
por Fernando Labanca
Em cada novo trabalho de Woody Allen, está lá, a cidade como personagem e um protagonista intelectualizado e idolatrado pelo próprio roteiro. A revolução do diretor começa neste ponto, por retornar ao seu país, tendo a cidade de San Francisco como cenário, mas não uma cidade bela que tem vida própria, e sim, uma cidade vazia, fria, que não acolhe seus habitantes, que por sua vez, estão em total decadência. E esta é a nova protagonista escrita por ele, Jasmine, em decadência, que perdeu seu dinheiro e precisa se reerguer mesmo fazendo parte de uma classe a qual sempre rejeitou, a dos desafortunados. Ele não a idolatra, não lhe dá chances, muito pelo contrário, sua personagem é sofrida, lhe entrega a dor e rejeição, exatamente como não tivemos a oportunidade de ver em nenhum outro filme dirigido por ele.


O filme já começa nos apresentando a protagonista da forma mais triste possível, vemos Jasmine contando seus momentos de felicidade e riqueza para uma estranha no avião, não que a estranha tivesse perguntado, mas era a forma dela se mostrar superior, a forma que ela criou para se manter presa ao passado, jamais aceitando que sua vida como socialite da classe alta acabou. Jasmine era casada com um milionário, Hal (Alec Baldwin), que lhe deu uma vida de rainha, casa, roupas de grife, festas com bebidas caras, até que ele foi preso e teve todos os seus pertences confiscados. Jasmine, que antes era "Jeanette" (mas preferiu mudar de nome por ter mais brilho), agora precisa retornar as origens, viver em San Francisco, na casa de sua meia-irmã Ginger (Sally Hawkins), que não teve a mesma "sorte" que ela, nunca enriqueceu. E mesmo decidida a se reerguer, Jasmine não consegue aceitar seu novo estilo de vida, nasceu para ser superior, para desfrutar da futilidade, da riqueza, até que ela conhece Dwight (Peter Sarsgaard), um milionário solteiro, o único que poderá dar a vida da qual ela acredita ser merecedora.


Jasmine é extremamente complexa, talvez cada pessoa enxergue sua passagem de forma diferente. É difícil não sentir um certo ódio da protagonista, suas ambições tão distorcidas, de não conseguir se desfazer de sua Louis Vuitton ou de viajar de avião sem ser na classe alta, e mesmo quando ela está no fundo do poço, quando enfim ganha a chance de entender o que realmente importa na vida, ela ainda acredita que o único modo de vencer e se reeguer é se casando com um homem rico. É uma mulher interesseira, que não se acostuma com pouco. Porém, há outro lado, é também impossível não sentir uma certa pena dela, é triste vê-la vivendo dessa forma, saber o que ela passou, abandonou a faculdade, os estudos (ironicamente estudava antropologia), para se dedicar ao homem que amava, a vida não lhe deu chances de acreditar em outra coisa a não ser o amor por Hal, ele lhe deu tudo e era tudo o que ela tinha, por mais que seja errado este raciocínio, era tudo o que ela tinha e perdeu, e quando ela perde não lhe resta mais nada. É chocante e triste quando Jasmine fala sozinha, tentando reverter alguma situação, tentando como uma segunda chance dizer o que não disse ou reviver mesmo que em sua mente seus momentos de glória. Woody Allen nunca foi tão impiedoso, tão cruel e a maneira como ele constrói Jasmine é trágica e seu brilhante roteiro ganha ainda mais pontos quando ele resolve contar o antes e o depois, vemos sempre as oposições, de Jasmine desfrutando da riqueza de seu marido e amargurando na casa de sua irmã, essencial para compreendermos sua mente doentia.

NOTA: 9
País de origem: EUA
Duração: 98 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Peter Sarsgaard, Michael Stuhlbarg, Bobby Cannavale, Alec Baldwin
Diretor: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
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