quinta-feira, 21 de julho de 2016

Crítica: Entre Nós (2013)

O tempo que constrói é o mesmo que destrói.

por Fernando Labanca

O que você diria para o seu eu do futuro? O que você contaria dos tempos de hoje? Quais são seus planos atuais que deseja estarem realizados até lá? Olhar adiante é um exercício dos sonhadores. O ato inverso, por sua vez, traz a nostalgia, mas também um certo vazio. É doloroso olhar para o passado, reencontrar com outra versão de si mesmo, compreender que metas não foram cumpridas, que expectativas não foram superadas. "Entre Nós" é sobre o tempo e sobre o peso que ele exerce quando olhamos para trás. 

Na obra, sete amigos escritores se reúnem em uma casa de campo. Alegres, festivos e inspirados, parece não haver tempo ruim quando todos estão juntos. Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Gus (Paulo Vilhena), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Rafa (Lee Taylor) compartilham não apenas o mesmo dom, mas o sonho de um futuro promissor. É então que eles resolvem escrever uma carta para eles mesmos, onde serão enterradas e relidas dali dez anos. No entanto, aquele fim de semana especial se encerra de forma trágica, culminando na morte de um dos amigos. Dez anos depois, eles se reencontram no mesmo local, revivendo questões mal acabadas, relembrando a felicidade de alguém que se foi e sentindo a tensão ao rever suas versões do passado enterradas naquela mesma terra.


"Entre Nós" é um filme belíssimo. Fiquei apaixonado por todos os personagens e por tudo o que eles disseram. Este encontro deles mesmos com o passado abre um leque de possibilidades e reflexões, onde o esperto roteiro se aproveita de todas elas. Não há como não se colocar ali no meio, se sentir amigo deles, seja cantando uma canção de Caetano Veloso, seja compartilhando suas crises existenciais. É muito delicado como o filme aborda essa passagem de tempo, em como todos se alteram, perdem o brilho, a liberdade e a intensidade de quem acreditava que a vida só estava começando e passam a sentir o peso de ser adulto, com responsabilidades, receios e traumas. Fantástico como tudo acontece no mesmo lugar, um único cenário, deixando evidente o quanto eles mudaram, não o universo em que habitam. Desta forma, o longa entrega sequências e diálogos muito sensíveis, sempre dividindo com o público a fragilidade de cada um e o quanto estar ali, dez anos depois, os afetam, mesmo que tentam esconder isso, mesmo que a versão que eles foram um dia denunciassem isso a cada instante. 

A obra ainda reserva um espaço para um mistério interessante. A morte de um dos amigos deixou uma lacuna no passado, algo não resolvido, não explicado. E neste reencontro, uma verdade dolorosa começa a vir a tona. Se trata de um simples suspense, mas que revela e muito da personalidade de alguns dos personagens, que acaba por entregar ao longa, uma carga emocional muito forte, é conflitante, denso e sempre somos surpreendidos pelas atitudes dos envolvidos. Muito maduro e inteligente a forma como tudo vai sendo costurado, nos deixando sempre aflitos, curiosos sobre suas resoluções. 

Uma grata surpresa do nosso cinema. Dirigida por Pedro e Paulo Morelli, pai e filho, a obra é simplesmente irresistível, repleta de momentos doces, espontâneos, repleta de muita verdade, de honestidade. Repleta de alma. E nesta atmosfera encantadoramente nostálgica, o longa encontra poesia. É muito humano este relato que fazem, desta análise do tempo, deste encontro do presente com o passado. Fotografia, trilha sonora, roteiro, direção, não há muito o que dizer, é tudo incrível, é um achado. Termino falando dos grandes atores selecionados. É sempre bom ver esses rostos fora da televisão, são todos fantásticos e seria injusto destacar um ou outro, logo que funcionam tão bem juntos. O filme acontece justamente porque acreditamos nestas relações e nos causa impacto porque assim como eles, revisitamos constantemente nossas lembranças. Memória é um mal necessário, nos faz crescer pelas experiências vividas, mas também nos traz o amargurado de uma vida não realizada. 

NOTA: 9,5



País de origem: Brasil
Duração: 100 minutos
Distribuidor: 02 Play
Diretor: Paulo Morelli, Pedro Morelli
Roteiro: Paulo Morelli, Pedro Morelli
Elenco: Caio Blat, Carolina Dieckmann, Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Martha Nowill, Júlio Andrade, Lee Taylor




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