terça-feira, 19 de setembro de 2017

Crítica: Bingo - O Rei das Manhãs (2017)

Escolhido a representar o Brasil no Oscar, "Bingo" é apenas o primeiro longa-metragem de Daniel Rezende, mais conhecido pela premiada montagem de "Cidade de Deus" (2002). Se trata de mais uma super produção nacional que entretém com êxito seu público e espanta pela qualidade técnica.

por Fernando Labanca

A campanha de marketing foi boa e logo pelos trailers já nos deixava com uma sensação positiva sobre a obra. A ótima notícia é que "Bingo" é ainda melhor do que vendeu. Supera a expectativa que já estava alta. Um filme divertido, empolgante, que se mantém em bom ritmo e entrega um final brilhante para uma trama que tem tanto a dizer, tanto a oferecer. Poucas vezes, nos últimos anos, o cinema nacional conquistou tamanho brilhantismo, de ser grande, comercial e acessível, sem deixar de ser artístico e admirável em todos os aspectos. É fácil gostar, digerir e querer aplaudir de pé quando os créditos finais começam a subir.


O filme é baseado na enigmática vida de Arlindo Barreto que durante anos deu vida ao palhaço e apresentador Bozo na televisão. Na tela, acompanhamos a trajetória nada comum de Augusto Mendes (Vladimir Brichta), que abandona as produções da pornochanchada para encarar o seu maior desafio, ser o palhaço mais amado pelas crianças do Brasil, reproduzindo uma marca de grande sucesso no exterior, o Bingo. Apresentando um programa diário, ele precisa lidar com a pressão dos bastidores que necessitam de um alto índice de audiência, enquanto se vê cada vez mais distante de seu filho e cercado de novas tentações como drogas, sexo e bebidas.

A jornada de Augusto já é fascinante, no entanto, o bom roteiro a engrandece, a transformando em um verdadeiro show, digno de ser visto na tela grande. Existe em belíssimo desenvolvimento do personagem, que nasce de forma excêntrica e segue por caminhos nada convencionais. O que o motiva a entrar naquele palco e o que o faz permanecer dentro dele não são respostas fáceis e o filme renega qualquer saída óbvia. É complexo e nos faz adentrar na mente doentia e atordoada daquele ser. Por vezes divertido, por vezes assombroso, o roteiro consegue guiar bem o grande mistério da obra. O que há por trás da máscara do palhaço? Neste sentido, é brilhante os dilemas que o protagonista enfrenta, nesta dúvida de não saber mais quem é, de querer ser aplaudido como autor de sua criação e não como um produto sem identidade.

Da primeira a última cena, não nos deixa dúvidas de que não haveria outro ator - nem mesmo Wagner Moura - para interpretar o personagem título. Vladimir Brichta dá vida a Bingo e lhe entrega tudo, vai de encontro, lhe entrega alma. É irretocável sua construção. Chega a arrepiar em momentos como quando recebe um importante prêmio da TV ou quando comemora o primeiro lugar na audiência e faz um discurso ao vivo. Choca e prova não só a força dele como ator, mas a força de toda a equipe, do roteiro, da direção, que transforma cada pequeno evento em uma sequência memorável. Dos coadjuvantes, apenas Leandra Leal e Ana Lúcia Torre ganham espaço e isso acaba fazendo falta na trama. Personagens como a ex-esposa de Augusto e até a própria Gretchen não passam de figurantes de luxo, descartando talentos como os de Tainá Müller e Emanuelle Araújo. Mas o texto é ótimo e a interação entre todos eles funcionam durante todo o filme. Vale lembrar a pequena participação de Domingos Montagner como um palhaço. É um momento que, sem a intenção, se tornou doce e uma grande homenagem.

A direção de Daniel Rezende é uma grande surpresa. Ele faz milagres em cada sequência. É bonito de ver e acompanhar. Seus cortes e cores vibrantes dialogam bem com a loucura mental de seu protagonista. Auxiliado por um excelente design de produção, que dá vida aos bastidores da TV na década de 80 - que aqui é tratado com humor e nostalgia todos os exageros da época - e com ótimas canções na trilha sonora, "Bingo" se torna um grande, delicioso e revigorante espetáculo, além de provar a nítida evolução de nosso cinema.  

NOTA: 9,5




País de origem: Brasil
Duração: 113 minutos
Distribuidor: Warner Bros.
Diretor: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Cauã Martins, Augusto Madeira, Emmanuelle Araújo, Pedro Bial, Tainá Müller, Domingos Montagner


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Retorno

Passando para dizer que estou de volta. Depois de uma pequena pausa, decidi, enfim, voltar a escrever aqui no blog. Agradeço os comentários e fico feliz por saber que tem uma galera me acompanhando. 

Neste tempo me renovei. Eu precisava. Fiz um intercâmbio, viajei sozinho e me reencontrei. Me senti livre como há muito tempo não me sentia. Recomendo este tipo de experiência para todos. Despertou em mim, também, esta louca vontade de querer viajar e conhecer o mundo. Um pouco tardia até. Mas espero conseguir fazer isso outras vezes. Conheci pessoas, histórias e costumes tão distintos do meu. 

Durante este tempo não parei de ver filmes. Claro que em uma dose menor. Vou fazer um post, então, de tudo o que vi nesta pausa. Espero fazer boas recomendações! 

por Fernando Labanca



sexta-feira, 28 de abril de 2017

Uma pausa

Antes de simplesmente sumir resolvi me pronunciar por aqui e dizer que farei uma pausa no blog. Não que eu ache que as pessoas esperam por uma justificativa e não sei nem quantas pessoas perderão o tempo lendo esse texto. Mas vou dizer. 

Não sei o tamanho desta pausa. Pode durar dois meses, três meses ou quem sabe até mais. Portanto, como me distanciarei um pouco de tudo isso, vou aproveitar e agradecer às pessoas que visitam o blog, as que comentam e as que me enviam mensagens elogiando o trabalho. É sempre bom ter este retorno. Para aqueles que escrevem em blogs sabem desta estranha sensação de parecer escrever para o nada, para ninguém, logo, é sempre muito louco e gostoso de ver que suas palavras estão chegando, de alguma forma, para estranhos em algum canto do país. Então...um muito obrigado a todos vocês!

Várias pessoas já me questionaram do porquê minha página no Facebook ter tão poucas curtidas, assim como minha página no Instagram. A questão é que nunca fiz o blog pensando na curtida e fico feliz por isso. Claro que penso naquele que lê meus textos antes de postar, mas não deixa de ser um ato para mim também. Faço porque gosto, porque sinto prazer em falar sobre filmes e não estou preocupado no retorno que isso terá. Justamente por isso, espero uma hora voltar a escrever por aqui. 

Nesses últimos meses muitas coisas aconteceram na minha vida. Perdi algumas coisas importantes para mim. Fiquei sem chão por um período. Estou tentando me reerguer. Me reencontrar de alguma forma. Ver algo novo, me inspirar novamente. Surgiu, neste começo de ano, a oportunidade de um intercâmbio e espero poder usar desta experiência para viver aquele velho clichê de "me perder para me encontrar". Espero sentir coisas boas e recomeçar minha vida. 

Um obrigado a todos que me acompanham. Desejo o melhor a vocês.  

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Crítica: Fragmentado (Split, 2017)

A cada retorno de M.Night Shyamalan, os críticos e fãs do diretor se questionam sempre se ele enfim irá entregar um produto a altura de sua obra-prima,"O Sexto Sentido", e quando assistimos a um filme como "Fragmentado" não resta dúvidas de que esta é uma das perguntas mais injustas e patéticas do cinema. Sim, seu novo trabalho é incrível. E não, ele não tem a obrigação de provar nada para ninguém.

por Fernando Labanca

Gosto sempre de deixar claro quando sou suspeito para falar sobre algo e quando se trata de M.Night Shyamalan sou bem suspeito. Desde sempre acompanho a carreira dele e admiro muito suas escolhas até mesmo as mais duvidosas. Ainda assim, confesso, seus últimos trabalhos não me agradaram tanto, porém, de certa forma, sempre gostei do caminho que traçou e como ele sempre se recusou a fazer o que o público e os críticos esperavam dele. Há dois atrás quando lançou "A Visita", longe dos grandes estúdios, provou não ter perdido a forma e agora com "Fragmentado", o diretor volta a fazer o seu melhor. Creio que a obra seja a melhor de Shyamalan desde "A Vila" (2004) e olhando para os últimos anos, este é, sem dúvidas, seu projeto mais relevante e mais surpreendente de todos.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

15 comédias imperdíveis para ver na Netflix


Momento utilidade pública.

Escolher um filme na Netflix não é fácil. São horas de observação e um estudo intenso sobre o que vale ou não a pena clicar e assistir. Pensando nessas pessoas que não saem assistindo qualquer coisa que veem pela frente e preferem fazer um filtro, faço essa lista para ajudar nesta decisão tão difícil.

De fato, existem muitas comédias no site e se você curte o gênero, provavelmente deve ficar meio perdido no meio a tantas opções. Porém, nem tudo o que está na Netflix - precisamos ser sinceros - é bom. Tem coisa ruim também e em grande quantidade. Saber escolher é importante e espero que esta lista seja útil de alguma forma. Tentei trazer alguns clássicos da comédia (e alguns filmes que provavelmente todo mundo já viu), além de algumas produções interessantes e que foram adicionadas recentemente. E claro, como toda lista, bons títulos ficaram de fora e se sentirem falta de algum e que consideram "imperdíveis"...deixem nos comentários!

quinta-feira, 30 de março de 2017

Crítica: Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, 2016)

Baseado no livro de Patrick Ness, "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" é um exercício cinematográfico raro, de extrema beleza e de um encanto poucas vezes alcançado.

por Fernando Labanca

O diretor espanhol J.A. Bayona chamou a atenção de Hollywood com o excelente terror "O Orfanato" (2007). Anos depois comandou o drama "O Impossível" (2012), provando um talento por trás de histórias fortes, conseguindo ainda usufruir de forma eficiente ótimos efeitos visuais. Enquanto se assiste este seu novo trabalho, não resta dúvidas de que ele - vencedor do prêmio de Melhor Direção no último Goya - era o profissional ideal para dar vida a uma trama tão especial e ainda assim, de inúmeras dificuldades. Nada é fácil aqui e o diretor (e toda sua fantástica equipe) conseguiu criar soluções inovadoras, sem jamais esquecer a beleza de cada instante e o impacto que tudo aquilo teria naquele que assiste. A verdade é que existe beleza em cada frame, em cada personagem, em cada diálogo. É aquele produto feito puramente de coração e isso nos atinge de forma intensa, porque nada ali soa gratuito ou sem um grande conceito por trás. Tudo vem de forma honesta e profunda. Acima de qualquer avaliação que o filme vem a receber, estamos diante de algo lindo, mágico e inspirador.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Crítica: Quase 18 (The Edge of Seventeen, 2016)

Filmes com adolescentes e para adolescentes sempre são encarados com um certo preconceito por parte do público que acredita que não há inteligência neste subgênero. "The Edge of Seventeen" vem com um roteiro incrível para provar que ainda há espaço para um cinema teen de qualidade.

por Fernando Labanca

Ano passado, quando a obra foi lançada em alguns festivais começou um certo burburinho, além das premiações que começou a receber, na maior parte delas entregues à diretora debutante Kelly Fremon Craig. Foi então que comecei a me questionar sobre o que haveria de tão bom em um filme teen que parece debater os mesmos assuntos de sempre. Que delícia então me deparar com "The Edge of Seventeen" e me surpreender por sua alta qualidade, me surpreender pelos temas que aborda e pela maturidade com que soluciona seus tantos conflitos. Não é sempre que o cinema nos presenteia com obras como esta, com todo o frescor de um produto jovem e que em nenhum momento subestima nossa inteligência.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Crítica: É Apenas o Fim do Mundo (Juste la Fin du Monde, 2016)

Apesar de não ter sido bem recebido pelos críticos de Cannes - Festival onde foi exibido ano passado - o longa saiu vitorioso com o Grande Prêmio do Júri. "É Apenas o Fim do Mundo" marca o retorno do jovem diretor Xavier Dolan e se destaca pelo belíssimo elenco que conseguiu reunir em seu tão controverso drama familiar. 

por Fernando Labanca

Baseado na peça de teatro de Jean-Luc Lagarce, o filme nos revela a conturbada relação de uma família disfuncional que precisa lidar com o retorno de um dos filhos. Louis (Gaspard Ulliel) é um escritor que depois de doze anos afastado resolveu voltar e reencontrar sua mãe (Nathalie Baye) e seus irmãos (vividos por Vincent Cassel e Léa Seydoux) para dizer que sofre de uma doença e está prestes a morrer. O retorno não é nada fácil e no meio a tanta brutalidade e palavras não ditas, Louis se vê cada vez mais distante de realizar o que pretendia.


quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica: Moonlight - Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016)

Com visual impactante e uma trama repleta de simbolismos, "Moonlight" fala sobre preconceito, rejeição e sobre aceitação própria. Um relato duro, porém necessário. 

por Fernando Labanca

Apesar da gafe histórica da cerimônia do Oscar e todas as polêmicas ao redor de sua premiação, "Moonlight" mereceu o tão almejado troféu de Melhor Filme e tal acontecimento é extremamente relevante em nosso tempo. É lindo ver uma obra composta por atores negros e que aborda temas como preconceito e homossexualidade sendo celebrada. Mais do que representatividade, é um espaço que se abre para tantas discussões necessárias. O diretor Barry Jenkins conduz tudo de forma fascinante e ao assinar o roteiro - também premiado com o Oscar - encontra saídas inovadoras para traduzir sentimentos tão delicados e por muitas vezes indecifráveis, além de realizar um belo e profundo estudo de personagem. Dividido em três capítulos - Little, Chiron e Black - vemos na tela a construção de um indivíduo e todo o processo de aceitação que precisa enfrentar. A árdua jornada de alguém que busca descobrir quem é mesmo vivendo em um mundo que o rejeita constantemente. Mesmo vivendo de desejos que ele mesmo renega. Vivendo e sentindo a culpa de algo que não entende.