Giuseppe Tornatore, que em 1988 dirigiu o clássico "Cinema Paradiso", tem uma carreira consolidada na Itália, seu país de origem. E neste ano, ele retorna com mais um grande filme, "O Melhor Lance", falado em inglês e que conta com ótimas atuações de Geoffrey Rush, Jim Sturgess e Sylvia Hoeks. Um longa incrivelmente bem conduzido, que surpreende com sua trama bastante curiosa, numa mistura envolvente e intrigante de suspense e romance.
por Fernando Labanca
Confesso que não sabia o que esperar deste filme, não havia lido nenhuma sinopse até então e fui apenas pela curiosidade de presenciar mais um encontro de Tornatore e do músico Ennio Marricone, com o plus de ter um elenco que eu já admirava. E acredito que quanto menos souber sobre o longa, mais fascinante ele se tornará. Comecei sem compreender aonde ele pretendia chegar e a cada nova reviravolta eu me surpreendia, e esta qualidade de sempre levar sua trama para os caminhos que menos se espera, transforma a obra em algo ainda mais interessante, e mesmo com sua longa duração, o diretor não se perde nem por um instante, nos entregando uma história extremamente envolvente, que acaba nos prendendo também, pela beleza e elegância que Tornatore constrói cada imagem, compondo cada enquadramento de seu filme como se realmente fosse uma pintura, e o resultado é simplesmente estonteante.
Quatro anos de desenvolvimento, dificuldades em ser concluído e dificuldades em conseguir apoio financeiro, logo que poucos acreditavam neste projeto. "A Viagem", que fora baseada no livro de David Mitchell de 2004, tem todos os elementos que o tornam uma obra impossível de se fazer, é então que com o comando dos famosos irmãos Wachowski, da trilogia "Matrix" e do cultuado diretor Tom Tykwer, que arriscam tudo e levam esta ideia adiante, tornam aquele impossível no possível e realizam uma das obras mais ambiciosas de nosso tempo.
por Fernando Labanca
Várias histórias, vidas diferentes em tempos diferentes. Passado, presente e futuro. Não adianta resumi-las aqui, como faço de costume em minhas resenhas, logo que elas não funcionam isoladamente, são histórias bem simples, algumas aliás, com personagens fortes, no entanto fazem parte de uma só composição e que funcionam quando visto o plano geral. "Tudo está conectado", a frase clichê é a premissa de todas elas, pode parecer básico, mas as tramas nem sempre se unem de forma óbvia, é preciso pensar para compreender. O que percebemos logo de início é que teremos um só grupo de atores, interpretando diversos personagens. Tom Hanks, Halle Berry, Doona Bae, Jim Sturgess, James D'Arcy, Ben Whishaw, Jim Broadbent e Hugo Weaving são os principais e são vistos em quase todas as histórias, no entanto, nem sempre são reconhecidos facilmente, é então que surge a maquiagem transformando estes atores de acordo com cada tempo.
"Cloud Atlas" é definitivamente bastante confuso, é muito fácil se perder nesta viagem, isso porque o roteiro não nos entrega uma obra redondinha, como geralmente é feito neste tipo de filme, que praticamente já virou um gênero a parte, aquele que conta diversas histórias ao mesmo tempo e que de alguma forma tudo se conecta. Além do fato de serem tempos diferentes, a ligação de uma trama para outra surge nos pequenos detalhes, nem sempre perceptíveis ao primeiro olhar. Porém, é apenas em seu final onde tudo faz realmente sentido, onde conseguimos finalizar este complexo quebra-cabeça. A história, por fim, gira em torno de um "legado", elementos do passado que são somados e alteram o futuro, e estas tramas contadas nada mais são que o nascimento deste legado e como pequenas ideias sobreviveram no tempo. Em certo momento do filme eles lançam a frase "Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculados a outras, passadas e presentes. E de cada crime e de cada gesto generoso nasce nosso futuro". Acredito que esta frase sintetize bem a ideia de "A Viagem", onde um ato do futuro não nasceu ali, nasceu muito antes, onde uma escolha de alguém de outra época, um caminho alterado, um simples discurso improvisado, tudo leva a história a uma nova saída. "Cada encontro sugere uma nova direção possível."
Claro que com tantas ideias, o que o filme nos permite ao seu final é nossa própria interpretação. Não há como dizer exatamente sobre o que se trata. Uma das interpretações possíveis é a vida após a morte, onde a alma de um determinado personagem ressurge em outra época, levando consigo algumas ideias. "Cloud Atlas" nos revela não só a jornada destes pensamentos pelo tempo, mas toda a evolução da vida no planeta, onde essas almas vão se readaptando a cada geração, no entanto, cometendo os mesmos erros. É então que surge a ironia do roteiro ao retratar o último estágio da evolução como o mais primário de todos, revelando esta natureza destrutiva do ser humano. É interessante perceber também, que em cada passagem, encontramos personagens que de alguma forma deixam algo que no futuro fará diferença, mas que no momento de sua existência era feito apenas para salvar alguém, um puro gesto de amor ou de afeto. Pessoas que tentam fugir daquilo que um dia alguém estabeleceu como certo, seja do advogado salvando o escravo ou o velhinho se libertando do asilo. "Existe uma ordem natural neste mundo e aqueles que tentam abandoná-la não se dão bem."
Um ambicioso filme, que aposta em tudo, que em nenhum momento se permite ser pequeno, ordinário. É pretencioso, mas diferente de muitos filmes com esta característica, consegue nos oferecer uma obra completa capaz de preencher esta pretensão, de ser tão grande quanto pretende ser. É tudo muito incrível o que vemos na tela, uma junção de elementos que provam que Andy e Lana Wachowski (que antes era o Larry) , assim como Tom Tykwer, realizaram algo a altura do que já fizeram no cinema. Da belíssima e sensível trilha sonora, dos efeitos visuais e toda a construção de diferentes épocas, fazendo bonito tanto nos cenários do século XX quanto na elaboração de um futuro distante, tendo a todo instante um cuidado com detalhes como locações e figurinos. Conseguem ainda arquitetar cenas memoráveis como o acidente de carro vivido por Halle Berry, num maravilhoso plano sequência, e a cena dos amantes, Whishaw e D'Arcy, arremessando pratos. Vale, claro, destacar a maquiagem, que ao mesmo tempo em que deixa seus atores irreconhecíveis em algumas histórias, peca, por muitas vezes, não ser realista e exagerada, jamais convencendo Jim Sturgess e Hugo Weaving como orientais, mais parecendo alienígenas, e assim, acabam realizando cenas bizarras, mesmo com boas intenções.
Acredito que "Cloud Atlas" teria sido ainda mais potente se não picotasse tanto suas histórias. Há algumas passagens que perdem o foco e a intensidade justamente por serem cortadas em horas indevidas e o problema se torna ainda maior quando, resolvem colocar na sequência de uma grandiosa cena uma história sem a mesma força. É quase que injusto colocar a fraca passagem dos velhinhos de 2012 ao lado da genial e eletrizante sequência futurística de Nova Seul. Claro que isso nem sempre acontece, a maior parte da projeção houve uma preocupação nestas sequências, ou seja, ao mesmo tempo que isso é um de seus maiores defeitos, por vezes, acaba sendo seu grande mérito. Se torna mérito quando a edição insere elementos que contribuem para diversas histórias simultaneamente, seja a trilha sonora que acompanha vários segmentos, fazendo sentido tanto para um quanto para outro, ou algumas narrações em off, que mesmo vindas de um determinado personagem, revelam o mesmo sentimento vindo de uma outra época. E são essas conexões que provam a genialidade da obra.
E todas essas tramas entrelaçadas também não possuem a mesma força. Encontramos a genialidade dos irmãos que um dia realizaram "Matrix" de volta ao nos depararmos com o futuro de Sonmi-451 (Doona Bae), definitivamente, um dos pontos altos de todo o filme. Há beleza em toda a criação daquele mundo, seja pela arquitetura, pelo design inovador, pelo clima e principalmente por suas ideias, sem contar a força desta incrível personagem. Dirigido por Tykwer, o segmento do compositor interpretado por Ben Whishaw é outro momento marcante, tudo é guiado com uma certa delicadeza e sensibilidade, além da complexidade do personagem que de certa forma, cria uma curiosidade acerca desta trama que termina de forma impactante. Por outro lado temos histórias como a do escritor (Jim Broadbent) que vai parar num asilo e com a ajuda de alguns companheiros, tenta fugir de lá. Parece haver um desinteresse enorme da equipe para com esta trama, que surge sempre quebrando o clima, é pequeno demais perto do resto, a impressão que fica é que tentaram usá-la como uma espécie de alívio cômico, mas não funcionou, é tudo caricato e forçado. Enfim, há histórias facilmente esquecidas ao mesmo tempo em que há momentos memoráveis. No entanto, o que acaba sendo muito interessante na diferença de uma trama para outra, é que "Cloud Atlas", por fim, consegue trabalhar todos os gêneros possíveis, da comédia para o romance, de uma aventura épica para um suspense policial, de um drama intenso para uma ficção científica. É então que compreendemos a dificuldade em realizá-lo, em torná-lo algo possível. Por mais que seja nítido as falhas do longa, também é nítido a coragem dos roteiristas e diretores em finalizá-lo. Um filme com inúmeros gêneros, inúmeras histórias, personagens tão distintos interpretados pelos mesmos atores. Tramas complicadas, repletas de ideias e que ainda não segue uma ordem cronológica correta. Há ainda cenas de sexo e nudez, além de uma relação homossexual, chave para todo o resto da trama, que querendo ou não, o torna um projeto ainda mais arriscado. É exatamente isso o que "A Viagem" é, três grandes diretores correndo o risco de por tudo a perder, que não se contentam com pouco e testam na tela todas as possibilidade possíveis. E que bom que tiveram tanta coragem, caso contrário, jamais poderíamos ver algo tão único como este filme.
A grande sacada de colocar os mesmos atores em tramas diferentes não seria tão interessante caso não fossem escolhidos os atores certos. Tom Hanks, que há muito tempo não se destacava em um longa, retorna demonstrando mais uma vez seu talento, ele, que praticamente aparece em todas as histórias, demonstra uma capacidade imensa em se transformar e surpreende. Halle Berry não tem nenhum grande momento no longa, mas convence em todas suas transformações também. O veterano Jim Broadbent também não desaponta, seja como um velhinho inocente ou como um severo compositor de música. Jim Sturgess sofre um pouco com a maquiagem, mas fez bem seus papéis, assim como Hugh Grant, longe de suas comédias românticas, que infelizmente não tem tanto espaço nas tramas, mas é nítido seu esforço. Hugo Weaving que surge irreconhecível em diversas passagens, tem na maioria, o papel do vilão ou de alguém que pretende mantar a ordem das coisas. Ainda temos o ótimo James D'Arcy e Susan Sarandon. Os destaques ficam para o jovem e talentoso Ben Whishaw e para a atriz coreana Doona Bae, que demonstram sensibilidade diante de seus personagens e emocionam por suas trajetórias.
"Cloud Atlas" pode incomodar muita gente, muitos já o odeiam e o criticam. De certa forma, até entendo essas opiniões, o filme possui seus defeitos, é confuso e por muitas vezes lento, além de possuir quase três horas de duração. No entanto, aos que ainda não viram, eu realmente espero que sintam o que senti, não o considero uma obra-prima nem a coisa mais inovadora da história, mas confesso que nunca foi tão difícil escrever sobre um filme, até mesmo depois da sessão, simplesmente não conseguia reunir palavras para descrever o que acabara de ver, fiquei dias remoendo o filme na cabeça tentando chegar a uma conclusão. Quando se entra na grande ideia dos Wachowski e Tykwer, talvez esses sejam algum dos sintomas. O filme não entrega respostas nem significados, deixa pontas soltas e momentos que são livres para nossa própria interpretação. Não há certo ou errado quando se trata de "A Viagem". Talvez, quem sabe, seja um filme a frente de seu tempo, que não conseguiu espaço nos tempos de hoje, mas faça mais sentido daqui uns anos. Um filme que me tocou profundamente, seja por sua sensibilidade ou por seus personagens. "Cloud Atlas" é algo que nunca se viu igual, grandioso, inovador, corajoso, visualmente belo e repleto de ideias, de um roteiro inteligente e uma edição dinâmica e muito bem realizada. Um filme raro e memorável. Recomendo.
Baseado no Best Seller de David Nicholls, que aqui assina como roteirista, o filme tem a direção da dinamarquesa Lone Scherfig (Educação) e conta com as atuações de Anne Hathaway e Jim Sturgess como o casal que enfrenta o pior de todos os vilões, o tempo.
por Fernando Labanca
15 de julho, a data que marcaria a história de duas pessoas pelo decorrer de suas vidas. Ano de 1988, Emma (Hathaway) e Dexter (Sturgess) enfim trocam palavras no dia da formatura, mesmo eles tendo estudado por anos juntos, para a felicidade da garota azarada e tímida em finalmente conhecer o típico popular do colégio. Eles ficam aquela noite, dia de São Swithin, e como tradição do dia, qualquer acontecimento estaria fadado a se repetir, permanecer nos próximos anos. O que de fato, acontece.
1989, passando pela década de 90, anos 2000. E durante 20 anos, Emma e Dexter vão se reencontrando, e sempre no dia 15 de julho, algo de importante ocorre em suas vidas, estando eles juntos ou não. Ele, metido, arrogante, com excesso de auto-estima, conhece a fama e o poder, e o tempo lhe mostra que nem tudo é para sempre, também conhece a perda, o fracasso. Já Emma, não acredita em si mesma, no seu potencial, se torna professora mas pouco se depara com o sucesso. E nesses anos, se tornam amigos, confidentes, aquele pilar que suporta os erros e ajuda a encarar os medos. O amor estava ali, era nítido, mas achavam que tudo era para sempre, que teriam tempo. Mas o tempo voa, e ele não perdoa, é ele quem nos dá a felicidade, o sucesso, mas também é ele que nos trás as verdades, e que nos tira as chances de algo que não aproveitamos no passado.
Não, não é um simples filme de romance. É muito mais do que isso. "Um Dia" é basicamente sobre o tempo, o que ganhamos, o que perdemos, o que ele nos dá, o que ele nos tira. E em menos de duas horas de filme, vemos uma vida inteira, ou melhor, duas vidas. Acompanhamos o decorrer dos anos de Emma e Dex, do sucesso ao fracasso, da tristeza ao auge da felicidade, vemos o tempo moldando a personalidade deste casal, e neste quesito, é muito interessante analizar o filme, ver as mudanças deles, o quanto as experiências da vida de cada um vai os alternando e alterando a vida do outro. Sim, também há romance, e do melhor. O casal mostrado emociona e encanta, acredito pelo fato do roteiro nos fazer indentificar com eles, simplesmente por serem humanos, não serem os típicos casais de filmes de romance, eles que erram, acertam, erram de novo e no mesmo erro, por serem idiotas, por vezes, irritantes. Dexter é o famoso anti-herói que não inspira ninguém e Emma é aquela que demora a acordar pra vida, e juntos, com seus encontros e desencontros, nos fazem emocionar, torcer, e se envolver, pelo menos, foi assim que me senti durante toda a história.
Lone Scherfig com sua experiência nos prova mais uma vez seu talento por trás das câmeras, depois do adorável "Educação" de 2009. "Um Dia" não é diferente, também é um filme adorável, daqueles pra se guardar na memória e rever milhões de vezes. Ela trás estilo ao longa, um charme que poucos filmes este ano conseguiram, ajudada pela incrível fotografia e trilha sonora, na maioria da vezes, instrumental. Outro ponto extremamente positivo foi o roteiro, contar uma história de 20 anos em 108 minutos não é para qualquer um, e o resultado foi positivo. O filme soube transitar facilmente a cada ano mostrado, e em apenas um diálogo, conseguimos compreender o que ocorrera nos meses anteriores sem a necessidade de mostrá-los. E em cortes, vemos toda a mudança na vida das personagens, sem parecer corrido ou artificial. O interessante também, é que os anos não são identificados apenas com as informações na tela, mas também são traduzidos com o olhar da diretora para cada época, cada ano parece ter uma cor diferente, um estilo diferente, se destacando também os figurinos, muito bem inseridos, além da maquiagem, fazendo Anne Hathaway e Jim Sturgess convencerem tanto quanto jovens no colegial quanto adultos.
Por falar nos atores, Hathaway e Sturgess dão um belo show na tela. Anne que foi criticada por alguns por seu sotaque britânico, logo que ela é norte-americana, pode sim ter sido um problema para os ingleses, mas ao meu ver, pouco interferiu no resultado final. Sua atuação é bela, convincente, se em algumas cenas o filme perdia um pouco de ritmo, lá estava ela com seu brilho, elevando todas as cenas em que esteve presente, soube trasmitir toda a inocência da joventude até a maturidade alcançada ao decorrer dos anos. Sturgess por sua vez, falhou em algumas sequências, principalmente na primeira metade, foi estranho vê-lo como apresentador de TV, sua arrogância nem sempre convenceu, mas vai melhorando e no final, emociona com sua performance sensível. E os dois juntos, possuim uma adorável química, talvez um dos casais mais interessantes visto este ano no cinema.
"Um Dia" me surpreendeu, esperava ver um filme bom simplesmente pelo seu elenco que ainda conta com a ótima performance de Patricia Clarkson e a belíssima Romola Garai. Mas também esperava ver um romance meloso, bonito, mas meloso. Não foi o que vi, vi um filme maduro, inteligente, com ótimos diálogos, atuações convincentes, e uma história incrível sobre o tempo e amizade. E para melhorar, um final marcante, emocionante, que fez toda a história fazer sentido. Vale muito a pena arriscar nesta obra. Recomendo.