quinta-feira, 31 de março de 2016

Crítica: Creed - Nascido Para Lutar (Creed, 2015)

Mais uma franquia tentando se renovar nas telas do cinema, "Creed" traz de volta o personagem Rocky, criado e vivido por Sylvester Stallone, que agora retorna aos ringues para construir seu legado. Mais do que uma bela homenagem ao astro e sua invenção, vemos um filme poderoso e surpreendentemente emocionante.

por Fernando Labanca

"Creed" me pegou de surpresa, comecei a ver sem muita vontade até porque nunca entendi a necessidade de continuar a jornada de Rocky, que já teve tantos recomeços e finais. Lançado em 1976, "Rocky - Um Lutador" é um clássico, e como tudo que foi bom um dia...deveria permanecer intacto. Mas em Hollywood não é assim que funciona. Entretanto, digo que foi uma ótima escolha colocar o promissor diretor Ryan Coogler a frente deste projeto, no qual reprisa sua parceria com o ator Michael B.Jordan, onde já estiveram juntos no independente "Fruitvale Station" (2013). Visto como um spin-off da franquia, o longa até poderia dar bem errado, mas logo vi, em seus primeiros minutos...que não, aquilo estava muito certo e diante desta fantástica produção, enfim compreendi que "Creed" merecia existir, sendo desde já, uma das melhores obras lançadas neste começo de ano.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Crítica: Zootopia - Essa Cidade é o Bicho (Zootopia, 2016)

A Disney tem acertado e muito com suas animações e "Zootopia" marca o ápice do estúdio nesses últimos anos. Que grata surpresa poder ir ao cinema e se deparar com esta delícia de filme, tão inteligente, criativo e que além da boa diversão, traz para as telas uma mensagem muito válida para os dias de hoje.

por Fernando Labanca

Não tinha muitas expectativas quanto esta animação e fico feliz por ter percebido que, bem diferente do que eu achava, está longe de ser "só mais uma dentre tantas". Penso que seja o ápice do estúdio desde muito tempo, por ser um filme muito completo, que surpreende pelo alto nível de seu texto, que constrói uma trama muito bem amarrada, bem pensada, que exige um pouco mais de seu público ao entregar um mistério envolvente e cheio de reviravoltas, que faz rir, que emociona e que apesar de ter um grande potencial para agradar os mais novos com seus personagens cativantes, acredito que, mais uma vez dentro do gênero, serão os adultos aqueles que serão melhor recompensados. "Zootopia" dialoga melhor com os mais crescidos, tanto por trazer referências como "O Poderoso Chefão" e "Breaking Bad", mas principalmente por sua história e por tudo aquilo que ela transmite.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Crítica: A Bruxa (The Witch, 2015)

Vendido como um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, "A Bruxa", que venceu o prêmio de melhor direção em Sundance, pode pegar muita gente desprevenida, e ainda que seja muito bem realizado e que redefina todas as fórmulas do gênero, poderá frustrar grande parte de seu público.

por Fernando Labanca

Existe uma discrepância enorme entre o que o filme prometia ser, com seu marketing nos fazendo acreditar que estávamos prestes a encontrar o novo nome do terror contemporâneo, com o que ele realmente oferece. Fazia tempo em que não via um público tão decepcionado, até mesmo irritado com o que acabara de ver. "A Bruxa" é aquele tipo de produto que ou se ama ou se odeia. Terminei de assisti-lo com a sensação de que o longa não é tão bom quanto os críticos querem que ele seja, no entanto, está bem longe de ser tão ruim quanto aqueles que tiveram suas altas expectativas destruídas querem que ele seja.

"A Bruxa" oferece tudo aquilo que o gênero deixou de oferecer há muitos anos e talvez esta seja uma das razões de tanta revolta, pois a identificação com seu universo não vem fácil. Não há a câmera trêmula, os sustos, a violência, a correria e nem uma trama que se prenda a uma surpreendente reviravolta. Um filme lento, de poucas ações, onde é necessário se desprender daquilo que ele vendeu e tentar apreciar sua proposta, muito clara, aliás, desde o começo. Vemos aqui um terror psicológico muito raro, que busca conversar com seu público através de um cinema mais antigo, é subjetivo, cheio de simbolismos e que poderá significar algo diferente para cada um, de acordo com a experiência vivida daquele que assiste. O terror criado pelo estreante diretor Robert Eggers não é óbvio, o terror está em sua atmosfera, está nos diálogos e em tudo aquilo que os personagens representam. O terror vem de dentro da alma. Vem de uma sociedade que segrega aquilo apontado como diferente, vem da voz feminina silenciada por uma comunidade guiada por patriarcas, vem da religião que cega, do legado deixado por um Deus cruel, impiedoso e no peso que o pecado exerce na consciência de cada um.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Crítica: Steve Jobs (2015)

Brilhantemente escrito por Aaron Sorkin (A Rede Social) e dirigido pelo sempre competente Danny Boyle (Trainspotting), "Steve Jobs" é um filme fora do convencional e diferente do que se espera de uma cinebiografia, esta não tem a intenção de criar um herói por trás de suas criações e sim o homem, com todas as suas falhas, por trás de seu nome.

por Fernando Labanca

Fiquei bastante surpreso quando me deparei com "Steve Jobs". Apesar de sempre ter admirado o trabalho de Boyle como diretor e de já imaginar que Aaron Sorkin se recusaria a entregar um texto ordinário, cinebiografias são sempre cinebiografias e no fundo, pensava que esta não seria diferente, iriam glorificar seu nome assim como as pessoas e a mídia o glorificavam. Que interessante ver que justamente "seu filme", que tinha o espaço e chance para isso, decidiu seguir outro caminho e longe de tantas histórias reais sobre homens importantes, esta não esconde suas falhas, seus erros diante de tantas conquistas, seja por sua ausência como pai, seja por seu estranho comportamento diante dos outros. E este é o grande acerto da obra, não só conseguir fugir das armadilhas do gênero, como entregar algo muito além do que se esperava de um filme sobre Steve Jobs.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Crítica: Brooklin (Brooklyn, 2015)

Visto por muitos como o azarado do Oscar deste ano, "Brooklyn" surpreende ao ser um dos filmes mais completos da lista e um dos mais adoráveis também. Baseado no livro de Colm Tóibín, somos presentados com uma obra singela, simples, mas incrivelmente apaixonante, além de revelar, mais uma vez, uma brilhante atuação de Saoirse Ronan.

por Fernando Labanca

Apesar de já ter tido muitos de seus livros adaptados na tela grande, o escritor inglês Nick Hornby (Alta Fidelidade, Um Grande Garoto) tem se dedicado, nos últimos anos, aos roteiros para o cinema e tem se saído bem nesta linguagem. Após escrever filmes como "Educação" (2009) e "Livre" (2014), Hornby retorna agora com mais uma adaptação, e sem dúvidas, o grande trunfo de "Brooklyn" é seu roteiro. Na tela, acompanhamos a belíssima jornada de Eiles Lacey (Ronan), uma jovem irlandesa que sem perspectiva de vida em seu país, aceita a ajuda de um padre (Jim Broadbent), que lhe cede um passaporte e um trabalho nos Estados Unidos, a terra das oportunidades. Tímida e muito apegada a sua família, Eiles abandona tudo e parte sem saber o que lhe espera, encontra moradia em uma pensão, passa a trabalhar como atendente e a se dedicar aos estudos, mas apenas quando conhece o carismático Tony (Emory Cohen) é que compreende que aquele pode ser seu novo lar.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Crítica: Anomalisa (2015)

Indicado ao Oscar de Melhor Animação, "Anomalisa" marca o retorno do gênio Charlie Kaufman, a mente que nos revelou obras como "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" e "Quero Ser John Malkovich". Mais um acerto em sua carreira, o longa é, também, um passo adiante na técnica do stop motion.

por Fernando Labanca

Nesta primeira animação dirigida por Kaufman, acompanhamos algumas horas da vida de Michael Stone (dublado por David Thewlis), que viaja à Connecticut para realizar uma palestra. Sem conhecer o local, ele se hospeda em um hotel, é então que passado, futuro e presente começam a assombrar sua mente. Traumatizado pelo fim de um relacionamento antigo, as tristes lembranças vem a tona e Michael decide entrar em contato com sua ex, ao mesmo tempo em que precisa lidar com sua esposa que está distante e com Lisa (Jennifer Jason Leigh), uma mulher solitária que acaba conhecendo, despertando nele, sentimentos profundos e a esperança de uma mudança em sua vida.


terça-feira, 8 de março de 2016

Crítica: A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015)

Dirigido por Tom Hooper e baseado na premiada obra de David Ebershoff, "A Garota Dinamarquesa" faz um relato emocionante sobre a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Além da belíssima produção, o filme é, também, o palco perfeito para as grandes atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander.

por Fernando Labanca

O longa narra a delicada trajetória de Lili Elbe, conhecida como a primeira mulher transexual a realizar a cirurgia. Antes disso, a trama nos mostra o seu despertar, quando ainda vivia como Einar Wegener (Redmayne), um pintor de sucesso e casado com outra artista, a promissora Gerda (Vikander). Entre eventos e exposições, a esposa lhe propõe uma brincadeira, acompanhá-la como sendo Lili, uma suposta prima de Einar, logo que ele já havia sido uma modelo feminina para um de seus quadros. Instigado a vivenciar aquilo, ele acaba levando a ideia a outro nível quando passa a se relacionar com outro homem, encontrando de vez aquilo que estava guardado, compreendendo que sua verdadeira identidade estava além do que seu espelho lhe revelava.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Crítica: O Quarto de Jack (Room, 2015)

Baseado na obra de Emma Donoghue, "O Quarto de Jack" é um drama arrebatador, com trama e atuações poderosas. É mais um daqueles filmes especiais, que nos faz sentir bem por tê-lo encontrado.

por Fernando Labanca

Roteirizado pela própria autora do livro e dirigido por Lenny Abrahamson, que ano passado já havia nos entregado o excelente "Frank", "O Quarto de Jack" narra a história de Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) de apenas cinco anos. Ambos vivem isolados em um quarto e o único contato com o mundo exterior é com o Velho Nick (Sean Bridgers) que os mantém em cativeiro. O filho, por sua vez, é um espirituoso menino que jamais soube o que havia do lado de fora, além de sua imaginação e além do que ele via em uma pequena TV. Até que, desgastada daquela realidade e decidida a oferecer uma chance de vida à Jack, Joy desenvolve um arriscado plano de fuga.  

"O Quarto de Jack" tem o poder de nos fisgar em seus primeiros minutos. Acontece uma identificação rápida e quando menos esperamos já sentimos uma grande afeição aos indivíduos ali retratados e ao mundo em que vivem. O quarto do título, funciona quase como um personagem ali dentro, é ele quem define do que os protagonistas são feitos, é nele que habitam seus traumas, seus receios e principalmente a imaginação de Jack ou tudo o que ele acredita ser real. Narrado pelo garoto, a grande beleza da obra está neste seu olhar, que vê o caos com bons olhos, que acredita na magia e nos milagres, que aceita sua vida como sendo um universo imenso e repleto de possibilidades guardado dentro de uma caixa. É curioso quando começamos a ver o mundo a sua maneira, em como é difícil compreender o que é real e o que não é, e assim como ele, até certo ponto da trama, também não sabemos como é a vida do lado de fora. Por causa desta inocência de Jack, a obra ainda nos presenteia com cenas de extrema delicadeza, é tudo muito simples, mas é justamente esta ingenuidade que faz do filme tão especial, tão belo.


terça-feira, 1 de março de 2016

Crítica: Carol (2015)

Baseado no livro "O Preço do Sal" de Patricia Highsmith e vencedor do Prêmio de Melhor Atriz para Rooney Mara no último Festival de Cannes, além de suas 5 indicações ao Oscar, "Carol" é a volta do diretor Todd Haynes aos dramas de época, onde entrega um filme tão belo quanto esquecível. 

por Fernando Labanca

A trama acontece em Nova York, na década de 50. Therese (Rooney Mara), em época de Natal, trabalha em uma loja de departamento e não tem muitas perspectivas quanto ao seu futuro, eis que seus olhos cruzam com os de uma cliente. Carol (Cate Blanchett) é uma mulher mais velha, sedutora e presa em um casamento fracassado e quando procurava um brinquedo para sua filha, conhece Therese. Sem ânimo para continuar a farsa que é sua união com Harge (Kyle Chandler), Carol decide ter outros planos para o Natal e convida sua nova amiga para uma viagem, dando voz para seus desejos e suas reais intenções. 

Este novo trabalho de Todd Haynes muito remete seu outro drama de sucesso, "Longe do Paraíso" (2002). Com seu clima açucarado, lá também existia personagens que buscavam uma certa liberdade dentro de uma sociedade conservadora. Identidade, gênero e aceitação são outros temas que retornam e que sempre estiveram presentes em sua filmografia. "Carol", porém, é uma de suas obras mais desinteressantes, onde tudo é muito belo, suave, aconchegante, mas inofensivo demais, lhe falta personalidade e ousadia, onde acaba por oferecer um romance morno, insosso até, sem química. A trama também carece de consequências, onde nenhuma ação parece surtir algum efeito muito drástico, suas resoluções são fáceis e acabam por diminuir a força de seus supostos conflitos.