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sábado, 7 de setembro de 2013

Crítica: Confiar (Trust, 2010)

Mais conhecido por seu papel na série "Friends", o eterno Ross, David Schwimmer também se arriscou por trás das câmeras, ao dirigir este drama familiar “Confiar”. Ele também é diretor de uma fundação que dá apoio a vitimas de assédio sexual, o que justifica ter escolhido este projeto, que com seu roteiro bastante didático funciona como um filme-denúncia ao relatar a trama de uma jovem que fora abusada sexualmente por um homem que conheceu pela internet. Realista e extremamente chocante, é um tipo de filme obrigatório, não tanto por sua arte, mas por sua função social.

Por Fernando Labanca

Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener) são casados e vivem com seus três filhos. Annie (Liana Liberato), a filha do meio, mantém uma relação amigável com seus pais, relatando grande parte de suas experiências, inclusive que está conversando com um garoto pela internet, Charlie, de dezesseis anos. A cada vez mais, ela se sente atraída pelas palavras deste jovem desconhecido, eis que certo dia, quando seus pais não estão em casa, decide encontra-lo em um shopping, entretanto este encontro acaba arruinando sua vida para sempre. Muito mais velho do que havia revelado, ele a convence de suas mentiras e a leva para um hotel. É este o início de seu pesadelo.


Muitas pessoas já haviam comentado da história deste filme comigo, no entanto, ainda assim consegui me surpreender com “Confiar”, isso porque, a trama envolve muito mais do que só a garota inocente sendo abusada sexualmente por um estranho que conheceu pela internet. Até aí já é bem chocante, porém, o roteiro vai muito além. Este é apenas o início de uma trama bem elaborada, complexa, que envolve investigações do FBI, o choque inicial dos pais e a relação que estes tem com o acontecimento. Mas o que mais surpreende no desenvolvimento da história é a personagem Annie, que não aceita ter sido uma vítima, acredita que o ocorrido foi um gesto de amor. É este o detalhe que vai dando um novo rumo para o filme, o tornando mais complicado e também mais interessante e são esses conflitos imprevisíveis que fazem de “Confiar” um projeto tão ousado, tão arriscado, vai além do didatismo, da denúncia, consegue construir personagens complexos, com atitudes tão humanas, tão irracionais, que nos choca, nos perturba, e com seu realismo, nos sentimos angustiados, de certa forma, desacreditados na humanidade.

Acredito que “Confiar” seja um filme obrigatório. Mais do que uma obra para cinéfilos, a questão aqui é muito mais social do que artística. Há muito o que se analisar e este é o grande mérito do roteiro. Soube explorar muito bem a ideia, se aprofunda de forma densa a cada possibilidade, o tornando uma obra surpreendente e impactante. Por outro lado, David Schwimmer nos entrega um filme bastante convencional, cinematograficamente falando, não há nenhuma ousadia em sua direção, apesar de admirar sua sutiliza em relatar o drama da protagonista. É fato, também, sua boa condução dos atores. Clive Owen dá um belo show de interpretação e seu diálogo final é sincero e emocionante e Catherine Keener, como sempre, uma ótima coadjuvante. Destaque para a novata, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Chicago, Liane Liberato, que surpreende, se entrega com força a esta difícil personagem. No elenco, ainda, temos os bons Jason Clarke, Viola Davis e Noah Emmerich.

Muitos criticam seu final ou a as atitudes tolas da protagonista. Discordo. A maneira como constroem a personagem é bastante verossímil. Claro que tudo poderia ter sido diferente, de certa forma, ela também cometeu seus erros, mas quem somos nós para julgá-la? Por mais absurdas que sejam suas atitudes, agiu condizente com aquilo que ela acreditava, errada ou não, seguiu sua verdade.  E quanto ao final, simplesmente belíssimo, deixou um vazio no peito. Não poderia ter terminado de forma melhor, seu silêncio incomoda, nos faz sentir o vazio que tudo aquilo deixou em Annie, seu trauma, sua vida que nunca mais será mesma. E assim, com sua sutileza, consegue chocar, pois nos faz refletir, pensar em nossa atual sociedade, pensar nos monstros que vivem a solta, pensar em quantos casos parecidos com este filme existiram. Emocionante, intenso, “Confiar” é acima de qualquer função social, um ótimo drama. Recomendo.

NOTA: 8,5 


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cinema: Super 8 (Super 8, 2011)


Em 2009 surgia nos cinemas "Star Trek", mostrando os eventos iniciais desta famosa franquia, grande responsabilidade para um diretor quase que iniciante, JJ Abrams, a mente por trás da série "Lost" encarou o desafio e fez não só um dos melhores filmes daquele ano, como uma das mais fantásticas ficções científicas desta década. Era fato, a sétima arte revelara um talento. Este ano, Abrams surge com "Super 8" e prova de vez que é um dos bons diretores da atualidade, numa trama criativa que relembra os clássicos da década de 80, para guiá-lo ninguém melhor que Steven Spielberg, que trabalha aqui como produtor. O cinema precisava relembrar o que já foi bom, "Super 8" veio na hora certa.

por Fernando Labanca

Verão de 79. Joe Lamb (Joel Courtney) é um garoto apaixonado por cinema e junto com seus amigos, Charles, Martin e Cary tentam concluir um filme caseiro de terror trash para participarem de uma competição local de jovens cineastas. Até que devido a um acidente, sua mãe falece, tendo que conviver apenas com seu pai (Kyle Chandler), que nunca soubera exercer a função de pai muito bem, sempre muito afastado e nunca compreendendo os sentimentos do filho. Joe, então, decide rodar o filme e esquecer seus problemas, tudo melhora, aliás, quando a atriz convidada para a única personagem feminina da trama é a garota que estava afim no colégio, Alice (Elle Fanning). Até que certa noite, quando eles resolvem filmar numa estação ferroviária, acontece um evento curioso, um trem em alta velocidade atravessa os trilhos chocando com uma caminhonete, causando uma enorme colisão.

Deste acidente, uma teia de acontecimentos começa a surgir na pequena cidade Lillian. O exército que já rondava o local passa a ir atrás de pistas para o ocorrido e compreender o que aquele motorista fazia naquele momento, o mesmo fazem os garotos que percebem que não fora um mero acidente. Não muito tempo depois, coisas começam a desaparecer, além de cachorros e pessoas, deixando um ar de mistério e suspense por todas as ruas. Mas havia uma Super 8 no memento da colisão que poderá revelar muitas respostas.

Este ano, "Super 8" iniciou uma divulgação pesada, desde teasers nos cinemas ou pequenos vídeos na internet que nada revelavam do que realmente se tratava o filme. Esse mistério valeu a pena, essa curiosidade que eles conseguiram plantar no público (pelo menos em mim, deu certo) fez com que cada cena ali na tela fosse uma grata surpresa. Há um mistério que cerca o filme inteiro e a maneira como ele é guiado é digno de grande produção Hollywoodiana, há um bom suspense e JJ Abrams acerta mais uma vez, sabe guiar esses acontecimentos. O roteiro é fantástico, em questão de minutos, inúmeros fatos ocorrem, toda a história se altera e tudo flui de forma objetiva, clara, sem parecer forçada ou acelerada. Tudo acontece em seu tempo, mas sem muitas enrolações, o mistério funciona muito bem e nos prende do início ao fim! Trabalho de gênio.



Trabalho de gênio de JJ Abrams, não só por ter conseguido amarrar o suspense, mas por ter feito algo de altíssima qualidade, resgatou o que houve, não necessariamente de melhor no cinema, mas de uma fase cheia de ingenuidade e que sentimos falta às vezes, filmes como "ET" ou "Goonies", onde crianças são as protagonistas, e há aquela aventura bem desenvolvida e todo um clima de inocência, que entretem e diverte. "Super 8" é uma belíssima homenagem a este cinema que ficou para trás, uma homenagem as nossas "sessões da tarde", mas diferente de todo o resto que trabalha em Hollywood, JJ Abrams resolveu não adaptar ou refilmar algo já criado, ele encarou o desafio de fazer algo novo, e utilizando deste clima nostálgico para inserir uma trama completamente diferente. A idéia funciona muito bem, a história é bem simples, poderia muito bem ter sido criada na década de 80, assim como os clássicos de Spielberg que ainda fazem sentido nos dias de hoje. E toda esta nostalgia mesclada com a tecnologia que o cinema possui, há grandes efeitos, mas felizmente ficam em segundo plano.

Por outro lado, "Super 8" peca pela sua conclusão. O roteiro arma toda uma estrutura gigantesca, com grandes acontecimentos e querendo ou não, nasce dentro do público uma expectativa muito alta a cada minuto, esperamos um grande final, surpreendente, e infelizmente isso não ocorre. O filme termina e fica um certo vazio, não teve o final que merecia, a razão para todo o mistério é simples demais, parece pequeno diante de todo o filme. Mas ainda assim, este defeito não destrói o beleza do longa, o propósito dele é ser simples. Ainda vemos na tela, ótimas locações, e uma bela construção dos anos 70/80, desde os cenários ao fantástico figurino, tudo remete perfeitamente aquela época e aos filmes que vimos deste tempo.

Quem brilha mesmo na obra, é sem sombra de dúvida seu elenco de jovens atores, garotos, que agem como garotos e que conseguem levar o filme nas costas com tranquilidade, são verdadeiros protagonistas, que nos guiam, nos diverte e nos emociona em determinadas partes. As atitudes desses meninos convencem, desde a paixão pelo cinema, a relação familiar e a descoberta de um novo amor. Joel Courtney, com mais destaque na trama, funciona bem, assim como os outros garotos com quem contracena. Os veteranos Kyle Chandler e Noah Emmerich também não decepcionam. Mas o destaque de "Super 8" vai para a interessantíssima Elle Fanning, que vem desenvolvendo um ótimo trabalho nos cinemas, e aqui ela brilha e logo nas primeiras cenas vemos seu grande talento.

Sim, "Super 8" tem seus pequenos defeitos, mas ainda digo com toda a certeza, é um dos filmes mais interessantes que fora lançado nos cinemas este ano, por revitalizar uma parte morta na sétima arte, um estilo que se perdera no caminho, e ainda assim conseguir ser original. É muito bom ir ao cinema em pleno 2011 e se deparar com uma idéia como esta, me senti entrando numa máquina do tempo, quando os filmes que hoje vemos na "sessão da tarde" eram lançados em tela grande. Aliás, ao ver "Super 8" realmente me senti vendo um filme "sessão da tarde" e pela primeira vez senti que isso não era um defeito e sim uma grande qualidade, é um ótimo filme sessão da tarde, que merece ser visto, apreciado. Palmas para JJ Abrams, mais uma vez: TRABALHO DE GÊNIO!

NOTA: 8


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