quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Crítica: Frances Ha (2013)

Noah Baumbach é um dos mais renomados roteiristas de Hollywood, isso devido as bem sucedidas parcerias com o diretor Wes Anderson, e principalmente pelo elogiado “A Lula e a Baleia” (2005), que também dirigiu. Ficou muito tempo afastado da direção, eis que ele retorna com todo o êxito e prestígio que possuía ao início de sua carreira, toda originalidade e aquele frescor do cinema indie que ele ajudou a consolidar retornam aqui. "Frances Ha" é um evento, já se tornou cult mesmo com o pouco tempo em que ficou em cartaz nos cinemas. A obra, que é uma comédia em preto e branco, também consagra Greta Gerwig como a mais nova musa indie, além de provar, mais uma vez, seu inegável talento como atriz. 

Por Fernando Labanca

Frances (Gerwig) é uma mulher de trinta anos, mas ainda não se encontrou. Vive distante de sua família, não tem uma vida profissional estável e acaba de terminar seu namoro, isso porque ela nega ir morar com ele em seu apartamento, devido ao fato de já dividir um lugar com sua melhor amiga, Sophie (Mickey Summer). Elas são inseparáveis, essa é a única certeza que Frances tem em sua vida. Eis que Sophie decide sair do apartamento para ir morar com outra garota num lugar melhor, colocando em cheque a amizade entre as duas. A partir de então, Frances que trabalha em uma companhia de dança, tenta de diversas formas ganhar mais dinheiro e conseguir, no mínimo, pagar suas contas, passando a morar em outros apartamentos, conhecendo outras pessoas, vivendo novas experiências, sempre com sua visão única sobre a vida, sempre acreditando no melhor, sem se importar com o fato de que ela é uma eterna criança incapaz de resolver seus problemas. 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Crítica: Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe, 2011)

William Friedkin é um nome de peso na história do cinema, foi o responsável por dirigir o clássico “O Exorcista” e desde então, porém, escolheu por trilhar um caminho não tão óbvio em Hollywood, esteve sempre distante dos holofotes, realizando alguns projetos bastante desconhecidos do grande público, tendo até uma filmografia curta pela longa carreira que tem. Eis que ele retorna, aos 77 anos de idade, provando que ganhou muita experiência ao longo dessas décadas e é ainda capaz, mesmo que num filme tão simples, provar seu potencial em construir uma obra memorável, provar sua força, genialidade e ousadia como diretor.

Por Fernando Labanca

Baseado na peça de teatro de Tracy Letts, que também assina o roteiro, o filme gira em torno de uma família disfuncional e a estranha relação que ela passa a ter com um matador de aluguel. Tudo se inicia com um plano bizarro de Chris (Emile Hirsch), o filho mais velho, que devendo para traficantes perigosos chega a conclusão de que o único modo de conseguir dinheiro e quitar suas dívidas é recebendo a apólice de seguro de sua mãe, neste caso, só acontecendo com ela morta. Para isso, ele,  ao lado do pai (Thomas Haden Church) e da madrasta (Gina Gershon), decide contratar Joe Cooper (Matthew McConaughey), um detetive que é assassino nas horas vagas, para mata-la. Com o dinheiro em mãos, o plano era pagar a metade para Joe, e o resto dividir entre os membros da família, inclusive para a filha mais nova, a inocente Dottie (Juno Temple). Os piores conflitos surgem quando, ao não receber o pagamento adiantado, assim como o de costume, Joe exige uma garantia: Dottie, o que causa a fúria em Chris, que coloca a proteção de sua irmã acima de qualquer coisa. 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Crítica: Agora e Para Sempre (Now is Good, 2012)

“Agora e Para Sempre” é daquelas obras que surgem sem ninguém notar e de repente você vê as pessoas comentando, recomendando. Pouco vi divulgação sobre ele e mal sabia do que se tratava, logo, me surpreendi. Conta, na verdade, uma história bastante comum e já relatada em outros filmes, no entanto, é feito com extrema sensibilidade por este competente diretor, Ol Parker (Imagine Eu & Você, 2005), que entrega alma a seus personagens e faz tudo com uma honestidade pouco vista em obras sobre o mesmo tema.

Por Fernando Labanca

Lançado diretamente nas locadoras, aqui no Brasil, “Now is Good” fora baseado no livro “Antes de Morrer” de Jenny Downham e conta a trajetória de Tessa (Dakota Fanning), uma jovem de 17 anos que sofre de leucemia em estágio terminal e como última meta de vida, decide fazer uma lista com tudo aquilo que não fez e deseja fazer antes de morrer, desde perder a virgindade até fazer uma tatuagem. Até que Tessa conhece seu novo vizinho, Adam (Jeremy Irvine, de "Cavalo de Guerra") que parece ser o salvador de todos os seus problemas, parece ser aquele elemento que faltava em sua vida, é aquilo que lhe dá sentido, e se entrega a essa relação mesmo sabendo que em breve teria um fim.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Crítica: O Verão da Minha Vida (The Way Way Back, 2013)

Todo ano, o cinema indie norte-americano nos presenteia com sua graça, com tramas simples, divertidas e com aquela pitada de drama e boa trilha sonora. Pois bem, 2013 estava mesmo precisando de uma obra tão incrível que preenchesse essa vaga. Por fim,“O Verão da Minha Vida” se firma, facilmente, com um dos filmes mais adoráveis deste ano, que diverte e emociona com sua simplicidade e surpreende ao conseguir extrair de seu público tantas sensações. O feel good movie que 2013 merecia e precisava.

Por Fernando Labanca

O filme se inicia com Duncan (Liam James), um garoto de quatorze anos, indo passar o verão na casa de campo de seu padrasto, Trent (Steve Carell), ao lado de sua mãe (Toni Collette). Ele passa por uma fase complicada, enfrentando todas as crises de qualquer adolescente e sua baixa autoestima se reafirma com as atitudes nada agradáveis de Trent, que insiste em coloca-lo em situações embaraçosas e que tanto o afasta de sua mãe. Sem encontrar muito sentido neste verão, Duncan acaba fazendo amizade com a loirinha bonitinha que é sua vizinha temporária (AnnaSophia Robb), filha de uma amiga de seus pais (Alisson Janney), a única que parece compreender seu universo. Ao mesmo tempo, o garoto conhece um parque aquático perdido no meio da cidade, é onde faz novos amigos, onde encontra, enfim, um lugar para curtir e se sentir livre. É lá que conhece o insano e despojado Owen (Sam Rockwell), o cara que tenta colocar ordem em toda aquela bagunça e é ele quem oferecerá refúgio para seus problemas, ao mesmo tempo em que lhe dará forças para enfrenta-los.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Crítica: A Família Flynn (Being Flynn, 2012)

Em 2001 chegou aos cinemas uma incrível obra chamada “Um Grande Garoto”, comédia dramática bastante sensível e divertida que revelou o diretor Paul Weitz, que até então tinha apenas se aventurado no primeiro filme da saga “American Pie”, e ao longo desses anos ele realizou alguns trabalhos de qualidade duvidosa, outros, até interessantes mas pouco conhecidos. Eis que este ano me deparo com um filme que me recordou o porquê de eu admirar tanto o trabalho deste cara, surge tão bom quanto em seu início de carreira, “A Família Flynn”, drama com Paul Dano e Robert De Niro, que aqui no Brasil teve o azar de ser lançado diretamente nas locadoras, o que é uma grande pena, pois se trata de um filme poderoso, conflitante, surpreendentemente bom.

Por Fernando Labanca

Baseado no livro “Another Bullshit Night in Suck City” escrito por Nick Flynn, o filme acompanha o embate entre duas vozes, a de Jonathan Flynn (Robert de Niro) que narra sua incrível jornada sendo, segundo ele mesmo, um mestre em contar histórias, um dos nomes mais importantes da literatura norte-americana. Por outro lado, vemos sua própria história sendo contada por seu filho, Nick Flynn (Paul Dano) que perdeu a mãe por suicídio e que fora abandonado por ele, seu pai, que não o vê há dezoito anos. É então que Nick nos revela o verdadeiro Jonathan, passou pela prisão por ações ilegais, perdeu a casa e seu carro, no qual o usava para trabalhar como taxista, é um alcóolatra, um indigente, perdido no mundo. Até que Nick, que é um aspirante escritor, que tão transtornado pelos acontecimentos de sua vida, decide ajudar o próximo, trabalhando em um centro comunitário, que ajuda moradores de rua, é onde, depois de tantos anos, se reencontra com seu pai e se vê obrigado a resolver os problemas e conflitos que os levaram até ali.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Crítica: O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond The Pines, 2013)

Dirigido por Derek Cianfrance, o mesmo que em 2011 trouxe para as telas o melancólico “Namorados Para Sempre”, e repetindo a parceria entre ele e o ator Ryan Gosling, este filme é ainda mais impactante que seu projeto anterior. E com seu talento em construir personagens tão humanos, “O Lugar Onde Tudo Termina” surpreende com sua trama brilhantemente bem escrita, intensa e reflexiva. Um dos melhores filmes do ano.

Por Fernando Labanca

A obra gira em torno de um acontecimento que definiu a vida de algumas pessoas, com começo, meio e fim bem pautados. Um evento que surge por pura ironia do destino e que as coloca diante uma das outras. “O Lugar Onde Tudo Termina” narra o momento na vida desses indivíduos em que eles ficam presos a este acontecimento, um clico que nasce e parece não ter fim, passando por gerações. Não há, portanto, um protagonista, são, na verdade, três histórias, três momentos, o começo, o decorrer e a consequência, e o roteiro muito bem escrito, as une de forma inesperada, quase como capítulos muito distintos, mas que não funcionam isoladamente. É como a vida mesmo, uma trajetória necessitando do impulso de outra para existir.

No primeiro momento, conhecemos Luke (Ryan Gosling), trabalha como motoqueiro em eventos esporádicos, até que reencontra com Romina (Eva Mendes), um caso do passado que logo revela ter tido um filho com ele mas preferiu se afastar. Para recuperar o tempo perdido como pai, Luke decide sustentar a família que acreditar ter, larga o emprego e passa a assaltar bancos. No segundo momento, o policial Avery Cross (Bradley Cooper) tenta se manter digno diante da corrupção de seus próprios colegas. Na terceira parte, Jason (Dane Dehaan), um jovem que decide ir atrás de seu pai no qual nunca teve notícias.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Crítica: A Datilógrafa (Populaire, 2013)

Dirigido pelo estreante Régis Roinsard, uma deliciosa comédia romântica francesa que resgata com competência o charme do cinema da década de 50. O gênero que teve pouquíssimos bons exemplares em 2013, ganha um ótimo reforço com “A Datilógrafa”, extremamente cativante e divertido, com uma direção de arte impecável e uma grande revelação chamada Déborah François.

por Fernando Labanca

Filha de um pai conservador que a quer casada com o homem que ele mesmo escolheu, Rose Pamphyle (Déborah François) sai de sua cidade, se recusando a ter a vida comum de todas as mulheres, foge da obrigação de ser uma dona-de-casa, tinha um plano maior em mente. Consegue um trabalho como secretária no escritório de seguros de Louis Échard (Romain Duris), e apesar de não ter muito talento na profissão, acaba chamando a atenção por sua agilidade em datilografar, despertando assim o espírito esportivo de Louis, que a faz participar de uma competição entre datilógrafas. A partir de então, ele passa a treiná-la e Rose aos poucos vai ganhando notoriedade na mídia, conquistando fãs, conhecendo a fama, conseguindo viver a vida que na época era o “sonho de toda mulher moderna”.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013)

No ano de 2008, um grupo de adolescentes ficou famoso por invadir e roubar a casa de celebridades. “Bling Ring”, novo filme de Sofia Coppola, é baseado em um artigo que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair sobre o ocorrido. Sem a intenção de julgar ou compreender a mente destes jovens, o que vemos é um filme sobre futilidades, que assusta por ser tão real e tão perto do que vemos diariamente na mídia e nas redes sociais. Mais do que isso, a obra de Coppola expõe o vazio existencial, aquele mesmo sentimento (ou ausência de) tão presente em sua filmografia.

Por Fernando Labanca

Conhecemos Marc (Israel Broussard), um jovem que não se sente tão bonito e atraente e por isso, se sente tão distante dos outros. É seu primeiro dia de aula em seu novo colégio, é onde conhece Rebecca (Katie Chang), uma garota que o enturma em seu grupo de amigos, e logo percebe que ela realiza alguns furtos para não cair na rotina e não demora muito até que Marc passe a auxiliá-la. No entanto, eles querem mais, é a cidade de Los Angeles, local onde residem grandes celebridades, eles passam a invadir suas mansões em busca de qualquer coisa. Até que outros amigos ficam sabendo, como Chloe (Claire Julien), Sam (Taissa Farmiga) e Nicki (Emma Watson) e se deslumbram por este mundo cheio de possibilidades, joias, roupas de grife, vestidos, sapatos, bolsas, de Paris Hilton a Lindsay Lohan. Nada os impede, vivendo loucamente a liberdade de uma vida vazia, sem sentido, exatamente como aquela que a mídia insiste em vender.


“É incômodo que tantos me adorem por algo tão odiado pela sociedade. Se fosse por algo que beneficiasse a comunidade ou algo parecido, eu adoraria. Mas isso demonstra que a América tem um fascínio mórbido por Bonnie e Clyde.”

Quem são nossos heróis? Quem queremos ser? Quem realmente nos fascina, nos inspira? “Bling Ring” coloca essas questões de forma sutil, sem deixar de chocar, de nos fazer refletir, pensar no mundo em que vivemos, na futilidade que vemos diante de nossos olhos diariamente, na televisão e nas revistas que definiram o que é beleza e o que é ser bem sucedido, ou até mesmo nos clipes musicais (que aqui os jovens fazem questão de cantar em alto e bom som) que exaltam a cultura do gangsta e o fascínio que a sociedade tem sobre Bonnie e Clyde. Muitos podem até achar que o filme vangloria este tipo de vida, o “lifestyle of rich and famous”, muitos até o julgarão de vazio, até porque é este sentimento que fica ao seu final. Vejo de forma diferente, vejo que Sofia Coppola acerta ao retratar este mundo, no qual conhece tão bem, a vida destes jovens que tem em comum a ausência dos pais e a fascinação, quase que inconsciente, pela futilidade. Jovens que veem a felicidade nas roupas de grife e principalmente na foto em que vai postar no facebook, nesta vontade imbecil de querer vender a própria vida, ou neste caso, viver, nem que seja por alguns instantes, como se fosse uma celebridade, desfrutando daquilo que eles jamais teriam, desfrutando do holofote que nunca seria deles, num mundo em que glorifica este ato, ser o centro da atenção por não fazer nada, ser tão descartável como uma capa de revista. É impactante, ao mesmo tempo compreensível, o sorriso em que Marc lança ao receber tantos convites de amizade nas redes sociais, como se isso realmente importasse, sua felicidade em perceber que está presente nas fotos, é como se passasse a ser como os outros. “Bling Ring” é extremamente realista nesses detalhes e não foi preciso se aprofundar tanto, conseguiu em poucos minutos extrair a verdadeira e atual sociedade, de forma cruel e chocante. 

O filme em nenhum momento julga o que é certo ou errado, apenas nos mostra os acontecimentos, a parte da reflexão e compreensão cabe a nós. E assim como todas as obras de Sofia Coppola, se instala, em seu final aquele sentimento de vazio, que surge não como um erro, mas por ela, justamente relatar, sempre de forma tão intimista, o vazio existencial, seja do reinado de Maria Antonieta, daquele pai em “Um Lugar Qualquer”, do casal de estranhos em “Encontros e Desencontros” ou das jovens em “Virgens Suicidas”. “Bling Ring” dialoga muito bem com os dias de hoje, mesmo sendo tão simples consegue ser complexo, assim como seus projetos anteriores. Não é seu melhor momento, mas não deixa de ser ainda um grande filme. É até irônico e bastante coerente a maneira como Coppola flagra os acontecimentos da trama, em tom documental, parecendo um verdadeiro reality show, é como se ela entregasse a esses jovens exatamente o que eles queriam, a fama fácil, o espaço para se vender, onde ninguém é amigo de ninguém, estão todos preocupados com suas próprias conquistas. 

A simplicidade está entre as características mais marcantes da cineasta, entretanto, chega alguns momentos que isso passa a ser um defeito, quando ela se limita ao máximo, tanto no roteiro quanto em sua direção, como as cenas das invasões ou dos jovens sendo perseguidos por jornalistas, dando entrevistas. É tudo muito repetitivo e muito igual, não há dinamismo, dando às vezes a impressão de estarmos vendo as mesmas cenas em diferentes momentos. Chega a ser muito didático, quadrado, há um processo muito esquemático no filme que incomoda, primeiro eles roubam, depois ficam famosos por isso, são perseguidos pela polícia e pela mídia, primeiro um dá entrevista, depois o outro, depois o outro, e Coppola não se esforça em criar maneiras diferentes para contar a mesma coisa.

O elenco jovem não desaponta, Israel Broussard constrói um personagem interessante, faz um homossexual sem ser forçado ou irreal, é com certeza, o personagem melhor desenvolvido na trama, é através dele que visualizamos o vazio e a futilidade daquela vida. Muitos acharam que Emma Watson seria a protagonista e se desapontaram por ela não ser, e penso que foi uma escolha acertada, ela é uma grande coadjuvante e se destaca fácil, rouba a cena, eu diria, há filmes feitos para os coadjuvantes, “Bling Ring” é de Emma Watson, ofuscando sem muito esforço suas colegas de cena, como Katie Chang e Taissa Farmiga, ainda que muito competentes. É inevitável não dedicar toda a nossa atenção a Emma em todas as cenas em que aparece.

“Bling Ring” é mais um grande trabalho de Sofia Coppola que se firma como uma das diretoras mais interessantes do cinema atual, que mesmo com suas falhas, conseguiu, somando este, construir uma das filmografias mais adoráveis e coerentes que já se teve notícias. Sou um fã, por isso, é importante deixar claro que sou bem suspeito para falar de qualquer filme que ela faça. Tirando as reflexões e complexidade, a obra é simplesmente deliciosa, gostosa de se ver, com personagens interessantes, história inusitada e uma das trilhas musicais mais envolventes do ano. Recomendo.


NOTA: 8,5  



País de origem: EUA
Duração: 90 minutos
Elenco: Israel Broussard, Katie Chang, Emma Watson, Taissa Farmiga, Leslie Mann, Claire Julien
Diretor: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crítica: A Espuma dos Dias (L'écume des jours, 2013)

Baseado no livro de Boris Vian, importante obra da literatura francesa escrita no final da década de quarenta, “A Espuma dos Dias” conta com a direção de Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) que abusa do surrealismo, construindo algo bizarro, estranhamente encantador, uma espécie de fábula adulta onde tudo é possível. Simplesmente incapaz de ser comparado a qualquer outro filme já feito.

Por Fernando Labanca

Colin (Romain Duris) é um bom vivant, um homem que não trabalha e passa seu tempo com invenções futurísticas, como as mesas ondulares, um piano que produz bebidas de acordo com suas notas musicais, sapatos com vida própria, entre outras coisas. Divide sua casa com um antigo amigo e cozinheiro Nicolas (Omar Sy) e um pequeno rato que age como um humano. Recebe sempre a visita de outro amigo, Chick, que é obcecado pelos pensamentos de Jean Sol Partre e costuma gastar todo seu dinheiro em seus livros. Até que, percebendo que tanto Chick quanto Nicolas estavam se relacionando com uma mulher, Colin decide fazer o mesmo, é então que conhece Chloe (Audrey Tatou), uma bela e encantadora moça que fará ele se apaixonar perdidamente. Eles se casam com o pouco dinheiro que lhes restavam, eis que não demora muito até que Chloe descobre que sofre de uma doença rara, um nenúfar está crescendo em seus pulmões. Para salvá-la, Colin abandona seu modo de vida e se entrega aos mais absurdos trabalhos a fim de sustentar o caro tratamento, mesmo ela não indicando nenhuma melhora.


Desde a primeira cena, o filme já nos alerta, estamos diante de algo extremamente inovador, diferente de tudo que estamos acostumados a ver, um universo onde tudo é possível, onde não há lógica, pessoas voam para chegar mais rápido nos lugares, sombras e comida possuem vida, casais precisam correr de carrinho de brinquedo para conseguir se casarem, um mundo onde limusines são transparentes e existem carros em formato de nuvem. Esqueça o que você conhece sobre a realidade, Michel Gondry desconstrói a lógica do cinema, a lógica da própria vida e mesmo levando tudo isso consideração, “A Espuma dos Dias” pode ainda não ser compreendido, porque de fato, nada faz muito sentido, muitos até se esforçarão para encontrar alguma metáfora, mas talvez a graça seja realmente essa, não encontrar o sentido. Essa fuga de paradigmas e conceitos passa a ser uma experiência muito única e só por esta experiência, o filme já vale muito a pena.

Por um lado, essas inovações mirabolantes de Michel Gondry são admiráveis, a cada nova cena, milhares de novos artefatos, engenhosidades de extrema criatividade, raros no cinema, é de chocar se pararmos para pensar todo o trabalho da produção. Entretanto, infelizmente Gondry não é capaz de dar a essas criações um motivo para estarem ali, não alteram a narrativa, não interferem em nada, por fim, acabam sendo meros objetos de cena, mas que erroneamente possuem um destaque muito grande na trama. Tenho a sensação que o diretor se perdeu em sua própria grandeza, deu tanta importância a essas engenhosidades que esqueceu os próprios personagens, havia uma bela história a ser contada, mas ela sempre acaba ficando em segundo plano.

“São as coisas que mudam, não as pessoas”. Esta frase é fundamental para toda a construção e compreensão deste universo. Enquanto Colin tenta sempre ver o copo meio cheio, jamais enxergando suas incapacidades, jamais pensando que poderá perder aquela mulher que mais ama, aquele universo em que ele mesmo criou vai perdendo a vida aos poucos, curiosamente sua casa vai diminuindo, e a fotografia, tão genial, expõe, visualmente, os sentimentos dos personagens, que perdem a cor ao decorrer da trama. Se ao início, o filme explodia em detalhes e cores, terminamos assistindo a uma obra em preto e branco. A fotografia, por sua vez, é bastante crua, deixando tudo muito real, por mais que haja este universo fantasioso, ele é muito crível, isso ocorre também, devido a maneira como são usados os efeitos especiais, com uma plasticidade retrô, apesar de futurístico, me lembrando, por vezes, programas infantis da década de noventa, é tudo bastante nostálgico. “A Espuma dos Dias” também apela para o humor, bem peculiar, mas que funciona, diverte, mas aos poucos, assim como suas cores, o humor e aquele romance delicado e gostoso de ver dá espaço para o pessimismo, a angústia, é, por fim, uma obra melancólica. 

“A Espuma dos Dias” é muito diferente daquilo que vendeu nos trailers, pode ser um choque para muitos, principalmente aqueles que desconhecem a obra de Michel Gondry. Faz diferença também conhecer um pouco do autor do livro, Boris Vian, que aliás, eu desconhecia, estudou engenharia, é um apreciador do Jazz e de Jean Paul Sartre, são apenas detalhes, mas que trás um pouco mais de sentido à história, pois são, nitidamente, a base para a construção da obra. Confesso que achei tudo muito interessante, mas ainda assim, este interesse causado pela criatividade de cada sequência não foi capaz de prender tanto a atenção, não se mantém num bom ritmo, chegando a ser tedioso, por algumas vezes. Ainda assim, é belo, a presença de Romain Duris e Audrey Tatou ajudam e muito, são extremamente incríveis e funcionam perfeitamente bem juntos, o que acaba sendo uma pena o roteiro e a direção não ter percebido a força deles, a força da história do casal principal, os conflitos, os dramas, sempre se distancia de tudo isso, focando em personagens sem o mesmo carisma e importância, focando nas criações de Michel Gondry que nada interferem na história. É bom, é inovador, encantador, mas faltou alma, faltou sentimento, teria sido perfeito se Gondry percebesse que esses elementos ele encontraria nos personagens e não em seu cenário. Gostei, apesar dos inúmeros e nítidos defeitos, só não superou minhas expectativas, não é tão bom quanto eu esperava e queria, mas ainda assim, recomendo.

NOTA: 7,5


País de origem: França
Duração: 125 minutos
Elenco: Romain Duris, Audrey Tautou, Omar Sy, Gad Elmaleh
Diretor: Michel Gondry
Roteiro: Luc Bossi, Michel Gondry





quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crítica: Boogie Nights - Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997)

Lançado em 1997, “Boogie Nights” conta com a direção de Paul Thomas Anderson e mostra, através de sua narrativa bastante dinâmica, o auge e decadência da indústria pornográfica no final dos anos 70. Sem moralismos, o longa tem o poder de ser mais do que pretende e registra um dos retratos mais fiéis e mais impactantes daquela época. Sutilmente engraçado e extremamente original, a obra é um marco na carreira deste brilhante diretor, e porque não, um marco na história do cinema. Um clássico!

Por Fernando Labanca

Década de setenta, nas noites agitadas ao som de disco, Eddie Adams (Mark Wahlberg) trabalha em uma boate, lavando pratos. Tem uma relação turbulenta com sua família, onde é considerado um fracassado, mesmo ele sonhando em ser um ator de sucesso. É neste local onde desperta a atenção de Jack Horner (Burt Reynolds), um famoso e bem sucedido produtor de filmes pornográficos que vê em Eddie a chance de realizar seu grande desejo, fazer uma obra no cinema que seja respeitada. O garoto, então, se transforma em Dirk Diggler, o mais novo astro pornô, ganha fama, notoriedade e um espaço entre as figuras descoladas que circulam neste meio, uma espécie de família, entre atores, diretores e produtores, amigos que cuidam um dos outros. Entre essas pessoas, está a atriz veterana Amber Waves (Julianne Moore) e a encantadora Rollergirl (Heather Graham), além de Reed Rothchild (John C.Reilly), que se torna seu grande parceiro. Mas como sempre, a fama tem seu preço, e Dirk se afunda nas drogas, perde o rumo, sempre acreditando ser o melhor, sem perceber que seu lugar não é tão especial assim e que facilmente poderá ser substituído por outro.


Muito mais do que relatar os bastidores da indústria pornográfica, “Boogie Nights” é um retrato de uma época, a transição dos anos setenta para os oitenta, a vida noturna, a música, a moda, as drogas, o sexo, os sonhos de uma juventude sem rumo, as desilusões de um grupo de pessoas que optaram por abandonar aquela vida correta repleta de regras e viver intensamente exercendo uma função tão julgada, tão ignorada, mas que era tudo para eles. Paul Thomas Anderson, que também assina o roteiro, entrega alma a esses indivíduos, nos dá a chance de olhar para seus personagens sem moralismos, sem julgamentos, partindo sempre do pressuposto de que cada um ali é um ser humano, acima de tudo, complexo, por vezes ambíguo, que sofre, que sonha, que tem conflitos a ser enfrentados, como a atriz que luta pela guarda do filho. E o grande mérito da obra foi esse, relatar, mas sem julgar. Sabe também ser polêmico, sensual, provocativo, sem ser obsceno, vulgar, sempre optando pelo bom gosto, sabe ser descompromissado ao mesmo tempo em que é pesado, complexo. E assim, nos deparamos com este brilhante roteiro de PTA, tão primoroso, rico em detalhes, constrói personagens únicos, memoráveis, reconstrói uma época, nos dando a chance de voltar no tempo e se deliciar com este filme insanamente divertido e inteligente.

Sou um grande fã de Paul Thomas Anderson, elogiar seu trabalho como diretor é quase como chover no molhado. Ele é um gênio. Vejo isso em cada cena, em cada tomada, em cada corte. Se não bastasse toda a originalidade de sua obra, o diretor opta por resolver suas sequências da forma menos ordinária possível, se utiliza de zooms, de rápidas rotações com sua câmera, de mirabolantes planos sequência de deixar qualquer um chocado. É tudo muito incrível, deleite aos olhos, e a excelente edição reforça ainda mais seu talento, dinâmico ao extremo, onde nunca perde o ritmo, me lembrando por muitas vezes seu filme posterior, “Magnólia”, ágil e eletrizante, características incomuns para o gênero. Para melhorar, uma trilha sonora fantástica, talvez uma das mais incríveis que ouvi nos últimos anos, canções pra ninguém por defeito, como as clássicas de Night Ranger, Rick Springfield, The Beach Boys e Marvin Gaye, entre outras.


Seu elenco é mais um ponto positivo. Julianne Moore é um monstro no cinema, é genial ao mesmo tempo chocante sua habilidade em se transformar, sua interpretação é belíssima, um marco em sua carreira. Burt Reynolds também se destaca, oscilando bem entre a autoconfiança e as desilusões de seu personagem. John C.Reilley, mais uma vez, hilário e muito bem em cena, assim como Don Cheadle. Mark Wahkberg realiza, de longe, seu melhor trabalho como ator, por mais que ele suma ao lado de seus coadjuvantes de peso, ainda assim, é muito bom o que faz, o mesmo posso dizer da bela Heather Graham, que ao longo de sua carreira, este foi seu auge. Ainda há participações menores, mas que surpreendem e muito em cena, como Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, William H.Macy e Thomas Jane.

“Boogie Nights” é um clássico, é mais uma excelente obra na filmografia deste gênio, Paul Thomas Anderson. Se hoje, ele facilmente se destaca como um dos melhores diretores do cinema, é estranho pensar que há exatamente dezesseis anos atrás, poderíamos ter afirmado a mesma coisa. Porque sim, “Boogie Nights” é uma obra-prima, simplesmente não há como não dizer isso diante da beleza de cada cena. Um filme admirável, memorável. Roteiro, direção, atuação, trilha sonora, enfim, tudo em perfeito estado. Recomendo. E muito.


NOTA: 10


País de origem: EUA
Duração: 155 minutos
Elenco: Mark Wahlberg, Julianne Moore, Burt Reynolds, Heather Graham, John C.Reilly, Don Cheadle, William H.Macy, Thomas Jane, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Alfred Molina
Diretor: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Crítica: Segredos de Sangue (Stoker, 2013)

Chan-wook Park, diretor sul-coreano, ganhou notoriedade no cinema após o grande sucesso “Oldboy”, que hoje ganhou o status de cult. Não poderia ser diferente, seu notável talento o levou até Hollywood, e este é seu primeiro filme em solo norte-americano e devido a isso, vem carregado de boas expectativas. “Segredos de Sangue” merece respeito e admiração, é um grande exercício visual de Park, mas infelizmente não passa disso, uma bela direção tentando dar vida a um roteiro vazio.

Por Fernando Labanca

Em pleno dia de seu aniversário de dezoito anos, India Stoker (Mia Wasikowska) recebe a notícia da morte de seu pai. Ela mantém uma relação conturbada com sua mãe (Nicole Kidman), e a presença constante de parentes, devido ao velório, acaba agravando ainda mais o distanciamento das duas, principalmente com a chegada do misterioso Charlie (Matthew Goode), um tio desconhecido que nunca tiveram notícias, ele decide passar um tempo ao lado delas, é um aventureiro que passou anos viajando pela Europa e agora precisa resolver algumas pendências. Com Charlie na casa, India começa a sentir desejos que antes desconhecia, além de descobrir o passado sombrio de sua família.


Já em seus primeiros minutos, Chan-wook Park nos entrega e deixa claro isso, um suspense diferenciado, com seus interessantes cortes e sua fotografia impecável, ficamos vidrados assim que o filme começa, é tudo belo o que ele nos oferece, uma direção irretocável, e assim “Segredos de Sangue” segue com um clima pesado, misterioso, onde as personagens aparecem de forma fantasmagóricas, remetendo e muito a filmes sobre vampiros, não é toa que sua grande referência é a história de Drácula de Bram Stoker, aliás, Stoker é o nome da família em questão e título da própria obra, há muito de Drácula e sua obsessão por Mina Murray, mas evitarei spoillers. Aliás, referências não faltam para sua construção, Hitchcock também se faz presente, seja na clássica cena do chuveiro de “Psicose” ou nas relações das personagens, as obsessões e desejos proibidos de “Um Corpo Que Cai”, além da própria construção dos indivíduos, Evelyn, interpretada por Nicole Kidman, parece ter saído de seus filmes, seja por seu figurino, cabelo ou modo de agir, além da própria direção de arte que parece ter retirado os fundos de cores fortes e estampados de "Vertigo" para a construção de seus cenários. Como disse, o filme é um grande exercício visual do diretor, que mostra mais uma vez seu talento e sua habilidade em entregar ao público cenas marcantes e extremamente bem elaboradas.

Por outro lado, “Segredos de Sangue” carece de um roteiro mais trabalhado, onde ele nos dá a entender que algo grandioso está para acontecer, alguma revelação surpreendente que mudará drasticamente o rumo da trama. Mas nada acontece. Seu final, de fato, é muito interessante, confesso, mas a sensação que fica é que poderia ter sido muito melhor, que aliás, tudo poderia ter sido melhor. As revelações não são óbvias, mas também não surpreendem, o roteiro nos aponta desde o início o que poderia haver de errado, nos antecipa aonde está o mistério, e em nenhum momento ele guia para outro lado, é o que era para ser, o que parecia ser desde o início, não ousa, e apesar do bom suspense que nos prende ao decorrer do filme, bate aquela decepção, por nos criar aquela expectativa de que estamos diante de algo inovador, mas infelizmente, não. O que vemos é uma obra esteticamente muito bem trabalhada, no entanto, não é capaz de disfarçar ou amenizar suas fracas ideias.

No elenco vemos nomes interessantes. Mia Wasikowska trilhando brilhantemente sua carreira, escolhendo sempre bons projetos, sua grande atuação é notável, e com certeza, faz deste filme algo melhor do que ele teria sido sem ela. Não sou a melhor pessoa para avaliar Nicole Kidman, sou um fã, me dá sempre a impressão de que mesmo sem se esforçar tanto, ela é capaz de roubar a cena, aliás, é dela um dos melhores diálogos do filme, ao falar sobre suas fraquezas como mãe e do que espera para sua filha. Matthew Goode está muito bem também, é um papel difícil e se mostra bastante versátil em cena.

“Segredos de Sangue” merece ser visto e admirado, é um cinema de qualidade que vale como exercício visual, por pura contemplação cinéfila mesmo. Entretanto, ao seu término, me senti diante de algo vazio, tão belo, tão deslumbrante, mas vazio, com personagens que dizem palavras mas não expressam vida, com situações absurdas e mal desenvolvidas, longe de serem verossímeis e longe de causar qualquer empatia. Faltou vida, agressividade, causar impacto, tudo o que o trailer prometia e tudo o que se espera de Chan-wook Park. É um diretor talentoso que não deixarei de apostar minhas fichas, faz deste filme uma verdadeira obra de arte, vazio em sua essência, mas ainda assim, belo.

NOTA: 7


País de origem: EUA
Duração: 98 minutos
Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Dermot Mulroney, Jacki Weaver
Diretor: Chan-wook Park
Roteiro: Wentworth Miller




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Crítica: Em Transe (Trance, 2013)

Mais um brilhante trabalho de Danny Boyle (Extermínio, Quem Quer Ser Um Milionário?), onde mesmo sendo um projeto tão diferente dos que ele já realizou, ainda assim, é coerente com toda sua filmografia. Original e de uma inteligência extrema, vemos um dos filmes mais interessantes que passou pelos cinemas este ano. Um quebra-cabeça bem elaborado, com reviravoltas surpreendentes e cenas de grande impacto. Prepara-se para fundir sua mente.

Por Fernando Labanca

Já em seu início percebemos, há algo de errado ali, precisamos prestar atenção aos detalhes. E sim, é daqueles filmes que com um diálogo perdido, sua interpretação poderá ser alterada e sua compreensão se tornará mais difícil. Conhecemos Simon (James McAvoy) que trabalha em um leilão de pinturas clássicas, e certo dia presencia uma tentativa de roubo realizada por Franck (Vincent Cassel) e sua gangue. Simon, por sua vez, fica responsável por proteger o quadro, o levando até um cofre seguro, eis que ele é interditado por Franck que lhe dá um soco na cara e leva o quadro embora, logo percebendo, porém, que a pintura não estava mais lá e somente Simon saberia onde a escondeu. Ele e Franck, na verdade, trabalham juntos no furto, no entanto, aquele soco não planejado faz com que Simon tenha uma amnésia, o que o leva ao encontro de Elizabeth Lamb (Rosario Dawson), uma hipnoterapeuta que mergulhará em sua mente em busca do local que todos estão a procura, escondida na mais profunda lembrança deste homem, totalmente atordoado pelos atos do passado, mas que aos poucos seus segredos mais íntimos serão liberados, até mesmo aqueles que ele fez questão de esquecer, revivendo lembranças que nem mesmo ele sabia que havia vivido.


“O que nós somos é a soma de tudo que alguma vez dissemos, fizemos e sentimos, tudo envolvido num único encadeamento que é constantemente revisto e recordado. Então, para ser você mesmo, tem que, constantemente, se recordar de você. É um trabalho constante, mas é assim que funciona.”

A mente humana. Não há nada mais complexo que a mente humana. O roteiro faz uma viagem por dentro da cabeça de seu protagonista e expõe o que há de mais monstruoso e conturbado dentro dele. E assim como aqueles quadros valiosos mostrados ao início do filme, que diante de algum incidente, devem ser retirados e colocados num lugar seguro, assim também ocorreu com as lembranças de Simon. Um item valioso, um detalhe importante, que definiu quem ele era lhe foi retirado para sua segurança e desde o começo não sabemos exatamente qual a sua índole, qual é sua verdadeira identidade e aos poucos, quando sua mente vai sendo exposta e descoberta através da hipnose, vamos descobrindo quem ele é, e sensações vão sendo desencadeadas, como sua fúria, seu sentimento de traição. “Em Transe” é um suspense bem arquitetado, um jogo violento, agressivo e sensual, que coloca seus personagens em situações extremas, expondo o que há de pior e melhor em cada um, e vamos revisitando as recordações que os definem, que os tornaram mais fortes e as que os tornaram mais frágeis. E em cenários com bastante utilização de espelhos, vemos cada um desses personagens revirando o passado, seus reflexos, neste grande exercício da mente, onde o que eles precisam enfrentar de mais doloroso é olhar para si mesmos.

O que há de mais interessante em “Trance” são seus personagens. Simon, Elizabeth e Franck. Simplesmente não há como saber quem são os mocinhos ou vilões, quem é a vítima ou o espertão, o roteiro brilhante jamais deixa vestígios e com suas reviravoltas e surpresas constantes, sempre voltamos atrás sobre aquilo que achávamos acreditar. Nada é confiável nesta obra e até seu instante final, ficaremos rodeados de perguntas, tentando encaixar cada peça deste confuso e interessante quebra-cabeça, onde seus personagens vão crescendo, evoluindo a cada diálogo e a cada informação nova mudamos nossa opinião sobre cada um. E para isso funcionar tão bem, escalaram três grandes atores que se entregam com força, é o típico papel ideal para um ator mostrar seu talento, pois o roteiro lhes dá a chance de transmitir diversos sentimentos e todos trabalharam perfeitamente bem suas oscilações. Rosario Dawson, fazia tempo que não a via tão linda e irradiante em um filme, sem dúvida, um dos trabalhos mais memoráveis da atriz. James McAvoy, mais uma vez, incrível e Vincent Cassel também se esforça e se destaca, como sempre, um excelente coadjuvante.

“Em Transe” é, com certeza, um dos filmes mais geniais que vi este ano, me surpreende não ter feito sucesso nos cinemas, espero que o público o descubra, é uma obra de inteligência rara, que nos prende até seu final, com seus diálogos bem escritos e cenas tão bem montadas que nos obrigam a ficar vidrados a cada sequência, há tensão a todo o momento e sua fantástica trilha sonora nos faz ter diversas sensações. Aliás, o diretor Danny Boyle, mais uma vez, surpreendendo e depois de várias obras-primas em sua filmografia, ele retorna tão bom quanto antes em um dos filmes mais interessantes que ele já realizou. Um excelente diretor que nos entrega um filme belíssimo, impactante, poderoso. É daqueles para se ver, rever e ainda assim permitir que sua história fique remoendo em nossa cabeça. Genial, brilhante. Recomendo.  

NOTA: 9,5



País de origem: Reino Unido
Duração: 101 minutos
Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel
Diretor: Danny Boyle
Roteiro: Joe Ahearne, John Hodge



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crítica: A Delicadeza do Amor (La Délicatesse, 2011)

Baseado no livro de David Foenkinos, que também roteirizou e dirigiu o longa, ao lado de seu irmão, Stéphane Foenkinos, “A Delicadeza do Amor” é um romance francês, que trata com bastante humor e sensibilidade a história de uma mulher e os caminhos que ela percorreu após a morte de seu marido, passando pela dor do luto até o envolvimento com outro homem. Com mais uma marcante atuação de Audrey Tautou, é o típico filme difícil de não gostar, leve, divertido e também emocionante, simplesmente adorável.

Por Fernando Labanca

Conhecemos o casal Nathalie (Tautou) e François (Pio Marmai), feitos um para o outro, se amam, se entendem, planejam uma vida juntos, porém o destino planeja outra coisa, e ele sofre um acidente e acaba morrendo. Transtornada com o ocorrido, a vida de Nathalie vira de cabeça para baixo, perde seu rumo, seu chão. Entretanto, a vida segue, precisa seguir, ela passa a se dedicar inteiramente ao trabalho e é lá que certo dia, sem pensar duas vezes, beija um dos seus funcionários, Markus (François Damiens). Ele é o típico “loser”, com poucos amigos e baixa autoestima e vê neste beijo a promessa de uma vida diferente, se entrega e tenta investir nesta relação, por mais que não leve jeito algum para isso. E Nathalie, que após sentir a dor da perda, tenta se reerguer e se deixa envolver por ele, mesmo que isso esteja completamente fora de seus planos.


"Ela me permite ser a melhor versão de mim mesmo."

O filme já inicia com um certo impacto, de certa forma, nos afeiçoamos ao casal apresentado em seu começo e assim, a morte de Fraçois carrega uma forte emoção, sofremos por Nathalie e de repente, aquele adocicado romance se transforma num drama pesado, eis que o filme nos surpreende mais uma vez, dando mais uma reviravolta, pois a questão nesta obra não é exatamente a perda, mas sim, o recomeço. E é neste recomeço na vida da protagonista que o longa mostra sua verdadeira face, bastante sutil e leve, uma comédia romântica sofisticada, quase que difícil de encaixá-la neste gênero, pois muito se difere das demais. E com a entrada do personagem Markus, com quem Nathalie se apaixona, o roteiro, muito bem escrito, relata a paixão num clima bem intimista, talvez por nos colocar dentro da mente de cada um deles através da narração em off, mas compreendemos bem cada um deles e nos afeiçoamos e torcemos por eles, por mais que todos ao redor olhem torto para o casal, devido ao fato de Markus ser, para muitos, um homem feio, que jamais poderia estar ao lado de alguém como Nathalie, tão bem de vida e tão bonita. E esta é a beleza desta relação, por todos apontarem as diferenças que há entre eles, mas somente os dois sabem o quanto um completa o outro, e nós, como público, também sabemos o quanto um precisa do outro. “A Delicadeza do Amor” também explora o amor de forma mais sensível, não aquela louca paixão de duas pessoas que querem aproveitar a vida intensamente, mas de um casal que apenas espera ter alguém para acompanhar até em casa.

“La Delicatesse” conta com mais uma interessante interpretação de Audrey Tautou, meiga mas que consegue transmitir com força as dores de sua personagem. François Damiens diverte com as estranhezas de Markus e funciona muito bem ao lado de Audrey, formando um casal adorável. Como disse anteriormente, é o típico filme difícil de não gostar, que emociona, que diverte e encanta facilmente com sua história, tratada de forma sensível e bastante delicada pelo diretor David Foenkinos, talvez por ele mesmo ter escrito o livro que o originou, soube guia-lo da melhor forma, nos entregando, acredito eu, um dos romances mais cativantes que surgiu nos últimos anos, e constrói cenas extremamente bem feitas, que de tão belas nos faz esquecer a própria vida. Com direito a uma ótima trilha sonora e um incrível final, tão simples, encantador e poético como todo o resto. Recomendo.  

NOTA: 9


País de origem: França
Duração: 108 minutos
Elenco: Audrey Tautou, François Damiens, Pio Marmai, Bruno Todeschini
Diretor: David Foenkinos, Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos





quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Crítica: Elysium (2013)

O diretor sul-africano Neill Blomkamp ganhou notoriedade em 2009 ao lançar “Distrito 9”, uma ficção cientifica bastante diferenciada, que além de discutir questões sociais, trazia uma interessante e inovadora história. Não poderia ser diferente, seu mais novo filme, “Elysium” vem carregado de grandes expectativas, principalmente por trabalhar no mesmo gênero, é quase que inevitável esperar um filme tão bom ou melhor que seu anterior e justamente por isso, a obra acaba sendo tão decepcionante, não tanto por não conseguir se manter no mesmo nível, mas principalmente por não trazer nenhuma novidade, ser limitado, se prendendo sempre ao que um dia deu certo, por não conseguir, em nenhum momento, construir sua própria identidade.

Por Fernando Labanca

Ano de 2159, o Planeta Terra não é mais o mesmo, após uma superlotação o mundo foi se desestruturando, é então que constroem a estação espacial Elysium, um lugar onde a vida é perfeita, onde doenças são curadas facilmente e onde apenas aqueles com poder aquisitivo elevado poderiam se tornar habitantes, caso contrário, seriam banidos. Em Los Angeles, que se tornou uma espécie de favela, onde os indivíduos se sustentam através de roubos e se sacrificam em grandes indústrias, é neste ambiente que vive Max (Matt Damon), trabalha em uma dessas indústrias e sempre sonhou em abandonar tudo e partir para Elysium, até que ele sofre um acidente e, infectado por radiação, tem apenas cinco dias de vida restante e a única maneira de sobreviver é ser levado para a estação espacial e ser curado lá, para isso, ele precisa da ajuda de Spider (Wagner Moura), um expert em tecnologia  que almeja dias melhores para todos os habitantes, nem que para isso ele precise agir de forma ilegal, porém, ele tem um plano muito maior para Max, o que irá bater de frente com os planos de Rhodes (Jodie Foster), uma mulher capaz de tudo para manter a integridade e estilo de vida em Elysium.


A obra pode oferecer sensações diferentes para dois tipos de grupos, aqueles que assistiram “Distrito 9” e aqueles que não assistiram. Para aqueles que não viram, provavelmente se surpreenderão com muitas coisas, o contexto político, os cenários, os efeitos especiais, entretanto, para aqueles que já conhecem o trabalho anterior de Blomkamp, poderão também gostar, mas a inconsistência da obra se tornará mais nítida. Isso porque as semelhanças entre os dois filmes são claras e isso em nenhum momento faz bem a “Elysium”, longe de ser “a maneira como Neill Blomkamp trabalha”, isso em nada tem a ver com a identidade do diretor e sim, caminhar pelo caminho que já conhece, sem riscos, o filme a todo tempo nos entrega momentos que um dia já deram certo, seja em “Distrito 9”, seja em algum outro filme Hollywoodiano. É tudo muito parecido entre as duas obras, sua crítica social, seu fundo político, a construção e evolução do personagem, que foi alvo de um incidente, aqui a radiação, antes o veneno, e precisa lidar com essa situação irreversível, antes ele se torna uma espécie de alienígena, aqui ele se torna uma espécie de androide para se manter vivo. Antes eram os extraterrestres, aqui são robôs, que visualmente não se diferem muito. Os cenários são extremamente semelhantes, as locações e toda a tecnologia “criada” para o filme remete e muito a “Distrito 9”. É realmente chato fazer essas comparações, mas Neill Blomkamp não nos dá muitas escolhas, e mesmo a ideia sendo tão diferente, ele consegue fazer mais do mesmo, e quando finalmente nos deparamos com alguma novidade, como a vida em Elysium, o roteiro tão limitado não se aprofunda e nunca tira bom proveito do que tem em mãos.

O roteiro é bastante problemático. Não se aprofunda em absolutamente nada, a sensação que fica é que havia tanta coisa interessante ali na tela a ser discutida, mas é tudo mostrado e guiado de forma tão rasa que logo causa desinteresse e uma certa preguiça, confesso, em querer entender alguma coisa. Informações são jogadas a todo instante, dando sempre a impressão de que algo grandioso está por vir, a ida de Max a Elysium, os planos mirabolantes de Spider e até uma conspiração política iniciada por Rhodes, mas muito disso se perde no meio do caminho e no final percebemos que toda aquela excitação não dá em nada, pura enrolação. As personagens também decepcionam, justamente por serem tão vazias, não são pessoas, são tipos, temos os mocinhos e os vilões, e dessa forma, além de tornar tudo previsível, não consegue causar empatia e não consegue jamais gerar grandes discussões sobres suas questões sociais. A intenção era nos fazer pensar em nosso mundo real através deste universo “fantasioso”, e está é, na verdade, a maior graça da ficção científica, mas aqui, sua proposta não é alcançada, simplesmente por ser tão superficial.

Desta forma, os atores nos entregam atuações um tanto quanto caricatas. Sharlto Copley é quem rouba a cena, mas se destaca por sua grande atuação, não por seu personagem. Matt Damon está correto, me surpreende a maneira como ele consegue convencer em tantos gêneros distintos, mesmo que aqui ele esteja um pouco apagado. Alice Braga surge interessante, a atriz não faz feio lá fora, surge até mais carismática e mais a vontade em cena. Wagner Moura, apesar dos grandes elogios quanto a sua performance, eu o achei bastante forçado, é um ótimo ator, isso é inegável, mas não me convenceu dessa vez. O mesmo posso dizer da veterana Jodie Foster, exagarada, muito distante do que ela já realizou no cinema.

"Elysium" não se perde por completo, apesar dos inúmeros defeitos, vale a pena dar uma conferida, diverte com suas sequências muito bem planejadas por Neill Blomkamp, que é, nitidamente, um diretor esforçado, promissor. Fotografia e efeitos especiais chamam a atenção, o visual criado para o filme causa certo impacto e assim, presenteamos cenas belíssimas que na tela grande se tornam ainda mais interessantes. Gostei, tem até um ótimo final que me fez ter a certeza que não havia feito a escolha errada, entretanto, teria gostado muito mais se tivesse visto algo novo, assim como o trailer prometia, infelizmente se preocuparam muito em construir um filme de ação, com muitos efeitos, onde a todo instante alguém está correndo, lutando ou atirando, algo está explodindo, enfim, havia muito ali na história para ser aproveitado, muitas ideias a serem exploradas, para no fim, ser apenas um filme de ação qualquer. Para uma trama aparentemente realista, "Elysium" se perde em sua superficialidade e na construção de estereótipos.

NOTA: 6,5


País de origem: EUA
Duração: 109 minutos
Elenco: Matt Damon, Sharlto Copley, Jodie Foster, Alice Braga, Wagner Moura, Diego Luna, William Fichtner
Diretor: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Crítica: Invocação do Mal (The Conjuring, 2013)

Se em 2004, James Wan, até então desconhecido, surpreendeu com sua estreia em “Jogos Mortais”, revitalizando o gênero na época, este ano, ele prova que não fora apenas uma sorte de principiante, é um talentoso diretor e agora, com o lançamento de “Invocação do Mal” ele se firma como um dos novos mestres do terror. Com roteiro bem elaborado e com aquele velho e bom sentimento de medo e tensão, que há muito tempo não se via, o filme é, um dos melhores exemplares do gênero dos últimos anos.

Por Fernando Labanca

Com o selo “baseado em fatos reais” a trama já ganha um certo peso e uma certa expectativa também. O filme narra o que ele mesmo definiu como o caso mais assustador e mais difícil de Ed e Lorraine Warren, casal de investigadores paranormais, que na década de setenta vão parar no interior dos Estados Unidos para ajudar uma família aterrorizada com estranhos acontecimentos em uma casa de campo, onde logo comprovam a presença de uma entidade maligna. Carolyn (Lili Taylor) e Roger (Ron Livingston) são pais de cinco meninas e vão morar neste local afastado e não demoram muito até perceberem que há algo de muito errado ali, é então que sem mais o que fazer, Carolyn entra em contato com Ed e Lorraine para que os livrem do mal que estão enfrentando.


A mansão mal assombrada afastada da cidade, uma família feliz que logo descobre que não estão sozinhos. De início, “Invocação do Mal” até aparenta ser mais do mesmo, nos dando sempre a sensação de que já vimos aquele filme antes. Entretanto a direção diferenciada e o roteiro extremamente bem escrito logo nos provam o contrário, estamos diante de algo novo, mesmo que em pequenos detalhes, mas são esses detalhes que fazem da obra uma raridade, e mesmo se utilizando de uma ideia tão clichê e mesmo nunca fugindo daquilo que esperamos,  James Wan reformula o modo de trazer o medo ao expectador, reformula a maneira como tudo acontece ali na trama, facilmente se diferenciando de tudo o que tem sido feito nos últimos anos dentro do gênero.

O medo e a tensão não surgem de maneira óbvia, como nos insistentes “Atividade Paranormal”, a câmera e a trilha sonora não ficam nos entregando o que não há, não manipula, não diz ao público: “fiquem atentos porque agora vai acontecer alguma coisa assustadora!”. O terror surge naturalmente, em cada cena, em cada nova informação que surge, o medo vai se inserindo, aquele clima pesado, e logo ficamos aterrorizados com tudo o que vemos e ouvimos.  James Wan sabe muito bem como brincar com seu público, como conduzir o suspense, desde aparições aterrorizantes que até poderão ficar na cabeça dos mais fracos até um simples barulho atrás da porta que nos faz ficar de olho atento à tela. Sustos também não faltarão, a diferença é que aqui o susto não é a única arma que utilizaram para prender a atenção daquele que assiste. Além das diversas sensações que provoca em seu público, “Invocação do Mal” parece trazer ainda aquele sentimento nostálgico de como é bom ver um filme de terror no cinema, um bom filme de terror, resgata através de suas referências, desde Hitchcock à "O Exorcista" de William Friedkin, aquele jeitão antigo de se trabalhar com o medo. E por ser um filme de época, esta impressão se acentua, que aliás, belíssima composição dos anos setenta, desde os cenários, figurinos e equipamentos, que de certa forma, embelezam a obra e dão um charme a mais à sua composição.

Dentre tantos pontos positivos, o grande mérito do filme foi a construção de seus personagens. Mais um ponto para a obra, pois é o tipo de “detalhe” que nunca se preocupam em filmes de terror. Pode parecer pequeno demais, até porque quem vai assistir não está tão preocupado com isso, querem mais é se assustar. Porém, ao decorrer da trama, fica nítido que a maneira como eles nos apresentaram os personagens e a maneira como eles são construídos dentro da história faz toda a diferença. Saber que Carolyn e sua família são pessoas como nós, que se amam, que se preocupam com cada membro, saber que Ed e Lorraine são pessoas reais, não apenas ícones da investigação paranormal, que sofrem, que se incomodam com o que veem, enfim, o modo como o roteiro vai trabalhando essas relações afetivas entre os indivíduos, consegue trazer um realismo maior a trama, nos faz parar para pensar e nos colocar no lugar deles, e se fosse nossa família ali naquele lugar? Esse realismo trás em nós um medo maior, a trama se torna mais impactante, as situações se tornam mais incômodas.  E assim, James Wan consegue também, transitar muito bem para o drama, não parecendo forçado, mostrando com delicadeza essas relações, e são nessas relações que tornam a obra mais crível e de certa forma, mais adorável também. E por falar em gêneros, o filme ainda, para minha surpresa, sabe ser cômico sem ser trash, inserindo humor quando menos se espera e de forma inteligente.

O elenco é dos bons, Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Warren estão ótimos, como sempre, aliás, elogiar o trabalho de Farmiga é como chover no molhado, uma atriz que sempre se supera. Ron Livingston e as meninas que interpretam as filhas trazem naturalidade e uma boa sintonia em cena e se entregam nos momentos de terror. Mas quem acaba se destacando mesmo é Lili Taylor, conhecida por sua carinha assustada em “A Casa Amaldiçoada” de 1999, ela realiza um trabalho notável aqui, oscilando bem entre a coragem e a fragilidade de sua personagem.

Por outro lado, “Invocação do Mal” não consegue fugir das armadilhas do gênero ao todo, os roteiristas souberem muito bem como trabalhar com os clichês, mas eles existem, estão lá e em grande quantidade, ora bem conduzidos ora caem na mesmice, como em seu final ingênuo. Enfim, não é perfeito, mas nos últimos anos, foi o filme que mais chegou perto de tal definição dentro do terror, não que ele seja genial, mas dentre tantos fiascos que surgem por aí, a obra se destaca. Se desejar ver um bom filme que assuste, tenso, que te faz ficar vidrado e aterrorizado com as sequências, que te faz não querer o escuro por um tempo,  escolha este, há todos os elementos clássicos em cena e conduzidos muito bem por este competente diretor. O cinema estava mesmo precisando de uma nova referência, finalmente um filme do gênero que vale a pena sentar e esperar até seu final, a boa expectativa é recompensada. Não é exagero dizer que este é o melhor terror do ano. Recomendo.

NOTA: 8,5




País de origem: EUA
Duração: 112 minutos
Elenco: Lili Taylor, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Ron Livingston
Diretor: James Wan
Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes