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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Crítica: À Procura do Amor (Enough Said, 2013)

É sempre bom nos deparar com aquele tipo de filme que foge a regra, e "À procura do Amor", ao contrário do que o título em português denuncia, é uma comédia romântica que vai em direção oposta às muitas que são produzidas. A diretora e roteirista Nicole Holofcener traz maturidade ao seu roteiro, conduz sua trama de forma bastante verossímil e que acaba ganhando ainda mais destaque por ter como protagonistas dois excelentes atores, Julia Louis-Dreyfus e James Gandolfini.

por Fernando Labanca

Conhecemos Eva (Dreyfus), uma mulher que se sustenta trabalhando como massagista, é divorciada e vive com sua única filha, que está prestes a partir por causa da faculdade. Certa noite, ela decide acompanhar seus dois grandes amigos, Sarah (Toni Collette) e Will (Ben Falcone) a uma festa, é onde conhece Marianne (Catherine Kenner), uma autora de livros que ao descobrir a profissão de Eva, decide ser sua cliente. Nesta mesma festa, porém, é onde Eva conhece Albert (Gandolfini), um homem que passa por uma experiência parecida com a sua, é divorciado e sua filha também está partindo. Deste encontro, Eva e Albert passam a se ver com frequência, se dão extremamente bem, entretanto, o que ela não imaginava e só percebe um bom tempo depois, é que Marianne, sua mais nova amiga e confidente é a ex de Albert e seu passatempo predileto é dizer o quanto ele a irritava. Sem revelar a verdade, Eva a usa para conhecer melhor o homem com quem está saindo, uma maneira incomum de prever um desastre ou de simplesmente destruir a imagem perfeita que tem dele, justamente para não se machucar depois.


sábado, 7 de setembro de 2013

Crítica: Confiar (Trust, 2010)

Mais conhecido por seu papel na série "Friends", o eterno Ross, David Schwimmer também se arriscou por trás das câmeras, ao dirigir este drama familiar “Confiar”. Ele também é diretor de uma fundação que dá apoio a vitimas de assédio sexual, o que justifica ter escolhido este projeto, que com seu roteiro bastante didático funciona como um filme-denúncia ao relatar a trama de uma jovem que fora abusada sexualmente por um homem que conheceu pela internet. Realista e extremamente chocante, é um tipo de filme obrigatório, não tanto por sua arte, mas por sua função social.

Por Fernando Labanca

Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener) são casados e vivem com seus três filhos. Annie (Liana Liberato), a filha do meio, mantém uma relação amigável com seus pais, relatando grande parte de suas experiências, inclusive que está conversando com um garoto pela internet, Charlie, de dezesseis anos. A cada vez mais, ela se sente atraída pelas palavras deste jovem desconhecido, eis que certo dia, quando seus pais não estão em casa, decide encontra-lo em um shopping, entretanto este encontro acaba arruinando sua vida para sempre. Muito mais velho do que havia revelado, ele a convence de suas mentiras e a leva para um hotel. É este o início de seu pesadelo.


Muitas pessoas já haviam comentado da história deste filme comigo, no entanto, ainda assim consegui me surpreender com “Confiar”, isso porque, a trama envolve muito mais do que só a garota inocente sendo abusada sexualmente por um estranho que conheceu pela internet. Até aí já é bem chocante, porém, o roteiro vai muito além. Este é apenas o início de uma trama bem elaborada, complexa, que envolve investigações do FBI, o choque inicial dos pais e a relação que estes tem com o acontecimento. Mas o que mais surpreende no desenvolvimento da história é a personagem Annie, que não aceita ter sido uma vítima, acredita que o ocorrido foi um gesto de amor. É este o detalhe que vai dando um novo rumo para o filme, o tornando mais complicado e também mais interessante e são esses conflitos imprevisíveis que fazem de “Confiar” um projeto tão ousado, tão arriscado, vai além do didatismo, da denúncia, consegue construir personagens complexos, com atitudes tão humanas, tão irracionais, que nos choca, nos perturba, e com seu realismo, nos sentimos angustiados, de certa forma, desacreditados na humanidade.

Acredito que “Confiar” seja um filme obrigatório. Mais do que uma obra para cinéfilos, a questão aqui é muito mais social do que artística. Há muito o que se analisar e este é o grande mérito do roteiro. Soube explorar muito bem a ideia, se aprofunda de forma densa a cada possibilidade, o tornando uma obra surpreendente e impactante. Por outro lado, David Schwimmer nos entrega um filme bastante convencional, cinematograficamente falando, não há nenhuma ousadia em sua direção, apesar de admirar sua sutiliza em relatar o drama da protagonista. É fato, também, sua boa condução dos atores. Clive Owen dá um belo show de interpretação e seu diálogo final é sincero e emocionante e Catherine Keener, como sempre, uma ótima coadjuvante. Destaque para a novata, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Chicago, Liane Liberato, que surpreende, se entrega com força a esta difícil personagem. No elenco, ainda, temos os bons Jason Clarke, Viola Davis e Noah Emmerich.

Muitos criticam seu final ou a as atitudes tolas da protagonista. Discordo. A maneira como constroem a personagem é bastante verossímil. Claro que tudo poderia ter sido diferente, de certa forma, ela também cometeu seus erros, mas quem somos nós para julgá-la? Por mais absurdas que sejam suas atitudes, agiu condizente com aquilo que ela acreditava, errada ou não, seguiu sua verdade.  E quanto ao final, simplesmente belíssimo, deixou um vazio no peito. Não poderia ter terminado de forma melhor, seu silêncio incomoda, nos faz sentir o vazio que tudo aquilo deixou em Annie, seu trauma, sua vida que nunca mais será mesma. E assim, com sua sutileza, consegue chocar, pois nos faz refletir, pensar em nossa atual sociedade, pensar nos monstros que vivem a solta, pensar em quantos casos parecidos com este filme existiram. Emocionante, intenso, “Confiar” é acima de qualquer função social, um ótimo drama. Recomendo.

NOTA: 8,5 


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Crítica: Cyrus (Cyrus, 2010)

Filme independente, sucesso no Festival de Sundance e esteve entre as principais atrações da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ano passado. Tem a direção de Jay e Mark Duplass e conta com atuações de John C.Reilly, Marisa Tomei e Catherine Keener, além do jovem Jonah Hill, mais conhecido por fazer comédia, surpreendendo num papel mais complexo.

por Fernando Labanca

O filme é uma mistura interessante e bastante original de comédia e drama, foge bastante do padrão "Festival Sundance", com aquelas situações batidas de problemas familiares com um tom "indie". Aqui, há uma situação bem inusitada e o roteiro nos permite presenciar cenas fora do comum.

Conhecemos John (C.Reilly), um homem divorciado mas que ainda mantém uma relação saudável com sua ex (Keener), que por sua vez, seguiu com sua vida e tenta encontrar maneiras de incentivá-lo a seguir também. Numa dessas tentativas, o leva para uma festa entre amigos, lá, John conhece Molly (Tomei) e não demora muito para perceber o quão especial ela era. Não levando muito jeito com mulheres, ele acaba a seguindo, descobrindo seu endereço, mas dessa péssima idéia acaba que conhecendo o filho dela, Cyrus (Jonah Hill). E deste inusitado encontro, surge uma estranha amizade, estranha, pois Cyrus é tudo menos normal.

Molly aprova o envolvimento dos dois e sente feliz por poder dividir seu espaço com os dois homens de sua vida, é quando ela decide dar um próximo passo, levar John para morar em sua casa. A partir de então, ele acaba conhecendo o estranho mundo de Molly e Cyrus, costumes bizarros e atitudes incompreensíveis, percebendo, assim, que o filho dela é uma espécie de psicopata, que o persegue e em suas costas tenta estragar a relação dele com sua mãe. E dentro destre excêntrico lar, vai nascer uma guerra silenciosa, uma luta por território e por ter um espaço maior na vida desta adorável mulher.


"Cyrus", assim como o personagem título, é tudo menos normal, uma obra bastante original, seja na construção dos personagens, seja no desenvolvimento do roteiro e nos diálogos bem interessantes. É um filme um tanto quanto inovador no quesito filmes independentes, se arrisca mais do que o normal, segue por caminhos não muito óbvios para elaborar uma história única. Lendo a sinopse, parece algo batido, mas vendo o desenvolver de toda a trama, é perceptível a originalidade da obra. É uma mistura de humor com drama, numa história bizarra levada a sério, nunca sabemos ao certo se devemos rir das situações, mas a experiência é interessante.

A construção de Cyrus, personagem de Jonah Hill é de uma inteligência rara nos cinemas, complexo e cheio de nuances, nunca conseguimos compreender quem é exatamente este ser, e o desenvolver brilhante de seu papel é a grande chave do longa, nos prende por tentar entender e chegar a alguma conclusão sobre sua diferente personalidade e seu caráter duvidoso. E no final, sua atitude surpreende, construindo então, um personagem um tanto quanto marcante, não só na carreira de Jonah Hill mas também no gênero.

Jonah Hill, aliás, me surpreendeu demais, jovem ator que desde algum tempo vem chamando atenção em Hollywood, principalmente por seus papéis cômicos e sua incrível versatilidade no estilo, aqui, ele vai além, muito além, tem uma atuação fantástica e consegue perfeitamente transmitir as oscilações de Cyrus e devido a sua performance o filme se torna superior. John C.Reilly é sempre ótimo, e marca aqui mais uma atuação notável. Marisa Tomei também ótima, mas o desenvolver de Molly é mais fraco que os demais personagens, criando um certo desinteresse do público para com ela, entretanto, as cenas de John e Molly são adoráveis e há uma boa química com todo o elenco. Ainda tem a musa veterana do cinema independente, Catherine Keener, não há como questionar, é sempre bom vê-la em cena, mesmo que numa participação.

Trilha sonora boa, direção de Mark e Jay Duplass interessante, optaram por fazer um filme com um tom mais caseiro, com direito a câmera na mão, e assim como outras obras que aderiram tal método de se filmar, a dupla de diretores consegue transmitir mais realismo e mais intensidade para a obra, mesmo que se tratando de situações bizarras. Faltou um pouco mais de ritmo, há passagens bem cansativas, além de não emocionar como deveria nem divertir como pretendia. No final, acaba que sendo uma experiência boa, por ser nova, original, mas que não fica na memória por muito tempo.

NOTA: 7



quarta-feira, 7 de julho de 2010

Crítica: Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009)

Em 1963, Maurice Sendak, revolucionou a literatura infantil, com uma história simples, criando o que hoje é muito comum, os livros ilustrados. O livro, Onde Vivem os Monstros, era basicamente ilustrações do próprio autor, com apenas nove frases, criou o dia em que Max, um garoto de 9 anos fica sem jantar por mau comportamento e de castigo em seu quarto, ele elabora todo um mundo fantasioso, cheio de monstros.

Depois de muitos anos, o visionário diretor Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), resolveu adaptar para o cinema o que para muitos era inadaptável. Como colocar nas telas, um livro de ilustrações e com apenas nove frases?? Sim, Spike Jonze conseguiu, fez o impossível e mostrou para o público uma das obras-primas do cimema moderno, Onde Vivem os Monstros virou 'cult' e chama a atenção com sua sensibilidade e inteligência. E como o próprio Spike disse, não é um filme infantil, é um filme sobre infância.

por Fernando Labanca





No filme, Max (Max Records), de 9 anos, não compreende as coisas ao seu redor. Não se conforma como sua irmã está crescendo e fica furioso pela fato dela não mais se interessar por brincadeiras, e para piorar, sua mãe (Catherine Keener) não larga o computador, não lhe dando toda atenção que ele deseja. Até que certa noite, quando sua mãe leva o namorado (Mark Ruffalo) para jantar em casa, Max fica furioso, começa a querar chamar atenção, veste sua fantasia de lobo e arma o circo dentro da própria casa, sua mãe não admite tal comportamento e o reprime, é quando ele morde seu braço, ela o bate e o chama de monstro, descontrolado, Max foge de casa.

Sem saber para onde ir, ele corre, desesperadamente, entra num lugar misterioso cheio de árvores, encontra um mar e nele, um pequeno barco, ele, então, decide, embarcar numa grande aventura, sem saber onde vai parar. Até que ele chega numa ilha e para sua surpresa, habitada por monstros. Fica assustado, os monstros eram completamente descontrolados, estavam exaltados e destruindo suas próprias moradias. Max aparece e chama a atenção de todos, e para se manter vivo diante das terríveis criaturas, ele diz que é rei e que veio para governá-los, e por isso, precisa ser respeitado. Eles gostam da idéia, devido ao fato de estarem a muito tempo infelizes com o modo que levam suas vidas, desde muito tempo sabiam que precisavam de mais organização, pois assim, encontrariam a felicidade.

E como primeiro ato de rei, Max se responsabiliza pela felicidade dos monstros, vê que eles estão cansados de tanta infelicidade e diz que seu império só trará alegria para suas vidas. A partir de então, Max começa a elaborar vários tipos de brincadeiras para as criaturas se sentirem felizes. Porém, nada é tão fácil assim, conforme os dias vão passando, o garoto vai percebendo que os monstros são criaturas com temperamento difícil. Há Judith, que adora opinar em tudo e seu parceiro Ira, há o divertido Douglas e o fracassado Alexander, também tem a doce KW, que nunca está presente, sempre tem uma desculpa para estar longe. Porém, Max logo se identifica com Carol, o mais parecido com ele, divertido, adora brincar a todo o tempo e ainda tem seu lado carente, necessitando sempre de um amigo ao seu lado.

E com o passar dos dias, esses monstros vão percebendo que Max não passa de uma criança perdida e nunca seria um rei. E o garoto, por sua vez, percebe que aquele não é o paraíso, e dentro daquelas doces criaturas podem estar os verdadeiros monstros.



Uma sensível metáfora. Onde Vivem os Monstros entra fundo na mente de uma criança, e repito, não é um filme para crianças, é sobre elas. Spike Jonze vai muito mais longe que apenas nove frases, chega ao ápice do complexo, nunca nenhum filme soube estudar tão bem o que é uma criança e como é a infância. Esse período da vida não é tão fácil como parece, e no filme, Jonze fraguimenta todos os tipos variados dos sentimentos de uma criança em diversos monstros, onde cada um representa uma parte de Max, e dentro dele, há alguém que pede por um amigo, há alguém que pede por brincadeiras, há alguém que não entende porque as pessoas que tanto ama são tão distantes, e ao mesmo, alguém que tem medo, e para se sentir mais forte e conseguir enfrentar suas próprias inseguranças, expulsa os monstros que há dentro de si.

É realmente muito difícil chegar a uma conclusão do filme, antes de assistí-lo, achava mesmo que estava prestes a assistir um projeto infantil. Porém, desde as primeiras cenas vi que não se tratava disso, muito pelo contrário, provavelmente, as crianças poderão até odiar o filme, que não tem nada de tão alegre e divertido assim. É um filme complexo para elas, complexo até para nós, maiores de idade.

Spike Jonze, passou a maior parte de sua carreira, dirigindo clips musicais, e no cinema dirigiu poucos, inclusive os elogiados Adaptação (2002) e Quero Ser John Malkovich (1999). Ninguém entende mais do que ele de visual, logo que videos musicais exploram muito mais a imagem do que o roteiro em si. Onde Vivem Os Monstros surpreende, pois além do roteiro magnífico, seu visual é explêndido, uma fotografia de deixar qualquer um de boca aberta, explora as florestas, o deserto de uma maneira fantástica, e tudo fica perfeito nas telas.

A trilha sonora é um charme a parte e também fundamental para o longa que tem pouquíssimas falas e muitas vezes somos guiados pela música, com ela sabemos se a cena em questão é uma cena dramática ou cômica. E mais do que isso, a trilha sonora fala muito no filme, ganha personalidade, principalmente pelo fato de ser cantada por crianças. Quem foi responsável por esse feito, foi Karen O, vocalista da banca Yeah Yeah Yeahs, que reuniu crianças num estúdio e gravou várias músicas, aliás, incríveis.

Difícil falar sobre esse filme. É encantador, me deixou sem palavras durante dias. Inteligente, ousado, original, estiloso, sensível, enfim, um filme marcante. Palmas para toda a equipe, pelo roteiro de Spike Jonze ao lado de Dave Eggers e também pela sua maravilhosa direção. Destaque para Max Records que protagoniza com competência. Trilha sonora e fotografia impecáveis, além de não se entregar por técnicas visuais, dando mais realismo ao longa, onde os mostros, nada mais são que fantasias muito bem customizadas e que ganham vida por seus dubladores extremamente competentes.

E onde vivem os monstros? Dentro de cada um de nós. Fantástico. Um dos melhores do ano!!

NOTA: 10














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