Desde quando li as primeiras notícias sobre o musical que Clint Eastwood dirigiria, tive meus receios. O veterano que já realizou grandes obras resolveu arriscar no gênero que é tão improvável em sua carreira, tão distante daquilo que ele construiu até aqui. E esta é a beleza de "Jersey Boys", esta é a beleza de seu mais novo trabalho, se arrisca e nos presenteia com este filme que é tão diferente, não um mero musical, é um drama competente, um filme digno de Eastwood.
por Fernando Labanca
Baseado no musical da Broadway, "Jersey Boys" revela a trajetória da banda Four Seasons, que fez sucesso nos anos 60. Descobrimos como os quatro membros, Frankie Valli (John Lloyd Young), Tommy DeVitto (Vincent Piazza), Bob Gaudio (Erich Bergen) e Nick Massi (Michael Lomenda) se reuniram para a formação do grupo. Frankie, desde jovem, foi conhecido em seu bairro por seu talento na música, chamando atenção, inclusive, do mafioso Gyp DeCarlo (Christopher Walker), com quem Frank jamais acreditou precisar, até que anos depois, com o sucesso de sua banda, os dois se reencontram devido às grandes dívidas criadas por Tommy. "Jersey Boys" é sobre como o grupo conheceu a fama, mas também sobre como eles conheceram a decadência, parte pelo temperamento difícil e das irresponsabilidades de Tommy DeVitto, mas principalmente, pela busca de cada um, seguindo seus interesses pessoais.
Fugindo um pouco a regra, Clint Eastwood, depois de muitos anos, surge nos cinemas como protagonista de um filme no qual não dirige. Comandado por Robert Lorenz, que por sua vez, foi diretor assistente de alguns filmes de Clint, como "Menina de Ouro" e "Sobre Meninos e Lobos", aparece interpretando o papel que sabe fazer de melhor, o velho durão e ranzinza, ao lado da sempre adorável Amy Adams e do promissor Justin Timberlake.
por Fernando Labanca
Eastwood interpreta Gus Lobel, um veterano olheiro do baseball, que trabalha para um importante time buscando novos talentos, mas se recusa a se inserir nas novas tendências de mercado, onde um computador é capaz de realizar seu trabalho, ele ainda aposta em seu feeling, o que acaba incomodando algumas pessoas com quem trabalha. Para piorar, começa a ter problemas com sua visão, mas é incapaz de abandonar seu posto, jamais aceitando que a idade chegou. Para impedir que Gus seja descartado, Pete (John Goodman), um antigo amigo, pede ajuda de Mickey (Amy Adams), filha do veterano. Mickey, porém, é uma advogada de sucesso prestes a dar um grandioso passo em sua carreira, mas decide abandonar tudo para reencontrar seu pai, a fim de preencher o abismo existente entre eles, mais do que ajudá-lo, queria enfim compreender o porquê de ter sido abandonada.
"Curvas da Vida", por certas vezes, até parece um filme dirigido pelo próprio Clint. Claro que vê-lo em cena por si só, já dá esta sensação, entretanto, é nítido que Lorenz aprendeu e muito com o veterano. A fotografia também ajuda, as imagens que vemos é puramente "eastwood" e o ator, por sua vez, parece reviver seu papel de Gran Torino, por, obviamente se sentir a vontade neste tipo de interpretação, mas também pela falta de inovação em sua performance. No entanto, este longa, ainda assim, é um projeto menor, de pequenas ideias, tem história fácil, onde tudo é muito correto, bem desenvolvido, mas é tudo muito previsível. O roteiro assinado pelo novato Randy Brown erra ao caminhar por caminhos já percorridos, criando personagens já escritos e finalizando sua trama de forma já concluída. No entanto, é válido citar que ainda há seus acertos, como alguns diálogos que divertem pelo humor sutil, mas eficiente e também por aqueles momentos de emoção fácil, tudo, é claro, ajudado pelo grande elenco que faz desta obra um projeto muito maior do que deveria ser.
A previsibilidade da obra tem grande culpa pelo tanto de estereótipos que o roteiro insiste em personificar. O veterano durão e teimoso, que sempre opta pelos velhos modos, onde parece não haver oscilações em sua personalidade, ele é isso e ponto. E quando já conhecemos nosso "herói" toda a trama só poderia caminhar por um caminho e é exatamente isso o que acontece, seu reencontro com a filha diverte e por vezes, emociona, mas é tudo muito previsível, quando já no início sabemos como este conflito se resolveria. A presença de Johnny, interpretado por Justin Timberlake, trás bons momentos e sua relação com Mickey também é bastante óbvia, apesar de adorável. O estereótipo continua com o personagem secundário Bo Gentry, um jogador de baseball, metido a machão, onde o roteiro parece querer ter a certeza que nós, como público, vamos odiá-lo, não há nada de bom em sua personalidade, tudo porque para se ter um final feliz ele teria que ser insuportável, mas acabam criando um personagem patético e totalmente fora da realidade e com todo o seu desenvolvimento, o roteiro prova sua fragilidade e imaturidade também, assim como a presença de Matthew Lillard, feito para torcemos contra.
No entanto, no meio de tantos erros, nos afeiçoamos a este trio de protagonistas. Apesar de previsível, a relação entre pai e filha é bem trabalhada. Fantasmas do passado que aos poucos vão sendo revelados, sentimentos presos durante anos que aos poucos vão sendo explorados. Em pequenos detalhes, ainda é possível enxergar alguma riqueza nesses dois personagens. Mickey que abandona todo seu sucesso para reviver o passado, compreendendo que seu futuro nada valeria sem descobrir as incógnitas daquilo que ficou para trás. É belo quando percebemos que o destino dos dois foi traçado por aquilo que ocorreu no passado, ou devido aquilo que não ocorreu. Mickey que sempre lutou para ser a melhor em sua profissão, tentando provar para o pai que ela poderia ser incrível e que ele estava errado em abandoná-la. E Gus que preferiu abandonar sua filha ao perceber que nunca seria capaz de protegê-la. E no meio disto, surge Johnny, que devido a um problema nos braços, precisou abandonar sua carreira e por pura ironia do destino precisou traçar um outro plano, diferente daquilo que ele realmente desejava. São nessas reflexões que compreendo o título do filme, que para muitos é ruim, no entanto eu vejo um sentido. As curvas da vida, aquela manobra que o destino dá, sem aviso prévio, e que faz nossas vidas mudarem completamente. O que teria sido de Johnny se tivesse uma saúde perfeita? Teria ele realizado seu sonho? O que teria sido de Mickey se tivesse sido amada pelo próprio pai, logo que este desafeto a guiou para todas as suas realizações? O que teria sido dos dois sem aquele incidente do passado? Teriam sido felizes? Respostas que o tempo jamais responderá, problemas que surgiram destas curvas e tiveram que aceitar.
"Curvas da Vida" tem em seu elenco seu grande mérito. Clint Eastwood que apesar de já ter feito este papel, temos que admitir que ele faz muito bem, convence e sabe emocionar quando precisa. Justin Timberlake, como disse anteriormente, é um ator promissor, por mais difícil que seja confessar isso, o cara tem talento, tem carisma e ao lado de Adams, com quem tem uma deliciosa química, realiza cenas adoráveis, apaixonantes e salvam grande parte do filme. Já Amy Adams é quem realmente rouba a cena, é muito fácil dizer que este filme não seria nada sem esta grande atriz, ela brilha, encanta, tem carisma de sobra, seu sorriso parece nos fazer esquecer de tudo e quando encara uma cena dramática prova toda sua potência, dá o melhor de si, é belíssimo o que Adam realiza aqui, é definitivamente o grande destaque da obra e é por ela que tudo isso vale a pena. Ainda temos John Goodman, sempre ótimo.
Um filme pequeno, de poucas ideias e quase nada de inovação, mas que se salva por seus atores. No entanto, apesar de seus inúmeros clichês e estereótipos, "Curvas da Vida" é um filme que merece ser visto, jamais descartado, tem boas intenções, há boas cenas, bons diálogos e um trio de protagonistas que nos envolvem por mais que já conhecemos suas respectivas jornadas. Da comédia sutil, do romance ao drama familiar, tudo é bastante adorável, diverte como deve divertir e emociona na dose certa, sem apelações. Claro que é um filme de atuações, seu elenco é maior que o próprio projeto e já me utilizando de um antigo clichê, "dentro de sua proposta funciona", e posso dizer, que funciona muito bem. Para sair da sala de cinema com um sorriso no rosto e bem consigo mesmo. Tem seus erros, mas se mantém a todo tempo acima da média. Recomendo, mas não crie grandes expectativas.
Clint Eastwood é um dos grandes diretores ainda ativos, e nesta última década conseguiu manter uma ótima média de quase um filme por ano, entre eles, obras marcantes como "Menina de Ouro" e "Sobre Meninos e Lobos", entre outros nem tão marcantes mas ainda assim dignos de admiração. Eis que ano passado ele surge com "Além da Vida", lançado aqui no Brasil no começo do ano, uma das apostas ao Oscar, o longa só conseguiu uma indicação à "Melhores Efeitos Especiais" e marca um dos momentos mais fracos do diretor.
por Fernando Labanca
Na trama, conhecemos três histórias paralelas, todas elas com algo em comum, a vida de três pessoas que por alguma razão tiveram uma conexão maior com a morte. George Lonegan (Matt Damon) é médium, tem o dom de ouvir os mortos além de ser vidente, mas encara isso como uma maldição em sua vida e tenta a todo custo levar uma rotina normal, fugindo daqueles que o procuram, em uma dessas tentativas entra numa classe de culinária, é onde conhece Melanie (Bryce Dallas Howard) que logo rola uma boa química entre os dois. Marie (Cécile de France) é uma jornalista francesa que numa viagem acaba se deparando com um tsunami, um acidente natural que destrói toda uma região e mata milhões de pessoas, e quando ela é salva e acorda, acredita ter tido contato com a morte, acredita ter "morrido" e por algum instante ter presenciado a vida após a morte.
Em Londres, Marcus (George/Frank McLaren) perde seu irmão gêmeo ao ser atropelado, e que por ter uma mãe com problemas de bebida, vai para uma casa de adoção e nisso se vê completamente sózinho no mundo, e tenta de diversas maneiras "reencontrar" seu irmão. E assim, essas histórias se seguem, pessoas que de certa forma tentam se reeguer, encontrar uma nova forma de vida, mas sempre em conexão com a morte.
O roteiro é do elogiado Peter Morgan, o mesmo de "O Último Rei da Escócia" e "Frost/Nixon", e ao meu ver, tem um desempenho inferior a seus outros trabalhos. Há uma premissa boa, mas que infelizmente não consegue se manter ao decorrer das duas horas de filme, tudo parece ser arrastado, não pelo fato de ter um ritmo lento, mas por falta de conteúdo mesmo para preencher todo esse tempo. A impressão que tive, é que a história termina na primeira meia hora e até seu final, o roteiro se arrasta de forma cansativa. Nenhum personagem ali em cena prende a atenção e nenhum deles possui uma trama tão interessante que nos faça querer ver o final. Final, aliás, fraco, o filme nos faz entender que haverá uma ligação muito forte entre essas pessoas, de fato, até há, mas acontece de forma morna e longe de ser impactante e surpreendente. O formato até lembra um pouco aqueles do mexicano Guillermo Arriaga dos ótimos "21 Gramas" e "Babel", mas Peter Morgan esteve longe de conseguir o mesmo feito do roteirista.
Analisando "Além da Vida" se percebe que aqueles que o criaram pouco acreditavam naquilo que reproduziam na tela, no caso, na vida após a morte, tudo acontece de forma fria, George parece achar super natural "conversar" com mortos e Matt Damon não parece acreditar naquilo que fala e em nenhum momento expressa algum tipo de rancor pelo seu dom ao mesmo tempo em que diz sentir. O mesmo ocorre com Cécile de France que não nos faz acreditar em seus diálogos, não expressa dor por ter passado por um tsunami, não expressa pesar por estar perdendo sua carreira e não demonstra acreditar naquilo que a personagem acredita, não há garra da mesma forma que a personagem deveria ter. Os jovens atores Frank e George McLaren, até que se esforçam, mas o roteiro é tão frágil que não há espaço para eles emocionarem o público, o mesmo ocorre com todos os outros personagens. Dentre os atores destaco somente Bryce Dallas Howard, que faz uma participação mais do que adorável e consegue transmitir em apenas duas cenas, emoção, que nem Matt Damon nem Cécile de France conseguiram até o final do filme.
Entretanto "Além da Vida" não é um filme descartável, ainda há as boas mãos de Eastwood, logo, cenas muito bem feitas, faltou ritmo, mas em nenhum momento me fez querer desistir de vê-lo. mas não há nem comparação com seus trabalhos anteriores. A cena do tsunami foi incrível, a participação de Bryce Dallas, marcante, entre outros pequenos momentos que de certa forma chamam a atenção, há qualidade. A sequência de Marcus e George consegue emocionar de forma bem sutil, não vai muito além, mas marca um outro bom momento do longa. A trilha sonora é fraca é por vezes de gosto duvidoso, destaque para as boas locações, fazendo deste projeto um pouco maior do que ele realmente é. Em certo momento, o personagem de Matt Damon nos diz algo como "Viver uma vida centrada na morte, não é vida", tentei me prender nesta frase para compreender melhor o filme, e acredito que "Além da Vida" não seja um filme de espiritismo como muitos apontaram, é justamente sobre isso, sobre a mania que as pessoas tem de tentar encontrar respostas na morte, usar ela como desculpa para tantas coisas, se prender nela, sendo que é na vida que encontramos as respostas que precisamos, sendo que é em vida que encontramos os motivos para permanecer aqui.
18 de julho, Nelson Mandela, representante do movimento anti-apartheid e ex-presidente da África do Sul, completa 92 anos. E no cinema, o líder, foi muito bem representado, com mais uma das obras-primas de Clint Eastwood, Invictus.
Um filme sobre um mestre, feito por um mestre.
por Fernando Labanca
Na década de 90, Nelson Mandela foi libertado após quase trinta anos preso, devido ao fato de ser um líder revolucionário que foi contra um dos mais injustos movimentos da história, o 'apartheid'. Saiu da prisão, e sentiu o que mais temia sentir, a África do Sul mudou, mas o sentimento das pessoas continua o mesmo, a de que existe em um só território duas raças, a dos brancos e a dos negros.
Decidido a mudar a história e fazer desse país um lugar mais justo, um lugar onde ele sempre sonhou viver, se candidatou a presidente, promovendo a paz em discursos comoventes, ele venceu e em 1994, Mandela mais uma vez se tornou líder, líder de um povo, do mesmo povo que há trinta anos lhe tinha colocado na prisão, os brancos.
Como primeira atitude, ele não manda embora os funcionários brancos de seu palácio, decide integrar as duas raças, logo que vários funcionários negros o seguiram. Até que, vendo a atual situação do 'rugbi', o esporte mais famoso do país e também o esporte mais branco da África, resolveu apostar no esporte, acreditando que essa poderia ser sua arma crucial para unir o povo, logo que a Copa Mundial de Rugbi estava prestes a chegar, entretanto, o time era fraco e muito criticado pela mídia.
Para isso, Mandela, vai atrás de Francois Pienaar (Matt Damon), o capitão do time, e passa a inspirá-lo, prova para o rapaz o quanto vencer um jogo é importante, e que precisa lutar e acreditar na vitória, e lhe entrega um poema, um poema que lhe deu força durante os anos de prisão. Mas nesses encontros, Nelson acaba ensinando muito mais ao capitão do time, como ter esperança, acreditar em coisas boas, ser otimista mesmo quando tudo ao seu redor lhe diz para não ser, e lhe fez refletir como era capaz um homem, mesmo depois de trinta anos, além de perdoar aqueles que lhe fizeram sofrer, ainda deseja o bem a eles e ainda luta para que isso aconteça.
O rugbi, cresce, ganha força, a África, enfim, ganha um time de verdade, e mais do que um time, ganham heróis, e os torcedores deixam de ter uma cor, e passam a ter algo em comum, como a esperança de ter a vitória, como a esperança de viverem em lugar melhor, onde não há mais divisões.
Uma história belíssima, baseada em fatos reais num período importante na vida de Mandela e que poucos conhecem, um exemplo raro de como o esporte pode interferir na política de uma forma positiva. E felizmente, a ótima ideia é transportada para o cinema de uma forma incrível pela mãos de Clint Eastwood. Ele simplesmente não erra, depois de uma brilhante sequência nas telas, como Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, A Troca e Gran Torino, o gênio do cinema, volta mais uma vez e com uma outra obra prima, um filme marcante.
A ideia não só é incrível, como também funciona bem nas telas. Poderia ter escorregado fácil, mas Clint consegue manter a tenção do público do início ao fim do longa, mesmo quando já sabemos do final, e a ideia principal já foi mostrada na primeira meia hora de filme. Mesmo assim, nos sentimos fisgados, hipnotizados por essa grande trajetória. É simplesmente, bem feito. Tudo parece surgir na hora certa e da forma certa. A trilha sonora, diga-se de passagem, muito diferente dos filmes de Eastwood e a fotografia ajudam bastante. É um dos filmes mais diferente que ele já ousou fazer, é mais alegre que os demais, nos sentimos esperançosos e não angustiados e deprimidos como os anteriores.
Morgan Freeman. O que dizer desse grande ator? Constrói uma personagem incrível, Nelson Mandela foi muito bem representado por ele, outro gênio do cinema. Foi uma das melhores atuações de Freeman nos últimos anos, logo que as semelhanças com outros personagens de sua carreira, são minímas. Matt Damon também merece destaque, mais uma vez está incrível na tela, e mais uma vez acerta no projeto em que se envolve, é interessante como ele aparece no filme, sua personagem é um capitão de rugbi e Damon encarna isso com perfeição, não surge como sendo um astro no campo do esporte, surge como um jogador qualquer, faz parte daquele time e durante os minutos do longa, acreditamos nisso.
Não é um filme tão empolgante quanto os demais da brilhante carreira de Clint Eastwood, ainda sim é incrível, mas não é como Menina de Ouro, por exemplo, que ficamos paralisados, sem respirar, e ficamos pensando horas e horas na história, uma marca de Clint. É um filme mais família, classificação livre, sem cenas marcantes de tirar o fôlego. Mas ainda vale muito a pena, com toda a certeza, como já disse anteriormente, o diretor acerta mais uma vez. Um filme que merece ser assistido, não só por ser um ótimo filme, mas pela trajetória de Nelson Mandela, que esse sim, deve ter se sentido orgulhoso.