segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crítica: Mistérios da Carne (Mysterious Skin, 2004)

Um soco na alma.

por Fernando Labanca

Estrelado pelo jovem Joseph Gordon-Levitt, que na época já mostrava seu potencial como ator, o papel ainda pode ser citado como um dos melhores e um dos mais fortes em sua carreira. Baseado no livro homônimo de Scott Heim e lançado em 2004, "Mistérios da Carne" é um filme perturbador, que causa um desconforto e uma inquietação naquele que assiste. Uma obra única e atemporal, que tem força ainda nos dias de hoje, talvez por nenhum outro filme ter relatado seus mesmos temas de forma tão corajosa e tão ousada como aqui.

Na tela, somos apresentados a dois caminhos, quase como dois capítulos separados que vão se fundindo ao decorrer da trama: Neil e Brian. Neil desde criança já demonstrava traços de sua homossexualidade ao sentir uma estranha e forte atração pelos tipos burros e estúpidos que se relacionavam com sua mãe. Eis que ao participar da Liga de Basebol, sente algo a mais por seu treinador (Bill Sage), que passa a usá-lo para realizar seus fetiches mais bizarros. Brian, outra criança que vivia não muito longe dali, seguiu um caminho diferente, sofria por seus apagões que causavam estranhos buracos em sua memória e cresceu acreditando que alienígenas eram os culpados. O filme mostra anos depois na vida de Neil (Joseph), que ganha a vida se prostituindo e Brian (Brady Corbet), que busca pelas respostas que nunca teve sobre sua traumática infância. Ambos não se conhecem mas nitidamente existe algo a mais no passado dos dois que os unirá no futuro.


Não é fácil definir o cinema de Gregg Araki, mas sinto que há algo de muito fascinante e hipnotizante nele. Há algo de estranho também, que soa bizarro, fora do lugar, mas ainda assim existe uma lógica criada por ele, explorada sempre de forma única em suas obras, expondo seu pop trash e mergulhando na alma de seus personagens disfuncionais, tentando compreender esses jovens que transitam em uma fase de descobertas, de encontro com novos desejos. Existe uma tensão sexual muito forte aqui e é nela que habita o desconforto de "Mysterious Skin", sua violência quase que explícita incomoda e a maneira como ele insere a infância neste contexto, abordando a pedofilia, o abuso e outros temas tão pesados, nos atinge e nos destrói. Houve muita coragem, tanto do diretor e de toda a produção em expor este universo tabu, como dos atores envolvidos. Apesar da sucessão de choques, vi também uma obra doce, emotiva, que mesmo relatando as consequências de um trauma, não deixa de falar sobre esta solidão existente em seus protagonistas, deste amor que não os atinge e do futuro que não os consola.

É interessante esta áurea fantasiosa que Araki implanta, não teme em ser caricato e conduz com maestria seus exageros cênicos, permitindo que tudo seja aceitável, até mesmo uma abdução alienígena como parte de seus mistérios. A trilha sonora assinada pela dupla Harold Budd e Robin Guthrie é quase como uma marca registrada no cinema do diretor, é ela quem dá o tom da obra e podemos citá-la, também, como um dos elementos responsáveis pelo filme ser tão envolvente e tão hipnotizante, por estar presente em praticamente todas as cenas e por ser estranhamente convidativa. O elenco é excelente, destacando, claro, o trabalho de Joseph Gordon-Levitt e Brady Corbet. Sinto, porém, que ao seu decorrer, criei expectativas altas para o final, que acabou me decepcionando um pouco, esperei por ver uma consequência após o evento que ele tanto nos preparou. No entanto, respeito e aceito a forma como Gregg Araki optou por encerrá-lo, não deixa de ser, assim como afirmei no início do texto, um soco na alma, nos deixa sem chão, desamparados, deixa um vazio.

NOTA: 8



País de origem: EUA
Duração: 105 minutos
Diretor: Gregg Araki
Roteiro: Gregg Araki
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet, Elizabeth Shue, Michelle Trachtenberg, Jeffrey Licon, Bill Sage




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