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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Crítica: Um Mergulho no Passado (A Bigger Splash, 2015)

Inspirado no filme francês "La Piscine" de 1969, temos aqui uma das obras mais ousadas e provocativas do ano. 

por Fernando Labanca

Apesar de ter sido lançado em festivais em 2015, o longa dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, só conseguiu chegar este ano no Brasil. Fazia um bom tempo que queria conferir o filme que já havia me chamado a atenção pelo elenco e pelo trailer. Os atores se destacam em uma trama intrigante que envolve quatro personagens, vividos pelos britânicos Tilda Swinton e Ralph Fiennes, pela norte americana Dakota Johnson e pelo belga Matthias Schoenaerts. Gosto desses filmes que me lembram uma peça de teatro, que não permite que seus personagens escapem de seus limites muito bem demarcados, sendo obrigados e se enfrentarem dentro deste pequeno espaço. O cenário é uma província italiana, com belas paisagens e uma casa que abriga uma piscina. É nesta piscina que grandes eventos ocorrem, que sentimentos são expostos e algumas verdades são ditas.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Crítica: Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013)

Baseado na grafic novel francesa "Le Transperceneige", o longa marca o primeiro filme falado em inglês do sul coreado Joon-ho Bong (O Hospedeiro, 2006), que conta ainda com a produção de Chan-wook Park (Oldboy, 2003). Visualmente estilosa, a obra traz um olhar bastante original sobre um mundo pós-apocalíptico, que consegue, com seu roteiro extremamente inteligente, fazer duras críticas à sociedade atual. Uma das grandes surpresas deste ano.

por Fernando Labanca

Apesar de já ter sido lançado na Coréia do Sul, o filme tem encontrado bastante dificuldade para sua distribuição em outros países devido a divergências com o estúdio The Weinsein Company, que comprou seus direitos. E assim, depois de diversas datas de lançamento aqui no Brasil serem adiadas, o filme continua por permanecer no limbo, e dessa forma, sendo impedido de ser descoberto. E sim, "Expresso do Amanhã" precisa ser descoberto.

Num futuro pouco distante, o governo falha em uma missão de cessar o aquecimento global, culminando no congelamento total do planeta. Wilford (Ed Harris) é um engenheiro que elaborou a construção de um trem que acabou por salvar toda a população, e numa espécie de "Arca de Noé", a embarcação levou os últimos sobreviventes. Sem destino, os passageiros são separados de acordo com suas classes sociais, e aqueles que não conseguiram comprar sua entrada, vivem na "cauda", ou seja, nos últimos vagões do trem, vivendo em situações precárias e se alimentando de uma pequena barra de proteína. A trama se inicia, quando, 18 anos depois, a população da cauda resolve começar mais uma rebelião, liderados por Curtis (Chris Evans), afim de chegarem até os primeiros compartimentos, no local onde poderão controlar as máquinas, onde finalmente iniciarão a tão almejada revolução.

domingo, 4 de março de 2012

Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

Baseado na obra escrita em 2003 por Lionel Shriver, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" estreou ano passado no Festival de Cannes, em competição, sendo indicado a Melhor Diretor para Lynne Ramsay. O filme mostra de forma bastante complexa e intrigante o nascimento de um psicopata, só que por um outro ponto de vista, o da própria mãe. Para escrever o livro, por sua vez, a autora havia se baseado em casos reais de massacres em escolas, ato que se tornou comum, infelizmente, e o filme consegue com perfeição resgatar este realismo das situações e por isso é uma obra tão chocante. 

por Fernando Labanca

Casos como o Massacre de Columbine de 1999, nunca saiu da mente dos norte-americanos. Jovens que por algum motivo entram em suas escolas e cometem o crime, o assassinato de outros adolescentes. A mídia está aí para condenar estes indivíduos e seus pais, que muitos julgam serem os principais culpados. O trauma, a violência, a ausência de bons valores, vem do berço, como muitos acreditam. O filme, assim como o livro, mostra exatamente o que não queremos compreender ou que ignoramos, a vida dos pais deste jovem, mais precisamente, neste caso, a vida da mãe. O que aconteceu nesta família? Como ela era como mãe? O que ela fez para ele? Perguntas que muitos fazem para encontrar uma justificativa ao ato criminoso, entretanto, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" em nenhum momento tenta entregar essas justificativas, mas sim, nos levar fundo ao psicológico das personagens, entrar na mente delas, sem moralismos ou respostas fáceis, a difícil jornada de uma mulher e tudo o que ela viu, sentiu e sofreu e nos deixa fazer nossas próprias conclusões. 

Sem seguir uma linha cronológica correta, do presente ao passado, e vice-versa, conhecemos Eva (Tilda Swinton) que mora em uma pequena casa, é mal vista pelos vizinhos que a encaram e a humilham sempre que podem, ela tenta se reerguer na vida pois algo de muito terrível aconteceu em seu passado. Neste mesmo passado, a união com o homem que amava, Franklin (John C.Reilly) e logo o nascimento de Kevin. Com a chegada do bebê, Eva percebe que perdeu o que mais admirava, a liberdade, não consegue aturar os berros de seu próprio filho e se vê presa na pele de uma mãe que nunca sonhou ser. Vemos Kevin crescendo e aos poucos vai mostrando uma personalidade misteriosa, encara sua mãe, lhe diz coisas que crianças não sabem, a chantageia, goza de suas imperfeições e falhas. Já adolescente (Ezra Miller), suas atitudes pioram, surge um jovem quieto, com segredos e Eva se vê perdida nesta situação, ao mesmo tempo em que se assusta e teme pela vida das pessoas que ama, ela tenta se reaproximar, tentar criar um elo que jamais conseguiu ter, o elo entre uma mãe e um filho. E o filme segue até o grande momento, onde descobrimos o que aconteceu na vida desta mulher e deste jovem, um ato que definiu suas vidas.


"Precisamos Falar Sobre o Kevin" é um filme difícil. É duro, é cruel. A diretora Lynne Ramsay em nenhum momento tenta aliviar a tensão e constrói uma obra impactante, onde este mesmo impacto surge em cenas simples, uma pequena sequência que mostra a rotina das personagens, a tensão está ali, no clima, há uma atmosfera pesada em cada uma delas. Seja ainda em cenas como quando Eva descasca a sujeira de sua parede ou quando Kevin come suas unhas, com closes, que nasce em nós, uma sensação de desgosto, de inquietação. Neste quesito, a diretora realiza um trabalho excepcional, o uso das câmeras, os cortes, a edição rápida que nos empolga e nos hipnotiza em cada situação mostrada. Palmas para o roteiro, também de Ramsay, onde ela consegue colocar na tela momentos cruciais para a compreensão de tudo, onde cada cena parece querer dizer algo, nada do que vimos está ali por acaso, tudo tem um motivo, um olhar, uma expressão, um diálogo, cada pequeno elemento da história tem um motivo para estar ali e muito dizem sobre o que queremos saber. A verdade é esta, o longa nos oferece todos os argumentos que precisamos para formar nossa opinião, as perguntas, as respostas, estão ali, a diferença é que nós, como público é que temos que formulá-las, o roteiro não as entrega. Ramsay não usa sua obra para gerar respostas, não tenta encontrar uma moral para a história, nem julgar o que há de certo ou errado numa situação como esta.

O roteiro também acerta ao não seguir uma ordem cronológica dos fatos, assim, consegue criar no público, uma curiosidade, o filme nos mostra logo de início que algo muito grandioso aconteceu na vida das personagens, mas não revela o que, e a partir deste evento conhecemos o que houve antes e depois dele. Não há como não se prender na história, a vontade de querer saber o que houve, o porquê daquela mulher ser tão vazia, tão sofredora. Mas antes mesmo de chegar ao fim, o filme consegue impactar, por cada cena, as atitudes de Kevin realmente assustam, vê-lo tentando acertar sua mãe com uma flecha ou pouco se importando quando sua irmã perde um dos olhos, é de uma frieza tão grande e faz de Kevin um dos personagens mais incríveis que o cinema viu nos últimos anos. Ver Eva como mãe chega a ser até brilhante, o filme nos mostra um outro lado da moeda, onde ela chega ao ápice de chegar perto de uma britadeira na rua para não ouvir os choros de seu filho ou dizer sem nenhum remorso "você destruiu meus sonhos" para o bebê enquanto brincam. A relação de Eva e Kevin é o que há de melhor do longa, é de um nível tão complexo que parece que nossa mente demora a acreditar no que vê. E o final? Nada menos que chocante, um soco forte na alma, e o realismo como tudo acontece faz com que tudo seja mais doloroso, mais difícil de encarar, de engolir.

Tilda Swinton. Uma atuação antológica, sem mais. A atriz brilha e marca, acredito eu, o melhor momento de sua carreira. Se entrega de corpo e alma, se deixa levar pela trama e pelos conflitos de uma forma tão real, tão natural, convence e por isso nos faz sofrer com ela, sua personagem é tão intrigante, tão fascinante, e ela soube trabalhar perfeitamente as nuances de Eva, seus sorrisos forçados, seu olhar afastado e vazio, suas expressões que parecem contar toda uma trajetória. O jovem Ezra Miller também caiu perfeitamente no papel de Kevin, realiza um trabalho notável e sem sua grande atuação o filme não teria o mesmo poder, vale citar ainda as crianças que fizeram as outras fases da personagem e mandaram muito bem. John.C.Reilly sem muito destaque, está correto.

A trilha sonora "alegre" entra em oposição aos conflitos pesados da trama, como se a todo instante algo na vida daquelas pessoas estava errado, alterada de alguma forma. Destaque pelas grandes atuações, direção e roteiro brilhante de Lynne Ramsay, que conta com uma ótima edição e fotografia, que nos transforma em sádicos, pois acaba que sendo uma experiência extremamente agradável assistí-lo, mesmo se tratando de uma trama tão densa, tão violenta, tão forte, pois é uma obra muito bem realizada, como cinema é um primor só, de um nível extremo de qualidade. É realmente muito difícil dissertar sobre este filme, uma obra que nos faz refletir sobre o assunto, esta estranha personalidade dos psicopatas, e isso ocorre na tela de uma maneira, confesso, como nunca havia visto antes. Sabe emocionar sem forçar nenhuma situação, funciona também quase como um terror psicológico, nos amedronta pelas ações das personagens, por seus diálogos inesperados e chocantes, é realista, é pesado, é cruel, uma obra grandiosa, impactante, agonizante, que nos faz esquecer por completo nossa realidade, que é quase impossível se sentir indiferente a ela. Um filme que lhe tira o chão, lhe tira a alma, parece difícil voltar a respirar ao seu término. Enfim, maravilhoso, e mesmo ignorado pela Academia do Oscar, é definitivamente superior a seus indicados. Como alguns acreditam, talvez, os norte-americanos não estejam prontos para encarar esta triste verdade, não desta forma. Brilhante, memorável...o melhor filme do ano, até agora, fato!

NOTA: 9,5



sexta-feira, 1 de maio de 2009

Crítica: Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008)


Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme-Comédia, além de outras indicações a prêmios importantes, Queime Depois de Ler empolga o espectador com uma história inusitada, mas o resultado final é nada mais que decepcionante.


por Fernando

Uma mulher que sonha em fazer plástica, um homem que trabalha em uma academia e faz loucuras para ganhar dinheiro fácil, um ex-agente da CIA, sua ex-mulher e atual amante de um homem casado. Pronto. Queime Depois de Ler poderia se resumir a isto, mas vamos tentar tirar mais proveito disso.

Osbourne Cox (John Malkovich) é demitido repentinamente da CIA, onde era analista e acreditava que participaria de mais uma missão ultra-secreta, mas recebe a trágica notícia, isso ocorreu devido ele ter um sério problema com bebidas. Quase entrando em depressão por estar desempregado, Osbourne decide fazer algo novo, escrever um livro sobre sua vida profissional na agência e divulgar informações importantes e secretas do local. Enquanto isso, sua mulher Katie (Tilda Swinton) começa a estranhar suas novas atitudes e desaprova a idéia do livro e teme que ele morra sem lhe entragar todo o dinheiro que ela tem por direito, ao mesmo tempo, se dedica a sua vida amorosa com seu amante, Harry (George Clooney), que por sua vez também é casado, tem uma mulher adorável mas tem o péssimo hábito de se envolver com outras mulheres, já que Katie não é sua única amante.

No meio dessa confussão, surge os elementos principais. Linda (Frances McDormand) trabalha em uma academia, e pelo fato de trabalhar com sua imagem, ela decide fazer várias plásticas, porém o que lhe falta é dinheiro para realizar esse grande sonho. Linda está envelhecendo, já não tem as curvas da juventude e o pior, ainda não encontrou sua cara-metade e por isso, nas horas vagas se prende na internet atrás de sua alma gêmea. Na mesma academia trabalha seu melhor amigo, Chad (Brad Pitt), como personal trainer.

Osbourne escreve o livro, envia para a editora, suas palavras são gravadas em um CD. O mesmo é deixado sem querer na academia onde Linda e Chad trabalham, que por sua vez, cai bem em suas mãos. Chad, apesar de parecer idiota e agir como tal, não é tão idiota assim, e bola um plano para se sair bem com as informações que conseguiu, logo que de cara ele percebe estar com informações secretas da CIA. Ele se une a Linda que precisava muito do dinheiro e os dois entram em contato com Osbourne Cox para chantagea-lo. O problema é que as informações nem eram tão secretas assim e não destruíria a fama da CIA e por isso Cox não cede tão fácil e os dois completamente desajustados no ramo de chantagens, perseguições e ligações misteriosas, se perdem nesse mundo e se veem sem saída, porém esta jogada pode ser bem mais perigosa do que eles imaginavam.

Cox decide se afastar. Harry começa a frequentar a casa dele para ficar com Katie, apesar dela não demonstrar nenhum tipo de afeto por ele. Enquanto isso, Harry conhece Linda pela internet, ela começa a se envolver muito com ele, e para surpresa dele, como sendo um galinha de primeira, começa a se envolver demais com ela também. Harry sempre foi paranóico com perseguições, sempre acha que está sendo perseguido, a cada instante, a cada lugar que frequenta, principalmente por ser amante da mulher de agente da CIA, mas sua paranóia piora quando ele toma a pior de suas atitudes, ele mata um homem, agora além de amante infiel, ele também é assassino.

Chad decide ir além no plano, vai atrás de Cox, porém o que ele também não imaginava é que ele estaria fora, e acaba sendo assassinado por Harry, que o mata por puro reflexo, levou um susto por ver um homem estranho na casa de Katie e atirou. Linda mesmo não sabendo da morte de Chad, percebe que o plano seguiu muito além do que ela esperava, para ela o amigo estava desaparecido e teme que algo de ruim tenha acontecido com o amigo, seu grande amigo.

Um plano simples que acaba ganhando proporções inimagináveis. Pessoas desconhecidas que acabam se relacionando por motivos inusitados. Esse é Queime Depois de Ler, filme dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen pouco tempo depois de filmarem Onde os Fracos Não Têm Vez.
O filme fala sobre pessoas que já chegaram a certa idade, mais precisamente na casa dos trinta, que tantam simplesmente sobreviverem, cada um de sua forma, cada personagem cria sua própria batalha para conquistar seus desejos, sejam eles pecados, poder, riqueza, caprichos.

Mas Queime Depois de Ler não passa de um filme experimental dos irmãos Coen que parece terem brincarado de fazer filme. Talvez essa não tenha sido a intenção, mas o filme parece um rascunho, algo criado para futuramente ser algo maior. Não tem muito propósito e nem sentido e por isso parace ser uma brincadeira, uma brincadeira de gente grande. É divertido, mas não funciona como cinema, a impressão que fica é que perdemos o nosso tempo assistindo uma obra engraçada, mas uma obra particular, feita por eles e para eles, agrada pelas personagens e pelas situações originais, mas peca feio ao tentar construir uma história, onde no final, tudo se resulta em nada.

O grande ponto positivo foram as atuações. Tilda Swinton é sempre surpreendente, tem uma cara que (aparentemente) não expressa muita coisa mas ao mesmo tempo consegue ter multiplas faces e nesse filme não é diferente. George Clooney, sem dúvida, tem sua melhor atuação, há anos eu vejo filmes com ele e ele simplesmente consegue fazer a mesma coisa sempre, inclusive ano passado quando foi indicado ao Oscar por ter feito o mesmo de sempre, mas nesse filme, ele conquista o público mesmo sendo tão errado. John Malkovich também está ótimo com seu Osbourne Cox e convense na pele do ex analista da CIA. Mas os melhores foram Frances McDormand, que está simplesmente incrível no filme, tem uma naturalidade que poucas atrizes tem, é carismática e divertida e as cenas em que está presente são os bons momentos do filme, o mesmo acontece com Brad Pitt que segue firme num dos momentos mais brilhantes de sua carreira, logo após surpreender com seu Benjamin Button, ele enche nossos lábios de sorriso com seu Chad, irreverente, original e extremamente carismático. O filme ainda conta com boas participações de Richard Jenkins (indicado ao Oscar esse ano) e J.K Simmons.

Se for para perder seu tempo assistindo esse filme, que seje pelos atores. É divertido e original, mas não espere muita coisa, a decepção pode ser grande. Os irmãos Coen conquistou grande parte da crítica, só falta tantar conquistar o público. Mas particularmente, se existe um grande defeito em suas películas é o fato deles simplesmente não se importarem em concluir o filme. Isso é básico, toda obra, tem seu inicio, meio e fim e eles se recusam a fazer um fim para cada roteiro que escrevem. Eles colocam uma arma nas mãos de uma personagem e pronto, o fim está feito. Foi assim em Matadores de Velinhas e Onde os Fracos Não Têm Vez. E com isso, faz com que o filme não valha a pena, pois simplesmente foi algo que aconteceu mas não se concluiu.

NOTA: 5

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