quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Crítica: Força Para Viver (Rudderless, 2014)

Primeiro longa-metragem dirigido pelo ator William H.Macy, "Rudderless" é muito mais do que aparenta ser. Passando pelo drama familiar ao musical descompromissado, o filme acaba se tornando uma das tramas mais chocantes e mais tocantes do ano.

por Fernando Labanca

Após a morte de seu filho adolescente, Sam (Billy Crudup) abandona a carreira de executivo e se vê cada vez mais perto do fundo do poço. Desmotivado, ele acaba encontrando forças quando recebe de sua ex-esposa (Felicity Huffman), uma caixa com objetos que pertenciam ao garoto. Ali, ele encontra letras de músicas e algumas gravações originais, descobrindo, então, um lado de seu filho que desconhecia, um talento jamais revelado. É então que Sam resolve subir ao palco e cantar essas canções como forma de superar sua perda, não demorando muito até que o jovem Quentin (Anton Yelchin) entre em seu caminho, fascinado por sua qualidade musical, ele se mostra disposto a montar uma banda com o desconhecido. Sucesso em um bar local, eles montam a "Rudderless", sem ninguém imaginar o que realmente motiva aquele estranho homem solitário a continuar cantando.


Existem dois filmes aqui. Aquele que assistimos sem saber a verdade sobre a trama e aquele que passamos a assistir depois que tudo é entregue. São duas formas completamente distintas de encará-lo e interpretá-lo e só pela obra oferecer isso já a torna digna de ser vista. É interessante como, aparentemente, não há mistério até o momento que ele é revelado e é neste instante quando o filme se torna realmente poderoso. É surpreendente, chocante e nos faz olhar com outros olhos tudo o que vimos até ali. Sempre me comove essas histórias entre pais e filhos e a maneira como isso é tratado no longa é de uma extrema sensibilidade, a distância, a perda e o fato da música ser a única forma de uní-los novamente é de um poder estrondoso, doce, delicado, mas ao mesmo tempo, impactante, cruel. E o roteiro compreende a força da história e justamente por isso, permite com que ela flua naturalmente, sem dramatizar demais, mesmo tendo um assunto extremamente delicado em mãos, o massacre em colégios, que já fora abordado em outras obras e retorna aqui, com uma nova perspectiva, uma nova maneira de encarar eventos trágicos como este. Outro grande acerto de seu texto, é nunca querer compreender seu protagonista e também não perde tempo o julgando, somente ele sabe de suas intenções e não cabe a nós saber como é estar dentro dele, dentro da confusão que é sua mente, porque jamais saberemos, jamais chegaremos perto de saber. Por outro lado, o filme termina e deixa uma estranha sensação de que poderia ter ido além, havia pano pra manga ali, havia mais detalhes a ser discutidos e situações e conflitos que poderiam ter sido mais aprofundados.

O roteiro de "Rudderless" é bem esperto, funciona bem na tela, criando um bom ritmo ao seu decorrer, além de entregar excelentes diálogos. Apesar dos impactos da trama, é um filme delicioso de assistir, graças ao carisma de seus personagens e do bom musical que vai sendo construído ali, com suas excelentes canções. Compostas pela dupla Simon Steadman e Charlton Pettus, ouvimos uma harmoniosa combinação de folk, Mumford & Sons e Radiohead, passando pelas mais empolgantes "Beautiful Mess" e "Real Friends" à melancólica "Sing Along", que poderão ficar na mente depois que a obra termina. O elenco é outro ponto positivo, destacando a ótima performance de Billy Crudup, que canta e atua muito. William H.Macy faz uma pequena participação e Anton Yelchin e Laurence Fishburne, acertam, mais uma vez, assim como a sempre fantástica Felicity Huffman, numa personagem que poderia ter sido bem mais explorada, aliás, não consigo entender como uma atriz do nível dela faça apenas papéis pequenos, Como nem tudo são flores, a única razão para colocar Selena Gomez no elenco é porque ela está na Soundtrack, porque sua presença é dispensável.


Digo que foi um grande começo para William H.Macy como diretor. É um trabalho sensível, bonito de acompanhar e ouvir e que prova a cada instante que precisava ter sido feito, logo que se trata daquele tipo de história que merece ser contada. Simples, no entanto, extremamente profundo e tocante, que nos insere perfeitamente em sua trama, com toda sua good vibe e termina nos dando um lindo soco na cara. Confesso que não esquecerei tão cedo a última cena com o pai, a canção que ele canta, as palavras que ele diz e principalmente, não esquecerei de seu olhar. Aquele olhar de Billy Crudup me destruiu. A dor e o vazio deixados pela ausência daquilo que realmente o motivava. Brilhante. Recomendo.

NOTA: 8,5




País de origem: EUA
Duração: 105 minutos
Distribuidor: Paramount
Diretor: William H.Macy
Roteiro: William H.Macy
Elenco: Billy Crudup, Anton Yelchin, Felicity Huffman, Laurence Fishburne, Selena Gomez, William H.Macy



2 comentários:

  1. Ótima crítica, realmente o filme é poderoso e você disse tudo o que pensei ao terminar de assistir o filme.

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    1. Que bom que gostou da crítica, Vanessa! Senti muita coisa no final, mas acho que consegui me expressar e que bom que concordamos!
      Obrigado pelo comentário

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