Mais um produto original da Netflix, "Fundamentals of Caring" é uma obra genérica para ser vista em um sábado a tarde e esquecida logo depois.
por Fernando Labanca
Impossível não comprá-lo com outros dois filmes recentes, o francês "Intocáveis" e o romance "Como Eu Era Antes de Você". Em todos eles, temos o curioso encontro entre uma pessoa que sofre de alguma deficiência com aquele que é responsável por seus cuidados e ao decorrer da história, ambos acabam aprendendo e muito um com o outro. A ideia é até interessante e funcionou bem nos exemplos citados, mas deixou de ser novidade, não existe mais o elemento surpresa porque sabemos exatamente como tudo irá acontecer e justamente por isso, "Amizades Improváveis" se torna um produto totalmente descartável, pois não consegue, em momento algum, oferecer um argumento novo ou algo que justifique sua criação. E dentro do contexto que já conhecemos, esta lá o homem frustrado, Ben (Paul Rudd), que teve duras perdas ao longo de sua vida e como forma de se reerguer, se oferece como um "cuidador" e seu primeiro cliente é Trevor (Craig Roberts, de "Submarine"), portador de atrofia muscular. Cansado de ver a rotina do jovem trancafiado dentro da própria casa, Ben resolve levá-lo a uma viagem, realizando alguns de seus inusitados desejos como conhecer "o maior bovino do mundo" e "o buraco mais fundo do mundo".
“Bem-vindo aos 40” é uma espécie de
sequência/prequel da comédia de grande sucesso “Ligeiramente Grávidos”
de 2007, que contava com os protagonistas Seth Rogen e Katherine Heigl. Dessa
vez, ainda dirigido por Judd Apatow, o longo foca no casal de amigos que
apareceram no primeiro, Pete e Debbie, interpretados Paul Rudd e Leslie Mann.
Tinha tudo para dar certo, uma boa ideia, ótimos atores e um diretor
competente, entretanto, as longas duas horas e meia deste filme só nos faz ter
certeza de que foram horas perdidas de nossas vidas em uma obra que nada tem a
contar.
Por Fernando Labanca
Vemos o casal na semana em que ambos completam quarenta
anos. Para uns, a idade do sucesso, para outros, aquele momento da vida onde o
ser passa a refletir sobre suas escolhas. Pete e Debbie, que vivem numa
situação financeira complicada e que batalham diariamente para
sustentar a casa, onde também moram as duas filhas, Sadie e Charlotte, que
vivem brigando. Nesta semana, os dois decidem fazer as coisas diferentes, se
alimentar melhor e se aproximarem mais um do outro.
Gostei muito de “Ligeiramente Grávidos”, gostei ainda mais
de “Funny People” (2009), comédia desconhecida com Adam Sandler e Seth Rogen. E tudo o
que vem com o selo de qualidade “Judd Apatow”, sempre acaba criando uma certa
expectativa. Por isso, “Bem-vindo aos 40” é tão decepcionante, tem o mesmo
clima dos filmes anteriores, aquela comédia sutil sobre pessoas comuns, com
situações bem contadas, diálogos ágeis e inteligentes com pitadas de drama.
Para minha surpresa, presenciei seu pior filme em anos. As fortes
características de seu cinema continuam e a boa direção também, mas a
originalidade e a inteligência não.
O filme demora a decolar, mostrar a que veio, joga situações
aleatórias na tela e não consegue convencer em nada. O problema é que esta
impressão permanece até seu final e até lá ficamos na espera de acontecer algo,
ficamos somando os diálogos tentando achar um sentido para tudo aquilo, mas não
há. Os bons atores em cena contribuem para nossa expectativa de que ele vai
melhorar, até porque conseguir colocar Melissa McCarthy, Jason Segel, Chris
O’Dowd, John Lithgow, Albert Brooks e a revelação Lena Dunham no mesmo elenco,
devia haver uma razão. A conclusão é que Judd Apatow apenas quis reunir seus
amigos para fazer um filme, esqueceu o roteiro, esqueceu o público.
O problema piora quando resolvem estender este imenso vazio
por duas horas e meia. A duração não é um defeito quando se tem o que contar, o
que é bem diferente deste caso. Todas as cenas de Megan Fox são descartáveis,
não consegui entender o que ela faz ali, e todas as situações envolvendo ela, a
loja de Debbie e os furtos realizado pela também descartável Charlyne Yi. Jason
Segel, sem sal, também não acrescenta a trama. Além dos coadjuvantes inúteis
que servem apenas para somar cenas desnecessárias que nem ao menos fazem rir,
Judd Apatow resolveu inserir situações patéticas e concluí-las de forma ainda
mais patética. O que dizer da insistente referência a “Lost”? Não contentes,
resolveram contar o final da série também, fazendo uma bizarra ligação com a
relação de Pete e Debbie. As filhas do casal é outro problema, onde o diretor
as coloca em cena apenas por serem suas filhas na vida real, mas esquece de
escrever algo decente a elas, que irritam em nível extremo, quando surgem ou
estão brigando ou estão berrando, é chato e de péssimo gosto.
“Bem-vindo aos 40” é, por fim, uma sequência de erros, tinha
uma premissa interessante, mas o roteiro se perde em tantas tramas e situações
desnecessárias, que não emocionam e não divertem, que ao seu final fica apenas
a sensação de um tempo de nossa vida perdido. O filme parece a todo instante se
esquivar em se aprofundar em algo, de tirar melhor proveito de seu tema, provando
que tanto sua ideia inicial como se aproveitar dos personagens de “Ligeiramente
Grávidos” foram apenas motivos furados para seu desenvolvimento. Vale por Paul
Rudd e Leslie Mann, que não trazem nenhum atuação inovadora, mas pelo menos funcionam
muito bem juntos, possuem uma bela sintonia, há certamente uma deliciosa naturalidade entre os dois e somente eles nos fazem aguentar
até o final.
Existem muitos filmes biográficos, aqueles que focam na vida e na obra de
algum artista, já é quase um gênero a parte. Pensando nisso, Judd Apatow, o
nome da comédia nos últimos anos, ao lado de Jake Kasdan, resolveram satirizar este tipo
de filme, contando desde a infância, passando por todos os clichês possíveis de
um indivíduo até se tornar famoso, passando por seu fracasso até sua redenção.
Foi assim que surgiu Dewey Cox e é sobre este homem, um célebre cantor de
blues, que eles resolveram contar.
por Fernando Labanca
Antes de realizar um esperado show, o retorno de sua carreira, Dewey Cox
(John C.Reilly) reserva um precioso tempo, tempo suficiente para ele pensar em
toda sua vida e como ele chegou até ali. Se lembrou de sua infância, quando
matou sem querer seu talentoso e amado irmão, foi quando conheceu o blues e
descobriu como é colocar para fora as perdas da vida, foi neste momento também
que prometeu a si mesmo, ser duas vezes melhor que ele. Foi embora de casa,
casou com Edith (Kristen Wiig) com quem teve diversos filhos e mesmo ninguém
acreditando em seu talento para a música, resolveu arriscar tudo gravando uma
canção, que foi um sucesso e logo ganhou notoriedade. Conheceu a fama, conheceu
também as drogas, época que acabou se envolvendo com Darlene (Jenna Fischer),
uma das cantoras de seu backing vocal. E aos poucos, Dewey Cox vai perdendo o
controle de toda a sua conquista, sempre se abalando por seu coração frágil,
por medo de não ser tão bom quanto seu irmão.
"A Vida é Dura" conseguiu reunir os clichês mais clássicos de
qualquer filme biográfico, e mesmo que não tínhamos reparado que eles existiam,
passamos a perceber aqui e como algumas situações estão sempre presentes. Uma
grande perda na infância, relacionamento difícil com os pais, o primeiro sucesso
e aquela edição padrão com recortes de jornais indicando o crescimento da fama,
os flashs de fotógrafos e fãs que fazem de tudo para estar perto, as primeiras
apresentações, o primeiro contato com as drogas, o vício, o abandono de
pessoas que ama para se dedicar a carreira, a traição, o sexo, o fracasso, a
redenção. É estranho, mas parece haver uma sequência de atos para todas as
pessoas que tem suas vidas levadas para o cinema, o que este filme faz, é
justamente denunciar todos eles, fazer ridículo de tudo isso, exagerar, tornar
o clichê em algo extremamente exagerado, bizarro. A graça desta obra vem
justamente disso, em conseguir satirizar de forma tão completa, dar vida a um
ser "imaginário" e lhe entregar uma jornada tão extraordinária, com
começo, meio e fim, impossível de se acreditar, impossível ser levado a sério,
mas facilmente envolvente. Dewey Cox, tão falso ou tão real quanto qualquer
outro indivíduo que tenha sua vida retratada num filme biográfico.
Poderia ter sido só uma sátira, porém, os realizadores resolveram fazer
mais. "A Vida é Dura" pode até não ser um filme tão fantástico, mas
com certeza, pouquíssimas obras conseguiram ir tão longe mesmo se tratando de uma
paródia, mesmo se tratando do gênero comédia, muitas vezes, tão limitado em seu
formato. Aqui, tudo é muito grandioso, o que o torna um filme único, impossível
de compará-lo a qualquer outro já feito. A maneira como guiam a vida de Dewey
Cox, seja pela maravilhosa atuação de John C.Reilly, mas também pelo nítido
esforço de toda a equipe, com um cuidado em representar cada época, através dos
figurinos, maquiagem, as locações, e principalmente o cuidado com a criação das
canções, que vão muito além de apenas uma satirizarão, elas representam cada
momento da indústria fonográfica norte-americana, cada influência, cada
referência, passando pelo blues, rock, folk, country, ele é quase como Bob
Dylan e suas inúmeras fases, por mais que o roteiro se baseie, nitidamente, nos
passos de Johnny Cash, revivido na obra "Johnny e June" em 2004. Ou
seja, o que vemos é mais do que uma comédia, é um musical de grande qualidade,
que nunca perde o humor, mas também nunca perde a intenção de se fazer o
melhor. Uma raridade.
O elenco também surpreende, onde a cada nova cena, um rosto conhecido. Além
de John C.Reilly que dá um belo show de interpretação, além de cantar muito
bem. Vemos a adorável Jenna Fischer, da série "The Office" mandando
bem na pele da sensual Darlene, além de outros nomes retirados do seriado como
Ed Helms e Craig Robinson. Vemos ainda outros comediantes de peso, como Kristen
Wiig, Paul Rudd, Jonah Hill, Jack Black, Justin Long, Jane Lynch, Jason Schwartzman, entre outros.Todos
estão ótimos, mesmo que muitos tenham aparecido em pequenas participações,
valendo ainda citar Jack White interpretando Elvis Presley, além de outras
aparições surpresas, como Eddie Vedder. Só faltou Will Ferrell e Steve Carell pra completar. Percebe-se que "Walk Hard" foi a reunião de
grandes nomes do humor, do cinema, da música, um grupo de amigos que se reuniu em prol de uma obra de qualidade, sem deixar, é claro, de ser um momento de grande descontração entre eles, uma longa e divertida piada no qual todos se envolveram e deram o seu melhor.
E mesmo sendo tão grandioso, "A Vida é Dura" é também uma obra despretensiosa, feita com um único intuito, divertir, mas sem ferir a inteligência de seu público, sem perder o bom senso, construindo um filme leve, que não fará ninguém dar longas gargalhadas, mas dificilmente receberá a indiferença, logo que provavelmente terão aqueles que o odiarão, é um humor diferente, bem ao estilo Judd Apatow. Não sairei recomendando para todos, é preciso apreciar este tipo de comédia para entrar nesta brincadeira. Tem lá sua falhas, acredito que por ser tão forçado e exagerado em determinadas situações acaba que afastando grande parte do público, ás vezes é difícil se envolver, justamente por ser tão distante da realidade, mas é complicado colocar isso como um erro, logo que era sua proposta desde o início. Vale e muito pelos atores e pelas ótimas canções, uma comédia rara e extremamente estilosa.
Baseado no livro de Stephen Chbosky, que também escreveu e dirigiu o filme. Tem sua trama guiada através de cartas destinadas a um anônimo, escritas por um garoto deslocado e tímido contando sua vida no início do colégio, enfrentando seu maior medo...não ser aceito por nenhum grupo. A história se passa no começo da década de 90, tendo então o cuidado da produção em reinventar aquela época, desde os figurinos e detalhes saudosistas como as fitas cassetes, além da trilha sonora, muito bem selecionada. "As Vantagens de Ser Invisível" ainda conta com atuações marcantes de um trio extremamente talentoso, Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller.
Conhecemos Charlie (Lerman), aos seus dezesseis anos, iniciando seu colégio. Solitário, não consegue interagir com outras pessoas, além de ter que conviver com alguns dramas do passado como a morte de seu melhor amigo e de sua tia, a pessoa que mais o inspirava. Sente que não faz parte daquele mundo e a única pessoa com quem consegue conversar é seu professor de inglês (Paul Rudd). Até que tenta forçar amizade com um dos veteranos, o carismático Patrick (Miller), que logo o apresenta a seu grupo, o grupo dos desajustados, jovens não populares que seguem seus próprios caminhos. É neste grupo que ele conhece também, Sam (Watson), com quem logo se apaixona. Pessoas que o fazem sentir finalmente vivo, que lhe provam o que é amizade e juntos enfrentam os dilemas dessa fase, do uso de drogas, homossexualismo, sexo, onde tudo é novidade e tudo é muito mais intenso.
Escrito e dirigido pelo próprio autor do livro, é nítido o quão pessoal é esta obra para Stephen Chbosky, talvez somente ele seria mesmo capaz de levar esta ideia de forma tão honesta, tão verdadeira, se fosse outra pessoa, quem sabe "As Vantagens de Ser Invisível" se tornasse algo banal, logo que o que vemos na tela não é nada tão original assim, a história do garoto deslocado, sofrendo bullying, os dilemas da adolescência, amizade, enfim, elementos que já estiverem presentes em outros títulos e este tinha tudo para ser mais um, mas não é. O trunfo do filme está em suas entrelinhas, não exatamente sobre o que ele conta, mas sim, como ele conta. É um filme sobre uma geração, é sobre sentimentos, muitos longas já nos mostraram sobre o que é ser jovem, mas nunca de forma tão sincera como este, um dos únicos que realmente entende o que é ser jovem, de forma madura, crua, levando a sério até mesmo os conflitos mais pequenos da adolescência, trazendo a intensidade necessária para cada situação, nos envolvendo, nos encantando com cada cena, cada personagem, vivenciamos cada passagem, sentimos, rimos, nos emocionamos como se estivéssemos ali, como se Sam e Patrick também fossem nossos amigos, torcemos por eles, sofremos por eles. É interessante como o roteiro não caminha por caminhos fáceis, trazendo profundidade e complexidade aos personagens, é então que compreendemos que "The Perks of Being Wallflower" não é só mais um filme sobre adolescentes para adolescentes, é mais um dos méritos do longa de Chbosky, entender os jovens mas de forma universal, de maneira a conquistar também os mais adultos, aqueles que sentem falta dos tempos de colégio e como todas aquelas aventuras eram gostosas, como tudo era vivido com mais intensidade, os dramas, as amizades, e com um delicioso clima nostálgico, o autor e diretor nos trás, uma das obras mais adoráveis deste ano.
Chbosky pode não ser um grande diretor, mas ainda assim realiza cenas marcantes. O que dizer do trio ouvindo "Heroes" de David Bowie no carro? Ou a dança no baile do colégio? Enfim, cenas que ficarão na memória de tão belas, divertidas ou simplesmente bem feitas. Chega a ser um exagero de tantas coisas boas que vemos, diálogos que inspiram e trazem grandes reflexões, personagens bem escritos e muito bem desenvolvidos. E como disse anteriormente, elementos saudosistas que nos levam de volta ao início da década de 90, fazendo de tudo isso ainda mais gostoso de se ver. A trilha sonora faz sua parte, assinada por Michael Brook, o mesmo que encantou o público em "Na Natureza Selvagem", encanta mais uma vez, uma seleção de excelentes músicas que farão muita gente cantar junto, com clássicos como Bowie, New Order, The Smiths e Sonic Youth, entre outros.
"As Vantagens de Ser Invisível", através de sua narrativa extremamente sensível, comove pelos detalhes. Charlie é um personagem muito interessante, enigmático, por muitas vezes, onde somente no final entendemos o que de tão trágico aconteceu em seu passado que interferiu em toda sua personalidade, e surge não como forma de justificar suas atitudes, mas para ilustrar o quão atormentado era aquele garoto. Sam e Patrick também possuem lá seus dramas e tudo é muito bem cuidado pelo bom roteiro, principalmente Patrick enfrentando os conflitos por ser homossexual, e é com ele que a trama alcança bons momentos dramáticos, onde nada é tratado de forma superficial. "Aceitamos o amor que acreditamos merecer", é através desta frase que muito dos conflitos são guiados. Patrick que enfrenta a dor de não ser aceito até mesmo por aquele a quem ama, a irmã de Charlie que aceita ser violentada pelo namorado, Sam que namora os piores caras por nunca acreditar em seu próprio potencial, sem nunca se dar conta do quanto é especial e por fim, Charlie, que encara a solidão da vida por acreditar que seja digno de nada, não é bom o bastante para aqueles que ama.
Logan Lerman, que é mais conhecido por protagonizar "Percy Jackson", ganha enfim, um papel digno de seu talento, emociona com seu Charlie e trás verdade a cada um de seus dramas. Ezra Miller que já havia surpreendido em "Precisamos Falar Sobre o Kevin" no começo deste ano, consegue fugir completamente de seu perturbado personagem e trás uma atuação, ainda assim muito forte, mas revela ainda um carisma não conhecido, e se mostra um ator, apesar de muito jovem, muito competente. Emma Watson prova que seu talento vai muito além de Hermione, é uma promissora atriz, ela brilha em cena, encanta com cada sorriso, cada fala, emociona com sua sensibilidade e faz deste filme um evento ainda mais marcante. Ainda temos bons coadjuvantes como Mae Whitman e Paul Rudd.
Tem todos os elementos para um dia se tornar "cult", e desde já, o vejo como um clássico. Pois pouquíssimos filmes conseguiram ir tão a fundo na mente e nos sentimentos dos adolescentes e todo este universo dramático, divertido, inconsequente, controverso. Que respeita aqueles que vivem e que vivenciaram esta época, não banalizando seus problemas, seus dilemas. Um filme sensível e muito honesto em sua proposta, que ganha proporção ainda maior quando três grandes atores se jogam de forma intensa e convincente, repleto de boas intenções e de momentos que ecoarão na memória, como lembranças de um momento, que mesmo vindo da ficção, parece, agora, fazer parte de nossas vidas. "As Vantagens de Ser Invisível" nos faz sentir infinitos, ou pelo menos, nos dá aquela sensação de voltar no tempo e fazer com que tudo dure para sempre.
James L.Brooks, que em 1997 realizou sua obra-prima "Melhor é Impossível", retorna em 2010, com filme lançado ano passado aqui no Brasil, a comédia romântica "Como Você Sabe", trazendo de volta o que o roteirista sabe fazer de melhor, a originalidade de seus diálogos e a inusitada composição de seus excêntricos personagens. Muitos apontaram como o grande fracasso de sua carreira como autor e diretor. Vejo diferente. Vejo como um filme incompreendido pelo público e pela crítica, que não teve espaço justamente por não ser convencional e apostar em algo que o gênero nunca explora, a reflexão e a inteligência.
por Fernando Labanca
Começamos pela história, que de longe parece muito clichê, mas de fato, não é. Infelizmente pela sinopse não é possível compreender a originalidade da obra, devido a isso, o longa surpreende bastante. Reese Witherspoon interpreta a impulsiva Lisa, jogadora profissional de tênis, que nunca sabe o que quer exatamente de sua vida, mas segue em frente, mesmo assim. Namora um outro jogador, Manny (Owen Wilson), nada afetivo e que não filtra muito bem suas palavras. Lisa, por sua vez se questiona com uma amiga sobre a possibilidade de namorar alguém que não tenha a mesma vida que a dela, é então que é apresentada a George (Paul Rudd), um cara muito azarado que está passando por um momento difícil, levou um fora de sua namorada e seu nome foi levado na justiça graças aos erros de seu pai (Jack Nicholson).
Para mais azar de George, que conhece Lisa num péssimo dia e se torna então, um péssimo pretendente. Na mesma época, porém, Lisa é colocada de fora dos campos por seu técnico, perde seu chão, seu rumo, seus objetivos. Duas pessoas que se encontram e nada compreendem de suas trajetórias. É então que ambos se tornam grandes amigos quando descobrem que possuem algo em comum, a busca de um sentido maior para suas vidas. No entanto, Lisa encontra em Manny o que muitas vezes procurava, sua insensibilidade, além de ter em comum com ele sua incapacidade de amar.
"Como Você Sabe" aborda as dúvidas da mente humana. Como saber se tal pessoa é a que devemos escolher para o resto de nossas vidas? Como saber que estamos caminhando pelo caminho certo? Como saber se estamos encontrando o que queremos e não mais o que precisamos? O roteiro brilhantemente escrito por James L.Brooks explora com delicadeza e inteligência esses conflitos. É quase que impossível não se identificar com alguns dilemas vividos por algum dos personagens, tantos questionamentos, não só sobre as relações afetivas, mas também sobre o que estamos fazendo de nossas vidas, sobre nossas escolhas. A caracterização de Lisa é interessante, uma protagonista que não sabe o que faz, que não sabe onde ir, que se prende em frases clichês sobre superação, mas nunca consegue tomar uma atitude sem parecer fria ou impulsiva. Melhor ainda é ver que a trama não é sobre alguém perdido que se encontra, mas sim sobre alguém como todos nós, que permanece e permanecerá sem rumo, em busca de uma resposta que no fundo todos sabem a verdade, nunca virá. E como certa hora o filme coloca em discussão, não é sobre descobrir o que se quer da vida, é sobre saber como pedir, como ir atrás daquilo que almejamos.
Assim como todos os filmes de James L.Brooks, algumas cenas surpreendem. É comédia romântica, dificilmente assistimos esperando algo inusitado, algo que fuja do convencional. E este é o maior triunfo do filme, fugir do lugar comum, usa uma premissa até que simples, o coração da moça dividido por dois homens, não havia como não subestimá-lo. Eis que ele nos surpreende. Surge na tela, sequências tão originais quanto belas. Foi bizarro e ao mesmo tempo interessante ver Lisa chorando enquanto lia suas frases manjadas no espelho escovando os dentes, ou vê-la abrir seu coração, revelando sua incapacidade de encontrar sentido naquilo que todas as mulheres encontravam, como amar, casar e ter filhos, um diálogo nada menos que complexo e de extrema sensibilidade. E mais uma vez, a originalidade de Brooks se encontra nos incríveis diálogos, seja nos mais humorados, seja nas belíssimas declarações de amor, que assim como "Melhor é Impossível" supera inúmeros filmes românticos, mesmo se tratando de uma comédia. Como as últimas declarações de George a Lisa, é simplesmente de cortar o coração, como há muito tempo eu não via. Foi ótimo ver, numa época em que fazer filmes românticos se tornou clichê, que ninguém mais é capaz de fazer o público suspirar por um diálogo entre duas pessoas apaixonadas, algo inteligente, comovente e original, que utiliza de inúmeros recursos, menos do que já foi usado pelo cinema. Uma comédia, para rir e pensar. Pronto, já é um tempo válido, pois é algo muito raro em Hollywood.
James L.Brooks como roteirista, o colocaria entre os grandes gênios do cinema atual. Entretanto, como diretor, ele se perde. Há cenas fracas, que mesmo com grandes atores em cena interpretando grandes personagens, é nítido a má qualidade de inúmeras sequências. Por vezes, me sentia diante daquelas cenas deletadas que encontramos nos extras de qualquer DVD, sem ritmo, sem nada que empolgue, só o que vemos são motivos para terem sido facilmente deletadas. Mais uma razão para isso é sua longa duração. Os conflitos poderiam ser mais concisos, há muita coisa que se estende sem a necessidade e muitas cenas descartáveis, como quase todas de Jack Nicholson, onde os conflitos vividos por ele e Paul Rudd são tão chatos que não há como ter algum interesse nos problemas do pai e filho. Sendo a única coisa interessante entre eles, a resolução, que como tudo no roteiro, acontece de forma simples e bastante madura. Mas é válido citar que nem sempre Brooks erra como diretor, também há seus momentos que causam um certo interesse visual, auxiliado pela fotografia e a boa trilha sonora de Hans Zimmer.
O elenco é outro ponto positivo do filme. Reese Witherspoon soube passar muito bem os estranhos sentimentos de Lisa, suas oscilações e sua incompreensão da vida, com seu olhar vazio e distante, conseguindo se destacar muito bem nas variações de sua personagem, da comédia para o drama, e claro, seu grande carisma ajuda a nos afeiçoarmos a ela. Assim como Paul Rudd, sempre muito carismático e muito versátil em cena, entretanto, seu personagem só se torna interessante ao lado de Reese. Owen Wilson está até interessante, é o grande alívio cômico do longa e consegue arrancar alguns risos, fazendo sua atitudes patéticas parecerem normais, convence. Jack Nicholson quase que dispensável se não fosse sua grande atuação, mas tem lá sua importância na trama, mas é tudo muito chato. Outra coadjuvante que acaba surpreendendo é Kathryn Hahn, que não é importante na história, mas acaba se destacando.
"Como Você Sabe" começa com inúmeros defeitos e prometendo ser uma grande bomba. História até certo ponto desinteressante, diálogos fracos e humor que em nada agrada. É então que ele cresce, os personagens mostram suas verdadeiras intenções e o roteiro surpreende com diálogos e situações raras no gênero comédia romântica. Quando ele termina há um sentimento que poucas vezes senti diante de uma comédia, estive, definitivamente, diante de algo maior do que parece, que faz pensar pelas ótimas frases de efeito, que faz refletir por inúmeros questionamentos um tanto quanto complexos para o gênero, sem querer ser dramático ou exageradamente existencialista e faz emocionar como poucos filmes românticos conseguiram. Existem erros, existem. Porém, a obra é de uma raridade tão grande que vale e muito a pena conferir. Se para muitos críticos, James L.Brooks "perdeu a mão" aqui, ainda torço para ele continuar o mesmo, porque mesmo realizando este tal fracasso de sua carreira, ele conseguiu ser muito melhor que qualquer diretor e roteirista que circula por Hollywood.
Antes de fazer um post especial sobre o gênero comédia na última década, resolvi comentar aqui duas comédias que assisti recentemente, aquelas que faltavam na lista das que eu mais queria ver. "Napoleão Dinamite" e "O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy", ambos de 2004.
por Fernando Labanca
Napoleão Dinamite (Napoleon Dynamite, 2004)
Vencedor do MTV Movie Awards de Melhor Filme em 2005, o filme só chegou aqui no Brasil em 2006 e diretamente nas locadoras, e devido a isso, pouco se ouviu falar nesta obra. Dirigido por Jared Hess e tem Jon Heder como protagonista, no papel que marcou sua carreira. O longa foi baseado num curta-metragem do mesmo diretor "Peluca".
o filme acompanha o triste (e cômico) cotidiano de Napoleon Dynamite (Heder), um jovem que provavelmente sofre de 'asperger', que não consegue interagir com outras pessoas, tem dificuldade na fala, começa a falar com estranhos com xingamentos (you guys are idiot!). Vive com a avó e seu irmão mais velho, que não perde a chance de irritá-lo e humilhá-lo, mesmo sendo tão idiota quanto ele. Até que sua avó sofre um acidente e para ter um responsável na casa dos irmãos, chega o tio Rico, um metido a machão desempregado.
A vida começa a ter outro sentido pra Napoleon com a chegada de Pedro, um mexicano novo na escola que passa a ser seu único amigo no local. Até que Pedro se candidata à Presidente na Associação de Estudantes, e Napoleon passa a auxiliá-lo com divulgações mesmo não tendo nenhuma moral. Enquanto isso, tem que se preocupar em quem levar para o baile, logo que nunca percebe que Deb (Tina Majorino) sempre teve um certo interesse nele, mas que também nunca conseguiu tomar uma atitude.
Houve muita badalação quando estreiou nos EUA que logo pegou fama de 'cult' entre as comédias, venceu alguns prêmios, participou de importantes festivais, como o de 'Sundance', aquele para filmes independentes. Mas aqui no Brasil simplesmente fora ignorado. Depois de vê-lo entendi o porquê de ter sido deixado de lado, não é uma comédia convencional, segue uma linha muito diferente do que estamos acostumados a ver, não tem ritmo, nem uma trilha sonora muito interessante, tem um tom melancólico e devido a isso poucas vezes damos risadas, mas também esteve muito longe de conseguir emocionar, além das personagens e histórias estranhas, que aliás, tentam a todo tempo ser excêntricas, tendo assim como referência nítida as obras de Wes Anderson, o gênio por trás de "O Fantástico Sr. Raposo" de 2009 e o cult "Os Excêntricos Tenembaums" de 2001. Porque ser excêntrico é quase sinônimo de originalidade no cinema, mas poucos diretores conseguem ser assim como Anderson, e Jared Hess tenta, mas falha, e no resultado final, o que vimos é uma tentativa frustrada de querer ser algo novo se baseando na excentricidade, mas que só consegue ser algo estranho, sem criatividade e sem emoção.
As personagens aparecem na tela e pronunciam suas falas sem expressar algum tipo de sentimento, personagens que agem estranhamente e se vestem de maneira diferente, mais uma vez, querendo ser algo novo e despojado e até conseguiu ser visto por muitos dessa maneira, mas sinceramente, não me convenceu. Jon Heder está ótimo, ele é hilário e cria um personagem quase histórico, e somente por ele vale a pena ver o filme, é brilhante sua transformação em Napoleon Dynamite, encarna com convicção, não tenta ser idiota, age naturalmente com sua idiotice e por isso, merece e muito destaque. O restante do elenco é dispensável. O restanto de todo filme é. Pretencioso demais, querendo ser cult, mas não é, querendo ser excêntrico e original, mas só repete a fórmula de outras obras e constrói uma história vazia, sem graça, que vale somente pelo personagem título. O filme chega ao fim e percebemos que ele não foi a lugar algum, termina da mesma maneira que começou. Ah! E vale pelos créditos iniciais feito com comida e música de White Stripes.
NOTA: 3
OBS: O filme possui cenas depois dos créditos finais, mas foi só por curiosidade mesmo, não perca tempo assistindo, uma das cenas finais mais inúteis que vi na vida!
OBS 2: Em 2010, a Fox deu carta branca para o início de uma série animada, nos mesmos moldes de "Os Simpsons" e "Family Guy", se baseando neste mesmo filme. A série tem estréia marcada para início de 2012.
O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The Legend of Ron Burgundy, 2004)
Dirigido por Adam McKey, o longa de comédia pastelão tem em seu elenco grandes astros do cinema que se manteram na tela e até hoje fazem sucesso, Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd e Steve Carell em começo de carreira. Ainda participações de Vince Vaughn, Ben Stiller, Jack Black, Tim Robbins, Luke Wilson e Seth Rogen.
O filme nos mostra a cidade de San Diego na década de 70, invadida por um telejornal, que os acorda todas as manhãs. Como âncora, está ele, o melhor de todos, o mais simpático e com o melhor corte de cabelo, Ron Burgundy (Ferrell). Com ele, está seus seguidores que também trabalham em outras matérias dentro do jornal, Brian Santana (Rudd), Champ Kind (David Koechner) e o homem do tempo Brick Tamland (Carell), juntos, levam as melhores notícias para a cidade e a noite festejam como amigos inseparáveis, e em uma dessas festas, Ron conhece Veronica (Applegate) e fica encantado, mas age como um idiota.
No dia seguinte, Veronica aparece na emissora como uma nova jornalista, fazendo matérias sobre cozinha e outras coisas nada importantes. Decidida a ser vista como uma profissional que pode ir muito mais além, que tem potencial para ocupar um lugar de destaque na TV. E devido a uma falta de Ron, ela comanda como âncora o programa, dando início a uma guerra entre sexos, onde ele irá provar para todos que só ele pode ocupar este lugar, enquanto ela tenta provar que San Diego precisa de uma nova cara para representá-los.
"O Âncora" tem passagens hilárias, de dar risada mesmo, é realmente divertido a guerra dos sexos apresentada, com boas sacadas, além de cenas que beiram o ridículo, mas que divertem pelo nonsense, como a cena em que os âncoras dos telejornais entram numa batalha à la "Gangues de Nova York". Enfim, humor escrachado, pastelão, mas que não é apelativo como muitas comédias de hoje, que apostam em coisas nojentas ou nudez para provocar risos, humor a base de constrangimento. Aqui, o humor surge fácil e com boas intenções.
Will Ferrell em um dos seus melhores momentos no cinema, fato. Ron Burgundy é hilário e um personagem muito interessante. Christina Applegate, a queridinha do começo da década de 90, onde o tempo ainda não apagou sua beleza, e como atriz de comédia, ela se sai muito bem, muito carismática, é ela quem vai guiando os acontecimentos do filme. Os coadjuvantes feitos por um elenco grandioso, alguns até fazendo ponta, mas se destacam, confesso que ria a cada fala de Steve Carell, já provando ali sua incrível veia cômica. O filme só não é tão incível assim, por ser uma história muito limitada, não tira o melhor proveito das situações ali apresentadas, poderia ser um filme que abordasse temas interessantes, mas chega ao fim e percebemos que seu propósito era só fazer comédia, e infelizmente, devido a isso, o filme não cresce como deveria, tinha atores competentes para fazer algo maior e uma base no roteiro para explorar situações mais interessantes. Mas não ocorreu. Entretanto, pelo elenco, pelo delicioso humor e por algumas cenas memoráveis, vale muito a pena. Se procura conteúdo, passe longe, se o que deseja é simplesmente rir de uma obra despretenciosa, o lugar é esse.