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terça-feira, 10 de abril de 2018

Crítica: Pequena Grande Vida

Vendido como comédia e com cara de um cinema mais comercial, "Pequena Grande Vida" surpreende ao ser exatamente o que não parece ser: maduro,  reflexivo e profundamente humano. 

por Fernando Labanca

Alexander Payne, diretor de filmes como "Sideways" (2004) e "Nebraska" (2013), parece compreender tão bem os humanos. E mesmo identificando suas piores falhas, suas obras sempre me soaram como uma busca pelo o que há de melhor na humanidade. Há um olhar esperançoso em seus roteiros que se esforça em dizer, dentro de tantas críticas sociais, que há beleza em cada indivíduo. "Downsizing" talvez seja um convite. Um convite a olharmos os outros com pouco mais de cuidado. O problema começa quando, além disso, ele resolveu falar sobre muitas outras coisas. Alexander Payne tem boas intenções, mas são tantas que nem mesmo ele encontrou a linha certa a seguir, se perdendo em suas próprias ideias. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar (Interstellar, 2014)


Christopher Nolan é um dos cineastras mais ambiciosos de nosso tempo, é de surpreender a maneira triunfante como ele retorna a cada novo trabalho, mesmo depois de grandes produções como "A Origem" e a trilogia do Batman, ele se mostra, mais uma vez, incansável, sempre disposto a fazer o melhor, o maior e mais impactante. "Interestelar" é grandioso, é também, sua obra mais pretensiosa e a mais corajosa que ele chegou a realizar em todos esses anos.

por Fernando Labanca

Trata-se de uma ficção científica, e das boas. Um raro exemplar de um gênero que há muito tempo não nos apresentava algo tão original, e ao mesmo tempo, tão clássico, tão épico. Christopher Nolan, que nitidamente teve grandes inspirações em "2OO1: Uma Odisséia no Espaço" (1968) de Stanley Kubrick, realiza um trabalho memorável, que nos presenteia com sequências milimetricamente bem elaboradas, que respeita a sétima arte, respeita o público. Me fez lembrar de um cinema mais puro, mais limpo, onde a cena nos permite compreender a ação, e por isso, nos dá tempo e a chance de apreciar cada instante. E por esses elementos, vejo a direção de Nolan como sendo tão corajosa, simplesmente por ele ter tido a ousadia de construir, em pleno 2014, numa época onde o 3D e os efeitos especiais dominaram as super produções, algo que remetesse aquelas produções mais antigas, chega a ser nostálgico a beleza das cenas, sem exageros visuais, tudo é muito real, e por isso, mais interessante, mais bonito. O filme se difere também pela importância que o roteiro dá para seus personagens e para os diálogos, logo que, mais do que um sci-fi, "Interestelar" se firma como um poderoso drama, que carrega durante toda sua trama uma forte e intensa carga emocional.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Crítica: Elysium (2013)

O diretor sul-africano Neill Blomkamp ganhou notoriedade em 2009 ao lançar “Distrito 9”, uma ficção cientifica bastante diferenciada, que além de discutir questões sociais, trazia uma interessante e inovadora história. Não poderia ser diferente, seu mais novo filme, “Elysium” vem carregado de grandes expectativas, principalmente por trabalhar no mesmo gênero, é quase que inevitável esperar um filme tão bom ou melhor que seu anterior e justamente por isso, a obra acaba sendo tão decepcionante, não tanto por não conseguir se manter no mesmo nível, mas principalmente por não trazer nenhuma novidade, ser limitado, se prendendo sempre ao que um dia deu certo, por não conseguir, em nenhum momento, construir sua própria identidade.

Por Fernando Labanca

Ano de 2159, o Planeta Terra não é mais o mesmo, após uma superlotação o mundo foi se desestruturando, é então que constroem a estação espacial Elysium, um lugar onde a vida é perfeita, onde doenças são curadas facilmente e onde apenas aqueles com poder aquisitivo elevado poderiam se tornar habitantes, caso contrário, seriam banidos. Em Los Angeles, que se tornou uma espécie de favela, onde os indivíduos se sustentam através de roubos e se sacrificam em grandes indústrias, é neste ambiente que vive Max (Matt Damon), trabalha em uma dessas indústrias e sempre sonhou em abandonar tudo e partir para Elysium, até que ele sofre um acidente e, infectado por radiação, tem apenas cinco dias de vida restante e a única maneira de sobreviver é ser levado para a estação espacial e ser curado lá, para isso, ele precisa da ajuda de Spider (Wagner Moura), um expert em tecnologia  que almeja dias melhores para todos os habitantes, nem que para isso ele precise agir de forma ilegal, porém, ele tem um plano muito maior para Max, o que irá bater de frente com os planos de Rhodes (Jodie Foster), uma mulher capaz de tudo para manter a integridade e estilo de vida em Elysium.


A obra pode oferecer sensações diferentes para dois tipos de grupos, aqueles que assistiram “Distrito 9” e aqueles que não assistiram. Para aqueles que não viram, provavelmente se surpreenderão com muitas coisas, o contexto político, os cenários, os efeitos especiais, entretanto, para aqueles que já conhecem o trabalho anterior de Blomkamp, poderão também gostar, mas a inconsistência da obra se tornará mais nítida. Isso porque as semelhanças entre os dois filmes são claras e isso em nenhum momento faz bem a “Elysium”, longe de ser “a maneira como Neill Blomkamp trabalha”, isso em nada tem a ver com a identidade do diretor e sim, caminhar pelo caminho que já conhece, sem riscos, o filme a todo tempo nos entrega momentos que um dia já deram certo, seja em “Distrito 9”, seja em algum outro filme Hollywoodiano. É tudo muito parecido entre as duas obras, sua crítica social, seu fundo político, a construção e evolução do personagem, que foi alvo de um incidente, aqui a radiação, antes o veneno, e precisa lidar com essa situação irreversível, antes ele se torna uma espécie de alienígena, aqui ele se torna uma espécie de androide para se manter vivo. Antes eram os extraterrestres, aqui são robôs, que visualmente não se diferem muito. Os cenários são extremamente semelhantes, as locações e toda a tecnologia “criada” para o filme remete e muito a “Distrito 9”. É realmente chato fazer essas comparações, mas Neill Blomkamp não nos dá muitas escolhas, e mesmo a ideia sendo tão diferente, ele consegue fazer mais do mesmo, e quando finalmente nos deparamos com alguma novidade, como a vida em Elysium, o roteiro tão limitado não se aprofunda e nunca tira bom proveito do que tem em mãos.

O roteiro é bastante problemático. Não se aprofunda em absolutamente nada, a sensação que fica é que havia tanta coisa interessante ali na tela a ser discutida, mas é tudo mostrado e guiado de forma tão rasa que logo causa desinteresse e uma certa preguiça, confesso, em querer entender alguma coisa. Informações são jogadas a todo instante, dando sempre a impressão de que algo grandioso está por vir, a ida de Max a Elysium, os planos mirabolantes de Spider e até uma conspiração política iniciada por Rhodes, mas muito disso se perde no meio do caminho e no final percebemos que toda aquela excitação não dá em nada, pura enrolação. As personagens também decepcionam, justamente por serem tão vazias, não são pessoas, são tipos, temos os mocinhos e os vilões, e dessa forma, além de tornar tudo previsível, não consegue causar empatia e não consegue jamais gerar grandes discussões sobres suas questões sociais. A intenção era nos fazer pensar em nosso mundo real através deste universo “fantasioso”, e está é, na verdade, a maior graça da ficção científica, mas aqui, sua proposta não é alcançada, simplesmente por ser tão superficial.

Desta forma, os atores nos entregam atuações um tanto quanto caricatas. Sharlto Copley é quem rouba a cena, mas se destaca por sua grande atuação, não por seu personagem. Matt Damon está correto, me surpreende a maneira como ele consegue convencer em tantos gêneros distintos, mesmo que aqui ele esteja um pouco apagado. Alice Braga surge interessante, a atriz não faz feio lá fora, surge até mais carismática e mais a vontade em cena. Wagner Moura, apesar dos grandes elogios quanto a sua performance, eu o achei bastante forçado, é um ótimo ator, isso é inegável, mas não me convenceu dessa vez. O mesmo posso dizer da veterana Jodie Foster, exagarada, muito distante do que ela já realizou no cinema.

"Elysium" não se perde por completo, apesar dos inúmeros defeitos, vale a pena dar uma conferida, diverte com suas sequências muito bem planejadas por Neill Blomkamp, que é, nitidamente, um diretor esforçado, promissor. Fotografia e efeitos especiais chamam a atenção, o visual criado para o filme causa certo impacto e assim, presenteamos cenas belíssimas que na tela grande se tornam ainda mais interessantes. Gostei, tem até um ótimo final que me fez ter a certeza que não havia feito a escolha errada, entretanto, teria gostado muito mais se tivesse visto algo novo, assim como o trailer prometia, infelizmente se preocuparam muito em construir um filme de ação, com muitos efeitos, onde a todo instante alguém está correndo, lutando ou atirando, algo está explodindo, enfim, havia muito ali na história para ser aproveitado, muitas ideias a serem exploradas, para no fim, ser apenas um filme de ação qualquer. Para uma trama aparentemente realista, "Elysium" se perde em sua superficialidade e na construção de estereótipos.

NOTA: 6,5


País de origem: EUA
Duração: 109 minutos
Elenco: Matt Damon, Sharlto Copley, Jodie Foster, Alice Braga, Wagner Moura, Diego Luna, William Fichtner
Diretor: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Crítica: Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997)

Nunca é tarde para ver um filme e "Gênio Indomável" é um daqueles que sempre vi a capa, sempre tive vontade de ver e nunca via, eis que tive a oportunidade e faço questão de colocá-lo aqui. É quase como um clássico dos anos 90, dirigido pelo renomado Gus Van Sant. Para aqueles que se surpreenderam recentemente ao ver Ben Affleck como diretor em "Argo", é válido lembrar que este cara, subestimado por muitos, já esteve por trás das câmeras antes, não só como diretor mas também como roteirista, o que é este caso, escrevendo ao lado do talentoso Matt Damon, onde aliás, venceram o Oscar de Melhor Roteiro. O filme fora lançado em 1998 aqui no Brasil.

por Fernando Labanca

Matt Damon, que além de escrever, protagoniza o filme. Ele interpreta Will Hunting, um jovem dotado de grande inteligência, mas que possui uma vida perdida, alguém que não sabe a que rumo seguir, além do fato de desperdiçar seu tempo se envolvendo em brigas de rua ao lado de seu amigo Chukie (Ben Affleck) e trabalhando em empregos que não exijam qualificação. Após inúmeras passagens pela polícia, Will exerce uma atividade como pena, limpando os corredores de uma faculdade, é onde, para surpresa de um dos mais renomados professores do local, Gerard Lambeau (Stellan Skarsgard), ele consegue encontrar a resposta de um indecifrável teorema matemático. Percebendo o alto potencial do garoto, Lambeau faz um acordo com o juiz, onde o jovem passaria a fazer terapia como forma de se livrar de sua sentença. Eis que depois de várias tentativas, o professor entra em contato com um antigo amigo, Sean (Robin Williams), um psiquiatra que possui um passado parecido com o deste gênio indomável. São nessas conversas com Sean, que Will encontra sua força para seguir em frente, superando seu difícil passado e encarando de vez seu futuro, tendo força inclusive para conquistar a garota que amava, Skylar (Minnie Driver).


"Gênio Indomável" possui um excelente roteiro, assinado por Matt Damon e Ben Affleck, que são amigos de infância, poderiam muito bem ter feito aquele filme descontraído, criado enquanto conversavam numa mesa de bar, entretanto, o que vemos na tela é uma obra densa e de grande complexidade. Eles nos convencem sobre cada relação ali tratada. sobre cada conflito, é tudo muito sensível, muito humano, ele nos toca aparentemente de forma sutil, mas quando menos percebemos estamos sofrendo por dentro, sofrendo por estes grandes personagens, extremamente bem escritos e muito bem interpretados. Há, certamente, descontração, nitidamente uma obra feita por amigos, por pessoas que se conhecem, há uma naturalidade em cada cena, em cada diálogo, e assim, rapidamente nos sentimos afeiçoados por cada situação.

O filme é cheio de grandes ideias, é daqueles que poderá ser visto e interpretado de formas diferentes, cada pessoa levará consigo algo, é uma obra que deixa rastros, nos faz pensar e refletir sobre muita coisa. É sobre amizade, sobre como pessoas podem ser salvas por outras, sobre como uma palavra, uma conversa, pode ser confortante, inspiradora. É de se analisar também o desenvolvimento de Will Hunting, aquele que evita o próprio crescimento, sua agressividade, sua loucura, é resposta de seu medo, medo de admitir a própria genialidade, mais do que isso, medo do desapontamento e foi apenas isso que o limitou, medo de ser decepcionado, seja quando não consegue aceitar os planos de Lambeau, seja quando evita um relacionamento mais profundo com Skylar. "Gênio Indomável" é a bela prova de que não está nos livros a resposta para uma vida plena, a resposta disso está no dia-a-dia, está na convivência, nas relações humanas, de que há uma diferença entre inteligência e conhecimento, de que um indivíduo não é apenas composto pelo conhecimento teórico que ele adquiri, seu conhecimento está relacionado ao que adquiriu com a vida, com as conquistas, perdas e a sabedoria de lidar com tudo isso. E que sucesso não é necessariamente conquistado por um diploma.

Outro grande mérito da obra são suas atuações. Matt Damon dá um belo show de interpretação, um personagem difícil mas que o ator conseguiu dosar bem cada uma de suas oscilações, melhor ainda é quando ele divide a cena com o mestre Robin Williams, que há muito tempo nos deve uma atuação tão boa como esta, se mostrando como poucos conheceram, um incrível ator dramático. Os coadjuvantes são ótimos também e possuem grande espaço e importância na trama, como Ben Affleck e Stellan Skarsgard, mas é Minnie Driver quem se destaca, realizando cenas surpreendentemente boas. É interessante como estes personagens surgem na trama, surgem como meros conhecidos, aquelas pessoas que passam por nossas vidas e mal reparamos, de repente, enxergamos todos como grandes amigos e quando menos esperamos estamos com um sorriso no rosto com cada diálogo, cada abraço, e assim, porém, sentimos também nossas lágrimas, por cada erro que cometem, cada confissão, cada despedida. Gus Van Sant é definitivamente um grande diretor, teve em suas mãos a difícil missão de transmitir a excelente ideia de Damon e Affleck, e conseguiu com grande êxito. Destaco também a belíssima trilha sonora. Um filme para se guardar na memória. Recomendo.

NOTA: 9



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Crítica: Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, 2011)

Cameron Crowe. Nome por trás de grandes obras do cinema como "Quase Famosos" e "Vanilla Sky", retorna depois de seis anos sem lançar um filme, com a história real de Benjamin Mee, um jornalista que resolveu comprar um zoológico, em formato típico "filme para toda a família", o diretor realiza aqui seu trabalho menos autoral, mas ainda assim, emocionante. 

por Fernando Labanca

Antes de mais nada, sou um admirador do trabalho de Cameron Crowe, aliás, foi o elemento que convenceu a assistir este longa, o vejo como um dos melhores diretores de cinema e seus filmes listam entre os melhores que já vi, fato. Então, sou bastante suspeito para analisar sua obra. Mais uma vez ele trabalha com a comédia dramática se destacando, como sempre, a belíssima trilha sonora, marca registrada em sua filmografia. 

Baseado numa inusitada história real, conhecemos o jornalista Benjamin Mee (Matt Damon), que escreve artigos sobre grandes aventuras, mas passa por um momento delicado em sua vida pessoal, perdeu sua esposa e tem de lidar com o luto e ainda dar força para seus filhos, a pequena e doce Rosie (Maggie Elizabeth Jones) e o adolescente revoltado Dylan (Colin Ford), com quem tem uma relação bastante conturbada. Decidido a ter uma vida nova, recomeçar e tentar encontrar a felicidade em outro lugar, já que tudo a seu redor o lembra sua esposa, enfim encontra um local, a casa perfeita, longe de tudo, o problema é que ela já estava habitada, por animais.

Um zoológico abandonado com mais de 200 espécies selvagens e que só se reergueria com um novo dono, e essa era a condição do local, e sem experiência alguma, Benjamin se torna o dono do zoológico e vendo toda aquela nova situação o ambiente perfeito para se reerguer como pessoa e como pai. Junto com a casa e os animais, havia também um pequeno grupo de trabalhadores, como a zeladora Kelly Foster (Scarlett Johansson) que passa a guiá-lo e a jovem Lily (Elle Fanning), a "menina boba da roça" que se apaixona rapidamente por Dylan, sem saber que a grande vontade dele é dar o fora do lugar. 


Há frases que definem todo um filme, neste caso, uma dita por Benjamin "Tudo o que você precisa é vinte segundos de coragem insana, literalmente vinte segundos, e eu prometo que resultará em algo grandioso". É exatamente sobre isso que Cameron Crowe coloca em discussão, a coragem de se arriscar, seja em algo patético, algo em que todos irão dizer milhões de razões para não fazê-lo, mas faça, se arrisque, uma simples ação corajosa pode dar grandes resultados, gerar muitos frutos, pode salvar toda uma vida. Comprar um zoológico é exatamente o que ninguém sonha em fazer e foi exatamente o que ele fez e foi exatamente o elemento que salvou sua vida. E assim como todos os filmes de Crowe, as lições são valiosas, e você terá vontade de estar com um caderno para anotar os belos diálogos. Além, é claro, de falar sobre a dor da perda e nos mostra com bastante delicadeza esta trajetória de luto das personagens, e emociona sem ser melodramático e sem forçar o público a cair em lágrimas, emociona na dose certa e diferente de filmes como "Reencontrando a Felicidade", aqui, aqueles que perderam quem amava tentam de fato reencontrar a felicidade.

Chegou ao cinema há uma semana e já é conhecido como "filme de férias", aquele filme que agradará toda a família e que daqui alguns anos estará na "Sessão da Tarde". Sim, o que de fato é. No entanto, consegue como poucos filmes ser infantil na medida certa para agradar os mais pequenos, mas ao mesmo tempo sabe ser filosófico e inteligente capaz de agradar os mais adultos, tarefa difícil. Admiro a forma como Cameron guiou o longa, sua infantilidade não incomoda, é um ótimo filme para as férias e quando estiver na sessão da tarde, sem sombra de dúvida, será o melhor da programação. Os animais mostrados provavelmente encantarão os menores, e para minha felicidade não surgem na tela fazendo caras e bocas e agindo de forma humana forçando o humor, surgem de forma natural. Há toda uma atmosfera criada, a vida com animais, a relação homem-natureza, enfim, há todo um belo clima que convence e não soa forçado.

Matt Damon me surpreendeu, construiu um ótimo protagonista, realiza grandes cenas, convence desde sua relação com o irmão, interpretado por Thomas Haden Church, com quem tem boa química, até com os mais pequenos, convenceu como pai, e convenceu como o homem completamente perdido neste cenário. Destaque para uma grande cena, onde ele tem uma dura discussão com seu filho, interpretado por Colin Ford, que também surpreende, cheguei a arrepiar. A pequena Maggie Elizabeth Jones é incrivelmente doce e meiga, tem uma atuação notável, não faz a tipica criança-adulta, e por isso chama mais a atenção. Ainda temos Patrick Fugit, um dos trabalhadores e que fez o alter ego de Cameron Crowe em "Quase Famosos", o que explica sua presença aqui, logo que não faz muita coisa em cena, e a bela Elle Fanning, numa personagem bem diferente do usual, eu diria, gostei da forma como ela fez sua personagem e mesmo não tendo tanto espaço, se destaca (que aliás, provou este ano ter guiado sua carreira bem melhor que sua irmã, Dakota, cada vez mais perdida). E Scarlett Johansson, deixando de lado seu lado mais sexy e praticamente sem maquiagem, aparece mais masculinizada, mas ainda assim, bela, e se sai bem. 

Destaque para a trilha sonora de Jónsi, vocalista da banda islandesa Sigur Rós, elevando e muito o nível do filme, graças a ela, algumas sequências são um verdadeiro espetáculo, vale citar a belíssima canção "Hoppípolla", tocada na cena final. Boa trilha sonora, muito filmes possuem, a diferença é que Cameron Crowe sabe como pouquíssimos cineastas manuseá-las de forma tão competente. O longa peca pela falta de conflitos durante a projeção, há sequências que parecem que nada está realmente acontecendo e também por forçar um relacionamento entre as personagens de Damon e Johansson, o que de fato não há química nenhuma entre eles, teria terminado melhor se terminassem como amigos, teria sido mais maduro e surpreenderia por isso, mas infelizmente se rende ao óbvio, além de tentar ser engraçado em algumas passagens, mas falha, as partes mais dramáticas se destacam. Mas no geral, um filme adorável, bem família, que sabe emocionar e encantar facilmente, devido a trilha sonora e a direção impecável de Cameron Crowe que tem o dom de transformar um simples ato do cotidiano numa cena grandiosa. Há boas intenções, boas frases de efeito e idéias nada inovadoras, entretanto, tão bem realizadas que vale a pena ser admirada. Não é tão bom quanto os outros trabalhos do diretor, mas ainda assim, um trabalho notável. Recomendo.

NOTA: 8





terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Crítica: Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, 2011)


Philip K.Dick é um nome forte por trás das grandes ficções ciêntíficas do cinema, veio de seus livros grandes obras como "Minority Report - A Nova Lei" e o clássico "Blade Runner - O Caçador de Andróides". A adaptação da vez foi "Os Agentes do Destino", com direção e roteiro de George Nolfi, que por sua vez, escreveu "O Ultimato Bourne" e trás deste seu último projeto, a agilidade e inteligência capaz de prender o público numa história um tanto quanto inovadora.

por Fernando Labanca

Philip Dick durante sua vida nunca teve seu devido reconhecimento, somente após sua morte suas obras passaram a ser adaptadas para o cinema e hoje é visto como fonte de boas idéias, em "Os Agentes do Destino", isso não é diferente, George Nolfi encontrou a trama certa para realizar uma ótima ficção ciêntífica mesclada com romance. 

Assim como em "Matrix", o filme questiona a realidade, e trás como premissa a existência dos "agentes do destino", homens vestidos de preto e chapéus, que ajudam a ajustar a vida seguindo um plano. Todos nós somos predestinados a algo em nossas vidas, e o que esses homens fazem nada mais é que impedir que o acaso estrague nossos caminhos, nem que para isso, precisamos perder um ônibus, ou perder a hora de acordar para que nossas vidas acompanhem o plano maior, o nosso destino. O filme se inicia, quando o plano de vida de David Norris (Matt Damon) dá errado. 

David é um político promissor que está se candidatando a senador, mas acaba se envolvendo em alguns escândalos, é quando conhece a bela dançarina, Elise (Emily Blunt) que o inspira em seu discurso de derrota, e este grande discurso impulsiona sua carreira. David perdera sua família, vivia sózinho e via na política o desejo utópico de salvar o mundo e preencher o vazio que sentia, a política era seu destino, o mundo precisava dele. O problema é que ele se reencontra com Elise, os dois se apaixonam, e ela passa a ser aquele elemento que o faria feliz, aquele elemento que preenche o vazio de sua vida, o que foge completamente do plano. É quando entra em ação os "agentes do destino", pois David e Elise não estavam predestinados a ficarem juntos, mas eles falham mais uma vez, e David descobre a verdade sobre os agentes, é então que eles lhe revelam toda a verdade, a de que eo político não poderia ficar com a dançarina, ele precisaria seguir o destino que já estava escrito, caso contrário, todo o seu ser seria apagado, suas lembranças e tudo o que ele conhecia de si. Mas o amor fala mais alto, e David vai contra seu próprio destino, correndo risco de vida, simplesmente para estar ao lado daquela mulher que ele tanto amava.


Uma mistura interessante de ficção ciêntífica com uma história de amor, a mistura dá muito certo, e o roteiro brilhantemente escrito por George Nolfi, tanto nos empolga com as cenas de aventura e ação, além de nos encantar com a genialidade das idéias, nos encanta com o casal de protagonistas, o que mostra o quão melhor é este filme comparado com tantos outros do mesmo gênero, por conseguir se expandir, ir além do que estamos acostumados a ver e ter um texto bom capaz de convencer em todas suas vertentes. A história de amor é bela, toda aquela idéia de que o casal não poderia ficar junto trás bons conflitos para a trama, torcemos para para o casal, principalmente devido a boa atuação dos atores, Matt Damon e Emily Blunt, ambos muito carismáticos e juntos nos mostram uma deliciosa química, a atriz vai mais além por dançar na tela, mostrando seu grande empenho pela personagem. No quesito ação, "Os Agentes do Destino" não decepciona, as cenas de perseguições são incríveis, devido a ótima edição e direção ágil de Nolfi, ajudado pela genial triha sonora de Thomas Newman. Destaque para as boas sacadas, como a utilização de portas para se trasportarem de um lugar para outro em questão de segundos, entre outras boas idéias que o bom roteiro soube explorar. 

É sempre muito bom se deparar com obras como esta, diria que foi uma grata surpresa que tive este ano. "Os Agentes do Destino" sem sombra de dúvida mostrou uma das melhores idéias que passou pelo cinema, a premissa da existência desses "agentes" é genial, que interfere em nossa realidade, que durante aqueles minutos nos faz refletir sobre nossas escolhas e o quão sentido faria se eles realmente existissem. O filme fala sobre livre-arbítrio, onde somos donos do nosso próprio destino, somos donos de nossas escolhas, mesmo que alguns digam o que devemos ou não fazer, só cabe a nós decidir qual caminho seguir. Uma obra original, cheia de bons detalhes, capaz de agradar um público bem variado. Supreende por diversos elementos, gostei dos diálogos, de como toda a ação acontece, a maneira inusitada de como o casal se conhece, achei interessante também os próprios agentes do destino, que de imediato parecem vilões de desenho infantil, surpreendem pelas atitudes, mostrando a maturidade do roteiro, destacando assim, os coadjuvantes Anthony Mackie e John Slattery. Peca, assim como muitas obras vem pecando nos últimos anos, num clichê que vem se tornando moda, a de ter o protagonista como narrador de sua própria trajetória, como se o público não fosse capaz de analisar e refletir as ações tomadas por ele, dando assim, um final mastigado, com direito a narração em off da lição de moral na última cena, não fica feio, até funciona, mas os realizadores precisam saber que o público é capaz de pensar e chegar nas conclusões sózinhos.

NOTA: 9






sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crítica: Happy Feet 2 - O Pinguim (Happy Feet Two, 2011)

Continuação do vencedor do Oscar, "Happy Feet" de 2006, o filme australiano, dirigido novamente por George Miller, vem para mostrar o alto nível que as animações chegaram, com perfeição nos detalhes que alcançam a perfeição, por outro lado, também vem para provar a carência que o gênero vem sofrendo em relação aos roteiros.

por Fernando Labanca

Na sequência, vemos Mano (Elijah Wood) e Gloria (P!nk) já bem crescidos, vivendo felizes na comunidade dos Pinguins Imperadores, ao lado do amigo Ramon (Robin Williams) e agora, cuidando do filho Erik. Erik, porém, possui uma característica muito forte de Mano, a de sempre questionar a vida, e desde pequeno começa a se perguntar o porquê dele ter que cantar e dançar como todos os outros, eis que influenciado por Ramon, que também não se sente parte dos Imperadores, vai conhecer um outro grupo de pinguins, é onde conhece Sven (Hank Azaria), um pinguim idolatrado por todos e que voa e que ensina uma lição valiosa para Erik, a de sempre acreditar nos seus desejos para que eles possam acontecer.

Até que um acidente natural acontece, e todos os "imperadores" ficam presos, e por serem os únicos do lado de fora, Mano e Erik, passam a procurar ajuda de outros grupos, procurando por solidariedade. É neste momento, também, em que os valiosos ensinamentos e os talentos de Sven são colocados em teste. 


Como disse anteriormente, "Happy Feet 2" peca justamente em seu roteiro, e infelizmente, peca feio. Nem mesmo o alto nível da animação consegue disfarçar o erro. O longa não trás absolutamente nada de novo, muito do que ocorreu no primeiro retorna, mas sem a mesma força, os conflitos pessoais de Mano agora são os mesmos só que de seu filho, Erik, além das mensagens que vemos em todos os outros filmes de animação, como solidariedade, a união de raças diferentes, a luta pelos sonhos, além é claro, da importância das diferenças. O que vemos na história, é uma tentativa um tanto quanto insistente dessas mensagens, que surgem do nada, tentando tapar o buraco deixado pela inexistência de um bom roteiro, uma boa idéia. A verdade é que nada acontece no filme, é uma sequência de belas imagens mas sem nenhuma boa história sendo contada, e as poucas coisas boas que surgem, como por exemplo a dupla de "camarões" Bill e Will the Krill (Brad Pitt e Matt Damon), que me pareceram uma alusão à homossexualidade, trazem pensamentos existencialistas bastante complexos, mas que não são tão bem explorados. Aliás, há muito existencialismo em "Happy Feet 2", mas os roteiristas infelizmente não exploraram este potêncial, ou seja, temos a certeza de que há pessoas inteligentes por trás do projeto, mas que por algum motivo resolveram ir pelo caminho mais fácil e entregaram um trabalho preguiçoso, nada inovador.

O lado positivo são as técnicas avançadas de animação, a riqueza de detalhes, a textura dos animais, as cenas na água chegam à perfeição, o que é quase impossível, os detalhes da neve, enfim, é de deixar qualquer um que goste do assunto de boca aberta, o filme chega ao ápice da perfeição, o que espanta, pois o filme é da Warner, distribuidora que pouco aposta no gênero. O filme é salvo também por alguns diálogos inspiradores, por vezes, clichê, mas boas intenções são sempre válidas, como "Ás vezes é preciso regredir para seguir em frente", entre outras, como também as discussões de Bill e Will que surpreendem pelos pensamentos um tanto quanto complexos. Além, das cenas musicais que são sempre bem-vindas, mas que infelizmente não aparecem tanto, destaque principalmente para a cena final ao som de "Under Pressure" do Queen, simplesmente fantástica.

Em suma, faltou muita coisa em "Happy Feet 2", está muito longe de ser como o primeiro, que é muito superior. Não há nada que vemos na tela que justifique sua realização, um filme preguiçoso, sem idéias, por muitaz vezes cansativo simplesmente por não apresentar nenhuma história. Bela imagens, efeitos incríveis, animação rica que alcança a perfeição, personagens carismáticos mas que perdem o brilho pela ausência de uma boa trama, além de possuir uma ótima trilha sonora assinada por John Powel, destaque também pelos efeitos sonoros, muito bem realizados. 


NOTA: 5


segunda-feira, 25 de julho de 2011

DVD: Além da Vida (Hareafter, 2010)

Clint Eastwood é um dos grandes diretores ainda ativos, e nesta última década conseguiu manter uma ótima média de quase um filme por ano, entre eles, obras marcantes como "Menina de Ouro" e "Sobre Meninos e Lobos", entre outros nem tão marcantes mas ainda assim dignos de admiração. Eis que ano passado ele surge com "Além da Vida", lançado aqui no Brasil no começo do ano, uma das apostas ao Oscar, o longa só conseguiu uma indicação à "Melhores Efeitos Especiais" e marca um dos momentos mais fracos do diretor.

por Fernando Labanca

Na trama, conhecemos três histórias paralelas, todas elas com algo em comum, a vida de três pessoas que por alguma razão tiveram uma conexão maior com a morte. George Lonegan (Matt Damon) é médium, tem o dom de ouvir os mortos além de ser vidente, mas encara isso como uma maldição em sua vida e tenta a todo custo levar uma rotina normal, fugindo daqueles que o procuram, em uma dessas tentativas entra numa classe de culinária, é onde conhece Melanie (Bryce Dallas Howard) que logo rola uma boa química entre os dois. Marie (Cécile de France) é uma jornalista francesa que numa viagem acaba se deparando com um tsunami, um acidente natural que destrói toda uma região e mata milhões de pessoas, e quando ela é salva e acorda, acredita ter tido contato com a morte, acredita ter "morrido" e por algum instante ter presenciado a vida após a morte.

Em Londres, Marcus (George/Frank McLaren) perde seu irmão gêmeo ao ser atropelado, e que por ter uma mãe com problemas de bebida, vai para uma casa de adoção e nisso se vê completamente sózinho no mundo, e tenta de diversas maneiras "reencontrar" seu irmão. E assim, essas histórias se seguem, pessoas que de certa forma tentam se reeguer, encontrar uma nova forma de vida, mas sempre em conexão com a morte.


O roteiro é do elogiado Peter Morgan, o mesmo de "O Último Rei da Escócia" e "Frost/Nixon", e ao meu ver, tem um desempenho inferior a seus outros trabalhos. Há uma premissa boa, mas que infelizmente não consegue se manter ao decorrer das duas horas de filme, tudo parece ser arrastado, não pelo fato de ter um ritmo lento, mas por falta de conteúdo mesmo para preencher todo esse tempo. A impressão que tive, é que a história termina na primeira meia hora e até seu final, o roteiro se arrasta de forma cansativa. Nenhum personagem ali em cena prende a atenção e nenhum deles possui uma trama tão interessante que nos faça querer ver o final. Final, aliás, fraco, o filme nos faz entender que haverá uma ligação muito forte entre essas pessoas, de fato, até há, mas acontece de forma morna e longe de ser impactante e surpreendente. O formato até lembra um pouco aqueles do mexicano Guillermo Arriaga dos ótimos "21 Gramas" e "Babel", mas Peter Morgan esteve longe de conseguir o mesmo feito do roteirista.

Analisando "Além da Vida" se percebe que aqueles que o criaram pouco acreditavam naquilo que reproduziam na tela, no caso, na vida após a morte, tudo acontece de forma fria, George parece achar super natural "conversar" com mortos e Matt Damon não parece acreditar naquilo que fala e em nenhum momento expressa algum tipo de rancor pelo seu dom ao mesmo tempo em que diz sentir. O mesmo ocorre com Cécile de France que não nos faz acreditar em seus diálogos, não expressa dor por ter passado por um tsunami, não expressa pesar por estar perdendo sua carreira e não demonstra acreditar naquilo que a personagem acredita, não há garra da mesma forma que a personagem deveria ter. Os jovens atores Frank e George McLaren, até que se esforçam, mas o roteiro é tão frágil que não há espaço para eles emocionarem o público, o mesmo ocorre com todos os outros personagens. Dentre os atores destaco somente Bryce Dallas Howard, que faz uma participação mais do que adorável e consegue transmitir em apenas duas cenas, emoção, que nem Matt Damon nem Cécile de France conseguiram até o final do filme.

Entretanto "Além da Vida" não é um filme descartável, ainda há as boas mãos de Eastwood, logo, cenas muito bem feitas, faltou ritmo, mas em nenhum momento me fez querer desistir de vê-lo. mas não há nem comparação com seus trabalhos anteriores. A cena do tsunami foi incrível, a participação de Bryce Dallas, marcante, entre outros pequenos momentos que de certa forma chamam a atenção, há qualidade. A sequência de Marcus e George consegue emocionar de forma bem sutil, não vai muito além, mas marca um outro bom momento do longa. A trilha sonora é fraca é por vezes de gosto duvidoso, destaque para as boas locações, fazendo deste projeto um pouco maior do que ele realmente é. Em certo momento, o personagem de Matt Damon nos diz algo como "Viver uma vida centrada na morte, não é vida", tentei me prender nesta frase para compreender melhor o filme, e acredito que "Além da Vida" não seja um filme de espiritismo como muitos apontaram, é justamente sobre isso, sobre a mania que as pessoas tem de tentar encontrar respostas na morte, usar ela como desculpa para tantas coisas, se prender nela, sendo que é na vida que encontramos as respostas que precisamos, sendo que é em vida que encontramos os motivos para permanecer aqui.

NOTA: 6



domingo, 18 de julho de 2010

Crítica: Invictus (2009)

18 de julho, Nelson Mandela, representante do movimento anti-apartheid e ex-presidente da África do Sul, completa 92 anos. E no cinema, o líder, foi muito bem representado, com mais uma das obras-primas de Clint Eastwood, Invictus.

Um filme sobre um mestre, feito por um mestre.

por Fernando Labanca

Na década de 90, Nelson Mandela foi libertado após quase trinta anos preso, devido ao fato de ser um líder revolucionário que foi contra um dos mais injustos movimentos da história, o 'apartheid'. Saiu da prisão, e sentiu o que mais temia sentir, a África do Sul mudou, mas o sentimento das pessoas continua o mesmo, a de que existe em um só território duas raças, a dos brancos e a dos negros.

Decidido a mudar a história e fazer desse país um lugar mais justo, um lugar onde ele sempre sonhou viver, se candidatou a presidente, promovendo a paz em discursos comoventes, ele venceu e em 1994, Mandela mais uma vez se tornou líder, líder de um povo, do mesmo povo que há trinta anos lhe tinha colocado na prisão, os brancos.

Como primeira atitude, ele não manda embora os funcionários brancos de seu palácio, decide integrar as duas raças, logo que vários funcionários negros o seguiram. Até que, vendo a atual situação do 'rugbi', o esporte mais famoso do país e também o esporte mais branco da África, resolveu apostar no esporte, acreditando que essa poderia ser sua arma crucial para unir o povo, logo que a Copa Mundial de Rugbi estava prestes a chegar, entretanto, o time era fraco e muito criticado pela mídia.



Para isso, Mandela, vai atrás de Francois Pienaar (Matt Damon), o capitão do time, e passa a inspirá-lo, prova para o rapaz o quanto vencer um jogo é importante, e que precisa lutar e acreditar na vitória, e lhe entrega um poema, um poema que lhe deu força durante os anos de prisão. Mas nesses encontros, Nelson acaba ensinando muito mais ao capitão do time, como ter esperança, acreditar em coisas boas, ser otimista mesmo quando tudo ao seu redor lhe diz para não ser, e lhe fez refletir como era capaz um homem, mesmo depois de trinta anos, além de perdoar aqueles que lhe fizeram sofrer, ainda deseja o bem a eles e ainda luta para que isso aconteça.

O rugbi, cresce, ganha força, a África, enfim, ganha um time de verdade, e mais do que um time, ganham heróis, e os torcedores deixam de ter uma cor, e passam a ter algo em comum, como a esperança de ter a vitória, como a esperança de viverem em lugar melhor, onde não há mais divisões.

Uma história belíssima, baseada em fatos reais num período importante na vida de Mandela e que poucos conhecem, um exemplo raro de como o esporte pode interferir na política de uma forma positiva. E felizmente, a ótima ideia é transportada para o cinema de uma forma incrível pela mãos de Clint Eastwood. Ele simplesmente não erra, depois de uma brilhante sequência nas telas, como Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, A Troca e Gran Torino, o gênio do cinema, volta mais uma vez e com uma outra obra prima, um filme marcante.


A ideia não só é incrível, como também funciona bem nas telas. Poderia ter escorregado fácil, mas Clint consegue manter a tenção do público do início ao fim do longa, mesmo quando já sabemos do final, e a ideia principal já foi mostrada na primeira meia hora de filme. Mesmo assim, nos sentimos fisgados, hipnotizados por essa grande trajetória. É simplesmente, bem feito. Tudo parece surgir na hora certa e da forma certa. A trilha sonora, diga-se de passagem, muito diferente dos filmes de Eastwood e a fotografia ajudam bastante. É um dos filmes mais diferente que ele já ousou fazer, é mais alegre que os demais, nos sentimos esperançosos e não angustiados e deprimidos como os anteriores.

Morgan Freeman. O que dizer desse grande ator? Constrói uma personagem incrível, Nelson Mandela foi muito bem representado por ele, outro gênio do cinema. Foi uma das melhores atuações de Freeman nos últimos anos, logo que as semelhanças com outros personagens de sua carreira, são minímas. Matt Damon também merece destaque, mais uma vez está incrível na tela, e mais uma vez acerta no projeto em que se envolve, é interessante como ele aparece no filme, sua personagem é um capitão de rugbi e Damon encarna isso com perfeição, não surge como sendo um astro no campo do esporte, surge como um jogador qualquer, faz parte daquele time e durante os minutos do longa, acreditamos nisso.

Não é um filme tão empolgante quanto os demais da brilhante carreira de Clint Eastwood, ainda sim é incrível, mas não é como Menina de Ouro, por exemplo, que ficamos paralisados, sem respirar, e ficamos pensando horas e horas na história, uma marca de Clint. É um filme mais família, classificação livre, sem cenas marcantes de tirar o fôlego. Mas ainda vale muito a pena, com toda a certeza, como já disse anteriormente, o diretor acerta mais uma vez. Um filme que merece ser assistido, não só por ser um ótimo filme, mas pela trajetória de Nelson Mandela, que esse sim, deve ter se sentido orgulhoso.

NOTA: 9


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