
por Fernando Labanca
A Netflix, ao longo dos últimos anos, tem modificado esta relação entre o público e a TV, com seu conteúdo sob demanda. A empresa já havia se consolidado entre as produções de séries, conseguindo reconhecimento, inclusive no Globo de Ouro e Emmy, e agora decide investir em filmes (e quem sabe uma indicação ao Oscar!), chegando a investir cerca de $12 milhões para ter os direitos de exibição de "Beasts of No Nation" e ainda tem outros títulos a serem lançados, via streaming, até o final do ano.
A obra, por sua vez, teve seu lançamento no último Festival de Toronto e fora baseado no romance homônimo de Uzodinma Iweala. O longa narra o drama de crianças-soldado na África e conta com a narração do pequeno Agu (Abraham Attah), que no meio de uma Guerra, acaba perdendo toda sua família e na fuga se depara com um exército rebelde, liderado pelo Comandante, interpretado por Idris Elba. E neste mundo sem lei, Agu se vê como um animal selvagem, tendo sua infância roubada, matando para não morrer.
Já conhecia o trabalho do diretor Cary Joji Fukunaga da série "True Detective" da HBO e por isso não imaginava uma direção qualquer. E é neste quesito a maior qualidade de "Beasts of No Nation". Fukunaga entrega um filme belíssimo, bem filmado, é cuidadoso com cada enquadramento e ao assinar, também, a fotografia, temos aqui um filme visualmente poderoso. Chega a ser brilhante o trabalho que ele tem com suas cores, que vão se modificando em algumas passagens, com seus tons saturados, construindo sequências de grande impacto. A boa edição do longa ajuda a dar um excelente ritmo, logo que são duas horas e meia e não há realmente um momento tedioso ou desinteressante. Há muita violência também, é brutal e sanguinolento, mas nada que a própria Netflix já não tenha oferecido em outros produtos.

Percebi, também, que chega um ponto onde o longa parece que deixa de oferecer uma história, entregando momentos repetitivos, apenas como uma tentativa de construir mais uma cena muito chocante, porém, sem intuito, sem levar a trama para outro ponto. Aliás, vejo essa violência gráfica da produção como mais um elemento incoerente da obra, é como se o filme valorizasse aquilo mesmo que ele diz ser contra. É irônico esse espetáculo criado para a morte, com direito a câmera lenta e sangue espirrando na tela. Como podemos acreditar nessa realidade triste se o próprio filme parece encontrar um certo prazer nela? É estranho, mas há mais beleza e poesia do que incômodo. Claro que há seus acertos, como a interessante introdução do protagonista, seus costumes, sua relação com os demais, momentos de grande importância e que alteram nosso olhar sobre os próximos acontecimentos.

NOTA: 7
Duração: 137 minutos
Distribuidor: Netflix
Diretor: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Cary Joji Fukunaga
Elenco: Abraham Attah, Idris Elba
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