágico. A ideia do filme é mostrar o humano por trás deste ser, vitima de uma injustiça, de um ato sem lógica. Voltamos 24 horas antes do ocorrido, o último dia deste homem, norte-americano, negro, que saiu da prisão e tenta restabelecer sua vida, assistimos seu envolvimento com sua esposa (Melonie Diaz), sua pequena filha e com sua mãe (Octavia Spencer).

"Fruitvale Station" é um filme que merece atenção. Sua intenção é nobre, relatar quase que de forma documental, o dia deste ser tão comum, que poderia ser qualquer um de nós, mostrar o humano por trás daquele fatídico evento, mostrar a história por trás da manchete. É difícil observar sua rotina, conhecer a relação que ele tem com as pessoas, sua luta diária, sabendo como tudo irá terminar. Ainda que parte do impacto da obra se perca pelo fato de já sabermos seu final, a jornada deste personagem se torna mais árdua, quando olhamos sua vida sabendo como tudo será injusto, como este tempo é irreparável, o sábio roteiro nos retira aquele olhar esperançoso, aquela fé de que algo bom pode acontecer, e seu término doloroso, como disse, deixa um vazio. Há uma tensão em cada instante neste longa, e a boa direção de Ryan Coogler mostra tudo com sua câmera trêmula, acentuando o realismo e a urgência de cada situação.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Crítica: Um Brinde à Amizade (Drinking Buddies, 2013)

Escolha sua bebida, sinta-se entre um grupo de amigos jogando conversa fora, em um dia qualquer, num bar qualquer e prepare-se para a ressaca que sentirá ao final deste filme.

por Fernando Labanca

"Um Brinde à Amizade" é mais uma exceção à regra das comédias românticas. Com ar descompromissado, os atores esbanjam naturalidade em cena, e a trama surpreende ao não cair nas armadilhas do gênero, oferecendo um final bastante original, além de todo o seu decorrer que em nada me lembrou outro filme. Acompanhamos a vida de dois amigos, Kate (Olivia Wilde) e Luke (Jake Johnson), que trabalham em uma fábrica de cerveja e sempre que podem, separam algumas horas do dia para beber e conversar. Há entre eles uma bela sintonia, entretanto, ambos estão compromissados, ela com o responsável Chris (Ron Livingston) e ele com a professora Jill (Anna Kendrick). Eis que em um final de semana, os quatro decidem se reunir para uma viagem no campo, e entre bebidas, todos terão suas amizades testadas, é quando sentimentos antigos vem a tona e novos desejos são revelados.

O que mais me impressionou nesta obra, e isso me ocorreu já nos primeiros minutos, foi o realismo mostrado em cena, seja dá ótima composição desses personagens e a naturalidade com que os atores se entregaram, mas também de toda a construção deste "universo", dos momentos no trabalho e aquela liberdade que nasce entre os "buddies", às conversas nos bares, tudo é mostrado de forma crível, extremamente próximo à realidade, e por isso os dramas e conflitos que acabam nascendo se tornam tão aceitáveis, pois já estamos muito bem inseridos naquele mundo.