quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crítica: As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012)

Ang Lee é aquele diretor que sempre se permitiu reinventar, já trabalhou diversos temas e já realizou bombas como "Hulk" (2003) ou grandes filmes como "O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), no qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor. Mas uma coisa é única na carreira deste veterano taiwanês, ele sempre nos surpreende e com "As Aventuras de Pi" ele vai além do que já realizou e alcança um nível onde pouquíssimos diretores ousaram chegar. Baseado na obra de Yann Martel, assistimos uma das mais belas obras do ano, com seu argumento bem planejado, repleto de simbologias e mistérios a seus impecáveis efeitos visuais, que diferente de qualquer outro 3D já feito, este, auxilia em sua história.

por Fernando Labanca

Piscine Patel, é um indiano que mora na parte francesa do país, vive com sua família, onde são donos de um zoológico. Seu nome significa "piscina" no vocabulário francês e desde criança era alvo de piadas devido a isso, mas força a todos o chamarem de "Pi", aquele que no alfabeto grego significa "razão". Tinha a mente aberta e por isso se deixou acreditar por diversas crenças e diferente de sua família, era guiado por sua fé, se denominava muçulmano, católico e hindu. Eis que seu pai decide partir para o Canadá e vender os animais, colocando toda sua família e os animais num grande navio, eles não esperavam, porém, uma grande tempestade, matando todos que estavam ali dentro, exceto Pi, um tigre bengala, um orangotango, uma zebra e uma hiena, que partem em um pequeno bote. É então que conhecemos a sua aventura, após perder todos aqueles que amava tenta sobreviviver em meio a natureza, buscando encontrar significados para tudo aquilo e redescobrindo o amor de Deus e os misteriosos caminhos que Ele o guia.


O filme se inicia com aquela introdução básica, o escritor a procura de uma boa história para contar, é então que ele se depara com Pi (Irrfan Khan), já adulto, decidido a contar sobre sua aventura, dizendo ainda que ao seu final o escritor e quem tivesse acesso a sua jornada passaria acreditar em Deus. Bem longe de ser um filme gospel, a obra de Ang Lee dispensa rótulos e por mais que fé e religião sejam muito discutidas na trama, são pequenos elementos de um plano bem maior. Também em nenhum momento aponta o que é certo e errado, só nos dá a todo instante argumentos para nossa própria reflexão. É exatamente isso o que "As Aventuras de Pi" é, reflexão. É daquelas raras obras onde se deve ver apenas com o coração e não tanto com os olhos, por mais que seu visual nos prenda, estão nas simbologias as respostas para tudo, se é que elas realmente existem e acredito que este seja o grande mérito deste filme, assistimos a tudo acreditando ser algo totalmente simples é então que em seu final compreendemos a grande brincadeira do roteiro, muito maior do que aparenta ser, muito mais reflexivo do que parece ser. Pequenos detalhes ao longo do filme, cada parte tendo sua função, nada está a li por mero acaso, repleto de símbolos e alegorias, a jornada de Pi pode surpreender muita gente que esperava encontrar apenas um visual 3D.

Um jovem indiano, um tigre, um barco e um imenso oceano. Basicamente é isso o que vemos na tela grande parte do filme. Lendo até parece algo impossível de se fazer, difícil imaginar como desenvolver uma história e prender a atenção do público apenas com esses elementos. É então que surge a grandiosidade e genialidade de Ang Lee, fazendo tudo isso ser possível e com uma qualidade indiscutível. A primeira parte, bastante didática pode parecer cansativa para muitos, no entanto é de extrema importância para o resto da aventura, mas é quando surge a tempestade e Pi se vê obrigado a partir com os quatro animais é que o filme ganha sua força. Tudo extremamente bem realizado, efeitos especiais que surpreendem pelo realismo, como o tigre bengala, onde não sabemos ao certo quando ele é real ou feito por CGI, além de seu estonteante visual, sendo um dos mais belos filmes a passar pelos cinemas este ano, é tudo muito mágico, bonito de se ver, paisagens fortes que ficarão na memória muito tempo depois do filme terminar. Ganha ainda mais pontos quando o incrível visual não tira o brilho de sua história, sendo ela que nos prende, mesmo que num cenário tão limitado, "As Aventuras de Pi" consegue falar sobre muita coisa, indo muito além do jovem tentando sobreviver, de Pi tentando adestrar o animal feroz, é uma longa jornada de autodescobertas, é sobre Deus, um tema quase que tabu para o cinema onde pouquíssimos roteiros tiveram a ousadia de por em discussão e surge desta vez sem hipocrisia e sem ofensas. É também sobre a relação do homem com a natureza, é belo a relação de Pi com o tigre, ele insiste em dizer que vê alma nos olhos do animal e não apenas sua alma refletida como dizia seu pai. É sobre perdas, onde em um dos momentos mais emocionante do filme, o jovem indiano sofre mais por ter perdido a quem amava do que por ter sobrevivido e como diz em certo momento que a vida é puro desafeto, vemos pessoas que amamos indo embora e jamais temos a chance de nos despedir. Mais do que tudo isso, é também sobre aquele antigo sentimento que nos dá força para lutar, a amizade.

Os atores que interpretam Pi ao decorrer de sua vida dão conta do recado. Se Irrfan Khan consegue passar aquela expressão de experiência e comoção diante de sua própria história, os pequenos atores convencem ao vivenciar as curiosidades de sua infância. Destaque ainda maior para o jovem Suraj Sharma que interpreta Pi a maior parte do tempo, em um papel nada fácil de se fazer, coloca sentimento, fúria, coragem, é através dele que enfrentamos esta aventura, ele que traduz o que se passa, e convence em cada momento, carregando o filme como um grande protagonista. Ainda encontramos o veterano Gérard Depardieu em uma pequena participação, mas bastante importante. Além do elenco, o longa ainda possui outros pontos positivos como sua belíssima fotografia, assinado pelo chileno Claudio Miranda, mais conhecido por seus trabalhos ao lado do diretor David Fincher, como "Benjamin Button" e "Zodíaco", além do fantasioso "Tron Legacy". É tudo extremamente belo o que vemos na tela, ganhando uma proporção ainda maior quando entra em cena a sensível trilha sonora de Mychael Danna. Enfim, um grande espetáculo visual e sonoro. 

Em um pensamento muito antigo, nós seres humanos, nos vemos presos entre dois únicos caminhos, o caminho do coração e o da razão. "As Aventuras de Pi", porém, nos oferece os dois caminhos, e esta é a grande genialidade da obra. O que vemos a todo instante é o coração falando, ao seu final conhecemos a razão, o roteiro então, nos oferece duas respostas, e nos deixa livres para fazer nossas escolhas, a história deixa de ser apenas de Pi, passa ser nossa também, nós escolhemos como contar, mais do que isso, nós escolhemos como interpretar tudo o que vimos. Ou seja, este texto acima nada mais é o que eu vi do filme, podendo ser diferente de qualquer outra pessoa. Este é Ang Lee, servindo o público com uma obra capaz de entreter, mas sem subestimar sua inteligência. Muito mais do que "visual", o que vemos é um trabalho de gênio, com um roteiro brilhante e surpreendente, surpreendente simplesmente por ser muito maior do que aparenta ser, uma obra complexa que nos oferece grandes reflexões. Um filme belo e único, uma das experiências mais fantásticas do cinema em 2012, onde até mesmo seu 3D faz a diferença. Memorável...recomendo!

NOTA: 9



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crítica: O Hobbit - Uma Jornada Inesperada (An Unexpected Journey, 2012)

Baseado em uma das obras literárias mais influentes do século passado, "O Hobbit" de J.R.R Tolkien, não poderia surgir nas telas pelas mãos de outra pessoa a não ser de Peter Jackson, diretor experiente neste universo, no qual também nos trouxe a trilogia "O Senhor dos Anéis". Retornando à Terra Média e a todos aqueles elementos clássicos que há onze anos já reunia inúmeros fãs pelo mundo, "Uma Jornada Inesperada", mesmo possuindo suas falhas, tem tudo para agradar os admiradores de Tolkien, mais do que isso, conquistar um novo público.

por Fernando Labanca

Nesta primeira parte da nova trilogia, reencontramos Bilbo Bolseiro (Iam Holm) decidido a contar a Frodo (Elijah Wood) sobre uma antiga aventura que vivenciou há longos anos atrás, quando mais jovem (interpretado por Martin Freeman). Bilbo, o Hobbit, é aquele ser que não troca nada pelo conforto de seu lar, que gosta de receber visitas e oferecer seu chá, que desconhece o mundo lá fora, mesmo que tenha descendentes aventureiros. Eis que certo dia, Gandalf (Iam McKellen), um mago, decide marcar uma visita, o que Bilbo não esperava é que além dele, aparece treze anões, prontos para uma grande jornada. Munidos apenas de um mapa, mantimentos e muita coragem, estavam em busca de um décimo quarto guerreiro, mais especificamente, de um ladrão e Bilbo fora o selecionado. O plano seria seguir para as Montanhas Solitárias e libertar o reino de Erebor, no qual o dragão Smaug mantinha um antigo tesouro que antes pertencia aos anões. Porém, nesta Campanha, acabam encontrando diversos obstáculos, entre eles, trolls, orcs e uma criatura sinistra chamada Gollum. 


"O Hobbit - Uma Jornada Inesperada" retorna aquele clássico universo já explorado na trilogia "O Senhor dos Anéis" e devido a isso já consegue agradar. É muita emoção ver tudo aquilo novamente, quando "O Retorno do Rei" chegou ao seu fim, parecia que jamais veríamos a Terra Média mais uma vez, eis que Peter Jackson, mesmo com tantos problemas na produção e no desenvolvimento deste antigo projeto, nos presenteia com este filme, nos fazendo rever aqueles personagens que tanto nos afeiçoamos como Gandalf e Gollum, entre outros, além de toda aquela paisagem e também a trilha sonora mais uma vez assinada por Howard Shore, nos dá aquele sentimento de "estamos de volta". Por um lado isso é ótimo, por outro, Jackson, de fato, não inova em muita coisa, além dos efeitos especiais extremamente bem feitos que chocam pela perfeição, não há nada de novo em "O Hobbit", onde o diretor não arrisca, seguindo a mesma fórmula de seu sucesso, ainda que tenha uma trama tratada de forma muito mais infantil e mais didática.

Um detalhe que antes mesmo de ver o filme já me incomodava era o fato de terem a grandio$a ideia de fazer uma nova trilogia, mesmo sendo nítido que não havia conteúdo para tanto. Assistindo ao longa, não me convenceram de que eu estava errado, pois de fato, não há muito a ser contado e enquanto que em "O Senhor dos Anéis" tudo era resumido para se ter tempo de contar tudo, aqui, eles aplicam o inverso, prolongam o que não há, detalham o que não existe, em longas 2 horas e 49 minutos. Extremamente desnecessário, poderiam ter cortado muitas coisas, cenas que não haviam no livro e que nada acrescentam na trama, como a aparição do Mago Radagast, o guardião da floresta, que surge do nada e desaparece do nada, e a sequência da luta entre as rochas, muito bem feita, aliás, mas inútil ou o "vilão" Azog, criado apenas para se ter mais o que filmar. Além de uma necessidade que o roteiro tem de tentar criar um link com a trilogia anterior, somando passagens que nada alteram neste filme, como a presença de Frodo, Saruman e Galadriel, mesmo que na trama ainda há um propósito para suas aparições, se retiradas, não fariam falta. É inegável, porém, que o roteiro, também assinado por Jackson, ao lado de Guillermo Del Toro, Philippa Boyens e Fran Walsh, acertam na adaptação, tudo o que há no livro há no filme (não que isso seja necessário para uma adaptação), claro que uma coisa ou outra são modificadas, mas são extremamente fiéis à obra original, diria que respeitam e muito o que Tolkien fez. No entanto, é neste mesmo roteiro o ponto mais fraco do filme, prolongando o desnecessário, tudo para se ter um filme de três horas, sendo que não há um porquê para isso e nada aqui justifica a criação de uma trilogia.

O roteiro também peca ao tentar romantizar demais toda esta jornada, dando espaço para frases prontas e clichês relacionados à honra, coragem e bondade, tudo o que o cinemão de Hollywood sempre fez questão de fazer em filmes do gênero. As cenas de ação são incrivelmente bem trabalhadas, em questão de efeitos especiais, no entanto tudo surge de forma um pouco confusa, como a batalha dos anões com os orcs ou a chegada dos lobos nas montanhas. A aventura perde ainda mais pontos quando tudo é resolvido da mesma forma, a chegada triunfal de Gandalf, que desaparece e do nada sempre surge para salvá-los. Tudo bem que no livro já era assim, mas no cinema isso parece ser ainda mais desinteressante. Porém, vale citar também a bela introdução da invasão de Smaug em Erebor, um dos grandes momentos do filme, além, é claro a presença de Gollum e as expressões fantásticas de Andy Serkis.

O ponto alto desta jornada definitivamente é o carismático elenco. Não consigo imaginar outro ator a interpretar o jovem Bilbo além de Martin Freeman, ele é o que há de melhor em "O Hobbit", expressivo, engraçado, um ator talentoso que facilmente conquista nossa empatia, torcemos por sua aventura, onde mais do que encontrar o ouro de Smaug, precisava se provar competente para isso, o nascimento de um grande guerreiro. Ian Mckellen é Gandalf, ponto. A surpresa fica por conta de Richard Armitage, que interpreta o anão Thorin, definitivamente, uma revelação. Do restante, todos ótimos. Além das atuações, o filme tem outros grandes méritos como a trilha sonora que trás temas bem marcantes ao longo da aventura, os efeitos, tanto especiais como sonoros, e cenários, fotografia e figurinos que provam um cuidado de toda a produção para com este projeto. 

Por fim, "O Hobbit - Uma Jornada Inesperada" peca pelo exagero, por estender no que não precisava, colocando diálogos, sequências, personagens que nada alteram a história. Já superei o fato de haver uma trilogia, mas é difícil enfrentar as quase três horas de filme da primeira parte, apenas. O filme acaba e diferente da trilogia, não há nenhum grande momento, aquele que fica na memória e faz o longa ter valido a pena. No mais, um filme de aventura eficiente, repleto de defeitos, mas consegue, no mínimo, agradar, tem capacidade também de conquistar um novo público. É divertido, tem bom humor e grande parte das piadas funcionam, os personagens são bons e são por eles que conseguimos enfrentar estes longos minutos de duração. Acredito que "O Hobbit" tenha belas intenções por trás de suas falhas como cinema, a trajetória de Bilbo, por mais sutil que seja, emociona, todos sabem sobre suas deficiências, todos apontam sobre tudo aquilo que ele é incapaz de fazer, e o mundo é assim, repleto de pessoas que nos farão menores do que somos e esta aventura que surge em sua porta é a chance de se provar grandioso, provar que é capaz mesmo quando todos dizem que ele não é. De longe, não é o melhor de Peter Jackson e pouco se compara à saga do Anel, espero que as próximas partes tenham o conteúdo como prioridade, não seu faturamento. 

NOTA: 7




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Crítica: 2 Coelhos (2012)

Sei que muitas pessoas já desejaram ver um filme nacional como este. Grandioso, com efeitos especiais, muitas cenas de ação, muito barulho e explosões. Ainda que carregue em si, um tom crítico, muito comum no cinema do Brasil, "2 Coelhos" é entretenimento puro, claramente inspirado nas grandes produções hollywoodianas e que não deixa nada a desejar a concorrência, e diferente da fonte em que bebe, ainda consegue, acima de tudo, trazer conteúdo, com muito estilo e inteligência.

por Fernando Labanca

Edgar (Fernando Alves Pinto) é um cara que vive na cidade de São Paulo e tem sua vida alterada quando, em um acidente de carro, mata uma mulher e seu filho. Devido a grande influência de um deputado, consegue se livrar da prisão e assim, passa uma temporada em Miami e quando retorna, depois de dois anos, decide por em prática seu elaborado plano e como em nenhum momento em sua vida, agora tinha uma missão a ser cumprida, tinha um porquê de estar vivo. Com uma bomba que funciona através de um sensor de proximidade, Edgar arquiteta toda uma estratégia, envolvendo diversas pessoas, em diversas situações, para um único propósito, matar dois coelhos em uma cajadada só, eliminando o deputado que o salvou, símbolo do falho sistema de justiça, e também um criminoso, Maicon (Marat Descartes), que sempre escapou da prisão devido ao suborno de políticos influentes. E para este plano, também entra em ação, Julia (Alessandra Negrini), uma promotora pública que possui informações necessárias e que é uma peça fundamental para todo o quebra-cabeça.


Quem assistir "2 Coelhos" estará diante de muitas inovações, no que diz respeito ao cinema nacional. O diretor Afonso Poyart, por incrível que pareça, seu primeiro longa-metragem, oferece ao público um leque de surpresas, de animações 3D, efeitos especiais extremamente bem-feitos, explosões, e referências a cultura pop e nerd, tudo o que raramente vimos por aqui e de forma tão competente. Chega até ser estranho ver atores brasileiros em meio a todas essas intervenções e cenários, como a cidade de São Paulo ser palco de sequências eletrizantes, deixando qualquer produção estrangeira no chinelo. É estranho, mas ao mesmo tempo, prazeroso, dá aquele orgulho de ver um cinema nacional, mesmo que feito para a massa, ter tantas qualidades, e mesmo diante de tantos efeitos, oferece ainda conteúdo, uma história bem contada, um roteiro bem planejado, cheio de reviravoltas e um final surpreendente, e tudo isso exposto para as telas pelas mãos de um novato, mas extremamente talentoso diretor, que acerta ao buscar referências lá fora, acerta mais ainda, por superá-las. 

O melhor deste filme é que mesmo tendo tantas inovações visuais, não as tem como única coisa boa a oferecer, percebemos isso quando nos sentimos fortemente atraídos pela história, pelo louco plano do protagonista, onde aos poucos um complexo quebra-cabeça vai sendo montado. Como Edgar mesmo diz em certo momento, "Ás vezes, a gente precisa se distanciar do papel para enxergar o desenho todo, com mais clareza". O roteiro assinado também por Poyart, aposta nesta premissa, e nós, como público, precisamos estar atento a cada informação mostrada, e tentarmos a cada passo das situações, enxergar com uma certa distância os fatos para tentarmos entender os porquês, como se um segundo filme acontecesse em nossa mente, logo que os acontecimentos são narrados em ordem não cronológica, opção que faz desta ideia algo muito mais interessante. Um ponto crucial é nos dado, a morte da família e este momento vai sendo reprisado durante a trama, no entanto, a cada vez que a vimos nos é apresentado um outro ponto de vista e quanto mais repertório temos sobre aquele universo de Edgar, enxergamos aquele momento com outros olhos. O roteiro brinca sabiamente com essas jogadas, se aproximando e se afastando dos acontecimentos e a cada novo looping, vemos tudo de forma diferente, até chegarmos ao seu final, quando tudo faz sentido e não há como não se emocionar com o resultado final. O bom roteiro também sabe brincar com seus personagens, tudo funciona quase como um tabuleiro de xadrez, cada um tem sua função muito bem definida, no entanto, demoramos a entender exatamente quais são elas e até este momento de revelação, nunca sabemos os planos de cada um e de que lado eles estão. Enfim, uma trama surpreendente, onde cada passo é uma surpresa, surpresas que de fato, são muito agradáveis. 

Fernando Alves Pinto tem uma longa carreira como ator, principalmente nos cinemas, mas infelizmente nunca teve seu reconhecimento a até hoje passa despercebido pelo público. Este, com certeza, foi um de seus maiores projetos, espero que o reconhecimento chegue. Parece entender a loucura de seu personagem, convence e encara bem o filme como protagonista. Alessandra Negrini também surpreende ao abandonar os trejeitos televisivos para encarnar a mocinha no cinema, não se mostra perdida a todas as intervenções visuais e prova ter sido uma boa escolha para o papel. Os coadjuvantes são ótimos, Caco Ciocler, que emociona com seu frágil personagem, Marat Descartes que rouba a cena com seu vilão, além do carisma de Thaíde, Neco Villa Lobos e Robson Nunes. 

Por trás da violência, dos palavrões, que claro, não poderiam faltar se tratando de um filme de ação nacional, "2 Coelhos" é repleto de boas intenções, que dá uma volta em seu louco, complexo, divertido e inteligente roteiro para chegar a um final surpreendente, que agrada, que emociona, que nos faz sentir que toda aquela viagem valeu muito a pena. Um filme que se admite ser feito para entreter, é feito para a massa e isso em nenhum momento o diminui, muito pelo contrário, é entretenimento de qualidade, que abusa de efeitos especiais para contar uma boa história, o que já é muito raro, e ainda mais no Brasil, mais raro ainda, é tipo o que Michael Bay jamais conseguiu fazer lá fora e Afonso Poyart conseguiu em seu primeiro filme. Excelente roteiro, excelente diretor, excelentes atores. Para completar, ainda nos deparamos com uma bela fotografia, uma edição dinâmica e bem feita e uma incrível trilha sonora, assinada por André Abujamra e Marcio Nigro, de nacionais como Matanza e Lenine às internacionais de Radiohead, emocionando com sua "Exit Music" e 30 Seconds to Mars e seu clássico "Kings and Queens", muito bem inseridas nas cenas. Em suma, "2 Coelhos" representa o Brasil muito bem, diverte e entretém de forma bastante eficiente. Recomendo. E muito. 

NOTA: 9




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Crítica: Curvas da Vida (Trouble With the Curve, 2012)

Fugindo um pouco a regra, Clint Eastwood, depois de muitos anos, surge nos cinemas como protagonista de um filme no qual não dirige. Comandado por Robert Lorenz, que por sua vez, foi diretor assistente de alguns filmes de Clint, como "Menina de Ouro" e "Sobre Meninos e Lobos", aparece interpretando o papel que sabe fazer de melhor, o velho durão e ranzinza, ao lado da sempre adorável Amy Adams e do promissor Justin Timberlake.

por Fernando Labanca

Eastwood interpreta Gus Lobel, um veterano olheiro do baseball, que trabalha para um importante time buscando novos talentos, mas se recusa a se inserir nas novas tendências de mercado, onde um computador é capaz de realizar seu trabalho, ele ainda aposta em seu feeling, o que acaba incomodando algumas pessoas com quem trabalha. Para piorar, começa a ter problemas com sua visão, mas é incapaz de abandonar seu posto, jamais aceitando que a idade chegou. Para impedir que Gus seja descartado, Pete (John Goodman), um antigo amigo, pede ajuda de Mickey (Amy Adams), filha do veterano. Mickey, porém, é uma advogada de sucesso prestes a dar um grandioso passo em sua carreira, mas decide abandonar tudo para reencontrar seu pai, a fim de preencher o abismo existente entre eles, mais do que ajudá-lo, queria enfim compreender o porquê de ter sido abandonada. 


"Curvas da Vida", por certas vezes, até parece um filme dirigido pelo próprio Clint. Claro que vê-lo em cena por si só, já dá esta sensação, entretanto, é nítido que Lorenz aprendeu e muito com o veterano. A fotografia também ajuda, as imagens que vemos é puramente "eastwood" e o ator, por sua vez, parece reviver seu papel de Gran Torino, por, obviamente se sentir a vontade neste tipo de interpretação, mas também pela falta de inovação em sua performance. No entanto, este longa, ainda assim, é um projeto menor, de pequenas ideias, tem história fácil, onde tudo é muito correto, bem desenvolvido, mas é tudo muito previsível. O roteiro assinado pelo novato Randy Brown erra ao caminhar por caminhos já percorridos, criando personagens já escritos e finalizando sua trama de forma já concluída. No entanto, é válido citar que ainda há seus acertos, como alguns diálogos que divertem pelo humor sutil, mas eficiente e também por aqueles momentos de emoção fácil, tudo, é claro, ajudado pelo grande elenco que faz desta obra um projeto muito maior do que deveria ser.

A previsibilidade da obra tem grande culpa pelo tanto de estereótipos que o roteiro insiste em personificar. O veterano durão e teimoso, que sempre opta pelos velhos modos, onde parece não haver oscilações em sua personalidade, ele é isso e ponto. E quando já conhecemos nosso "herói" toda a trama só poderia caminhar por um caminho e é exatamente isso o que acontece, seu reencontro com a filha diverte e por vezes, emociona, mas é tudo muito previsível, quando já no início sabemos como este conflito se resolveria. A presença de Johnny, interpretado por Justin Timberlake, trás bons momentos e sua relação com Mickey também é bastante óbvia, apesar de adorável. O estereótipo continua com o personagem secundário Bo Gentry, um jogador de baseball, metido a machão, onde o roteiro parece querer ter a certeza que nós, como público, vamos odiá-lo, não há nada de bom em sua personalidade, tudo porque para se ter um final feliz ele teria que ser insuportável, mas acabam criando um personagem patético e totalmente fora da realidade e com todo o seu desenvolvimento, o roteiro prova sua fragilidade e imaturidade também, assim como a presença de Matthew Lillard, feito para torcemos contra. 

No entanto, no meio de tantos erros, nos afeiçoamos a este trio de protagonistas. Apesar de previsível, a relação entre pai e filha é bem trabalhada. Fantasmas do passado que aos poucos vão sendo revelados, sentimentos presos durante anos que aos poucos vão sendo explorados. Em pequenos detalhes, ainda é possível enxergar alguma riqueza nesses dois personagens. Mickey que abandona todo seu sucesso para reviver o passado, compreendendo que seu futuro nada valeria sem descobrir as incógnitas daquilo que ficou para trás. É belo quando percebemos que o destino dos dois foi traçado por aquilo que ocorreu no passado, ou devido aquilo que não ocorreu. Mickey que sempre lutou para ser a melhor em sua profissão, tentando provar para o pai que ela poderia ser incrível e que ele estava errado em abandoná-la. E Gus que preferiu abandonar sua filha ao perceber que nunca seria capaz de protegê-la. E no meio disto, surge Johnny, que devido a um problema nos braços, precisou abandonar sua carreira e por pura ironia do destino precisou traçar um outro plano, diferente daquilo que ele realmente desejava. São nessas reflexões que compreendo o título do filme, que para muitos é ruim, no entanto eu vejo um sentido. As curvas da vida, aquela manobra que o destino dá, sem aviso prévio, e que faz nossas vidas mudarem completamente. O que teria sido de Johnny se tivesse uma saúde perfeita? Teria ele realizado seu sonho? O que teria sido de Mickey se tivesse sido amada pelo próprio pai, logo que este desafeto a guiou para todas as suas realizações? O que teria sido dos dois sem aquele incidente do passado? Teriam sido felizes? Respostas que o tempo jamais responderá, problemas que surgiram destas curvas e tiveram que aceitar.

"Curvas da Vida" tem em seu elenco seu grande mérito. Clint Eastwood que apesar de já ter feito este papel, temos que admitir que ele faz muito bem, convence e sabe emocionar quando precisa. Justin Timberlake, como disse anteriormente, é um ator promissor, por mais difícil que seja confessar isso, o cara tem talento, tem carisma e ao lado de Adams, com quem tem uma deliciosa química, realiza cenas adoráveis, apaixonantes e salvam grande parte do filme. Já Amy Adams é quem realmente rouba a cena, é muito fácil dizer que este filme não seria nada sem esta grande atriz, ela brilha, encanta, tem carisma de sobra, seu sorriso parece nos fazer esquecer de tudo e quando encara uma cena dramática prova toda sua potência, dá o melhor de si, é belíssimo o que Adam realiza aqui, é definitivamente o grande destaque da obra e é por ela que tudo isso vale a pena. Ainda temos John Goodman, sempre ótimo.

Um filme pequeno, de poucas ideias e quase nada de inovação, mas que se salva por seus atores. No entanto, apesar de seus inúmeros clichês e estereótipos, "Curvas da Vida" é um filme que merece ser visto, jamais descartado, tem boas intenções, há boas cenas, bons diálogos e um trio de protagonistas que nos envolvem por mais que já conhecemos suas respectivas jornadas. Da comédia sutil, do romance ao drama familiar, tudo é bastante adorável, diverte como deve divertir e emociona na dose certa, sem apelações. Claro que é um filme de atuações, seu elenco é maior que o próprio projeto e já me utilizando de um antigo clichê, "dentro de sua proposta funciona", e posso dizer, que funciona muito bem. Para sair da sala de cinema com um sorriso no rosto e bem consigo mesmo. Tem seus erros, mas se mantém a todo tempo acima da média. Recomendo, mas não crie grandes expectativas.

NOTA: 7,5





sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Crítica: 007 - Operação Skyfall (Skyfall, 2012)

Comemorando o 50º aniversário da mais longa série do cinema, "James Bond" chega nas telas com seu vigésimo terceiro filme, sendo o terceiro com Daniel Craig na pele do agente. Nada mais justo que contratar um diretor competente para tal celebração, Sam Mendes, o nome por trás de obras-primas como "Beleza Americana", "Foi Apenas um Sonho" e "Estrada Para Perdição", realiza aqui o que muitos apontam como o melhor de toda a série, mais do que isso, Mendes faz de 007 um dos melhores filmes do ano.

por Fernando Labanca

Ok, confesso. Sou a pior pessoa para analisar algum filme de James Bond, nunca fui fã, muito pelo contrário, sempre fugi desta série, nunca entendi o porquê dela ser tão longa e o porquê o cinema ainda apostar nela. Eis que nos últimos anos, com a entrada de Daniel Craig, tudo pareceu ter dado uma repaginada, e fui aos poucos o enxergando com um filme de ação assistível. Em 2012 quando lançado o tão esperado trailer de "Skyfall", pensei comigo mesmo...por que não? Foi então que decidi ir atrás do prejuízo, assití o mínimo que precisava para entender o novo filme, "Cassino Royale" e "Quantum of Solace". Para minha surpresa, queimei minha língua, os dois filmes me surpreenderam de forma bastante positiva, principalmente o primeiro e toda sua história bem elaborada e incríveis cenas de ação, e claro, tinha a presença estonteante de Eva Green. Portanto, este é ainda meu terceiro de toda a série, quem sou eu para compará-lo com os demais? Dentre os três, é de longe, o melhor...fato! Vou tentar analisá-lo de forma isolada, pois no fundo, é isso o que "Skyfall" é, um novo filme de James Bond, sem muita ligação com que já fora feito até aqui, é o primeiro passo para uma nova jornada. Sam Mendes faz deste filme o que Paul Greengras fez com o gênero ação ao lançar os dois últimos filmes de Jason Bourne e, principalmente, o que Chris Nolan fez com o Batman na sua nova saga, aliás, tem nítida inspiração na trilogia de Nolan.

O filme já inícia com uma grandiosa cena de ação, como de costume, aquela introdução básica, no entanto, aqui somos surpreendidos, quando o plano dá errado e James Bond (Craig) é dado como morto. Isolado numa ilha, ele descobre através de noticiários os novos acontecimentos onde a vida de M (Judi Dench) corre perigo. Ela, que perdeu um HD contendo informações secretas como o nome dos agentes infiltrados em células terroristas, passa a ser perseguida, onde este vilão trascende o real, é um hackeador mestre capaz de controlar tudo o que deseja. Bond, então, retorna, pela nação a quem sempre protegeu e por M. Ele, com a ajuda da agente Eve (Naomi Harris) cruza o planeta afim de encontrar o ladrão, e acaba se deparando com Silva (Javier Bardem), um ex agente do MI6, que tem além do poder de controlar tudo, a sede de vingança dos anos em que trabalhou lá, trazendo a tona segredos não revelados do passado e fazendo Bond se questionar sobre sua escolhas.


A palavra que define "Operação Skyfall" é surpreendente. A história é boa, convence, havia muito tempo em que não me deparava com um filme de ação como este, com direito a espionagem e cenas de perseguição de deixar o queixo caído, tudo com um propósito, o roteiro que conseguiu organizar tantas ideias, construir personagens tão bons que diferente de outros filmes do gênero, não eram apenas peças no tabuleiro. Surpreende a cada passo que a trama segue, desde as primeiras cenas fugindo da previsibilidade, onde o mocinho falha e James Bond deixa de ser o herói indestrutível e robótico, e o vilão tão complexo que nos confunde, já não sabemos do que ele é capaz e de como todo aquele jogo irá terminar. Parece haver um padrão para os filmes de 007 e "Skyfall" consegue quebrar com todos eles. Surpreende ainda pelos pequenos detalhes, como quando Q (Ben Whishaw) zomba de Bond ao dizer se ele esperava uma caneta que explodia, ou quando o caseiro (Albert Finney) lhe entrega um canivete mesmo quando ainda possuía enormes e potentes armas de fogo, momentos que também definem este novo filme, onde todo o roteiro parece caminhar para eles, como quando M é questionada sobre estar velha demais para fazer o que faz, "Operação Skyfall" é uma celebração do antigo, dos velhos modos, e mesmo com uma nova roupagem, novos artifícios para conquistar um novo público, jamais se esquece daqueles que o seguiram durante estes vinte e três filmes, mais do que isso, usa este discurso como prova de que o experiente também é capaz de inovar, e mesmo depois de tantos anos, 007 ainda tem espaço no cinema, e toda a equipe envolvida neste projeto, conseguiu, em 146 minutos, provar isso.

O que chama ainda a atenção é sua elegância, do humor refinado aos diálogos rápidos e muito bem elaborados, ao seu visual, com bons efeitos visuais, fotografia impecável, imagens encantadoras, os cenários, as incríveis locações que fazem de 007 ganhar uma proporção ainda maior, dos automóveis, figurinos, enfim, elementos tão bem cuidados que não tinha como dar errado. É interessante o cuidado da produção com o visual, querendo ou não, fazem a diferença e com as mãos de Sam Mendes o resultado é ainda mais positivo, pois ele transforma cada cena em eventos grandiosos. Ainda temos, o clipe de introdução, dessa vez ao som de Adele, muito boa a canção e as imagens que surgem ao fundo são de um primor admirável, assim como todo o filme.

Os atores tiverem ainda mais chance neste novo 007. Daniel Craig, no entanto, não tem muito o que fazer ali a não ser o de sempre, convence como agente, durão, mas são os coadjuvantes que se destacam. Naomie Harris surge belíssima, muito diferente do que conhecemos, a eterna Tia Dalma de Piratas do Caribe, é carismática e faz bonito em cena. Judi Dench é Judi Dench, sempre incrível, não há nem muito o que discutir, parece se divertir na pele de M, mas dessa vez trás um tom mais sério a sua personagem, ganhando mais destaque na história e realizando grandes cenas. Do elenco, ainda encontramos astros do cinema britânico como Albert Finney, Ralph Fiennes, Ben Whishaw e Helen McCrory, todos ótimos. Porém, quem acaba roubando a cena é o vilão, o grandioso vilão, Javier Bardem, totalmente transformado, o ator surpreende, trás humor e complexidade e eleva ainda mais o nível da produção.

"Operação Skyfall" é um marco, definitivamente. Uma obra que merece ser vista, para quem gosta de espionagem e cenas de ação não se decepcionará, o filme oferece o que há de melhor em tudo isso, as cenas são incríveis, um conjunto de efeitos visuais e sonoros, direção extremamente competente, somado a uma trilha sonora que faz a diferença, assinada por Thomas Newman. Recomendo também para aqueles que nunca acompanharam 007, é um novo início que merece uma chance. Recomendo, acima de tudo, para aqueles que admiram uma obra de qualidade, um filme de ação raro, daqueles que surgem de tempos em tempos, onde há profundidade nos personagens, há atores decididos a fazer algo muito além do mesmo, há um roteiro bem escrito e um diretor, que definitivamente, não brinca em serviço, sabe o que faz e faz muito bem, porque fazer o que Sam Mendes fez aqui, não é para qualquer um. Não sei dizer se é o melhor da série, mas sei dizer, com toda a certeza, é um dos melhores filmes deste ano.

NOTA: 9,5 




domingo, 18 de novembro de 2012

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012)

Desde já, um clássico do cinema contemporâneo.

por Fernando Labanca

Baseado no livro de Stephen Chbosky, que também escreveu e dirigiu o filme. Tem sua trama guiada através de cartas destinadas a um anônimo, escritas por um garoto deslocado e tímido contando sua vida no início do colégio, enfrentando seu maior medo...não ser aceito por nenhum grupo. A história se passa no começo da década de 90, tendo então o cuidado da produção em reinventar aquela época, desde os figurinos e detalhes saudosistas como as fitas cassetes, além da trilha sonora, muito bem selecionada. "As Vantagens de Ser Invisível" ainda conta com atuações marcantes de um trio extremamente talentoso, Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller.

Conhecemos Charlie (Lerman), aos seus dezesseis anos, iniciando seu colégio. Solitário, não consegue interagir com outras pessoas, além de ter que conviver com alguns dramas do passado como a morte de seu melhor amigo e de sua tia, a pessoa que mais o inspirava. Sente que não faz parte daquele mundo e a única pessoa com quem consegue conversar é seu professor de inglês (Paul Rudd). Até que tenta forçar amizade com um dos veteranos, o carismático Patrick (Miller), que logo o apresenta a seu grupo, o grupo dos desajustados, jovens não populares que seguem seus próprios caminhos. É neste grupo que ele conhece também, Sam (Watson), com quem logo se apaixona. Pessoas que o fazem sentir finalmente vivo, que lhe provam o que é amizade e juntos enfrentam os dilemas dessa fase, do uso de drogas, homossexualismo, sexo, onde tudo é novidade e tudo é muito mais intenso.


Escrito e dirigido pelo próprio autor do livro, é nítido o quão pessoal é esta obra para Stephen Chbosky, talvez somente ele seria mesmo capaz de levar esta ideia de forma tão honesta, tão verdadeira, se fosse outra pessoa, quem sabe "As Vantagens de Ser Invisível" se tornasse algo banal, logo que o que vemos na tela não é nada tão original assim, a história do garoto deslocado, sofrendo bullying, os dilemas da adolescência, amizade, enfim, elementos que já estiverem presentes em outros títulos e este tinha tudo para ser mais um, mas não é. O trunfo do filme está em suas entrelinhas, não exatamente sobre o que ele conta, mas sim, como ele conta. É um filme sobre uma geração, é sobre sentimentos, muitos longas já nos mostraram sobre o que é ser jovem, mas nunca de forma tão sincera como este, um dos únicos que realmente entende o que é ser jovem, de forma madura, crua, levando a sério até mesmo os conflitos mais pequenos da adolescência, trazendo a intensidade necessária para cada situação, nos envolvendo, nos encantando com cada cena, cada personagem, vivenciamos cada passagem, sentimos, rimos, nos emocionamos como se estivéssemos ali, como se Sam e Patrick também fossem nossos amigos, torcemos por eles, sofremos por eles. É interessante como o roteiro não caminha por caminhos fáceis, trazendo profundidade e complexidade aos personagens, é então que compreendemos que "The Perks of Being Wallflower" não é só mais um filme sobre adolescentes para adolescentes, é mais um dos méritos do longa de Chbosky, entender os jovens mas de forma universal, de maneira a conquistar também os mais adultos, aqueles que sentem falta dos tempos de colégio e como todas aquelas aventuras eram gostosas, como tudo era vivido com mais intensidade, os dramas, as amizades, e com um delicioso clima nostálgico, o autor e diretor nos trás, uma das obras mais adoráveis deste ano.

Chbosky pode não ser um grande diretor, mas ainda assim realiza cenas marcantes. O que dizer do trio ouvindo "Heroes" de David Bowie no carro? Ou a dança no baile do colégio? Enfim, cenas que ficarão na memória de tão belas, divertidas ou simplesmente bem feitas. Chega a ser um exagero de tantas coisas boas que vemos, diálogos que inspiram e trazem grandes reflexões, personagens bem escritos e muito bem desenvolvidos. E como disse anteriormente, elementos saudosistas que nos levam de volta ao início da década de 90, fazendo de tudo isso ainda mais gostoso de se ver. A trilha sonora faz sua parte, assinada por Michael Brook, o mesmo que encantou o público em "Na Natureza Selvagem", encanta mais uma vez, uma seleção de excelentes músicas que farão muita gente cantar junto, com clássicos como Bowie, New Order, The Smiths e Sonic Youth, entre outros.

"As Vantagens de Ser Invisível", através de sua narrativa extremamente sensível, comove pelos detalhes. Charlie é um personagem muito interessante, enigmático, por muitas vezes, onde somente no final entendemos o que de tão trágico aconteceu em seu passado que interferiu em toda sua personalidade, e surge não como forma de justificar suas atitudes, mas para ilustrar o quão atormentado era aquele garoto. Sam e Patrick também possuem lá seus dramas e tudo é muito bem cuidado pelo bom roteiro, principalmente Patrick enfrentando os conflitos por ser homossexual, e é com ele que a trama alcança bons momentos dramáticos, onde nada é tratado de forma superficial. "Aceitamos o amor que acreditamos merecer", é através desta frase que muito dos conflitos são guiados. Patrick que enfrenta a dor de não ser aceito até mesmo por aquele a quem ama, a irmã de Charlie que aceita ser violentada pelo namorado, Sam que namora os piores caras por nunca acreditar em seu próprio potencial, sem nunca se dar conta do quanto é especial e por fim, Charlie, que encara a solidão da vida por acreditar que seja digno de nada, não é bom o bastante para aqueles que ama.

Logan Lerman, que é mais conhecido por protagonizar "Percy Jackson", ganha enfim, um papel digno de seu talento, emociona com seu Charlie e trás verdade a cada um de seus dramas. Ezra Miller que já havia surpreendido em "Precisamos Falar Sobre o Kevin" no começo deste ano, consegue fugir completamente de seu perturbado personagem e trás uma atuação, ainda assim muito forte, mas revela ainda um carisma não conhecido, e se mostra um ator, apesar de muito jovem, muito competente. Emma Watson prova que seu talento vai muito além de Hermione, é uma promissora atriz, ela brilha em cena, encanta com cada sorriso, cada fala, emociona com sua sensibilidade e faz deste filme um evento ainda mais marcante. Ainda temos bons coadjuvantes como Mae Whitman e Paul Rudd.

Tem todos os elementos para um dia se tornar "cult", e desde já, o vejo como um clássico. Pois pouquíssimos filmes conseguiram ir tão a fundo na mente e nos sentimentos dos adolescentes e todo este universo dramático, divertido, inconsequente, controverso. Que respeita aqueles que vivem e que vivenciaram esta época, não banalizando seus problemas, seus dilemas. Um filme sensível e muito honesto em sua proposta, que ganha proporção ainda maior quando três grandes atores se jogam de forma intensa e convincente, repleto de boas intenções e de momentos que ecoarão na memória, como lembranças de um momento, que mesmo vindo da ficção, parece, agora, fazer parte de nossas vidas. "As Vantagens de Ser Invisível" nos faz sentir infinitos, ou pelo menos, nos dá aquela sensação de voltar no tempo e fazer com que tudo dure para sempre.

NOTA: 9




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

3 em 1: HITCHCOCK


Alguns diretores de cinema tiveram suas filmografias marcadas na história, obras atemporais que farão sentido muitos anos depois de serem lançadas. Alfred Hitchcock (1899 - 1980) é um deles, tem em sua lista de filmes verdadeiras obras-primas que até hoje são lembradas como as melhores de todos os tempos. O que faço aqui, nada mais é que comentar três filmes que tive a oportunidade de ver recentemente e que vale a pena comentar, e porque não, tentar incentivar os novatos, assim como eu, a conhecer esta estranha e interessantíssima mente de Hitchcock.

por Fernando Labanca



Janela Indiscreta (Rear Window, 1954)

Filmado inteiramente em apenas dois cenários, o quarto do protagonista e o condomínio no qual ele vive, ou seja, a vista de sua janela. Logo, tinha tudo para ser monótono, mas não é. Toda a trama se concentra no mesmo lugar, os personagens não se movem, a paisagem nunca muda, no entanto, sua história é crescente e o bom roteiro prende a atenção, assinado por John Michael Hayes e baseado no conto "It Had to be Murder" de Cornell Woolrich. Teve uma refilmagem no ano de 1998 com Christopher Reeve e Daryl Hannah nos papéis principais, além do suspense "Paranóia" (2007) de D.J Caruso, no qual teve grande inspiração. Recebeu quatro indicações ao Oscar, Melhor Diretor, Fotografia, Roteiro e Trilha Sonora.

Em um bairro de Nova York, o fotógrafo profissional Jeffries (James Stewart) se mantem confinado em seu apartamento por ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Para perder seu tempo, ele passa as horas de seu dia observando seus vizinhos, tentando compreender a rotina de cada um, da dançarina ao compositor festeiro, do casal apaixonado à mulher "coração partido", cada um com seu mundo vivendo numa diferença de poucos metros. Eis que certa noite, vê algo muito incomum, a saída repentina de um vizinho durante a madrugada, logo, o sumiço de sua esposa, fazendo Jeffries crer que o homem seja um assassino e passa a coletar provas, através de seu binóculo, para incriminar o desconhecido. Para isso conta com a ajuda de sua namorada, Lisa (Grace Kelly), que logo se vê interessada no caso, ao mesmo tempo em que precisa reatar os laços com ele, logo que os dois vivem discutindo por suas diferenças.

Como disse anteriormente "Janela Indiscreta" tinha todos os elementos (ou a ausência deles) para ser algo monótono, mas não é graças ao roteiro bastante dinâmico, mesmo diante de um cenário tão limitado, acaba usando os diálogos e as situações para ganhar ritmo e consegue. Era necessário um excelente diretor para comandar tudo isso, Hitchcock prova todo seu talento, a maneira como compõe cada sequência, o bom uso da câmera que caminha por toda a vizinhança e entra no apartamento de Jeffries sem corte, captando cada elemento importante para a compreensão da trama. Com sua câmera subjetiva, nos faz entrar dentro da obra, somos o protagonista, o que ele vê também é o que vemos, o prazer que Jeffries sente ao invadir a privacidade dos outros, passa a ser o nosso prazer também. Hitchcock sabe brincar com essas possibilidades que só o cinema é capaz.

É uma mistura de gêneros bem ordenada, do suspense que nos envolve, que nos faz querer revelar os mistérios, da comédia que diverte com seus diálogos bem escritos e o doce romance entre o casal principal que no meio de tanto mistério precisam se resolver. Tudo isso funciona também graças ao ótimo elenco, James Stewart demonstra toda a curiosidade e ansiedade de seu personagem e nos convence sobre suas ideias malucas, já Grace Kelly é uma beldade que encanta a cada palavra e trás uma naturalidade deliciosa para as cenas. Mas quem acaba roubando a cena é a enfermeira Stella, interpretada por Thelma Ritter, engraçada, entrando e saindo nas horas certas e com, definitivamente, os melhores diálogos.

"Inteligência. Nada causou a raça humana tantos problemas quanto a inteligência". Poderia listar aqui as tantas frases marcantes que o filme possui e são por elas que o filme acaba valendo a pena, pois de situações que de longe soam tão pequenas ou tão absurdas, o roteiro parece tirar o melhor proveito de tudo, de uma história simples, acabamos presenciando uma grande análise psicológica da sociedade. "Janela Indiscreta" é sobre o quanto é impossível julgar os outros pelo o que vemos de longe, como não há como julgar o vizinho pelo o que ouvimos através das paredes ou o que vimos pela fresta da porta, a vida que cada um guarda é um eterno mistério, o que o ser humano vive em sua privacidade jamais será compreendido, o que ele mostra ao mundo é a versão do que ele espera que os outros vejam, não necessariamente a versão real.

No entanto, toda a história tão detalhada se perde ao seu final, na pressa de acabar, tudo acaba se resolvendo de forma rápida e sem muito sentido, indo contra a tudo o que havia sido feito até ali. Porém, apesar de seu final fraco, não prejudica tanto o resultado geral, ainda é uma obra que merece respeito e admiração.

NOTA: 8



Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958)

Considerado para muitos como a obra-prima do diretor e presente em algumas listas como um dos melhores filmes de todos os tempos, "Um Corpo Que Cai" é mais uma vez uma mistura de gêneros, do suspense criado através de situações bem inusitadas que geram facilmente a curiosidade daquele que assiste, com um romance açucarado, com direito a beijos longos e diálogos inspiradores, típicos dos filmes daquela época. Indicado ao Oscar de Melhor Som e Melhor Direção de Arte, ficou marcado também pelo efeito criado pelo próprio Hitchcock em dar a famosa sensação de vertigem, muito utilizado em outros títulos, através do zoom e o afastamento da câmera. Baseado no livro "D'Entre les Morts" de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, curiosamente, escrito com um único intuito, servir de base para o filme de Hitchcock.

John "Scottie" Fergunson (James Stewart) é um detetive que sofre de acrofobia, e graças a este medo, compromete uma missão em seu trabalho e devido a isso é afastado. Eis que um antigo amigo, sabendo de sua situação, entre em contato pedindo que ele encare mais um trabalho, observar sua esposa. Madeleine (Kim Novak) anda com um comportamento estranho nas últimas semanas, some de repente, age como se estivesse possuída por um espírito que a fizesse agir de forma suspeita. Scottie passa, então, a seguir a bela moça, e sem que pudesse controlar, passa a sentir uma forte atração por ela, ao mesmo tempo, uma curiosidade sobre seu caso, no qual, se mostra decidida a cometer um suicídio, no entanto, para salvá-la, o detetive terá que encarar seu maior medo, a altura.


"Um Corpo que Cai" tem uma história bastante imprevisível e este, sem sombra de dúvida, é seu grande mérito. Definitivamente não há como prever os próximos passos dos personagens e de suas tramas, onde cada cena caminha por um caminho desconhecido, indo totalmente na contramão do que se espera. A breve sinopse que coloquei é apenas uma pequena parte do plano maior, a premissa de uma louca viagem, cheia de mistérios, acontecimentos inusitados e um amor improvável. No entanto, até que toda a explicação inicial termine, o filme é bastante arrastado, morno, eu diria, sem nenhum grande momento ou algo que faça algum sentido, quando enfim, o longa começa a mostrar sua verdadeira face, suas reais intenções, é então que tudo passa a ficar interessante, os personagens crescem e as peças deste estranho quebra-cabeça começam a se juntar. É tudo muito original nesta obra, a relação de amor entre o casal é interessantíssima, é na verdade, o grande foco do filme, é belo o que ambos precisam enfrentar para enfim se amarem, Scottie, que precisa encarar o medo, encarar as mentiras e todo o plano mal intencionado que fazem as suas costas, Medeleine, encarar uma crise de identidade, desconstruindo sua personalidade para ser amada, onde já não mais se sabe quem ela realmente é.

Hitchcock constrói cenas bem marcantes, tem o dom da imagem e consegue trabalhar perfeitamente todos os elementos necessários para sua filmagem, desde as cores, como o vermelho gritante das estampas no restaurante, utilizando delas para criar e manipular o clima que precisa a cada situação, valendo citar a bela fotografia, deixando cenas como as da floresta parecerem verdadeiras pinturas. O cuidado com a escolha do figurino, construindo personalidades através deles, se utilizando ainda de inúmeros recursos, seja de efeito de câmera ou até mesmo de animações para nos inserir naquele louco universo de vertigem, nos colocando na pele do protagonista. Hitchcock nos oferece um cinema de grande qualidade, chega a ser belo o cuidado que ele tem com cada sequência, cada composição.

Apesar dos inúmeros pontos positivos, "Vertigo", mais uma vez, deixa a deseja em seu final. Tenho que admitir que é um final surpreendente, não há como esperar o que ocorre, no entanto, esta surpresa não é nada agradável. Chega a ser bizarra sua sequência final, não faz sentido, parece desrespeitar tudo o que havia sido feito antes, uma pena, deixando aquela sensação de que o filme precisava terminar e colocaram um final mais rápido, mais do que isso, deixando uma grande sensação de vazio. Claro, é Hitchcock, vale muito a pena ver, conhecer, só não espere por um final a altura das grandes ideias que o longa teve.

NOTA: 7 



Psicose (Psycho, 1960)

Para muitos, o grande clássico do terror. Para outros, o melhor filme de todos os tempos. Dentre tantos títulos que alcançou ainda é reconhecido por sua cena épica, o esfaqueamento no banheiro, a sequência que parece definir o gênero. "Psicose" de Hitchcock marcou sua época e hoje é visto como obra-prima. Baseado no livro de Robert Bloch, no qual o diretor gastou milhões para ter o direito e curiosamente, gastou mais milhões para comprar todos os livros já no mercado para impedir as pessoas de lerem e descobrir o final antes de ver seu filme, logo que, seu final é a grande arma da trama. Indicado ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte, Fotografia e Atriz Coadjuvante (Janet Leigh). Teve uma refilmagem em 1998 por Gus Van Sant que foi bastante criticada e tinha Vince Vaughn (?) e Anne Heche nos papéis principais.

Marion (Janet Leigh) é secretária de uma imobiliária, tudo parecia normal até que ela decide não depositar os quarenta mil dólares de seu chefe no banco, guardando as notas em sua bolsa e fugindo daquele lugar sem demonstrar medo das consequências, pega a estrada sem destino e cansada, decide parar num motel antigo, o Motel Bates. O local já quase não recebia hóspedes, devido o desvio da estrada principal. É comandado por Norman Bates (Anthony Perkins) que tenta levar adiante o negócio iniciado por seus pais, seu pai havia morrido e sua mãe ainda morava num casarão logo ao lado do Motel. Marion, é então, recepcionada por este bom rapaz, tímido e sem jeito com as palavras, os dois acabam iniciando uma longa conversa, não muito tempo depois ela é esfaqueada, brutalmente assassinada no banheiro de seu quarto. A partir de então, o Motel Bates passa a ser visitado por aqueles que procuram Marion e por aqueles que procuram o dinheiro sumido, sem saberem que ali havia inúmeros outros mistérios.


O grande clássico do terror é bem diferente do terror que hoje conhecemos ou até mesmo do que definimos de terror. Há poucos sustos, a violência é bem sutil e rápida e pouco tememos pela vida dos personagens. É o conhecido terror psicológico, todo o mistério que ronda aquele lugar é o que acaba nos envolvendo e nos fascinando, o mistério por trás da morte da até então protagonista, o que há por trás daquela cena tão surpreendente, muito mais do que tudo isso, o que há por trás da mente daquele indivíduo chamado Norman Bates, ele é o terror do filme. Filmado em preto e branco, por opção do diretor, por não querer fazer um filme "ensanguentado" demais. Este é Hitchcock, criando um terror sem muitas mortes e pouco sangue, provando que o que vemos hoje está muito longe de ser terror, há muito com que se aprender com "Psicose".


Lançado numa época onde estranhamente, as pessoas não tinham tanto interesse em permanecer na sala de cinema até o final da obra, Hitchcock vem com todas as armas possíveis para prender seu público e consegue. Matar a protagonista antes da metade do filme, uma das atrizes mais famosas e queridas da época, é uma ousadia que pouco se vê. Seu final é outra grande aposta de Hitchcock, a curiosidade que causa durante toda a trama para enfim descobrirmos as verdades e a espera vale muito a pena. Diferente dos outros títulos que vi, "Psicose" tem um final digno, perturbador, complexo, doentio, nos revelando uma das personalidades mais enigmáticas da história do cinema, Norman Bates.

Anthony Perkins faz de Norman um personagem épico, toda sua construção detalhada, seus olhares, seu sorriso tímido, onde na mesma cena consegue transformar toda sua doçura em psicopatia, por ele já vale a pena conferir a obra. Vencedora do Globo de Ouro, Janet Leigh também convence na pele de Marion. Um bom elenco, diálogos mais uma vez, bem pensados, fotografia impecável, uma direção segura, um roteiro bem elaborado com direito a um final excelente, elementos que fazem de "Psicose" um marco. É interessante como mesmo vendo hoje, a obra faz muito sentido. É claro que é preciso ver compreendendo a época em que foi lançado e o que era feito, entendo as limitações de filmagem e tudo o que hoje parece forçado mas antes era natural para aquele cinema, e levando tudo isso em consideração, "Psicose" é um grande acerto de Alfred Hitchcock e é com esta resenha que encerro minha postagem. 

NOTA: 9