
por Fernando Labanca
Fiquei bastante surpreso quando me deparei com "Steve Jobs". Apesar de sempre ter admirado o trabalho de Boyle como diretor e de já imaginar que Aaron Sorkin se recusaria a entregar um texto ordinário, cinebiografias são sempre cinebiografias e no fundo, pensava que esta não seria diferente, iriam glorificar seu nome assim como as pessoas e a mídia o glorificavam. Que interessante ver que justamente "seu filme", que tinha o espaço e chance para isso, decidiu seguir outro caminho e longe de tantas histórias reais sobre homens importantes, esta não esconde suas falhas, seus erros diante de tantas conquistas, seja por sua ausência como pai, seja por seu estranho comportamento diante dos outros. E este é o grande acerto da obra, não só conseguir fugir das armadilhas do gênero, como entregar algo muito além do que se esperava de um filme sobre Steve Jobs.


Para aqueles que desejam conhecer melhor a trajetória do ícone, este também não é o lugar. A ideia da trama é fazer alguns recortes de sua vida, destacando três momentos decisivos de sua carreira e o colocando nos bastidores, longe dos holofotes, revelando assim, o homem por trás do mito. São basicamente três fases bastante distintas que vão mostrando a evolução de seus personagens, iniciando em 1984 com o lançamento do Macintosh, 1988 quando Jobs inicia seu trabalho com a empresa Next e terminando em 1998, quando ele está prestes a oferecer ao público o iMac. O tempo inteiro somos colocados no backstage desses grandes eventos e com seu acelerado texto, vivenciamos a correria e o caos que era estar ali, definindo os últimos acertos, indo de encontro às incertezas de um improvável sucesso.


Não é apenas mais um filme sobre Steve Jobs. Vi uma obra extremamente original, fascinante de acompanhar. Seu texto é soberbo, dinâmico e ganha força quando interpretado por atores tão geniais. É curioso sua desconstrução desta antiga ideia de que atores precisam ser parecidos quando representam alguém em uma cinebiografia e este é o poder de Michael Fassbender, porque mesmo que tão distinto fisicamente com Steve Jobs - e a maquiagem não se esforça para aproximá-los -, há uma transformação e, milagrosamente, passamos a enxergar Jobs ali na tela, seu tom de voz, sua postura, existe um trabalho tão fantástico do ator que o coloca naquele grupo de profissionais que são capazes de fazer de tudo. Kate Winslet é uma coadjuvante monstro, ela devora os diálogos e faz uma parceria fantástica com Fassbender, assim como o restante do elenco, Jeff Daniels, Katherine Waterston, Michael Stuhlbarg e Seth Rogen que entra em cena como Steve Wozniak, criando um confronto muito interessante com o protagonista. Por fim, o longa é muito mais sobre personagens, sobre a relação de Jobs com cada uma dessas pessoas. O acerto aqui é ter compreendido que um homem é feito de atitudes, é feito daquilo que ele oferece aos demais e somente diante desses atos retratados que poderíamos conhecê-lo. Steve Jobs nunca foi aquilo que ele criou e é um erro pensar que ele tenha sido.

NOTA: 9
País de origem: EUA
Duração: 122 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Diretor: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Katherine Waterston, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg, Sarah Snook
Também achei um filme grandioso!E que interpretação de Fassbender e Kate Winslet!
ResponderExcluirObrigado pelo comentário, Celia. As atuações de Fassbender e Winslet me conquistaram muito e o filme é realmente fantástico!
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