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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crítica: Destino Especial (Midnight Special, 2016)

Se há aqueles que duvidam do potencial das ficções científicas atuais ou que o gênero perdeu a originalidade, "Midnight Special" vem para provar que ainda é possível reciclar ideias sem perder o frescor, sem subestimar o público. Trata se de uma obra sensorial, intrigante e que ao longo de seus belos minutos, conquista pela sensibilidade e pela comoção causada por sua trama.

Se em 2016 o grande achado da Cultura Nerd foi "Stranger Things", podemos dizer que "Destino Especial" não poderia ter vindo em melhor hora, logo que dialoga muito bem com os admiradores da série. Desde suas boas referências ao clima oitentista. Os projetos secretos do governo também estão lá e mais uma vez, um criança com habilidade sobrenatural é o centro de tudo. Uma das grandes diferenças, porém, está na condução do diretor Jeff Nichols, que foge da aventura familiar e constrói uma obra mais intimista, mais realista, flertando muito mais com a complexidade dos quadrinhos do que com as ficções de Spielberg. Aqui, ele também traz muitas características do cinema independente norte americano, remetendo aos seus ótimos trabalhos anteriores (Take Shelter, Mud), ainda que este seja seu primeiro filme financiado por um estúdio. Com baixo orçamento, o diretor faz aqui seu produto mais completo, onde a simplicidade de sua produção não o impediu de realizar algo grandioso, belo, tão intrigante quanto fascinante.


terça-feira, 3 de maio de 2016

Crítica: O Presente (The Gift, 2015)

"O Presente" é o primeiro longa-metragem dirigido pelo ator australiano Joel Edgerton, que também atua, escreve e produz. Com atuações marcantes de seus protagonistas e uma trama envolvente, é aquele tipo de suspense que prende a atenção e que não permite que o público saia ou pense em outra coisa até a chegada de seus créditos finais.

por Fernando Labanca

Simon (Jason Bateman) e Robyn (Rebecca Hall) estão de mudança para uma nova cidade em uma nova casa. É um momento de recomeço para o casal que acabara de enfrentar uma situação complicada e por isso tentam se adaptar em um outro local. Tudo flui perfeitamente até que um antigo colega de escola de Simon, Gordo (Joel Edgerton), surge em suas vidas e tenta. insistentemente, se reaproximar, revivendo uma amizade que nitidamente nunca existiu. Devido ao desconforto caudado por este inusitado encontro, o casal começa a se afastar do estranho, no entanto, alguns segredos do passado vem à tona e eles passam a compreender que esta relação não é tão simples assim e que existem certas contas a serem pagadas.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Crítica: The Rover - A Caçada (The Rover, 2014)

Em 2010, o diretor australiano David Michôd ganhou notoriedade por sua surpreendente estreia no premiado longa "Reino Animal". Quatro anos depois, ele retorna com "The Rover" e mais uma vez, prova ser um cineasta competente, que merece atenção. É um trabalho admirável, seco e lento, porém, belíssimo e hipnotizante.

por Fernando Labanca

Este seu segundo filme poderia muito bem receber o título do primeiro: "Reino Animal". Michôd, que também assina o roteiro, ao lado do ator Joel Edgerton, parece ainda ter um interesse sobre este mundo pós-apocalíptico, onde numa sociedade degradada, sem lei, seus personagens caminham sem rumo, de certa forma, buscando alguma ordem no caos, algum resquício perdido de humanidade. É também um pouco sobre adaptação e sobrevivência, desses seres que agem como animais, que matam para não morrer, É neste mundo caótico que vive Eric (Guy Pearce), que sem ter mais nada a perder, parte em busca de uma perigosa gangue que roubara seu único pertence, seu carro. Essa mesma gangue, após um incidente, acaba deixando para trás um de seus membros feridos, o jovem Rey (Robert Pettinson), que abandonado, decide ajudar Eric em sua jornada, pois era o único que sabia exatamente o paradeiro de seus comparsas.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Crítica: O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013)

Baseado na obra de F.Scott Fitzgerald, "O Grande Gatsby" é a quarta versão para os cinemas, dessa vez, dirigida pelo australiano Baz Luhrmann, de "Romeu + Julieta" e "Moulin Rouge", conhecido por seus exageros e suas formas caricatas. Aqui, ele insere todas essas suas peculiares características e nos entrega muito mais do que um remake ou uma adaptação, nos entrega um filme único, cheio de personalidade e com seu visual deslumbrante, marca, um dos filmes mais belos que passou pelo cinema este ano.

por Fernando Labanca

Nick Carraway (Tobey Maguire) é um aspirante escritor que vai parar em Nova York em busca de seu próprio sonho americano. É um período de grande prosperidade no país, onde as festas eram maiores e a moralidade já não era mais tão questionada, é assim que ele conhece Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), seu vizinho que mora em uma belíssima mansão, palco das melhores festas, onde a cidade se encontra sem nem ao menos saber quem é o dono de tudo aquilo. Certo dia, Nick recebe um convite de Gatsby, e como já sentia um certo fascínio por ele, nasce assim uma grande amizade, é neste momento em que ele enfim compreende seus motivos, onde na verdade, o que este misterioso homem desejava era se encontrar com uma mulher, sua verdadeira paixão, Daisy Buchanan (Carey Mulligan), que por sua vez, era prima de Nick e casada com o milionário Tom (Joel Edgerton). E vivendo a margem destes acontecimentos, Nick Carraway vai tentar unir este casal, mesmo sabendo das consequências que aquilo traria para a vida de todos os envolvidos.


Quando Fitzgerald escreveu "O Grande Gatsby" não recebeu seu devido valor na época, foi depois de muitos anos que os norte-americanos começaram a vê-lo com um marco em sua literatura, e este reconhecimento o levou aos cinemas, sendo que até então a obra mais marcante havia sido o de 1964, dirigido por Jack Clayton e protagonizado por Robert Redford. É até compreensível o fascínio da sétima arte por esta obra, o mistério sobre quem é exatamente Jay Gatsby, o retrato amargo do sonho americano e um romance quase que shakespeariano, com direito a um final trágico e marcante. E longe daquele tradicional comportamento em transpor histórias de época para as telas, surge um renovado Baz Luhrmann, totalmente dedicado em fazer o que poucos filmes conseguiram este ano, ou o que quase nenhum de época teve a ousadia em fazer. Por isso, é difícil vê-lo como mais um sobre Gatsby ou como um remake, é um trabalho totalmente original, que foge e muito do que já conhecemos, Luhrmann inova, trás um visual deslumbrante em prol de um filme difícil de ser esquecido. Há, porém, muito de "Moulin Rouge" aqui, seja do protagonista derrotado ao inicio prestes a contar uma história trágica, seja dos movimentos das câmeras ou das referências estéticas das festas mostradas. Existe um exagero constante, quase que caricato, muitos apontarão como algo negativo, mas vejo de outra forma, vejo como uma obra de um diretor que foge a todo instante em nos trazer algo ordinário, "O Grande Gatsby" poderia, com sua história, ser só mais um filme de época, no entanto, ele é grandioso, ousado, diferente de tudo o que vi nos cinemas este ano.

"Você vai ficar aí só olhando, ou vai participar?", pergunta Tom Buchanan a Nick Carraway na primeira metade do filme. É assim que vive este personagem, o coadjuvante de sua própria jornada, que se vê em um constante dilema, sempre se sentindo dentro e fora dos acontecimentos de sua vida. É Nick, o único que sabe de toda a verdade por trás de todas as especulações, por trás de quem é Gatsby e de seu amor por Daisy, por trás das traições de Tom. É interessante a relação que ele tem com os demais personagens, sempre a margem de tudo ainda que seja o elo entre todos, a história precisava dele para prosseguir, mesmo ele estando por fora. 

E assim como Nick, nós, como público, vivenciamos tudo aquilo, sabemos o que há por trás de cada sentimento não revelado e sofremos por isso, entretanto, também desfrutamos de cada cena e graças a Baz Luhrmann que fez cada sequência parecer um sonho, as festas que são um deleite para os olhos e ouvidos e cada momento do filme que é tão belo que foi difícil se desapegar, acreditar que uma hora iria terminar, é tudo bom demais só para ver, dá mesmo é vontade de querer participar, vivenciar toda aquela beleza, beleza que só o cinema pode nos presentear, e que bom que Luhrmann compreendeu isso e explorou o máximo essa função da sétima arte. Os figurinos foram os grandes destaques, belíssimos e que dão a sensação de que foram projetados para cada ator, pois ficam perfeitos em cada um deles, os cenários, as locações, tudo bem pensado, bem colocado em cada cena, construindo um visual tão rico em detalhes, demonstrando um cuidado quase que perfeccionista do diretor e de toda a equipe. A trilha sonora também chama a atenção, por ser moderna, que espanta de início, mas logo demonstra ser mais uma ousadia do filme, composta por Jay.Z, a trilha ainda trás nomes como Florence + The Machine, Lana Del Rey, Jack White e Beyoncé.  

Por trás deste visual, há um elenco interessante, que fazem desta impressionante experiência valer muito mais a pena. Leonardo DiCaprio, por mais difícil que seja acreditar, surpreende, há muito tempo não o via interpretando este tipo de personagem, romântico, que faz de tudo por aquela que ama, é muito interessante o que ele faz de Gatsby, suas expressões, seus olhares, um jeito único, de maneira muito distinta de todas as suas outras atuações. Assim também é com a belíssima Carey Mulligan, que encanta cada cena, com sua voz firme e doce, que vai muito além de "só um rostinho bonito", ela está simplesmente impecável com Daisy Buchanan. Tobey Maguire não tem muito espaço para brilhar como o restante do elenco, mas não faz feio em cena, faz o que precisava ser feito e faz bem. Joel Edgerton tem a missão de trazer a tensão para a trama, e consegue e com muito êxito e chama a atenção com sua forte interpretação. Outra que se destaca é Isla Fisher, que surge em cena irreconhecível como Myrtle, e mesmo com uma participação menor, é simplesmente inacreditável seu talento e sua capacidade em se transformar em cada filme que faz.

"O Grande Gatsby" é um filme de época como nunca se viu igual, pretensioso, grandioso, inovador. E para minha felicidade, toda a qualidade técnica da obra não ofusca a beleza de sua história, um tipo de romance quase que esquecido, aquele puro, ingênuo, com diálogos bem pensados, que emocionam, que encantam pela simplicidade. E ao seu término, todo aquele furacão de sentimentos que a obra expõe se transforma em silêncio, pois apesar de toda sua energia e agilidade, trata-se uma trama trágica, triste, melancólica, o amargo sonho americano, onde toda aquelas cores e festividade nada mais eram que uma ironia a decadência, sobre o quão vazias eram aquelas pessoas, em busca de um sonho tão frágil que o dinheiro não conseguiu construir. Enfim, belo em todos os sentidos, em seu visual e em suas ideias, "O Grande Gatsby" é mais um marco na carreira de Luhrmann. Inovador, fascinante, encantador e emocionante. Recomendo. 

NOTA: 9






quarta-feira, 7 de março de 2012

Crítica: Reino Animal (Animal Kingdom, 2010)

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o longa independente e australiano ganhou notoriedade pelas diversas indicações à prêmios importantes de cinema na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, para a desconhecida Jacki Weaver, incluindo o Oscar 2011. Lançado nos cinemas ano passado aqui no Brasil, o filme surpreende pela grande qualidade, com pouco custo e totalmente fora dos padrões do Festival de Sundance. Para quem procura algo novo, bem feito e fora do circuito hollywoodiano, "Reino Animal" é uma ótima escolha. 

por Fernando Labanca

O filme começa com uma cena bastante inusitada. Joshua "J" Cody (James Frecheville), um jovem que aguarda a chegada da ambulância para levar sua mãe morta por overdose de drogas. Sem saber o que fazer, liga para sua avó distante, Janine 'Smurf' (Jacki Weaver). Há muitos anos perdera contato com seus parentes e agora passa a viver com eles, na mesma casa. Vovó Smurf e seus três filhos, Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o foragido da polícia e um dos bandidos mais procurados do bairro, Andrew 'Pope' (Ben Mendelsohn), além de Barry Brown (Joel Edgerton) que mora fora. Uma família que tem uma matriarca, mas são os homens que comandam e comandam a cidade também, por seus crimes e ações ilegais. É neste cenário que J é colocado, num ambiente onde a violência reina e é obrigado a se adaptar a ela. Eis que surge um detetive (Guy Pearce) que decidido a encontrar provas concretas para prender os membros da família, começa a usar o jovem, prometendo uma salvação e lhe mostrando que ali não era seu lugar. 


O reino animal. Já dizia Darwin, os mais fortes sobrevivem. Há outras teorias que provam que a sobrevivência está relacionada com a adaptação. É exatamente sobre isso que o roteiro coloca em pauta, a adaptação dos seres humanos. "J" não pertencia aquele mundo, mas foi obrigado a fazer parte daquilo, era uma questão de sobrevivência, ignorando seus ideais, seus valores. O roteiro também nos apresenta esta inusitada família como verdadeiros animais, que seguem firme na cadeia alimentar, matando para sobreviver, são caçadores que temem a todo instante se tornarem a caça, além de suas atitudes grosseiras que por vezes assustam, ações de homens que usam somente a razão, que ignoram qualquer tipo de emoção, que já não se importam com o que é certo ou errado. A mãe coruja que cuida de seus eternos filhotes em seu ninho. Vemos também a reflexão sobre a nossa missão aqui neste reino animal que é a vida, sempre buscando um espaço para se encaixar, sempre procurando um grupo para se fazer parte.

Dirigido por David Michôd, o australiano realiza um trabalho admirável, suas movimentações de câmeras são geniais e nos apresenta cenas brilhantes. É interessante como um filme de baixo custo se concentra tanto em sua realização, é tão bem cuidado, a fotografia é belíssima e tudo na tela funciona perfeitamente bem. Mesmo sendo um filme independente, Michôd não levou seu trabalho "nas cochas", levou muito a sério, se preocupou em mostrar ao mundo um cinema australiano de alta qualidade. Vale a pena ver o filme somente por sua grande direção, é belo como tudo é mostrado, a câmera lenta, os cenários, em junção com uma trilha sonora que remete a algo grandioso, memorável. Tudo muito estiloso. É isso o que "Reino Animal" é, estiloso, cool. 

As atuações estão corretas, no geral. Apenas vemos Guy Pearce de conhecido no elenco e fez o que tinha de fazer, não surpreende, mas cumpre bem sua função. Joel Edgerton, Sullivan Stapleton e Luke Ford estão bons, convencem bem seus respectivos personagens, cada um com sua característica, e Ben Mendelsohn como o tio mais procurado pela polícia local, faz uma personagem bem diferente que aos poucos vai se mostrando quase como um psicopata, frio e calculista e acaba surpreendendo. Já o protagonista, James Frecheville, é bem fraco, chega a ser lamentável algumas de suas cenas, mas é notável que o diretor percebeu as limitações do ator e deixou para os coadjuvantes fazerem as partes mais difíceis. E não há como não reparar e prestar maior atenção em Jacki Weaver, devido as indicações e aos prêmios que recebeu por sua interpretação. A meu ver, tem uma atuação boa, mas nada oscarizável, a personagem é incrível, surpreendente, eu diria e tem seu grande momento na reta final do longa, onde faz um discurso sobre os novos rumos da família e seus aliados, é de arrepiar!

"Reino Animal" é um filme bastante inovador, recheado de bons e inesperados acontecimentos, com ótimas reviravoltas, onde eventos que acreditávamos que aconteceriam apenas no final, acontecem nas primeiras, com um constante clima tenso, com boas atuações, personagens extremamente interessantes e cativantes e uma história que prende do início ao fim, com direito a grandes cenas que permanecerão na memória, isso, principalmente, à ótima direção de Michôd, não deixando de citar o ótimo roteiro, muito bem escrito também por ele. Enfim, um filme surpreendente e muito bem realizado, com idéias bem desenvolvidas, mostrando o poder de um cinema que eu desconhecia, o australiano. Sim, um filme poderoso, que merece ser encontrado já que é desconhecido por grande parte das pessoas. E para completar, um final memorável. Recomendo!

NOTA: 9





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