quinta-feira, 28 de julho de 2016

Crítica: O Lagosta (The Lobster, 2015)

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2015, "The Lobster" marca o primeiro longa-metragem em língua inglesa do diretor grego Yorgos Lanthimos. Uma requintada comédia, que abusa do humor negro para uma interessante análise de nossa sociedade atual.

por Fernando Labanca

A premissa do filme é bastante curiosa, nos jogando para dentro de um universo distópico onde é inadmissível alguém permanecer solteiro. Para aqueles que não encontraram a alma gêmea, são hospedados em um luxuoso hotel, onde serão obrigados a se apaixonar dentro de 45 dias. Caso isso não aconteça, a pessoa será transformada em um animal de sua preferência e abandonada em uma floresta, local onde também se encontra um grupo de rebeldes liderados por uma rígida mulher (Léa Seydoux). Conhecemos, então, David (Colin Farrell), que se cadastra no programa assim que se separa de sua esposa, acompanhado de seu cachorro, que fora um dia seu irmão solitário. O problema começa quando ele percebe que seus dias estão acabando e ainda não conseguiu ninguém e a única certeza que o futuro lhe aguarda é ser transformado em uma lagosta.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Crítica: Entre Nós (2013)

O tempo que constrói é o mesmo que destrói.

por Fernando Labanca

O que você diria para o seu eu do futuro? O que você contaria dos tempos de hoje? Quais são seus planos atuais que deseja estarem realizados até lá? Olhar adiante é um exercício dos sonhadores. O ato inverso, por sua vez, traz a nostalgia, mas também um certo vazio. É doloroso olhar para o passado, reencontrar com outra versão de si mesmo, compreender que metas não foram cumpridas, que expectativas não foram superadas. "Entre Nós" é sobre o tempo e sobre o peso que ele exerce quando olhamos para trás. 

Na obra, sete amigos escritores se reúnem em uma casa de campo. Alegres, festivos e inspirados, parece não haver tempo ruim quando todos estão juntos. Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Gus (Paulo Vilhena), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Rafa (Lee Taylor) compartilham não apenas o mesmo dom, mas o sonho de um futuro promissor. É então que eles resolvem escrever uma carta para eles mesmos, onde serão enterradas e relidas dali dez anos. No entanto, aquele fim de semana especial se encerra de forma trágica, culminando na morte de um dos amigos. Dez anos depois, eles se reencontram no mesmo local, revivendo questões mal acabadas, relembrando a felicidade de alguém que se foi e sentindo a tensão ao rever suas versões do passado enterradas naquela mesma terra.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crítica: Mistérios da Carne (Mysterious Skin, 2004)

Um soco na alma.

por Fernando Labanca

Estrelado pelo jovem Joseph Gordon-Levitt, que na época já mostrava seu potencial como ator, o papel ainda pode ser citado como um dos melhores e um dos mais fortes em sua carreira. Baseado no livro homônimo de Scott Heim e lançado em 2004, "Mistérios da Carne" é um filme perturbador, que causa um desconforto e uma inquietação naquele que assiste. Uma obra única e atemporal, que tem força ainda nos dias de hoje, talvez por nenhum outro filme ter relatado seus mesmos temas de forma tão corajosa e tão ousada como aqui.

Na tela, somos apresentados a dois caminhos, quase como dois capítulos separados que vão se fundindo ao decorrer da trama: Neil e Brian. Neil desde criança já demonstrava traços de sua homossexualidade ao sentir uma estranha e forte atração pelos tipos burros e estúpidos que se relacionavam com sua mãe. Eis que ao participar da Liga de Basebol, sente algo a mais por seu treinador (Bill Sage), que passa a usá-lo para realizar seus fetiches mais bizarros. Brian, outra criança que vivia não muito longe dali, seguiu um caminho diferente, sofria por seus apagões que causavam estranhos buracos em sua memória e cresceu acreditando que alienígenas eram os culpados. O filme mostra anos depois na vida de Neil (Joseph), que ganha a vida se prostituindo e Brian (Brady Corbet), que busca pelas respostas que nunca teve sobre sua traumática infância. Ambos não se conhecem mas nitidamente existe algo a mais no passado dos dois que os unirá no futuro.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Crítica: O Experimento de Aprisionamento de Stanford (The Stanford Prison Experiment, 2015)

Baseado no experimento real realizado na Universidade de Stanford em 1971, o filme tem o poder de assustar e causar um grande incômodo ao revelar o quão cruel o ser humano é capaz de ser quando se tem poder em mãos. Forte, atual e revoltante, uma obra que traz grandes questionamentos e reflexões.

por Fernando Labanca

Por ser conhecido como o experimento mais polêmico da história da psicologia e por seu resultado ter sido tão chocante, a sétima arte encontrou nele o ambiente perfeito para algumas válidas discussões, logo que não é a primeira vez que o tema vira filme. Em 2001, tivemos o alemão "A Experiência" e uma outra versão norte-americana, "Detenção" de 2010, com Adrien Brody e Forest Whitaker. Este que comento, lançado oficialmente ano passado no Festival de Sundance, traz uma produção menor, simples, mas ainda assim poderosa, que vai ganhando, aos poucos, grandes proporções. Cheguei a conferir o longa alemão e apesar de muitos o preferirem, fico com esta versão atual, que me pareceu muito mais realista, que conseguiu explorar melhor suas ideias e não caiu na mesma armadilha que o anterior, que se deixou virar uma obra de ação qualquer, com direito a violência e perseguições.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Crítica: Prova de Redenção (Twice Born, 2012)

Às vezes o cinema tem este poder, de nos deixar extasiados diante de tanta emoção, de nos deixar ali, impactados diante de tamanha grandeza. Mais do que uma grande surpresa, "Prova de Redenção" é um dos melhores filmes que tive o prazer de conhecer nesses últimos meses.

por Fernando Labanca

Apesar de não ter um catálogo tão imenso, ainda é possível descobrir algumas pérolas perdidas na Netflix. E foi assim que conheci "Twice Born" (traduzido como "Bem-Vindo ao Mundo" pelo site), que poderia até ser só mais um título dentre tantos se não fosse sua notável qualidade. Dirigido por Sergio Castellitto, o longa é uma adaptação do livro "A Rosa de Sarajevo" e narra a história de Gemma (Penélope Cruz), que após receber uma ligação de um antigo amigo, decide fazer uma viagem de volta à Bósnia ao lado de seu filho, local onde o pai dele foi morto durante os duros conflitos do país. Ao retornar à Sarajevo, Gemma relembra toda sua jornada neste instável território em meados da década de 90, quando viajando a trabalho conheceu o carismático fotógrafo Diego (Emile Hirsch), com quem se apaixonou profundamente e lutou, durante anos, para realizar seu grande desejo...ser mãe.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Crítica: Mais Forte Que o Mundo - A História de José Aldo (2016)

A vida do lutador de MMA José Aldo chega aos cinemas pelas mãos do diretor Afonso Poyart, que já havia realizado o excelente "2 Coelhos" e retorna para provar que o cinema nacional pode mais, pode muito mais.

por Fernando Labanca

"2 Coelhos" foi lançado em 2012 e, de certa forma, trouxe uma grande revolução na forma de conduzir uma produção nacional. Efeitos especiais de qualidade dentro de uma trama inteligente, que trazia uma junção equilibrada de ação e drama. Dito isso, não haveria diretor melhor que Afonso Poyart para retornar aqui e dar o tom épico que esta história merecia e que, felizmente, recebeu. Logo, podemos afirmar que "Mais Forte Que o Mundo" é mais um passo adiante para o cinema realizado no Brasil, que pode até ter seus pequenos erros, no entanto, é grandioso como quase nunca se viu por aqui. E isso é bom, isso é muito bom.

A trama nos mostra a vida José Aldo Júnior (José Loreto) antes dos ringues, quando vivia em Manaus ao lado de sua família. Pai alcoólatra (Jackson Antunes), o jovem nunca sabia como lidar com a situação, ainda mais quando era sua mãe (Claudia Ohana) quem sofria as piores consequências. No momento em que ela resolve fugir, José vê a chance de buscar algo novo, longe dali, longe da desgraça que era sua rotina, partindo para o Rio de Janeiro para viver em um alojamento de uma Academia, logo que acreditava em seu potencial como lutador. Era a luta que desde sempre lhe serviu como uma válvula de escape, como o momento ideal para expulsar seus demônios internos. Não demora muito até chamar a atenção do treinador Dedé (Milhem Cortaz), que passa a lhe dar um voto de confiança, iniciando, enfim, sua carreira no MMA.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Crítica: Amor Por Direito (Freeheld, 2015)

Drama sobre direitos LGBT, revela mais uma atuação impecável de Julianne Moore, além de debater assuntos atuais em uma trama emocionante e bastante reflexiva.

por Fernando Labanca

Pouco divulgado aqui no Brasil, "Freeheld" é mais um drama que consegue arrancar uma atuação espetacular de Julianne Morre, no entanto, diferente do recente "Para Sempre Alice", longa que lhe rendeu o Oscar ano passado, este se sustenta além de sua brilhante interpretação. Aqui, ela dá vida a Laurel Hester, uma policial que, com o apoio de um grupo de ativistas, que na época já lutavam pelo direito do casamento gay, vai à justiça afim de conceder a sua esposa, a jovem Stacie (Ellen page), o direito de conseguir viver na casa que construíram juntas e receber sua pensão assim que morrer. Toda luta começa quando Laurel descobre que sofre um câncer no pulmão e suas chances de cura são mínimas, porém, por não ser casada com alguém do mesmo sexo, a instituição no qual passou anos de sua vida trabalhando se nega a pagar os benefícios a futura viúva, simplesmente por não reconhecerem a relação homoafetiva, o que no caso, é comum para casais heterossexuais.