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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Crítica: Os Vingadores (The Avengers, 2012)

Avante, Vingadores!

por Fernando Labanca

Um dos filmes mais aguardados do ano, não só pelos nerds aficionados pelas HQ's, mas pelo público geral que desde a estréia de "Homem de Ferro 2" em 2010 está a espera do tão comentado "Os Vingadores". Filme que reúne alguns dos heróis mais conhecidos, como Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk, onde cada um teve seu filme solo dando pistas sobre esta obra, que já é aclamada, não só pelo público, mas pela crítica. É baseado nas HQ's da Marvel, criação de Stan Lee, Jack Kirby e Dick Ayers, nasceu na década de 60, como uma resposta do estúdio para a Liga da Justiça, da DC Comics. 

Com a direção de Joss Whedon, já conhecido pelo mundo nerd, por ter escrito para a série "Buffy- A Caça Vampiros" na década de 90, além de seus roteiros para filmes como "Toy Story" e "Alien: A Ressurreição" e que só teve a oportunidade de seguir na direção em 2005, com o filme "Serenity", lançado diretamente nas locadoras, aqui no Brasil. Portanto, é um cara entendido do assunto, e além de dirigir, escreveu o roteiro ao lado dos próprios criadores da HQ!

Vemos na tela, o encontro desses heróis. São chamados pela SHIELDS, a pedido de Nick Fury (Samuel L.Jackson), que tem como missão reunir esses homens poderosos para salvar a Terra, pois ela está ameaçada com a chegada de Loki (Tom Hiddleston) que tem nas mãos o Tesseract, uma fonte de energia com potencial desconhecido e deseja dominar o mundo. Viúva Negra (Scarlett Johansson), Capitão América (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) são convocados para a missão, porém eles contam com um grande reforço, Bruce (Mark Ruffalo), o Hulk. Mas os problemas familiares continuam quando Thor (Chris Hemsworth) retorna de seu mundo para impedir que seu irmão, Loki continua com seu plano.



A grande sacada de "Os Vingadores" foi ter reunido esses heróis em um só filme. Parecia até algo impossível de se fazer. Mas conseguiram. É um prato cheio para os nerds e para o público que esperava ansiosamente este momento nada menos que épico. E temos o prazer de ver cada herói em cena, pois cada um tem seu espaço dentro da história, alguns são melhores desenvolvidos que outros. Mas no fim das contas, o que acaba valendo a pena mesmo é ver as cenas de ação e aventura, comandadas com capricho por Joss Whedon, como as cenas finais que são de tirar o fôlego, é um deleite vê-los juntos, lutando como uma equipe. Ou até mesmo as pequenas batalhas que acontecem entre eles mesmos, como a interessante sequência da luta entre Thor, Capitão América e Homem de Ferro. Até mesmo Hulk, que teve momentos ruins no cinema, surge melhorado, em boas cenas de ação. O que dizer então de Viúva Negra e sua agilidade em acabar com o inimigo? Os efeitos especiais são de cair o queixo. É tudo muito bem feito e muito bem encaixado nas cenas, acredito que o diretor soube fazer bom proveito da tecnologia e construiu sequências agradáveis aos olhos. Auxiliado ainda pela trilha sonora, nada memorável, mas que faz bem seu papel, composta por Alan Silvestri.

O problema é que a história é simples. Eu diria, simples até demais. Acredito que eles criaram uma propaganda enorme em cima do filme, era de se esperar algo a altura dessa propaganda e infelizmente não aconteceu. Tudo é muito simples. O vilão que quer dominar o mundo e os heróis que surgem para salvar a Terra e blá bla blá. Acho que já vi isso em muitos filmes e eles nem se preocuparam em criar algo novo ou pelo menos repetir os clichês numa história melhor contada. Até as duas horas de filme nada realmente acontece. Colocam os heróis em cena, fazendo piadas, algumas funcionam, outras não, mas enfim, estão lá a todo tempo, eles discutem como crianças e depois partem para a briga e o filme fica assim até que eles resolver agir na cena que é a final, ótima por sinal, mas numa batalha que não sai de uma avenida. Tudo muito pequeno para um filme de super-herói. Para piorar as personagens são meros fantoches para as batalhas, surgem como personagens desinteressantes, como se o roteirista tivesse pensado "bem, já que todos eles tiveram um filme solo, porque perder tempo criando mais uma história para cada um deles, vamos colocar eles em brigas e o público vai gostar". Pois bem, o público gostou. Mas não acho que só porque é um filme de herói eu não possa esperar uma história interessante e isso não acontece. Os personagens não possuem nada, estão ali para lutar, apenas. Filmes como todos de "X-Men" e "Watchmen" souberam dar espaço para inúmeros heróis e ainda conseguir escrever uma história digna para cada um deles. E é válido citar a belíssima adaptação de Christopher Nolan para Batman, que é um blockbuster, mas que faz o público pensar.

Ainda na história há várias falhas imperdoáveis e um tanto quanto bizarras. Hulk é de fato, um dos personagens mais interessantes desse filme, isso porque é interpretado por Mark Ruffalo, só por isso. Mas o personagem tem suas falhas. Em uma cena ele não consegue controlar o Hulk, sai quebrando tudo e tenta até mesmo matar uma aliada, na outra cena, ele revela seu grande segredo, ele consegue controlar o monstro que há nele, incrível, não? E o poder patético de Loki em controlar as pessoas, deixando elas a seu favor, mas que são libertas dessa "maldição" com um golpe na cabeça e do nada mudam de lado, como aconteceu com o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Loki, por sua vez, perde a força que teve no filme "Thor", se torna um vilão vazio, e graças ao roteiro participa de cenas lamentáveis como quando ele faz as pessoas se ajoelharem para ele. O Homem de Ferro tem toda a atenção voltada para ele, isso porque ele é Robert Downey Jr, pois o personagem não faz nada o filme inteiro, está em cena para mostrar seu humor sarcástico. Por falar nisso, há um humor exagerado no longa, o fazendo perder ainda mais sua credibilidade, piadas atrás de piadas e nenhuma situação é levada realmente a sério. Uma pena. Por outro lado, algumas funcionam perfeitamente e caem bem a determinadas cenas.

Quanto as atuações, piloto automático total. Robert Downey Jr interpreta Robert Downey Jr. Chris Evans até se esforça, mas infelizmente seu personagem tem pouco espaço. Chris Hemsworth só aparece lutando e gritando com alguém, fraco e seu Thor parece inútil no meio dos heróis. Scarlett Johansson está linda como sempre, seduz mesmo quando não tem a intenção, mas não se esforça, mas está bonita e é o que parece importar para compor Viúva Negra. Os destaques acabam ficando para Mark Ruffalo, não só por ser o melhor dentre todos os atores, mas por ter conseguido inovar na composição de seu personagem, não repetindo o que outros atores já fizeram. Além dele, Tom Hiddleston se esforça como o vilão Loki e convence. No elenco ainda nomes como Samuel L.Jackson, Jeremy Renner e Stellan Skarsgaard, tirando o último, todos no automático também. Temos ainda Clark Gregg, como o agente Phill, bem em seu papel, representando os fãs dentro do filme. E para minha surpresa um rosto conhecido dentre os nerds que surge sem grande importância na trama, mas é muito bom vê-la em cena, Cobie Smulders, a Robin do seriado "How I Met Your Mother", como a agente Maria Hill.

"Os Vingadores" não vai muito além de um blockbuster com ótimos efeitos visuais e sonoros. Sei que se trata de um produto de massa, mas mesmo assim, ainda procuro inteligência num filme e algo me faça pensar. Não acredito que só porque seja um blockbuster preciso desligar meu cerébro e aceitar tudo o que venha a minha frente. Sei também que faço parte de uma minoria, logo que muitos o estão aclamando e dizendo que este é "o melhor filme de herói de todos os tempos". Não acredito nisso, pelo contrário, para conquistar este termo, o filme precisa no mínimo conseguir contar uma história decente e este esteve bem longe disso. Em suma, uma obra que diverte e que vale a pena levar os amigos para o cinema num final de semana, pois dentro de sua proposta até que funciona, consegue entreter, mas não vai além disso, não vai além do que se espera dele. Entretenimento puro, que não exige reciocínio, muito barulho e quase nada de conteúdo!

NOTA: 6,5 


[Crítica: Homem de Ferro2]
[Crítica: Thor]
[Crítica: Capitão América]


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Crítica: Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Ano passado assistimos ao retorno de grandes diretores como Terrence Malick (A Árvore da Vida), Pedro Almodóvar (A Pele Que Habito) e Lars Von Trier (Melancolia). 2012 começou e o que o cinema ganha é a volta dupla de Steven Spielberg, com a animação "As Aventuras de Tintim" que estréia nesta sexta e o drama épico "Cavalo de Guerra". Spielberg, um dos grandes nomes da indústria cinematográfica, não dirige um projeto desde 2008 com o último "Indiana Jones", mas pode-se dizer que não apresenta um trabalho notável desde 2005 com o excelente "Munique". E neste drama temos a prova de que o bom e velho Spielberg está de volta.

por Fernando Labanca

"Cavalo de Guerra" nos mostra a trajetória do cavalo Joey, tendo como cenário a Primeira Guerra Mundial. Sua jornada inicia-se ao lado da família Narracot, na Inglaterra, início do século XX, que moram e desenvolvem seu próprio sustento em uma fazenda alugada, propriedade de um homem sem escrúpulos (David Thewlis). Ted (Peter Mullan), o pai, que tem problemas com bebidas, decide enfrentar seu proprietário em um leilão de cavalos, oferencendo mais do que podia em um cavalo fora dos padrões e que em nada poderia ajudar na fazenda. É quando seu filho, Albert (Jeremy Irvine) tão encantado pelo animal resolve treiná-lo e ensiná-lo a arar as terras do terreno, criando, então, um laço muito forte com ele. 

Até que os ensinos ao cavalo não são capazes para pagar as dívidas da família, é então que Ted decide vendê-lo para o exérito britânico quando a Guerra é enfim anunciada. Para a infelicidade de Albert que vê seu amigo sendo vendido, servindo como transporte para os soldados. Vemos a partir de então, a trajetória de Joey por esta batalha, sua ida para França, até quando é capturado pelo exército alemão, e sem querer, acaba que inspirando cada um que encontra, e ele se torna um ser privilegiado, único capaz de enxergar a bondade que aflora em cada pessoa neste cenário tão frio e violento. 


"Cavalo de Guerra" funciona quase como um conjunto de crônicas sobre a Primeira Guerra Mundial, tendo um único protagonista, o cavalo Joey. E tendo os olhos do animal como o olho do público, vemos várias histórias que vão se costurando e formando toda a trajetória do cavalo. Seja seu primeiro dono e amigo fiel, Albert, até as próximas pessoas que decidem no meio do caos da guerra protegê-lo de alguma forma, o soldado valente (Tom Hiddleston), o jovem inocente que não divide os mesmos ideais que seu exército (David Kross), a menina órfã que perdera tudo e encontra em Joey uma nova esperança, entre outros que veem no cavalo o nascer de um novo sentimento, a beleza que não se enxerga numa guerra sem fundamento, o amor inocente de uma amizade que se perde no meio de tanto sangue. É isso que o roteiro bem desenvolvido de "Cavalo de Guerra" explora, refletindo a idéia de que o meio em que o homem se situa não revela seu verdadeiro caráter, e naquele cenário caótico, descobrimos através de um animal a essência de cada ser humano que cruza seu caminho, onde os ideais daquela guerra não eram os mesmos de todos aqueles que lutavam por ela. 

Para nos mostrar a história, Spielberg optou por um elenco desconhecido do grande público, dentre os mais conhecidos vemos Emily Watson, com seu olhar intenso, ótima em cena, e David Thewlis, bem, apesar de estar em uma personagem um pouco caricata. O jovem Jeremy Irvine com mais destaque na trama, tem espaço para brilhar, e consegue, e convence em sua performance. Ainda vemos no elenco nomes como David Kross (O Leitor) e Tom Hiddleston (Thor), bons em cena. Por outro lado, vemos personagens que às vezes soam forçadas por algumas atitudes, como o pai Ted (Peter Mullan) que nunca sabemos ao certo o que se passa em sua mente, ora quer o cavalo, ora não quer mais, ou a relação entre Joey e Albert que parece não haver um processo, o jovem se apaixona pelo animal desde o primeiro olhar, e apesar da atuação convincente Jeremy Irvine, esse amor parece forçado, consegue emocionar, mas é tão intenso que foge da realidade. Ou o sargento "malvado" que se derrete do nada ao ver o animal e seu dono no meio da guerra. Enfim, o que me pareceu em algumas passagens foi a necessidade de tentar emocionar o público sem pensar na necessidade de ser coerente.

A trilha sonora de John Williams, mais uma vez trabalhando em um projeto de Spielberg, é soberba. É realmente bela e tem papel fundamental na trama. No entanto, com o auxílio desta mesma trilha sonora, o diretor tenta com todas as suas forças emocionar o público. De fato, "Cavalo de Guerra" é um filme emocionante, simplesmente por sua história e sua bela conclusão, porém Spielberg parece não apostar tanto no potêncial do roteiro e força na trilha de Williams o nascimento de um drama que muitas vezes não existe. Nisso, é onde tembém surgem os já citados personagens que forçam este drama, sem precisar, a trama por si só já era interessante e comovente. Mas no geral, a fórmula acaba funcionando, mais uma vez, porque a idéia do projeto é boa. Confesso que tive um certo receio por se tratar da história de um cavalo, o cinema já fez isso antes e admito não ter gostado muito dos resultados. Para minha surpresa, "Cavalo de Guerra" é bem mais que a história de um cavalo, tem uma história bem desenvolvida capaz de prender a atenção do público mesmo se tratando de 146 minutos, minutos, aliás, muito bem preenchidos. 

Com sua bela fotografia e um certo amadurecimento de Steven Spielberg (se é que isso era possível), o diretor prova aqui ser um dos melhores, e consegue, na tela, fazer uma espécie de homenagem ao cinema. Ele vê nesta trama o momento perfeito para mostrar ao público sua admiração e seu conhecimento sobre a sétima arte. Seja pela inocência da história, a maneira como ele captura cada cena, nos remetendo sempre a um cinema antigo, é tudo muito nostálgico e consegue trazer beleza nisso. Ainda vemos a fotografia, com suas cores fortes e exageradas, aquele céu alaranjado que me lembrou e muito o fundo de "E o Vento Levou..." e todo aquele cinema daquela época que acabara de descobrir a cor. Com esta bagagem em mente, inspirado como nunca, Steven Spielberg consegue construir cenas, diria até, antológicas, como quando os soldados em território francês fixados em suas trincheiras se lançam ao ataque, ao som de uma gaita de fole, enfim, não há palavras para descrever a beleza desta sequência, ou quando o cavalo Joey, já na parte final, corre em meio a ataques e explosões, e se prende em arames farpados, é onde dois soldados inimigos se unem para salvá-lo, sem contar todas a cenas de batalha, perfeitas!. Em suma, "Cavalo de Guerra" é admirável, seja pela incrível direção de Spielberg, seja pela construção de cenas memoráveis ou pela simples comoção que a trama nos proporciona. 

NOTA: 8,5




terça-feira, 26 de julho de 2011

Cinema: Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)

Abertura oficial no Festival de Cannes este ano, "Meia Noite em Paris" mostra o retorno de um dos diretores mais aclamados do cinema atual, Woody Allen à Paris, onde filmou parte de "Todos Dizem eu Te Amo" de 1996. Pelos olhos do diretor, a cidade se transforma num palco mágico, onde ele brinca com a realidade e faz um de seus trabalhos mais interessantes dos últimos anos.

por Fernando Labanca


Para quem acompanha a carreira do diretor, sabe que a cada novo trabalho o cenário é um ponto muito importante para suas histórias, funcionam quase como um novo personagem, assim foi com Barcelona em "Vicky Cristina Barcelona", Londres em "Match Point" ou Nova York em "Annie Hall". O palco desta vez é Paris, a cidade das luzes, o lugar dos apaixonados, onde o diretor e roteirista parece ter encontrado uma fonte rica de inspirações.

O escolhido para viver o Woody Allen da vez foi Owen Wilson, que interpreta Gil Pender, um escritor que trabalha para Hollywood, o que lhe causa uma certa frustração pois acredita não colaborar muito para a arte e a verdadeira literatura, com isso, passa por um certo bloqueio criativo para criar seu mais novo projeto, até que para aliviar a tensão viaja ao lado de sua noiva, Inez (Rachel McAdams) e os pais dela (Kurt Fuller e Mimi Kennedy) para Paris, a cidade na qual ele tem uma grande admiração, não para de falar o quanto ele admira os autores da década de 20 de Paris, a época e local que ele adoraria ter vivido, a cidade sob a chuva, as luzes da noite e toda aquela vida cercada por cultura e cercado pelos gênios que hoje só se conhece nos livros de história.

Até que certa noite, convidado por estranhos a entrar num carro antigo, Gil se vê rodiado por figurinos de outra época, é quando chega em uma grande festa e se dá conta que o carro o levou para realizar seu grande sonho, viver a década de 20. Lá, ele conhece seus ídolos, Ernest Hemingway (Corey Stoll) que lhe apresenta a mulher que colabora com sua obras, Gertrude Stein (Kathy Bates) que também passa a auxiliá-lo no seu projeto, além de ter contato com F.Scott Fritzgerald (Tom Hiddleston) e ver de perto a conturbada relação com sua mulher, Zelda (Alison Pill). É onde também conhece Adriana (Marion Cotillard), uma estudante de moda e musa inspiradora de artistas como Picasso e Georges Braque, que logo se apaixona por ela, o que acaba complicando sua vida, e se vê dividido entre viver o presente ou o passado, além de todo este ambiente nostálgico lhe fazer refletir sobre suas escolhas, sobre sua vida e seu trabalho.


Assim como Gil certa vez comenta em sua viagem, que a arte é o antídoto para a realidade, é aquilo que as pessoas usam como forma de escape, Woody Allen leva essa teoria ao pé da letra, ao colocar um personagem tão insatisfeito com sua vida, numa época onde ele sempre acreditou encontrar seu verdadeiro "eu", no caso, na Paris da década de 20. A cidade, então, se torna palco de uma fantasia, nada menos que deliciosa e criativa, e assim como em outros trabalhos de Woody, ele consegue mais uma vez inserir fantasia na realidade de forma natural, sem parecer forçada, e o resultado é mais do que positivo, o roteiro nos teletransporta para a época junto com Gil, e o cinema de Woody Allen em "Meia Noite em Paris" cumpre sua mais importante e crucial função, nos fazer viajar, fantasiar, nos fazer esquecer durante alguns minutos, por completo, da nossa realidade, nos faz querer estar ali, presenciar aquilo.

A história me surpreendeu, nunca havia lido muito sobre a obra, o que foi ótimo, pois a literal viagem de Gil Pender me fez viajar junto e admirar cada detalhe mostrado na tela. Ver Picasso como um ser humano normal, Salvador Dali na impecável atuação de Adrien Brody, exatamente como o lunático como o conhecia nos livros, além de outros que conhecia somente por obras como Henri Matisse, Scott Fritzgerald e Luis Buñuel como se fossem pessoas normais passeando em Paris. É divertido, original e querendo ou não, hipnotizador. É interessante alisar toda essa idéia e ver que hoje muitos pensam da mesma forma, quantas pessoas já me disseram "queria ter nascido em outra época", este tipo de comentário é muito comum, é exatamente isso que Woody Allen questiona em seu trabalho, o porquê da realidade nunca ser o suficiente, por que as pessoas sempre acreditam que seriam mais felizes se estivessem em outro tempo.

Como todo trabalho de Woody Allen, não espere uma grande reviravolta no final, ou um final surpreendente, a história mais uma vez é linear, com a presença de alguns pontos que vão alterando o caminhar dos acontecimentos, mas sem um clímax. É de se esperar um clímax em qualquer filme, mas vindo de Allen, já é de se esperar que não tenha, então meio que este fato não decepciona tanto. Dessa vez, o diretor caprichou em outros elementos, como locações e figurinos, consegue com perfeição mostrar cada época ali retratada, o que faz dessa "viagem" ser mais prazerosa. A trilha sonora é a mesma de sempre.

Ver Owen Wilson como protagonista havia muito tempo que não era tão bom. O ator se mostra bastante habilidoso no texto de Allen, devido a sua ótima performance a comédia acontece, ele nos mostra através de suas expressões toda sua admiração, loucura, felicidade e paixão por presenciar tudo aquilo e graçás a isso, a brincadeira funciona. Marion Cotillard é sempre fantástica, está linda e bastante a vontade no papel. Rachel McAdams domina bem o texto também, tem presença marcante, mas numa personagem um tanto quanto incompreendida, é chata, e passa o filme inteiro reclamando, assim fica fácil demais imaginarmos o porquê de Gil ter se apaixonado por outra. Coadjuvantes de peso aparecem em participações como Adrien Brody, fantástico em apenas uma cena, Kathy Bates mais uma vez ótima, Michael Sheen sempre versátil, sempre mostrando uma nova faceta e sempre surpreendendo. Ainda há Tom Hiddleston, o Loki do recente "Thor", se mostrando uma ator promissor, contracenando com uma jovem atriz que vem chamando bastante a atenção, Alison Pill. E ninguém mais que Carla Bruni fazendo uma guia de um museu, pequena participação e que não altera o resultado.

"Meia Noite em Paris" marca sem sombra de dúvida, um bom momento da carreira de Woody Allen, é um filme fantástico que mostra o cinema em ótima forma, mostrando que ainda há espaço para obras de qualidade e que o talento deste diretor e roteirista não ficou no passado, é um gênio que consegue se reinventar a cada trabaho. Uma obra que não é feita somente de referências, há conteúdo, há uma história bem contada que prende a atenção, além de contar com a presença de um grandioso elenco. Recomendo.

NOTA: 9






+ Woody Allen
[Annie Hall, Todos Dizem Eu Te Amo, O Escorpião de Jade, Tudo Pode Dar Certo]
[Manhattan, Melinda e Melinda]

domingo, 15 de maio de 2011

Cinema: Thor

Mais um herói da Marvel chega aos cinemas para preparar o terreno do tão comentado "Os Vingadores". Mas felizmente, "Thor", para minha surpresa, vai mais além do que só mais um filme de herói e mais do que só uma ponte para futuros projetos.

por Fernando Labanca

Numa introdução impecável, rápida e objetiva, conhecemos o Reino de Asgard, liderada por Odin (Anthony Hopkins) que tem em suas mãos aquele tão famoso martelo, onde mantém todo seu poder. Entretanto, seu destino era entregar, em determinado momento, seu poder para um de seus filhos, Thor (Chris Hemsworth) ou Loki (Tom Hiddleston). Quando os dois completam a idade suficiente para comandar Asgard, Odin faz sua escolha, entregando o poder à Thor.

Porém, haviam outros reinos que durante muitos anos viveram em guerra, houve, então, um decreto de paz, e que exatamente na comemoração de Thor, um dos reinos quebra este contrato, o reino de Jotunheim, habitado pelos Gigantes do Gelo, invadindo Asgard. Thor, então, como primeira atitude de um Líder, vai a Jotunheim com seus companheiros reagir a ofença, quebrando de vez o contrato de paz, levando a fúria de Odin, que retira seu martelo, lhe retirando todos seus poderes e lhe expulsando de Asgard, o levando para a Terra.

Na Terra, conhece uma equipe de pesquisadores, Jane (Natalie Portman), o professor Andrews (Stellan Skarsgard) e a estagiária Darcy (Kat Dennings), que ao procurarem, através de satélites, alguns mistérios vindo do céu, se deparam com este ser estranho e se assustam com sua personalidade nada humana, machão, grosseiro e se "achando" o herói. O martelo, por sua vez, foi parar na Terra também, lançado pelo próprio Odin, onde o homem que conseguir recuperá-lo será digno de tal poder. Nisso, a S.H.I.E.L.D entra em ação, através de seu principal agente (Clark Gregg), botam um fim nas pesquisas da equipe de Jane e montam uma complexa estrutura ao redor do martelo, preso num concreto.

Thor, então, tenta reencontrar o objeto que lhe devolveria os poderes, e conta com a ajuda de Jane, que já não havia mais o que perder, ao mesmo tempo que tenta compreender a vida deste ser nada previsível. Enquanto isso no Reino de Asgard, Loki começar a armar um grande plano para ter enfim, o que ele sempre desejou, o poder para si, nem que para isso, tenha que dar um fim em seu próprio pai ou enviar seres do mal em busca de seu irmão. Percebendo, então, que a Terra seria palco de terríveis acontecimentos, Thor decide agir e descobrir e verdadeiro sentido de ser um herói.


O roteiro funciona, nunca li nenhuma HQ, e não me senti perdido na história, o filme consegue conquistar um novo público, levando a trajetória deste herói criado por Stan Lee para aqueles que não conheciam e facilmente entrarão neste universo. O roteiro consegue aproveitar muito bem seus minutos, nos apresentando seus personagens com competência, nos envolvendo com cada um deles, conhecemos suas tramas, seus conflitos, e toda a história é muito bem desenvolvida, não se prendendo nas cenas de ação e muitos efeitos, mas se preocupando mesmo em nos mostrar quem é Thor.

A direção de Kenneth Branagh (Hamlet) é incrível, faz deste filme algo maior. Os ângulos em que ele capta as imagens, a maneira como ele nos guia, é tudo muito diferenciado, consegue trazer beleza para sequências simples, como a que Thor tenta sob o cair da chuva retirar seu martelo do concreto, era para ser só mais uma cena, mas não foi, entre outras passagens em que ele consegue transformá-las em belas imagens. Ajudado com a boa fotografia, e a ótima construção dos cenários, as sequências que ocorrem "nesses reinos" são fascinantes, e é claro, não poderiam faltar, os ótimos efeitos especiais, que não decepcionam. Outro ponto positivo é o humor, muito bem inserido, há cenas realmente engraçadas.

Chris Hemsworth como Thor surpreende, simplesmente por ser um ator novato, mas mesmo assim, deu conta do recado, soube carregar a responsabilidade de ser o protagonista e encarou seu personagem de frente, convense, consegue passar todo aquele jeitão "machão", mas sem perder o carisma. Natalie Portman sempre boa, mas Jane poderia ter sido interpretada por qualquer atriz começo de carreira, não precisava ser ela, só mais um nome para estampar nos cartazes, é como se Natalie fosse boa demais para o papel, mas mesmo assim, não decepciona. Do restanto do elenco, se destaca Anthony Hopkins, com uma força que não via há muito tempo no ator, uma vontade de fazer algo de qualidade, e conseguiu, encarna Odin com perfeição. Outra revelação é Tom Hiddleston, que interpreta o vilão Loki e surpreende e muito, incrível em sua performance, levando em consideração, que a construção de seu personagem foi um dos pontos positivos da trama, um dos bons vilões que surgiram no universo dos heróis...

"Thor" é um filme completo, boa história, direção segura, bons atores no elenco, interpretando bons personagens, além de uma parte técnica impecável. Efeitos especiais na dose certa, respeitando tanto aqueles que curtem uma boa aventura, quanto aqueles que esperam um pouco mais de conteúdo. O filme empolga, há sequências de brilhar os olhos, e ainda um final que não é tão previsível. A comparação com os outros filmes da Marvel é inevitável, é de longe superior a todos os filmes do "Hulk", porém fica lado a lado quando comparado a "Homem de Ferro", diria que é tão bom quanto. Mas isto falando na primeira aventura de Tony Stark, se comparado a segunda parte, "Thor" é muito melhor. Peca pelo excesso de "S.H.I.E.L.D" no roteiro e a toda hora querer justificar os meios que levarão a "Os Vingadores", mas tirando isto, o filme é ótimo, recheado de bons momentos. Não me decepcionou e acredito que não irá decepcionar muita gente também. Enfim, recomendo, entretenimento de qualidade!

NOTA: 9


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