
por Fernando Labanca
Ao longo de 12 anos, o diretor Richard Linklater reuniu sua equipe para rodar seu filme, uma vez a cada ano, para mostrar a jornada e o crescimento de seus personagens. Ellar Coltrane, que interpreta o protagonista Mason, inicia as filmagens aos 6 anos e termina aos 18. Não haveria forma melhor para Linklater, que também assina o roteiro, relatar sobre o que pretendia, o tempo. E assim, acompanhamos todo seu elenco, que conta ainda com Patricia Arquette e Ethan Hawke como os pais de Mason e Samantha, interpretada por Lorelei Linklater. É muito curioso pensar como tudo isso foi feito, parece aquelas ideias malucas que alguém para e pensa: "e se gravarmos um filme durante vários anos? Como seria o resultado?". Penso que foi preciso muita coragem, disposição em fazer o melhor, dedicação em se doar a um único projeto, não só do diretor, mas de todos os envolvidos. É fascinante pensar nisso, para quem ama cinema, quem ama ver de perto essas histórias sendo contadas, é incrível poder ver algo assim, tão grandioso, tão genial, dando certo, quebrando qualquer padrão ou qualquer lógica. O resultado é mágico, muito mais do que ver os atores envelhecendo no mesmo filme, é ver e poder sentir as intenções que a obra teve, deste milagre em nos transportar ao passado, reviver uma vida que não foi a nossa, mas que poderia muito bem ter sido.
"Boyhood" é sobre a vida, sobre a rotina, sobre momentos. Por isso, não encontramos reviravoltas, surpresas, lições de moral, muito menos um clímax ao seu final. Acompanhamos de perto a jornada de Mason, um pequeno garoto que vive com sua irmã mais velha e sua mãe (Arquette), que é separada do pai (Hawke), que os vê esporadicamente. Os anos vão passando, e Mason vai atravessando alguns estágios da vida, a preguiça, a diversão e a liberdade da infância, a adolescência e suas crises, o colégio, a primeira namorada, a primeira depressão, os primeiros questionamentos, o primeiro trabalho, a faculdade.
É impossível não adentrar à trajetória de Mason. Vemos na tela partes da nossa própria vida, as brincadeiras, os vícios, os gostos musicais e principalmente os questionamentos do protagonista, pelo menos algum instante ou algum diálogo é sobre nós, sobre o que vimos e presenciamos. E por isso é tão bom assistí-lo, cada sequência é como voltar no tempo, é sentir aquele sorriso bobo saltando em nosso rosto ao relembrar detalhes tão banais da nossa antiga rotina, como aquela satisfação imensa em irritar o irmão ou a concentração máxima diante de um video-game. Muito mais do que nos dar essa chance de reviver, Richard Linklater consegue, com toda sua maestria, fazer o mais honesto e mais brilhante relato de uma geração, mais precisamente, a geração dos anos 2000, mostrando seus gostos e suas excentricidades, apostando na memória e no repertório cultural daqueles que viveram aqueles anos. Como foi bom começar o filme ouvindo "Yellow" do Coldplay e terminando ao som de Arcade Fire, e sua trilha musical, assim como tudo no longa, parece respeitar todos as preferências, sem julgamentos e sem níveis de importância, tudo é apontado como partes de uma história, de Britney Spears à Foo Fighters, de Lady Gaga à The Black Keys. Além das tantas citações da cultura pop, situando sempre a trama à época em que acontecia, como Dragon Ball, Harry Potter, Star Wars e Cavaleiro das Trevas, entre tantas outros.
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NOTA: 10
País de origem: EUA
Duração: 165 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater
Diretor: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
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