
por Fernando Labanca
Pode até ser um jeito covarde de começar uma crítica, mas já digo de antemão: não há palavras que possam descrever a grandeza deste filme. Minhas expectativas eram altas diante dos bons comentários que havia lido, no entanto, ao seu término, senti algo tão forte que não cabia em mim. Uma mistura de orgulho, por poder ver uma obra que resgata o que há de melhor no cinema nacional, com puro prazer. Prazer de estar ali, assistindo aquilo, vivenciando e sentindo todo sentimento que o filme expõe. E são muitos. Me encontrei trêmulo, sem reação, admirado não só pelo belíssimo e poderoso final, mas por toda a poesia e significados de "Aquarius". Dirigido por Kleber Mendonça Filho, que já havia chamado a atenção em "O Som ao Redor" (2012), o longa ainda traz de volta uma revigorante Sonia Braga, que entrega alma à sua protagonista e acaba por fazer da sessão um grande e espetacular evento.
O filme nos apresenta Clara (Sonia Braga), uma mulher forte e independente, viúva e mãe de três filhos adultos que já não mais dividem a casa com ela. Logo, ela mora sozinha em um antigo apartamento no Edifício Aquarius, em Recife. Bem localizado, é lá que Clara viveu grande parte de sua vida e onde guarda suas melhores recordações. No entanto, uma construtora, liderada pelo jovem e empreendedor Diego (Humberto Carrão), tem planos de levantar um novo prédio no local e apesar de já ter conseguido a aprovação de todos os apartamentos, falta o dela, que rejeita qualquer tipo de negociação e vive isolada naquilo que alguns chamam de "prédio fantasma". É então que Clara passa a ser pressionada para que mude de ideia, sofrendo todo tipo de ameaça e assédio.


O roteiro é primoroso. Além de toda a trama fluir de uma forma deliciosa de assistir e contemplar e de termos aqui personagens muito bem escritos e inseridos dentro da história, "Aquarius" fascina por cada detalhe, por indicar em cada instante um novo significado, uma nova importância. Nada ali vem de graça, tudo tem uma razão para existir e é incrível quando nos damos conta disso. A premissa da construtora querer aquele espaço já é, por si só, extremamente interessante, mas tudo o que vem junto com ela, todos os desdobramentos e todas as reflexões e críticas feitas tornam seu texto ainda mais impecável. Existe uma admirável evolução na trama, onde, gradualmente, vamos sendo sugados para dentro dela e quando menos esperamos estamos ali, grudados na poltrona, aflitos por todo o seu desenvolver e de certa forma, tensos sobre como tudo aquilo pode acabar. Os diálogos também chamam a atenção, onde cada discurso bem elaborado de seus personagens, além de serem incrivelmente realistas, chocam por serem tão crus, sejam as dolorosas conversas familiares, seja dentro do potente embate entre Clara e seu inimigo declarado da construtora. Vale destacar a excelente direção de Kleber Mendonça Filho, que constrói belas sequências ao lado de sua competente produção.
"Aquarius" revela o Brasil como é e acredito que poucos filmes tenham conseguido esta proeza nos últimos anos. É um representante fiel ao que somos feitos. Não evita ser crítico quando precisa e em nenhum momento ignora a beleza, o sentimento, a poesia e a nostalgia que nos segue. Temos um país com uma cultura musical tão forte e me espanta como quase não temos obras que mostrem isso. logo, finalmente uma veio para reverenciar a verdadeira grandeza de nossas canções, as inserindo, sempre como muito cuidado, em alguns momentos importantes. Não deixa de ser, também, um filme doce, que encanta por toda sua sensibilidade, que revela até mesmo os instantes mais corriqueiros na vida de seus personagens com um ar de apreciação. Muito delicado este encanto do longa com a memória, das histórias que objetos trazem, das lembranças que são guardadas com afeto. Seja vintage ou velho, o passado tem sempre muito a que nos dizer. Ao seu fim, queria agradecer a todos os envolvidos neste fantástica produção, que é tão cheia de ideias e pensamentos, tão cheia de honestidade. Que prazer poder ver "Aquarius". Que grande prazer! Espetacular, memorável, temos aqui uma nova obra-prima do cinema nacional.
NOTA: 10
País de origem: Brasil
Duração: 142 minutos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Pedro Queiroz, Allan Souza Lima
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