quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Crítica: Sem Fôlego

O visual é de tirar o fôlego sim, mas a história nem tanto.

por Fernando Labanca

"Wonderstruck", no original, significa maravilhado. Um título pretensioso que logo remetemos a sua aventura cheia de elementos deslumbrantes, feitos para encantar os olhos. Baseado no livro homônimo de Brian Selznick, que aqui também assina o roteiro, a obra muito nos lembra outra adaptação do autor, "A Invenção de Hugo Cabret". Com cenários lúdicos, maquinários retrô e seu tom de fábula infantil, nitidamente estamos falando do mesmo criador. E da mesma forma que Scorsese aproveitou para homenagear o início do cinema em 2011, Todd Haynes (Longe do Paraíso, Carol), que dirige este, acaba entregando um produto nostálgico e, também, uma bela homenagem ao cinema antigo, mudo e preto e branco, que se torna ainda mais encantador por colocar a atriz Millicent Simmonds, que é surda na vida real, para protagonizar esses instantes. Estamos falando de um diretor extremamente caprichoso, que enriquece cada pequeno detalhe e nos transporta no tempo. De fato, parece que estamos vendo um filme de anos atrás.


A obra é dividida entre duas histórias e ao seu decorrer vamos percebendo que existe um belíssimo elo entre elas. É interessante o tratamento dado pelo diretor em cada um desses atos. Esteticamente muito distintos, é na eficaz montagem que as tramas se fundem, onde o tempo inteiro estão se dialogando mesmo que aconteçam em épocas tão diferentes. Na primeira delas, em 1977, o pequeno Ben (Oakes Fegley) foge, depois de um acidente que o deixou surdo, e embarca em uma jornada para encontrar seu pai, que é um mistério que o atormenta desde que sua mãe faleceu. Já em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simmonds) foge para encontrar uma famosa atriz na qual tem uma ligação muito forte. É bonito essas coincidências entre as histórias, onde as duas crianças - que não podem escutar mais nada - estão fugindo de algo e a procura de um lar, a procura de um lugar no mundo, e mesmo que elas só se entrelaçam no fim, é como se fizessem parte de uma única aventura. 

O grande erro de "Sem Fôlego" é florear demais o que, de fato, nem é tão interessante assim. Tenho a sensação que ele daria um belo curta-metragem, mas bem pelo contrário, decidem fazer um filme de longas duas horas, o que acaba ficando muito evidente a falta de conteúdo para tanto tempo de duração. Sua trama é simplória, mas recheiam com diversos artifícios para parecer mais atraente. Visualmente é lindo sim, mas o cuidado e riqueza da produção não é capaz de esconder o vazio deixado pelo roteiro. Ainda que seja escrito pelo próprio autor do livro, Brian falha ao adaptar o texto para o cinema, que acaba por oferecer uma aventura insossa, de boas intenções, mas desinteressante. Ele peca ao adaptar suas ideias, se perdendo em momentos que se deletados não fariam falta. A sorte foi ter as mãos de Todd Haynes como diretor, que encontra saídas inovadoras na tela grande, driblando as dificuldades da adaptação, oferecendo uma sequência de imagens deslumbrantes. A trilha sonora também é fantástica e a fotografia, assim como a produção no geral, acerta ao ilustrar tão bem cada época retratada no filme. 

O elenco mirim liderado por Oakes Fegley e Simmonds é o grande destaque aqui, se esforçam mesmo quando o roteiro não ajuda. Confesso que assistir "Sem Fôlego" foi uma experiência estranha. Tentei me convencer grande parte do filme que estava diante de algo incrível. Aliás, sua primeira metade até é. Mas a cada minuto que passava eu ia perdendo minhas próprias justificativas e compreendendo a fragilidade de tudo aquilo. É lindo de ver sim, mas chato demais de acompanhar. Queria me sentir maravilhado como o título nos anuncia, no entanto, só conseguia sentir felicidade ao ver seu aguardado fim chegar.

NOTA: 6




País de origem: EUA
Título original: Wonderstruck
Ano: 2017
Duração: 117 minutos
Distribuidor: H20 Films
Diretor: Todd Haynes
Roteiro: Brian Selznick
Elenco: Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Corey Michael Smith, Jaden Michael, Tom Noonan, Michelle Williams

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Crítica: Por Trás dos Seus Olhos

Tudo o que os olhos dizem.

por Fernando Labanca

"Por Trás dos Seus Olhos" é um filme ousado. Preciso começar dizendo isso. O diretor Marc Forster (Em Busca da Terra do Nunca, Guerra Mundial Z) não procura caminhos muito fáceis aqui e o filme ganha ao ilustrar tão bem as sensações de se viver na pele da protagonista. Ele vem de uma carreira irregular, transitando entre gêneros e produções de tamanhos diversos. Mas uma coisa é incontestável sobre Forster: ele sempre está a procura de uma inovação visual para dizer algo. Geralmente ele erra, mas essa sua inquietação como realizador não deixa de ser admirável. 

É uma obra sensorial, que busca, através de imagens, expor o desconforto e a fragilidade de estar na pele de Gina, interpretada por Blake Lively. A personagem passou grande parte da vida sendo cega e é brilhante os instantes que o filme ilustra sua rotina. Através de ruídos, cenários abstratos e uma excelente montagem, conseguimos sentir o que ela sente e é perturbador e claustrofóbico. A trama segue quando surge uma cirurgia em seu olho e a chance de uma nova vida é anunciada.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Crítica: Ilha dos Cachorros

Wes Anderson usa da simetria no mundo dos cachorros para falar do desequilíbrio no mundo dos homens. 

Por Fernando Labanca

Vencedor do prêmio de Melhor Direção no último Festival de Berlim, "Ilha dos Cachorros" marca o retorno de um dos realizadores mais cultuados do cinema independente, Wes Anderson. Cores pastéis, movimentação rápida de câmera, closes em expressões, personagens deslocados e histórias de famílias rompidas. E claro, a semetria das composições estão lá, também, assim como o cinema irretocável e quase que artesanal de Anderson, que construiu ao longo desses anos, uma assinatura inigualável. Entretanto, acredito que ele nunca tenha sido tão atual como foi dessa vez. Sua obra que fala sobre questões sociopolíticas, aborda temas como xenofobia e intolerância, demonstrando uma maturidade em sua escrita e entregando um produto relevante nos tempos de hoje. 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Crítica: Adeus Christopher Robin

A história que encantou milhares de crianças, mas destruiu a vida de uma.

por Fernando Labanca

Lançado em 1926, "Ursinho Pooh" - originalmente conhecido como "Winnie the Pooh" - foi um marco na literatura. Ganhou série animada e fez parte de toda uma geração. "Adeus Christopher Robin" vem para nos revelar o lado que não conhecíamos sobre as verdadeiras inspirações que levaram o autor, Alan Milne, a escrevê-lo. Dirigido por Simon Curtis, responsável por "Sete Dias Com Marilyn" (2011), o filme é bastante delicado e traz muito sentimento em cada passo que avança. É aquele produto que vai nos convencendo aos poucos, que vai nos conquistando ao seu decorrer e ao seu fim, estamos completamente afeiçoados a seu universo e tudo o que de mais belo tem a contar. Pena que não chegou aos cinemas aqui no Brasil. É bem produzido e merecia mais reconhecimento.

A obra se inicia quando o autor Alan Milne (Domhnall Gleeson) retorna para sua casa em Londres, depois de ter vivenciado a Primeira Guerra Mundial. Traumatizado, ele demonstra bastante dificuldade em se conectar com sua realidade e um interesse em contar ao mundo sobre os caóticos eventos que presenciou. Para que ele conseguisse escrever um novo livro, vai morar em uma casa isolada no campo, ao lado de sua esposa, Daphne (Margot Robbie), e o pequeno filho, Christopher Robin (Will Tilston). É neste tempo que ele começa a prestar atenção à criança que teve, encontrando nele a grande inspiração para sua nova criação. O livro que começa a nascer a partir dali passa a ser o grande elo com seu filho, que até então encontrava na babá Olive (Kelly Macdonald), a única relação afetuosa dentro daquela imensa casa.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Crítica: Jogador Nº1

O futuro nostálgico de Steven Spielberg.

por Fernando Labanca

Apesar de ter visto o painel de divulgação da Warner na última Comic Con e admirar o trabalho do diretor, essa sua empreitada de adaptar o livro "O Jogador Nº1" de Ernest Cline nunca me empolgou muito. No entanto, enquanto assistia ao filme não consegui pensar em alguém melhor para comandar a obra que Spielberg, que deposita aqui toda sua paixão pelo universo nerd e pelo cinema. Diria até que é emocionante ver o cara que nos trouxe clássicos como "ET", "Indiana Jones" e "Jurassic Park", voltar ao gênero que o consolidou. Talvez poucos cineastas tenham a competência que ele tem para comandar um projeto como este, uma aventura grandiosa, feita para a família ver e que diverte tanto quanto esses seus blockbusters um dia divertiram.

Com roteiro assinado pelo próprio Ernest Cline -  uma possível justificativa pela ótima qualidade do texto - somos levados para o ano de 2045, quando a humanidade deixou quase por completo de viver a realidade e se deixou tomar pelo vício que é viver dentro do OASIS, um jogo de realidade virtual que permite que seus jogadores tenham a vida que desejam ter, com a face que desejam ter, explorando seus inúmeros universos. Até que o excêntrico criador do jogo (Mark Rylance) morre, deixando três chaves escondidas, que são encontradas por aqueles que desvendarem seus misteriosos easter eggs. A pessoa que encontrá-las será dona de sua inestimável fortuna. Wade Watts (Tye Sheridan) é um jovem que está decidido a conquistar o tal prêmio, no entanto, assim que se torna o jogador número 1, descobrindo o local da primeira pista, ele passa a ser alvo de uma grande Corporação que fará de tudo para ter direito às ações do OASIS.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Filmes vistos em junho



Mais um mês voou e não percebi! Apesar de ter passado rápido, consegui ver alguns filmes nessas últimas semanas e posto aqui todos eles, como forma de indicação para quem está sem ideias do que ver. E você? O que de bom assistiu em junho?

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Crítica: Hereditário

O demônio fez um filme e o resultado é esse. 

por Fernando Labanca

"Hereditário" se une a nova safra de filmes de terror que se deu início nos últimos anos. Mas vai além. Definitivamente, é o mais marcante de todos eles. Segue a mesma linha de "A Bruxa" (2016) e além de alcançar o mesmo alvoroço da crítica especializada, também pode decepcionar uma boa parte do público, que poderá tanto odiá-lo quanto amá-lo. Não se trata de uma obra fácil, de resoluções óbvias e caminhos previsíveis. O diretor estreante Ari Aster é corajoso o suficiente para criar algo surpreendentemente novo, que vai contra os clichês do gênero e entrega um produto grandioso, que tem potencial para ser um clássico cult e de servir de referência para o que vier posteriormente. 

A trama se inicia com a morte da matriarca de uma família. Misteriosa em vida, ela deixa para trás sua filha Annie Graham (Toni Collette), seu genro (Gabriel Byrne) e seus dois netos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro). Esta família, por sua vez, tenta seguir em frente, no entanto, eles são atingidos por um novo evento trágico, que os desestabiliza de vez. No ápice de seu descontrole emocional, Annie acaba conhecendo uma mulher (Ann Dowd) que lhe ensina como entrar em contato com os mortos, fazendo com que forças sobrenaturais tomem conta de sua casa. Tomados pelo mal, eles descobrem que a herança que receberam é um destino pavoroso e sem saída.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Crítica: Coherence

Um experimento cinematográfico como nunca se viu antes. Simples no formato, grandioso em suas ideias. 

por Fernando Labanca

Sempre gostei deste modo de contar uma história. Reunir um grupo de pessoas em um único local e permitir que a trama vá sendo construída dentro daquele pequeno limite. É assim que nasceu o ousado projeto de James Ward Byrkit (que, curiosamente, trabalha como ilustrador de storyboards, participando de obras como "Rango" e "Baby Driver"), que definiu apenas os personagens e espaço, alguns caminhos que deveriam percorrer e sugestões de como agir em cada situação. Sem um roteiro estabelecido e uma equipe de produção enxuta, ele gravou o filme em sua própria casa durante cinco noites. Se trata de uma enorme ruptura do cinema tradicional e é brilhante quando pensamos em todas as limitações que tinha e ainda assim conseguiu entregar um produto tão refinado, complexo e inteligente. Sua câmera nos hipnotiza e ficamos ali, vidrados por cada solução que encontra.


Outras notícias