segunda-feira, 4 de março de 2013

Crítica: A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012)

Kathryn Bigelow, diretora que ficou conhecida com seu filme vencedor do Oscar, "Guerra ao Terror", retorna revelando mais uma vez seu patriotismo, porém, trazendo em sua trama uma grande polêmica, a caçada do Bin Laden. Logo, um filme poderoso e bastante ousado em sua proposta.

por Fernando Labanca

Muito antes de ser lançado, o novo projeto de Kathryn Bigelow conhecido como "Kill Bin Laden" já era um assunto polêmico. Mark Boal, o roteirista, tinha acesso às atividades dos oficiais responsáveis pela tal execução, onde sua ideia inicial era apenas mostrar o fracasso da CIA pela busca do terrorista. A história foi alterada quando a realidade levou outro rumo, Bin Laden foi encontrado e morto. A partir de então, muito se falava sobre esta produção que mostraria o que os noticiários não mostravam e com seu lançamento, tanto Bigelow quanto Boal passaram a ser investigados pelo Departamento de Defesa dos EUA, pois sabiam demais, possuíam informações mas que segundo a CIA, eram falsas. E acabam criando ainda mais polêmica quando inserem na trama cenas de tortura, ato sempre negado pelos envolvidos no caso. Por fim, "A Hora Mais Escura" acabou não tendo a repercussão que esperavam, passou despercebido pelo Oscar, ganhando apenas em uma categoria técnica, a de melhor edição de som (ainda assim, empatando com "Skyfall"), logo, as investigações foram canceladas e será visto apenas como um produto da sétima arte, onde jamais saberemos até que ponto é real e até que ponto é fantasia. 

No filme, somos apresentados a Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA que é enviada ao Paquistão para descobrir, ao lado de sua equipe, o paradeiro de Osama Bin Laden. O longa acompanha as investigações durante uma década inteira, e vemos as falhas do grupo, os erros que eles cometem até chegar onde queriam. Sem saber se algo daria certo, Maya se joga completamente nesta perseguição e ao se deparar com tantas reviravoltas neste caso, passa a ver esta missão como uma missão pessoal, um desejo quase que obsessivo em encontrar o terrorista.


Kathryn Bigelow demonstra logo nas primeiras cenas sua familiaridade com o assunto e prova compreender cada passo, cada cenário, nos insere dentro das investigações logo que cada pequeno detalhe em cena demonstra um alto nível de verossimelhança, é então que vemos o quão talentosa esta diretora é. Sendo mentira ou não, a questão é que tudo é mostrado de forma bastante realista, é um processo gradual, por vezes até, cansativo, no entanto, é tão real que durante seus 157 minutos tudo aquilo passa a ser verdade, pelo menos para nós, como público. Ter Maya como protagonista é mais um acerto do roteiro, é diferente ver no cinema uma mulher tão poderosa a frente de uma missão tão importante como esta, se já é tão incrível ter uma mulher por trás das câmeras guiando uma trama sempre mostrada pelo ponto de vista masculino, melhor ainda é ter uma personagem feminina a frente de tudo. E assim como em "Guerra ao Terror", Bigelow nos apresenta uma guerra de forma mais natural, mais real, sem explosões e poucos barulhos, mas sem deixar de ser hipnotizante, interessante ao nosso olhar. 

O grande momento do filme, sem sombra de dúvida, é sua parte final. Seus últimos quarenta minutos são eletrizantes, a caçada do Bin Laden prende nossa atenção, mostrando a versatilidade da diretora, capaz de guiar muito bem uma grande cena de ação e suspense. Com seus cortes e sua edição, a composição de "A Hora Mais Escura" é um trabalho de grande qualidade, somado ainda a boa trilha sonora de Alexandre Desplat. Ainda não é melhor que "Guerra ao Terror", natural compará-los logo que possuem uma temática e formato bem parecidos, por mais que eu tenha gostado deste, houve algumas cenas que me incomodaram. Para começar, sua longa duração, confesso que foi difícil aturar algumas sequências, como disse anteriormente, é tudo muito gradual, e até seu final vemos na tela intermináveis discussões, as reuniões da CIA, a procura por pistas, diálogos que nem sempre despertam interesse. Apesar de ter gostado do fato de ter uma protagonista feminina, Maya definitivamente não é uma grande personagem e vejo nela o pior defeito do filme. A dondoca que de início não se sente a vontade, logo depois passa a levar a missão nas suas costas, parece não entender muito o que se passa e incomoda ainda mais quando age como se a missão fosse sua, age como uma adolescente irritadinha que não vai descansar enquanto não terminar o que começou. A impressão que tive é de uma personagem de outro filme colocada ali, sem contexto, parece não se encaixar em nada, a atriz Jessica Chastain até se esforça, mas não convence tanto, ainda mais nas suas cenas de "fúria", uma personagem fraca, que até evolui durante a trama, mas ela é tão vazia, pequena demais para o que deveria representar. Ainda no elenco, temos poucos nomes conhecidos, todos ótimos, aliás, como Jennifer Ehle, Mark Strong, Kyle Chandler e Chris Pratt.

A Hora Mais Escura" parece ter incomodado muita gente, provavelmente nasceu para incomodar, até porque muitos apontam como informações falsas, nada disso realmente aconteceu. É tudo muito verossímel, relatado em tom documental, sério e de forma bastante madura, acredito que por isso é tão difícil de discernir o que é real e o que não é, até que ponto sua "falsa verdade" é um defeito ou uma qualidade. Não acho tão nobre Kathryn Bigelow e Mark Boal se apropriarem de uma situação tão recente e real, incomoda até pensar em como eles conseguiram tais informações para o filme e vendê-lo como "verdade". Por fim, prefiro vê-lo como uma obra de ficção, com personagens e situações fictícias, logo que, querendo ou não, é muito bem realizado, um filme de ação e suspense de grande qualidade, um thriller político que mostra uma CIA longe dos clichês, sem aquele antigo glamour de seus agentes, e mesmo sabendo de seu final, nos prendemos a sua trama para conhecer como tudo aconteceu, apesar dos defeitos, vale a pena conferir.

NOTA: 7,5






2 comentários:

  1. Sérgio Medeiros6 de junho de 2013 18:37

    Gostei também,há horas em que se torna cansativo,mas, no geral , é uma boa película.

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