terça-feira, 7 de dezembro de 2010

2 em 1: Kill Bill

Pegando carona na postagem da Babi sobre dois dos clássicos de Quentin Tarantino, "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", comentarei sobre Kill Bill, que marca a presença do aclamado diretor nessa década que em breve se encerrará. Muitos dizem que Tarantino recuperou o fôlego perdido em 1994, após "Pulp Fiction", com Kill Bill, que aliás não se sabe o porquê, o diretor o considera seu quarto trabalho, mesmo sendo seu, teoricamente, sexto filme.

Filmados juntos, e separados nas telas de cinema, Kill Bill volume 1 e 2 tem suas diferenças, tanto no roteiro quanto na forma. Idéia feliz de Tarantino, que somado isto a todo grandioso resultado dos longas, criou dois de seus mais belos trabalhos, provando de vez ser um grande diretor e provando que ainda tem fôlego para fazer grandes projetos, assim como posteriormente, realizou "Bastardos Inglórios" e "À Prova de Morte", mais uma vez, aclado pela crítica.

por Fernando Labanca



Kill Bill vol. 1 (2003)

Inicia aqui a doce história de vingança, uma das mais belas na história do cinema. Cheia de sarcasmo e ironias, batalhas eletrizantes e muito, muito sangue, Kill Bill foi um marco na carreira de Tarantino e um marco nos filmes de ação.

No filme, vemos uma bela mulher (Uma Thurman) com seu "Pussy Wagon", um chaveiro chamativo em busca de pancadaria, e logo na primeira cena assassina Vernita Green (Vivica A.Fox), uma antiga companheira de um grupo de assassinos de aluguel. Após a morte, ela risca mais um nome em sua lista, a lista de sua vingança, com cinco nomes, e agora dois já riscados.

No próxima cena, Quentin Tarantino nos apresenta a jornada dessa mulher misteriosa até ali, o que ela passou e por que está atrás de vingança. Ela é a "Noiva", foi brutalmente violentada em pleno dia de seu casamento pelo grupo o qual fazia parte, "Esquadrão Assassino de Víboras Mortais" liderado por Bill (David Corradine), o mandante do crime. O problema é que ela estava grávida e seu filho era de Bill que mesmo ouvindo isso de sua boca, lhe deu um tiro.

Para surpresa do grupo, ela sobrevive. Depois de meses em coma num hospital, ela acorda, sem filho, e com uma única coisa em cabeça, vingança. Seu grande alvo era Bill e até chegar até ele, fez sua lista, com seus capangas, iria matar um a um até chegar a ele. O-Ren Ishii (Lucy Liu), Elle Driver (Daryl Hannah), Vernita Green e Budd (Michael Madsen) seriam sua vítimas. Sua primeira escolha foi O-Ren Ishii, simplesmente porque de todos foi a única que se manteve na ativa, matava sem piedade e liderava um grupo de mafiosos japoneses. Porém, para conseguir matá-la, a Noiva foi atrás de Hattori Hanzo, um renomado especialista em espadas que a pedido dela fez uma para contrinuir em sua vingança. Com uma Hattori nas mãos nem tudo facilita, logo que teve de enfrentar um exército gigantesco, seguidores de O-Ren, e a batalha passa a ser muito mais difícil do que ela havia planejado.

"A vingança é um prato que se come frio", assim se inicia Kill Bill. Ou seja, para uma vingança ser bem realizada dever ser feita com total frieza daquele que a executa, e assim segue o filme, a "Noiva", assim como todos os coadjuvantes, lutam atrás de sangue e morte e vão até as últimas consequências para conquistá-los. E nesta intenção, o filme é bastante violento, e exagero é a palavra chave, sangues saem dos corpos como petróleo, mas logo entramos no jogo de Tarantino, e que nada deve ser levado tão a sério. O humor está ali também para provar a brincadeira, surge quando menos esperamos e até mesmo em cenas sérias não sabemos se damos risada ou se aquilo é sério mesmo. Uma experiência nova e extremamente divertida.

As cenas de luta que homenageiam filmes de kung fu e a cultura oriental, com uma mescla de uma cultura mais contemporênea, misturando filmes trash com animes, violência exagerada com bastante humor. Tarantino faz um mix daquilo que o consagrou, violência e citações "nerds". Ainda vemos uma trilha sonora que virou mito e até hoje é vista como referência, que transforma um simples olhar num grandioso momento, músicas que fazem deste filme algo eletrizante, canções atrás de canções, melhorando cada cena e contribuindo para Kill Bill ser definitivamente, um marco.

Além de todos esses pontos positivos, ainda há Uma Thurman. Que sem ela, esse projeto poderia ter sido um grande desastre, mesmo nas mãos de Tarantino. Ela se entrega com muita verdade a sua personagem, onde seu passado se resume a um momento, e seu futuro a uma só certeza, a vingança, sem nome, nos conectamos com a "Noiva" e com seu objetivo, torcemos por ela, e sentimos na pele sua perda. Thurman se entrega por total, tanto nas cenas mais dramáticas que são poucas, até as belas e longas cenas de ação, luta como alguém que realmente sabe o que está fazendo.

A primeira parte de Kill Bill termina muito bem, e mesmo que o grande vilão nem mesmo apareça, ficamos a espera da sequência, que foi lançada um ano depois. Mas mesmo assim, a divisão foi bem feita, e o volume 1 consegue um final digno. E mesmo sem o tão falado Bill, Tarantino nos apresenta a duas grandes vilãs, Elle Driver e a cena antológica como enfermeira assobiando nos corredores de um hospital, interpretada por Daryl Hannah e O-Ren Ishii, interpretada por Lucy Liu, que manda muito bem. Um filme fantástico, milagroso, divertido e único. Recomendo.

NOTA: 9



Kill Bill vol. 2 (2004)

A vingança continua. Mas dessa vez é para valer. Neste segundo volume, Quentin Tarantino que mais uma vez escreve e dirige, faz o que poucos cineastas conseguem, fazer uma sequência melhor que o original, sende este original, algo já excelente. Neste longa, conhecemos mais sobre a Noiva, sobre seu passado, sobre o dia em que foi assassinada e tudo o que faltou no primeiro.

Mais uma vez optando por contar a história de forma não-linear, "Kill Bill volume 2" é um simples quebra-cabeça, vemos uma mescla de fatos do passado e do presente, colocados de forma coerente, sempre facilitando a compreenção da cena seguinte. E essa forma de se fazer filme já foi bastante utilizado por Tarantino, como em "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction" e mais uma vez acerta e nisso transforma o longa em algo mais atrativo do que já era.

A "Noiva" trabalhava com seu noivo e o amava, vivia uma vida pacata em Texas, eis que no ensaio de seu casamento, reecontra um antigo amigo, ou melhor, uma antiga paixão, Bill (David Corradine), devastado pelo abandono de sua amada, traçou uma jornada afim de encontrá-la, e a encontrou noiva e grávida de outro homem. Faziam parte de um grupo de assassinos, que também voltaram, mas para matá-la. O-Ren Ishii e Vernita Green havian sido assassinadas. Budd abandonou esse tipo de vida, passou a ser um trabalhador qualquer, sabia que uma hora ou outra ela, que agora tem nome, Beatrix Kiddo, voltaria para se vingar. O que mais temia era o fato dela ter uma poderosa espada de Hattori, mas por outro lado, compreendia sua vingança. Porém, em sua batalha com Budd, Beatrix perde e acaba sendo enterrada viva. Acreditando que os problemas haviam sido resolvidos, para ganhar dinheiro, vende a Hattori para Elle Driver que para não perder o dinheiro e ainda ficar com a espada, mata Budd.

Conseguindo sair debaixo do solo, Beatrix parte, mais forte e mais sedenta por vingança, em busca de Bill. Voltando ao passado, presenciamos uma bela e verdadeira relação que ela mantinha com Bill, amantes que se amavam mais do que qualquer outra coisa, ele a leva para ser treinada por Pei Mei, um chefe de Kung Fu, arrogante e estúpido, faz de Beatrix uma profissional e é onde entendemos seus conhecimentos nas artes marciais. Entretanto, no reencontro com Bill, ela acaba reecontrando algo que tinha certeza de que havia perdido, sua filha.

Fechando com chave de ouro essa árdua jornada, "Kill Bill volume 2" trás mais uma vez cenas fortes e violentas e sequências eletrizantes e um final digno para todo esse espetáculo. O longa termina num nível altíssimo, numa sequência memorável, antológico seu reencontro com Bill, diálogos inteligentes, com direito a citações de HQ, humor e para surpresa de um filme tão pesado e tenso, enfim, um grande momento de emoção, comovente na pele de dois atores que surpreendem, Uma Thurman e David Corradine.

"Kill Bill vol.2" é bastante diferente do primeiro, e mais uma vez repito meu respeito pela divisão mais do que feliz feita pelos realizadores dos dois longas. Apesar de seguir o mesmo roteiro, a forma como tudo é feito é diferente, as cenas de morte e muito sangue são deixadas em segundo plano, dando preferência para a história em si, nos mostrando detalhes importantes do passado e que fazem toda a diferença. O filme também reserva mais espaço para conhecermos mais os personagens, onde todos ganham uma profundidade psicológica mais ampla, além das cenas mais comoventes, transformando o que antes eram apenas fantoches lutando, em humanos, que sentem, tem uma história e sofrem. Brilhante.

Os pontos positivos permanecem, como a ótima trilha sonora, a bela fotografia e as grandiosas cenas de ação. O filme, assim como o primeiro e assim como todos os filmes de Tarantino, são divididos em capítulos, contando com o volume 1, ao todo, são 10, e neles, há cenas com longa duração, preenchidas por diálogos inteligentes e rápidos, e diferente de por exemplo, "Bastardos Inglórios" a longa duração das cenas não deixam o filme intediante. Ao meu ver, Tarantino soube trabalhar melhor com seu estilo, e por isso, depois de "Pulp Fiction", tanto o volume 1 quanto o 2, foram o ponto alto de sua carreira.

Uma Thurman também cresce, já estava ótima no primeiro, mas graças ao roteiro, sua personagem cresce psicológicamente permitindo que a atriz prove de vez seu talento. Ela se sai muito bem não somente nas cenas de luta, demonstrando toda sua leveza no King Fu, mas também nas cenas mais sérias. David Corradine (que faleceu em 2009), excelente em cena, e junto com Thurman finaliza maravilhosamente o longa. O restanto do elenco, corretos.

Um filme incrível, que superou todas as minhas expectativas, logo que eu, sinceramente, não esperava muita coisa, e vi esperando criticá-lo, mas acabou e eu estava simplesmente chocado com o que acabava de ver, um espetáculo, repleto de bons momentos e cenas marcantes, excelentes atuações e um visual deslumbrante. Imperdível, para quem curte Quentin Tarantino, uma obra indispensável.

NOTA: 9,5




Vale lembrar que Quentin Tarantino afirmou que fará uma continuação, porém, ele ainda tem outras prioridades e o filme só chegaria em 2014. Alguns rumores apontam Uma Thurman mais uma vez como protagonista, e também haverá o retorno de Danyl Hannah e sua Elle Driver, logo que a mesma não teve um final revelado na parte final, e ela retornaria atrás de vingança. Outros personagens retornariam também em busca de vingança contra Beatrix Kiddo, houve boatos que indicaram que a filha de Vernita Green, que viu sua mãe sendo assassinada no primeiro, voltaria, assim como Sofie (Julie Deyfus), assistente de O-Ren Ishii, que teve um dos braços cortados por Kiddo, também no primeiro.

Enfim, agora é só aguardar...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Crítica: Kick Ass - Quebrando Tudo (Kick Ass, 2010)

Um mix de humor e pancadaria pesada, "Kick Ass" se firma como o filme mais "cool" do ano.

por Fernando Labanca

Baseado na HQ criada por Mark Millar em 2008, onde ele havia criado um herói possível, um cara como qualquer outro que decide fazer justiça com as próprias mãos e inventa situações interessantes e bastante criativas para transpor essa idéia no mundo atual, onde por exemplo, o "herói" fica famoso por um vídeo no "YouTube", entre outras coisas.

O cara em questão é Dave Lizewski (Aaron Johnson), um jovem nerd (é claro) viciado em história em quadrinhos e apaixonado por uma linda garota popular que nunca lhe dá atenção (Lyndsy Fonseca). Refletindo sobre o mundo atual e como a violência invadiu o cotidiano das pessoas, passa a se perguntar o porquê dos heróis que ele tanto admira nas páginas não existem de verdade, porque ninguém em nenhum lugar do mundo decidiu se manifestar e dar um basta. Pensando nisso, Dave decide fazer ele mesmo, compra uma fantasia pela internet, mascarado e com codinome "Kick-Ass" vai para as ruas da cidade fazer justiça. É espancado quase até a morte, vai para o hospital, é quando percebe que não ter poderes especiais poderá prejudicá-lo e tornar tudo mais difícil. Mas ele retorna, mais confiante, e em uma de suas brigas, surpreende a todos e vai parar no "YouTube" e passa a ter uma legião de fãs.

Não muito longe, Damon (Nicolas Cage) treina sua filha de 11 anos, Mindy (Chloe Grace Moretz), e neste treino envolve saber manusear armas e saber apanhar também. Tudo para lhe ensinar a força, e mais do que isso, lhe ensinar a não temer o que lhe virá pela frente. Damon é Big Daddy e Mindy é Hit Girl, e juntos tentam fazer vingança a um poderoso mafioso. Este mafioso é Frank D'Amico (Mark Strong) que por sua vez, percebe que há algo de errado com seus "negócios", onde muito de seus informantes estão sendo eliminados, é quando descobre que há um novo justiceiro na cidade, "Kick-Ass" e tem a certeza que ele é quem está estragando seus planos e para dar um fim nisso, ele conta com a ajude de seu filho, Chris (Christopher Mintz-Plasse), que se faz de herói, o "Red Mist", para chegar até Kick-Ass.


A direção é de Matthew Vaughn (Stardust), uma direção confiante e bastante segura, onde sabe trabalhar com competência toda a liberdade que o roteiro permite, de humor à muita violência, no melhor estilo Quentin Tarantino, com bastante pancadaria e muito sangue. Ainda há um toque de romance e drama para completar. Ou seja, um filme completo.

Definitivamente, um filme imperdível. O melhor de herói do ano, o que por outro lado, não se pode definir "Kick Ass" como apenas um filme de herói, o roteiro é bem abrangente, e por muitas vezes faz reflexões bastante interessantes sobre o mundo atual. Como adaptação também não sei opinar, mas como filme, é simplesmente um furacão que como o título sugere, quebra tudo. Surpreendente, desde as ótimas atuações, ao roteiro, as cenas de ação de muita qualidade e um fim bastante digno com toda a originalidade e criatividade que o filme expôs. Além de uma parte técnica impecável, desde a ótima trilha sonora, fotografia, pelas diversas locações e pelos efeitos especiais e sonoros.

Aaron Johnson surge como um ator promissor, convence com seu nerd justiceiro, é carismático e engraçado e se encaixou perfeitamente em Dave/ Kick Ass. Nicolas Cage finalmente fazendo um papel decente nos cinemas e se sai bem nas telas, assim como Mark Strong, que já está craque em interpretar vilões e caras mal-humorados (vide Reflexos da Inocência, Robin Hood e Sherlock Holmes) e portanto sabe como fazê-los muito bem, por outro lado, não surpreende em nenhum ponto, fazendo bem, mas o de sempre. Outro destaque vai para o eterno McLovin de Superbad, o ator Christopher Mintz-Plasse que me surpreendeu pois não conseguia imaginar ele fazendo outra coisa além de nerds estranhos como em seu primeiro filme, mas provou que sabe e muito bem. Mas quem rouba a cena, definitivamente, é Chloe Grace Moretz com uma das personagens mais interessantes do ano, Hit Girl. Com uma atuação digna de aplausos e boas críticas, a jovem atriz desponta com uma das grandes revelações do ano.

"Kick-Ass", o filme "cool" do ano. Ágil, divertido, inteligente e muito original, diferente de qualquer outra adaptação de herói já feita. Um dos melhores do ano! Recomendo.

NOTA: 10






































sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Especial CINEMATECA: Charlie Kaufman - 200ª Postagem!!!




Comemorando a 200ª postagem do CINAMETECA, e mais do que isso, horas se dedicando a algo, assim como eu, minha amiga e companheira aqui do blog (Babi), que fazemos com muita vontade, logo que cinema é nosso grande hobbie. Para "celebrar" essas tantas postagens, resolvi escrever sobre uma personalidade que tanto admiro quanto me intriga, um dos roteiristas mais importantes do cinema atual, Charlie Kaufman.

Nada mais oportuno que fazer isso, em homenagem a este indivíduo, e portanto exatamente em seu aniversário, 19 de novembro.

por Fernando Labanca

Vida

19 de novembro de 1958 (segundo IMDB), nasce Charlie Kaufman, a mente por trás de filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Quero Ser John Malkovich. Nasceu em Nova York, numa família judia, mas logo se mudou. Estudou cinema em importantes faculdades, inclusive, um de seus colegas de classe foi Chris Columbus (Harry Potter 1 e 2). Passou a escrever em jornais e revistas, até mesmo em artigos cômicos, é por aí que compreendemos seu humor sempre presente em seus roteiros.

Se mudou para Los Angeles, foi quando passou a escrever para séries de televisão, o que não teve tanto destaque, e sua genialidade foi conhecida nos cinemas, quando em 1999 lança "Quero Ser John Malkovich", filme dirigido por Spike Jonze. Hoje ele vive em Califórnia, com sua esposa e seus dois filhos.


Carreira

Em "Quero Ser John Malkovich", logo de cara, provou que não era mais um roteirista, numa obra extremamente original, foi indicado ao Oscar por Melhor Roteiro, Melhor Diretor (Spike Jonze) e Melhor Atriz Coadjuvante (Catherine Keener) e foi reconhecido por isso. Não muito mais tarde, lançou "A Natureza Quase Humana", com direção de Michel Gondry, que foi praticamente ignorado e facilmente esquecido e pouco se fala nesta obra. Seu retorno, então, é com "Adaptação" em 2002, dirigido mais uma vez por Spike Jonze, com várias críticas positivas, faz o filme mais pessoal de sua carreira e o que mais diz sobre ele mesmo. No mesmo ano, lança sua primeira adaptação de um livro, "Confissões de Uma Mente Perigosa". Em 2004, foi quando ganhou de vez notoriedade e enfim ganhou seu Oscar como melhor roteirista, "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", que teve na direção o retorno de Michel Gondry. Seu último trabalho nos cinemas, foi em 2008, quando pela primeira vez se arriscou a dirigir um roteiro seu, em "Sinédoque, Nova York".


Compreendendo Charlie Kaufman

Desde o início de sua carreira, Charlie Kaufman provou sempre querer seguir pelo caminho menos óbvio, fugir de tudo o que já havia sido feito. Ver um filme de Kaufman é estar diante de algo inovador, revolucionário, tanto visualmente quanto pela ideia mesmo. Hoje, infelizmente, nos cinemas, não há, ainda, quem consiga ir tão longe quanto ele, criar uma história diferente de tudo e conseguir não só ter a idéia brilhante, mas também conseguir dominar suas estranhezas e construir filmes que muitos diriam impossível de se fazer, um começo, meio e fim, tudo mirabolante, mas genial, sem derrapar.

Seus filmes são sempre algo muito pessoal, consegue colocar muito de si mesmo em suas obras, sua filmografia são como crônicas de sua auto-biografia. Em "John Malkovich", de início não se percebe, mas quando visto todos seus filmes, claramente, voltamos no tempo e temos a certeza de que, seu "eu" era a personagem de John Cusack, aquele que faz loucuras para escapar de sua vida e viver uma outra, infeliz com sua própria realidade. Esse desejo da fuga de ser quem é, sempre esteve presente em seus roteiros.

Em "Confissões de Uma Mente Perigosa" por mais que seja baseada na vida de outra pessoa, a insatisfação da vida está lá mais uma vez. Já em "Adaptação" suas características são melhor exploradas e vemos exatamente quem Charlie Kaufman é, até porque esse sim, é uma auto-biografia oficial. Philip Seymour Hoffman dá a vida para seu outro "eu" em "Sinédoque, Nova York" é quando chega no nível mais assustador sobre sua personalidade.

Charlie Kaufman sempre, então, explora em seus roteiros a vontade de ter outra vida, mais do que isso, a incompreensão e insatisfação com sua própria existência. E nada está ligado ao suícidio, mas sim, uma busca infinita para entender quem realmente é, nunca se compreende, nunca se encaixa no mundo e se vê distante de todos ao seu redor, distante de tudo além das próprias idéias, além do mundo que ele mesmo cria, para se sentir, digamos, alguém importante.Vemos isso, claramente em "Sinédoque", onde a personagem principal comete loucuras para se compreender, entender sua função no mundo e ir além, fazer algo importante antes de morrer.

Podemos dizer, que seu maior intuito é compreender a vida, suas estranhezas, sua complexidade, e através de seus filmes, fazer um estudo psicológico profundo neste assunto, com personagens complexos e histórias mais ainda. Ironicamente, quando decide fugir de suas ideologias, é quando alcança maior sucesso, "Brilho Eterno...", pode se dizer, é seu mais fantástico trabalho e o que mais foi compreendido. É difícil chegar a uma conclusão sobre suas obras, são tão particulares, são como quadros abstratos, onde só o autor poderá compreender por completo, e aqueles que assistem, tiram suas próprias conclusões.


OBRAS


Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999)

"Você não sabe a sorte que tem
de ser um macaco, pois consciência... é uma maldição terrível."



Seu primeiro trabalho nos cinemas como roteirita e produtor executivo, quando pela primeira vez as pessoas viram e pensaram: "o cara que escreveu esse filme tem problema", hoje essa dúvida foi esclarecida. Dirigido por Spike Jonze, conta com Catherine Keener, Cameron Diaz e John Cusack no elenco, além, é claro, de John Malkovich.

Além das indicações ao Oscar, o filme foi indicado ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme (comédia ou musical), Melhor Roteiro e Melhor Atriz Coadjuvante para Catherine Keener e Cameron Diaz. Venceu o Independent Spirit Award como Melhor Roteiro de estréia. No Bafta, ganhou Melhor Roteiro Original e foi indicado a Melhor Atriz Coadjuvante para Cameron Diaz. Fora do país, o filme foi muito bem recebido também, sendo indicado na França, ao Prêmio César de Melhor Filme Estrangeiro.

Vamos à loucura. Em "Quero Ser John Malkovich", conhecemos Craig Schwartz (John Cusack), uma titereiro, ou seja, trabalha nas ruas, manipulando fantoches e fazendo algumas apresentações afim de ganhar alguns trocados. É casado com Lotte (Cameron Diaz), com que tem uma relação conturbada. Decidido a mudar de vida, ele tenta preencher a vaga como arquivista num edifício comercial, mais precisamente no andar 7 e meio, ou seja, entre o andar 7 e o 8, onde todos andam encurvados. Ele consegue. Lá conhece Maxine (Catherine Keener), uma mulher madura, independente e muito sensual, abalando seu casamento.

Eis que certo dia, ele descobre no trabalho um portal, uma porta que se abre e escorregando em um túnel sujo se depara na mente de outra pessoa. Até que logo ele percebe que essa mente nada mais é que a mente de John Malkovich, um ator de cinema não muito famoso, mas todos adorariam ser e lá permanece por 15 minutos até ser jogado no acostamento de uma rodovia. Deslumbrado com a situação, descobriu como encontrar a satisfação mais uma vez em sua vida, logo que amava manipular os fantoches, pois tinha a chance durante alguns minutos viver outra vida, ter outra alma e esquecer de si, e agora ele poderia ser John Malkovich. Mas satisfação não é tudo, ele também precisa comer, e logo conta para Maxine sua descoberta e juntos passam a alugar o portal, anunciaram, e de repende milhares de pessoas, desesperadas, infelizes com suas vidas, pagavam para ser outra pessoa, independente de quem fosse.

Até que Craig apresenta Maxine para Lotte, e Lotte se apaixona perdidamente pela colega de trabalho de seu marido, ele por sua vez, não esconde dela, sua paixão por Maxine também. Para piorar, Craig decide mostrar o portal para Lotte, e ela vicia nisso como uma droga. Até que em uma das idas a mente de John Malkovich, Lotte descobre que Maxine conhece o ator e está prestes a ter um encontro romântico com ele, é quando ela decide voltar todas as vezes em que ele se encontrava com a sedutora mulher, sua intenção não era ser outra pessoa, mas sim, ter Maxine, pois sabia que nunca a teria na realidade. E para piorar mais ainda, John descobre a invasão de sua mente, mas já era tarde, pois Craig bloqueia o portal, para ele ser, eternamente John Malkovich.






"-Craig, por que você gosta tanto de marionetes?

-Talvez seja a idéia de ser outra pessoa por um instante. Estar em outra pele... pensar e mover-se diferentemente...sentir de outra maneira."






Muita coisa, não? Isso não foi nem a metade das grandes surpresas do filme, que quando achamos que já tinha alcançado o ápice do absurdo, vai muito mais longe. E numa idéia tão mirabolante, Charlie Kaufman consegue dar um fim digno, transformando de vez o filme numa obra-prima, que com certeza será lembrada ainda daqui há muitos anos, já sobreviveu 11 anos e ainda é algo moderno, inovador.

Como havia dito anteriormente, Craig é autobiográfico, Charlie Kaufman e suas imperfeições, suas complexidades. Sua relação com a vida é algo, apesar de ser tratar de uma comédia, muito comovente. A relação de John Malkovich na vida das pessoas, é mostrada com muito humor também, mas se refletido, trás uma verdade não muito engraçada assim. As pessoas não queriam ser John Malkovich, elas queriam não ser elas, escapar da realidade. O interessante ainda é que o roteiro nos mostra, que apesar de ser um ator, ter fama, dinheiro, ele tem uma vida normal, e o que as pessoas presenciam durante os 15 minutos são situações do cotidiano, mas para elas já é o suficiente.

John Cusack consegue com perfeição transmitir toda essa complexidade de sua personagem, o drama e o humor, com uma atuação digna e merecedor de aplausos, um dos melhores momentos de Cusack no cinema. Podemos dizer o mesmo de Cameron Diaz que surpreende, apagando os belos traços de seu rosto e dando espaço para a estranha Lotte, convense e faz um dos papéis mais interessantes de sua carreira e uma de suas melhores atuações, pena que pouca gente se lembra ou viu este seu momento e acreditam que ela é só uma modelo que atua, aqui ela prova que não. Catherine Keener, indicada ao Oscar, ganha bastante espaço na trama, se tornando a protagonista da metade para o final, numa atuação brilhante, está divina, incrível. Destaque para John Malkovich que empresta seu nome e seu corpo para a obra, também incrível.

Um filme divertido, estranho, extremamente inteligente e original, diferente de tudo do que já se fez, memorável. Palmas não só para o brilhante roteiro de John Malkovich, mas também, para a direção de Spike Jonze, que sem ele, essa loucura talvez não desse certo.

NOTA: 9


Confissões de Uma Mente Perigosa (Confessions of a Dangerous Mind, 2002)


"Meu nome é Charles Hitchbarris. Eu escrevi canções... eu fui um produtor de televisão...eu sou responsável por poluir o ar com minhas idéias burras de puro entretenimento. Em adição, eu assassinei 33 seres humanos. Estou condenado ao inferno."
Chuck Barris



Dirigido por George Clooney, não, você não leu errado, George Clooney, o astro de Hollywood também dirige e muito bem, por sinal. O filme tem outros astros em papéis de destaque como a revelação da época, Sam Rockwell, Drew Barrymore e Julia Roberts e também George Clooney. Primeira adaptação de um livro, ou seja, primeiro filme que faz sem se basear num roteiro original, baseado no livro autobiográfico de Chuck Barris, ou melhor, em sua autobiografia não autorizada, assim como sugere o filme.

Sabe aquele sábado e domingo que você ficava em casa quando criança assistindo TV com sua família e via programas idiotas com gincanas e brincadeiras ao estilo Programa Silvio Santos, Domingo Legal ou Domingão do Faustão, jogos entre casais, jogos de paquera entre estranhos, show de calouros, enfim, essas baboseiras que só a televisão nos oferece. Acredite, isso não foi invenção do patrão falido, mas sim, de Chuck Barris, o que causou tudo isso.

Chuck Barris (Sam Rockwell) é um jovem ambicioso capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro e reconhecimento. Tendo noção de sua imença "criatividade", começa a bolar pilotos para a televisão, inovando em muitos aspectos, e quando uma rede de TV estava falindo pela baixa audiência, ele dá sua cartada final e salva todos com suas idéias idiotas, mas que lucravam. Nessa loucura toda, ele conhece Penny (Drew Barrymore) com quem passa a namorar e dividir seu sucesso recente. E do nada ele vira estrela. Passa a apresentar suas idéias em horário nobre, passa a ser reconhecido e muda a história da televisão.

Até que ele passa a ser perseguido por um agente do FBI (Clooney) que diz que Barris é o cara perfeito para a realização de "alguns serviços" e o convoca para ser um agente secreto. Ele aceita. E para conseguir ter essa vida dupla, ele insere em um de seus quadros para casais, viagens para os vencedores, como a "romântica Berlim Ocidental" para que enquanto isso ele cometa assassinatos em nome do governo dos Estados Unidos.

Na verdade, Chuck Barris chega ao fundo do poço e decide escrever um livro, sua biografia não autorizada, "Confissões de Uma Mente Perigosa", para tentar compreender sua trajetória e mostrar aos outros como não viver uma vida.


"Eu apareci com o Show de Jogos ideal recentemente. É chamado 'Jogo dos Velhos':
Temos 3 caras velhos com armas carregadas em cena. Eles olham pra trás, nas suas vidas para ver o que eles foram, o que eles fizeram e quão perto eles chegaram de realizar seus sonhos. O ganhador é o que não atira nos seus miolos. Ele ganha um refrigerador."
Chuck Barris



Charlie Kaufman e Goerge Clooney constroem um filme bem diferente e divertido, apesar de ter uma temática um tanto quanto pesada, Clooney opta por seguir outra linha, transformando num filme leve e que vale a pena ser assistido. E acima de tudo, um filme muito estiloso, bem "cool".

O que mais chama a atenção no longa, porém, é a dúvida que salta no final, seria a vida que ele conta sua história real? A verdade é que Chuck Barris realmente existiu, a televisão está aí para provar, porém, sua segunda vida que ele revela e foi como uma bomba na época em que lançou o livro, fica na incerteza, não foi preso por seus 33 assassinatos, não há prova deles, ninguém viu os agentes e não há indícios de suas existências. Seria seus assassinatos uma metáfora para os cérebros que queimou e as pessoas que ficaram mais burras depois de suas idéias? Estariam seus crimes somente em sua mente, assim como sugere o título? Ninguém sabe até hoje, e o filme só veio para alimentar essa dúvida.

Mais do que brincar com essas incertezas, "Confissões de Uma Mente Perigosa" mostrou ao grande público grandes revelações para o cinema. Charlie Kaufman provando mais uma vez seu talento, George Clooney como diretor que surpreende e principalmente Sam Rockwell como protagonista. Rockwell é incrível, não o conhecia tão bem antes do filme e depois fiz questão de ir atrás de outros trabalhos do ator, mas este, definitivamente, foi seu melhor desempenho. Talvez o filme não fosse tão bom sem ele no papel principal, que sabe lidar com as diversas situações de seu personagem, se transformando num ator de altíssimo nível, seu trabalho é excepcional. Drew Barrymore, carismática e bela como sempre, sua Penny é doce e simpática e ninguém sabe fazer esse perfil melhor do que ela, infelizmente são poucas as cenas que o roteiro explora um pouco mais da atriz, mas as poucas que exige um talento de verdade, ela convence. Julia Roberts, bela, mas descartável e Goerge Clooney, correto.

Em "Confissões de Uma Mente Perigosa", por ser uma adaptação, as idéias de Kaufman voam menos alto, e mesmo sendo um especial de Charlie Kaufman, o filme vale mesmo por Sam Rockwell.

NOTA: 8,5



Adaptação (Adaptation, 2002)

"- Quero que o filme exista, sem um enredo forçado.

- Está bem, mas aviso que não vai ter sexo, armas, nem perseguições de carros, entende? Nem personagens aprendendo grandes lições de vida, fazendo as pazes, ou superando obstáculos no final. O livro não é assim, nem a vida. Ela não é assim."
Charlie Kaufman



Mais uma vez com a parceria com Spike Jonze que dirige, assim como havia dito, seu filme mais pessoal, isso porque é como uma biografia do autor, não de sua vida, mas de uma experiência muito única que teve. Ou seja, o personagem principal é Chalie Kaufman, intrepretado por Nicolas Cage. O filme ainda conta com atuações marcantes de Maryl Streep e Chris Cooper.

Vencedor do Bafta de Melhor Roteiro e Indicado ao Oscar na mesma categoria, "Adaptação" é citado como roteiro adaptado, e não roteiro original de Kaufman, eu o vejo como uma mescla dos dois. A intenção inicial era fazer uma adaptação do livro "Ladrão de Orquídeas" de Susan Orlean, o livro foi entregue a Kaufman para ele fazer o roteiro para o cinema, mas como fazer um filme somente sobre orquídeas? Os realizadores do longa queriam algumas mudanças no scrip para se tornar algo aceitável a nível de Hollywood. É quando Charlie escreve um filme sobre ele adaptando o livro de Susan. Metafilmagem total.

Charlie Kaufman (Nicolas Cage) e seu irmão gêmeo Donald Kaufman (que também assina o roteiro), são dois roteiristas, Donald viaja mais, tem idéias bobas, já Charlie é mais pé no chão, viaja, mas com consciência. Charlie, então, é contratado para adaptar o livro "Ladrão de Orquídeas", que por sua vez, conta a trajetória de uma escritora de um famoso e renomado jornal em busca de um artigo sobre um homem, John Laroche (Chris Cooper), que rouba orquídeas, e está um busca de uma planta rara e usa isso como sentido de sua vida. Susan vai atrás dele, descobre seus planos e seus objetivos e quanto mais passa ao lado deste excêntrico homem, mais ela percebe o quão especial ele é, e quanta beleza há na vida quando se tem algo para buscar, algo para amar com tanta paixão, e começa a refletir sobre suas escolhas
e o que ela tem em sua vida de tão importante que valha a pena viver.

Sem criatividade para seguir com o roteiro, Charlie pede ajuda de Donald e de um expert
e palestrante em roteiros (Brian Cox), e tantando fazer dessa obra algo mais publicável, cria uma relação de amor entre Susan e John, um acidente de carro, mortes e lições valiosas de vida, tudo para ser aceito, uma história somente de orquídeas nunca daria certo, era preciso adaptar o roteiro e ao mesmo se adaptar às necessidades do público, sobre uma história de adaptação.


"Sabe por que gosto de plantas? Por serem tão mutáveis. A adaptação é um processo profundo. Temos de descobrir como sobreviver no mundo. Mas é mais fácil para as plantas. Elas não têm memória. Apenas passam à fase seguinte. Mas para as pessoas adaptar-se é quase vergonhoso. É como fugir."
Susan Orlean



Parece confuso, mas conforme vamos vendo começamos a entender do que se trata, sem saber que Charlie Kaufman é um roteista que realmente existe, e o livro de Susan também, acredito que o filme se tornaria mais confuso, mas sabendo desses pontos importantes a compreensão é fácil. E é muito mais aproveitoso se visto "Quero Ser John Malkovich" antes, logo que são feitas algumas relações com o primeiro filme de Kaufman, onde John Malkovich, Catherine Keener e John Cusack fazem até uma ponta como eles mesmos, e há cenas onde ele está nos sets de filmagem, fazendo "Adaptação" um filme obrigatório para quem curte o roteirista e um filme, mais uma vez, diferente e único, uma experiência incrível, uma aula de como se fazer um roteiro. A metafilmagem funciona e é bem desenvolvida, só é preciso pensar um pouco para compreender, mas se tratando de Charlie Kaufman isso não é novidade.

A insatisfação como ser volta na pele de Charlie (Cage), durante o filme acompanhamos uma narrativa em off do personagem e muito compreendemos sobre sua personalidade, a todo momento se irrita com sua falta de cabelo, por ser gordo, por ser feio, por não conseguir se encaixar e sempre se sentir deslocado, e não há quem não se identifique com seus pensamentos, nem que pelo menos uma frase, pois é tudo muito sincero e muito espontâneo.

A intenção do longa fica para a personagem de Susan, interpretada por Maryl Streep. Sua personagem é bela, interessante e muito sensível e facilmente nos comove, e nos pega de surpresa, pois ela era só uma jornalista fazendo um artigo, não dá para imaginar tantas reflexões que ela consegue fazer com a história de um cara que rouba orquídeas. Há também narrações de sua personagem, e nos emocionamos com alguns depoimentos, principalmente quando fala sobre amar algo com paixão, isso é a vida e é disso que "Adaptação" se trata, sobre amar algo, ir atrás de um sentido para a vida, seja uma pessoa, um obejeto, uma profissão ou uma planta rara.

Maryl Streep está maravilhosa, encantadora, indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro por sua atuação, comove e conquista o público fácil com sua personagem, apesar de madura e independete, é frágil e sensível. Chris Cooper também surpreende, vencedor do Oscar por seu John Laroche, que tem uma atuação digna de prêmios, um dos melhores momentos de sua carreira e Nicolas Cage me pegou de surpresa também, depois de tantos fiascos em sua carreirta recentemente, não tinha noção do talento do ator e do que ele é capaz de fazer, infelizmente não soube escolher muito bem seus trabalhos, mas "Adaptação" ficou marcado e para mim, foi, diaparado, sua melhor atuação. No elenco, ainda vemos Tilda Swinton, Brian Cox, Judy Greer, Cara Seymour e Meggie Gyllenhaal.

Mais um acerto na carreira de Charlie Kaufman, na direção do sempre impecável Spike Jonze, um dos melhores diretores da atualidade, e um acerto também na escolha dos atores que fizeram toda a diferença. O Filme peca um pouco no final, cheio de clichês, claro que eles surgem, também como brincadeira e sátira do roteirista, mas num filme tão inovador e diferente que durante toda a projeção optou pelo menos óbvio, merecia um final mais decente, ainda sim é bom, tudo se resolve de maneira correta, mas numa história tão diferente, é inevitável esperar muito mais.

Detalhe: Donald Kaufman não existe e mesmo assim seu nome é visto nos créditos do filme como roteirista, e ainda foi indicado ao Oscar ao lado de Charlie. O primeiro indicado fictício.

NOTA: 9



Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)

"Feliz é o destino da inocente vestal! Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança."

Mary (Kirsten Dusnt), citação do poeta Alexandre Pope.



Retornando na direção, Michel Gondry que foi aclamado por sua direção e foi seu trabalho mais notável. Mais aclamado ainda foi Chalie Kaufman, que se supera, numa carreira já incrível, ele consegue a proeza de ir mais longe e realizar um dos filmes mais inovadores da história do cinema, que definitivamente, entrou para a história. E que finalmente veio em suas mãos o tão desejado Oscar de Melhor Roteiro.

Em "Brilho Eterno..." vemos uma história de amor ao contrário, das brigas finais, passando pela triste rotina, chegando no auge da paixão e enfim chegando ao primeiro encontro. Tudo isso porque Clementine (Kate Winslet) decide apagar todas as lembranças que tem com seu namorado, Joel (Jim Carrey). Depois de muitas brigas, ela enfim toma uma decisão, e entra em contato com uma empresa, a Lacuna, onde eles possuem uma tecnologia inovadora que pode apagar as memórias indesejáveis. Sem saber, Joel não entende o porquê dela não o reconhecer mais quando se encontram, até que ele descobre o ocorrido e decide fazer o mesmo.

Stan (Mark Ruffalo) e Patrick (Elijah Wood), funcionários da Lacuna e os operadores de tal máquina, vão até a casa de Joel como constava no contrato, e depois dele ter entregue todos os objetos que lembrasse de Clementine, suas lembranças com ela começam a ser apagadas, sem seguir uma ordem cronológica correta, Joel passa a ver e entender o porque dela ter se tornado uma pessoa tão detestável, até que os momentos iniciais do casal vem a mente para serem apagadas, é quando ele percebe que ainda a ama. Ele tenta desesperadamente acordar, mas já era tarde demais, e para impedir que se esquecesse dela, Joel começa a colocá-la nas lembranças em que ela não estava presente, como na infância ao lado da família. E para piorar, ele descobre mesmo desconectado com a realidade que Patrick está usando suas idéias e táticas para consquistar Clementine.





"O que Howard faz ao mundo: deixar as pessoas recomeçarem. É lindo. Olhamos para um bebê e é tão puro, tão livre e tão limpo. Os adultos são essa confusão de tristezas e fobias"
Mary




Genial, simplesmente Genial. De ficar sem palavras quando o filme termina, não há nada como "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", um filme maravilhoso, que alcança a perfeição. O roteiro de Kaufman é simplesmente impecável, correto em tudo, e a direção de Michel Gondry foi essencial, acredito que tenha sido a melhor em toda a carreira de Charlie, o melhor diretor que soube transpor sua idéia maluca para as telas.

Como havia dito, o longa que mais se distancia dos propósitos de Kaufman, é o menos complexo de seus filmes, mas nem por isso menos inteligente e menos interessante, pelo contrário, o melhor do roteirista que cria uma deliciosa história de amor, a mais inteligente e inovadora história de amor já contada nos cinemas. Mesclando fatos do passado, futuro e presente, um quebra-cabeça genial, que quando completo, surpeende pelo resultado final. Outra brincadeira de Charlie, a história de duas pessoas apaixonadas contadas do final para o começo e isso é o mais interessante, pois o final de um relacionamento atualmente é tão óbvio, sempre acaba em brigas e o melhor de um filme é o fim, e o melhor de uma relação a dois é o início, e por essa perspectiva vemos o quanto as pessoas mudam e o quanto elas esquecem quem foram no passado e as promessas que fizeram, e depois de tantas histórias juntos, duas pessoas no fim, chegam a conclusão que não passam de dois estranhos que não se conhecem.

Jim Carrey provou neste filme que pode ser um grande ator de drama, apesar do toque sutil de humor, seu personagem é mais dramático e se sai bem, já havia feito isso em "Show de Truman", e ele retorna no gênero com grande êxito. Kate Winslet, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, é definitivamente, uma das melhores atrizes norte-americanas, e sua Clementine é uma de suas melhores performances, extremamente adorável, carismática, verdadeira e divertida. Kate fazendo um papelo que geralmente é dado a Jim Carrey e ele, por sua vez, fazendo um papel que seria dela. Invertendo os papéis, até nisso, o filme inova. Ainda temos Kirsten Dunst, também incrível, assim como Mark Ruffalo e Tom Wilkinson.

Um filme obrigatório, não vai mudar a vida de ninguém, mas vai mudar a percepção do que é realmente cinema e o que ele pode nos proporcionar, uma experiência divertida, emocionante, única. Um filme revolucionário, que inova na maneira de contar uma história e de se fazer filme.

NOTA: 10


Trecho de uma das cenas finais, do último encontro nas lembranças de Joel, ou seja, do primeiro encontro do casal. Que conscientes de que no dia seguinte não se recordarão da relação que mantinham, se despedem. Uma das cenas mais belas do filme e uma de minhas prediletas:

"- Eu preciso ir.
- Então vá.
-Eu fui...achei que talvez fosse maluca. Mas você era interessante.
-Queria que tivesse ficado.
-Eu também queria ter ficado. Agora eu queria ter ficado, queria ter feito um monte de coisas.
-Eu desci e você já tinha ido.
-Eu saí, saí pela porta.
-Por quê??!!
-Eu não sei. Me senti um menino apavorado. Era mais forte que eu.
-Estava com medo??!
-Estava. pensei que soubesse que eu era assim. Corri de volta para a fogueira, tentando superar minha humilhação, eu acho.
-Foi alguma coisa que eu disse?
-Foi. Você disse: 'Então vá', com tanto desdém, sabe?
-Me desculpe.
-Tudo bem.
-E se você ficasse dessa vez?
-Eu fui embora pela porta, não sobrou nenhuma lembrança.
-Volte e faça uma despedida, pelo menos vamos fingir que tivemos uma. Tchau, Joel
-Eu te amo.
-Encontre-me em Montauk!!"



Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008)

"Eu vou ter alguém para me interpretar, para investigar na melancólica, covarde profundidade de minha solitária e fodida existência"
Caden Cotard



Definitivamente, seu filme menos compreendido, tirando "Natureza Quase Humana" que nem conta, "Sinédoque, Nova York" é seu filme mais tenso, mais difícil de se assistir e talvez mais complicado de se entender, muitos dizem que ele extrapolou, alguns até o veem como alguém com problemas mentais de verdade após verem o filme. Pois, mais uma vez é possível ver muito de Charlie Kaufman no filme, e seu "alter ego" vai longe demais, é doentio, suas atitudes são incompreensíveis e assustadoras.

Sem premiações importantes, o filme foi simplesmente ignorado pela Academia. Primeiro longa dirigido pelo próprio Kaufman, que muitos acreditam ser um dos grandes problemas do longa. Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro, é casado com Adele (Catherine Keener) e tem uma filha, Olive. Até que depois de muitas brigas, Adele decide abandoná-lo e viver com uma mulher (Jennifer Jason Leigh) na Europa, o problema que ela leva a filha junto, acabando de vez com a vida de Caden. Livre do relacionamento, ele passa a se relacionar com a doce Hazel (Samantha Morton), sua grande amiga e companheira.

Como prêmio honorário de sua brilhante carreira no teatro, aposentado, Caden ganha uma grande quantia em dinheiro. Insatisfeito com sua própria vida, com todas as coisas que aconteceram e por ele sempre ter se sentido um grande bosta, resolve utilizar esse dinheiro para fazer algo grandioso, algo que o marcaria na história antes de morrer e mais do que isso, um estudo sobre sua própria existência.

Ele vai para Nova York, abandonando Hazel, que por sua vez, segue com sua vida. Lá, Caden descobre um galpão antigo e abandonado, um espaço gigantesco e vazio no meio da grande cidade, e neste espaço, ela passa a fazer uma peça de teatro. A peça sobre sua vida, como maneira de compreender a complexidade de se viver, compreender suas atitudes perante o mundo ao seu redor, ele começa a buscar atores para ser sua esposa, Adele e sua filha, e para isso, ele conta com a ajuda de Claire (Michelle Williams), uma aspirante atriz capaz de fazer de tudo para se dar bem, inclusive se relacionar com o diretor, e quando os dois passam a namorar e morar juntos, ele pede para ela interpretar ela mesma na peça. Ela aceita, é claro. Até que Hazel retorna, e passa a ser sua secretária, e ele contrata uma atriz para ser Hazel no teatro, Tammy (Emily Watson). Percebendo que ter os coadjuvantes de sua vida não seria o suficiente, contrata Sammy (Tom Noonan) para ser ele nos palcos.

Até que ele passa a perder o controle de tudo isso, e viver duas vidas paralelas começa a ficar cada vez mais difícil. Perde a razão, e começa a confundir não só a si mesmo como as passoas ao seu redor, e sem ter a noção de que cada um tem sua própria vida, ele não consegue enxergar nada além de sua peça e do que ele quer construir, algo maior que sua própria existência, não importando com pagamentos, nem espaço físico, deixando de se importar com sua vida real e se
dedicando com sua vida fictícia.


"Olhe para mim. Eu tenho olhado para você sempre, Caden. Mas você nunca realmente olhou para ninguém mais além de si mesmo. Então olhe para mim, olhe meu coração partido, olhe-me pular. Olhe-me descobrir que depois da morte não há nada, sem mais vigilância, sem mais perseguição, nenhum amor. Diga adeus a Hazel por mim, e diga isso pra si mesmo também, nenhum de nós tem muito tempo."
Sammy

Impressionante, de deixar qualquer de boca aberta, alguns poderão até desistir de chegar até o final, mas garanto que vale a pena, e apesar das críticas negativas (a maioria, positiva), acredito que seja um filme poderoso, assustador sim, pois os acontecimentos são surpreendentes e inimagináveis, e o filme cresce tanto que quando chega ao fim, parece que nem mais respiramos, o longa, assim como a própria história, ganha proporções tão grandes, é espantoso ver o resultado e as idéias deste ser, que realmente extrapolou, mas em nome da arte, e como cinema, o filme é maravilhoso, muito original, surpreendente em cada cena, cada fala.

Seria Charlie Kaufman tão maníaco obsessivo pela própria existência? Capaz de ir tão longe a ponto de se descobrir, sem se importar com as pessoas ao seu redor? A verdade é que todos seus filmes foram o palco de "Sinédoque", e a cada trabalho, uma experiência nova, mas um mesmo intuito, se compreender como pessoa, entender seu objetivo de vida, buscar por um significado, por algo importante, algo para amar. "Sinédoque, Noa York" é a junção de tudo isso, é como uma explicação de toda sua obra.

Philip Seymour Hoffman arregaça, simplesmente, arregaça em sua atuação, incrível, consegue, através de suas expressões demonstrar toda sua angústia, infelicidade e ao mesmo obsessão pelo próprio trabalho. O Elenco coadjuvante é de peso. Samantha Morton, doce, maravilhosa, impecável, desde muito tempo vem provando ser uma das atrizes mais talentosas de Hollywood e aqui ela não deixa dúvidas sobre seu talento. Emily Watson surpreende também, como Tammy, quase irreconhecível, interpretando Hazel no teatro, se tranforma em Samantha Morton interpretando Hazel, fantástico, quase confundimos as duas, de tão parecidas que ficaram. Tom Noonan, ator que para mim, desconhecido, fiquei surpreso, fazendo algumas das melhores cenas do filme, emocionante sua participação. Michelle Williams mais uma vez acerta em sua escolha no cinema, construindo uma carreira invejável com uma atuação de destaque, digna de aplausos. Ainda aparece depois de um bom tempo sem vê-la num bom papel, Dianne Wiest, numa atuação surpreendente. Catherine Keener, Jennifer Jason Leigh e Hope Davis, também ótimas.

Um filme explêndido, maravilhoso, original e muito emocionante. Há cenas em que lágrimas não se conterão, como o forte reencontro de Caden com sua filha, muitos anos depois e a cena em que Caden decide contratar Sammy depois de um comovente discurso sobre sua vida. Entre outras cenas memoráveis e atuações marcantes, um filme digno de milhares de prêmios, que só conquistou o Independent Spirit Award como Filme de Estréia, o que já é muita coisa, mas um filme, que se melhor compreendido, teria feito um grande sucesso. Realmente ficou faltando a mão e a visão de um diretor mais experiente, que conseguisse guiar melhor o longa, impedindo que ele se tornasse um pouco cansativo em determinadas partes. Ainda sim, recomendo, assim como todos de Charlie Kaufman, não há um que eu tenha comentado que não valha a pena conferir.

NOTA: 9,5


"(...) Eles dizem que não existe destino, mas existe. É o que você cria. E mesmo que o mundo continue por essas eras e eras...você está aqui apenas por uma fração de uma fração de segundo. A maior parte de seu tempo é gasto sendo morto ou ainda não nascido. Mas enquanto está vivo, você espera em vão desperdiçando anos por um telefonema, uma carta ou um olhar, (...) algo para fazer você se sentir conectado, algo para fazer você se sentir inteiro, algo para fazer você se sentir amado."
Caden Cotard



As frases foram retiradas de trechos dos respectivos filmes, para ilustrar a genialidade de Charlie Kaufman. Os diálogos são sempre um ponto alto em seus longas, também, assim como toda a história, bem originais.

Quem já teve a oportunidade de ver algum dos filmes de Kaufman, não deixe de ver os outros, vale muito a pena. Sua filmografia não é tão grande e já é muito poderosa e importante. Recomendo todos, sem excessão. Um ser talentoso, inteligente e cheio de conteúdo, seus filmes são feitos para serem refletidos e por isso, se tornam memoráveis.

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