domingo, 18 de novembro de 2012

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012)

Desde já, um clássico do cinema contemporâneo.

por Fernando Labanca

Baseado no livro de Stephen Chbosky, que também escreveu e dirigiu o filme. Tem sua trama guiada através de cartas destinadas a um anônimo, escritas por um garoto deslocado e tímido contando sua vida no início do colégio, enfrentando seu maior medo...não ser aceito por nenhum grupo. A história se passa no começo da década de 90, tendo então o cuidado da produção em reinventar aquela época, desde os figurinos e detalhes saudosistas como as fitas cassetes, além da trilha sonora, muito bem selecionada. "As Vantagens de Ser Invisível" ainda conta com atuações marcantes de um trio extremamente talentoso, Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller.

Conhecemos Charlie (Lerman), aos seus dezesseis anos, iniciando seu colégio. Solitário, não consegue interagir com outras pessoas, além de ter que conviver com alguns dramas do passado como a morte de seu melhor amigo e de sua tia, a pessoa que mais o inspirava. Sente que não faz parte daquele mundo e a única pessoa com quem consegue conversar é seu professor de inglês (Paul Rudd). Até que tenta forçar amizade com um dos veteranos, o carismático Patrick (Miller), que logo o apresenta a seu grupo, o grupo dos desajustados, jovens não populares que seguem seus próprios caminhos. É neste grupo que ele conhece também, Sam (Watson), com quem logo se apaixona. Pessoas que o fazem sentir finalmente vivo, que lhe provam o que é amizade e juntos enfrentam os dilemas dessa fase, do uso de drogas, homossexualismo, sexo, onde tudo é novidade e tudo é muito mais intenso.


Escrito e dirigido pelo próprio autor do livro, é nítido o quão pessoal é esta obra para Stephen Chbosky, talvez somente ele seria mesmo capaz de levar esta ideia de forma tão honesta, tão verdadeira, se fosse outra pessoa, quem sabe "As Vantagens de Ser Invisível" se tornasse algo banal, logo que o que vemos na tela não é nada tão original assim, a história do garoto deslocado, sofrendo bullying, os dilemas da adolescência, amizade, enfim, elementos que já estiverem presentes em outros títulos e este tinha tudo para ser mais um, mas não é. O trunfo do filme está em suas entrelinhas, não exatamente sobre o que ele conta, mas sim, como ele conta. É um filme sobre uma geração, é sobre sentimentos, muitos longas já nos mostraram sobre o que é ser jovem, mas nunca de forma tão sincera como este, um dos únicos que realmente entende o que é ser jovem, de forma madura, crua, levando a sério até mesmo os conflitos mais pequenos da adolescência, trazendo a intensidade necessária para cada situação, nos envolvendo, nos encantando com cada cena, cada personagem, vivenciamos cada passagem, sentimos, rimos, nos emocionamos como se estivéssemos ali, como se Sam e Patrick também fossem nossos amigos, torcemos por eles, sofremos por eles. É interessante como o roteiro não caminha por caminhos fáceis, trazendo profundidade e complexidade aos personagens, é então que compreendemos que "The Perks of Being Wallflower" não é só mais um filme sobre adolescentes para adolescentes, é mais um dos méritos do longa de Chbosky, entender os jovens mas de forma universal, de maneira a conquistar também os mais adultos, aqueles que sentem falta dos tempos de colégio e como todas aquelas aventuras eram gostosas, como tudo era vivido com mais intensidade, os dramas, as amizades, e com um delicioso clima nostálgico, o autor e diretor nos trás, uma das obras mais adoráveis deste ano.

Chbosky pode não ser um grande diretor, mas ainda assim realiza cenas marcantes. O que dizer do trio ouvindo "Heroes" de David Bowie no carro? Ou a dança no baile do colégio? Enfim, cenas que ficarão na memória de tão belas, divertidas ou simplesmente bem feitas. Chega a ser um exagero de tantas coisas boas que vemos, diálogos que inspiram e trazem grandes reflexões, personagens bem escritos e muito bem desenvolvidos. E como disse anteriormente, elementos saudosistas que nos levam de volta ao início da década de 90, fazendo de tudo isso ainda mais gostoso de se ver. A trilha sonora faz sua parte, assinada por Michael Brook, o mesmo que encantou o público em "Na Natureza Selvagem", encanta mais uma vez, uma seleção de excelentes músicas que farão muita gente cantar junto, com clássicos como Bowie, New Order, The Smiths e Sonic Youth, entre outros.

"As Vantagens de Ser Invisível", através de sua narrativa extremamente sensível, comove pelos detalhes. Charlie é um personagem muito interessante, enigmático, por muitas vezes, onde somente no final entendemos o que de tão trágico aconteceu em seu passado que interferiu em toda sua personalidade, e surge não como forma de justificar suas atitudes, mas para ilustrar o quão atormentado era aquele garoto. Sam e Patrick também possuem lá seus dramas e tudo é muito bem cuidado pelo bom roteiro, principalmente Patrick enfrentando os conflitos por ser homossexual, e é com ele que a trama alcança bons momentos dramáticos, onde nada é tratado de forma superficial. "Aceitamos o amor que acreditamos merecer", é através desta frase que muito dos conflitos são guiados. Patrick que enfrenta a dor de não ser aceito até mesmo por aquele a quem ama, a irmã de Charlie que aceita ser violentada pelo namorado, Sam que namora os piores caras por nunca acreditar em seu próprio potencial, sem nunca se dar conta do quanto é especial e por fim, Charlie, que encara a solidão da vida por acreditar que seja digno de nada, não é bom o bastante para aqueles que ama.

Logan Lerman, que é mais conhecido por protagonizar "Percy Jackson", ganha enfim, um papel digno de seu talento, emociona com seu Charlie e trás verdade a cada um de seus dramas. Ezra Miller que já havia surpreendido em "Precisamos Falar Sobre o Kevin" no começo deste ano, consegue fugir completamente de seu perturbado personagem e trás uma atuação, ainda assim muito forte, mas revela ainda um carisma não conhecido, e se mostra um ator, apesar de muito jovem, muito competente. Emma Watson prova que seu talento vai muito além de Hermione, é uma promissora atriz, ela brilha em cena, encanta com cada sorriso, cada fala, emociona com sua sensibilidade e faz deste filme um evento ainda mais marcante. Ainda temos bons coadjuvantes como Mae Whitman e Paul Rudd.

Tem todos os elementos para um dia se tornar "cult", e desde já, o vejo como um clássico. Pois pouquíssimos filmes conseguiram ir tão a fundo na mente e nos sentimentos dos adolescentes e todo este universo dramático, divertido, inconsequente, controverso. Que respeita aqueles que vivem e que vivenciaram esta época, não banalizando seus problemas, seus dilemas. Um filme sensível e muito honesto em sua proposta, que ganha proporção ainda maior quando três grandes atores se jogam de forma intensa e convincente, repleto de boas intenções e de momentos que ecoarão na memória, como lembranças de um momento, que mesmo vindo da ficção, parece, agora, fazer parte de nossas vidas. "As Vantagens de Ser Invisível" nos faz sentir infinitos, ou pelo menos, nos dá aquela sensação de voltar no tempo e fazer com que tudo dure para sempre.

NOTA: 9




2 comentários:

  1. Confesso que o filme -a princípio- não me atraiu pelo roteiro, mas lendo aqui essa sinopse fiquei com vontade de assistí-lo.
    Me surpreendi, pois esse filme conseguiu o que quase nenhum outro "filme de adolescentes" conseguiu, que foi adentrar em nossos sentimentos e anseios de forma sutil e marcante. Parece que tudo deu certo nesse filme, desde a trilha sonora à bela atuação dos atores Logan Lerman e Emma Watson. É o tipo de filme que você assiste e fica esperando por mais, pois se sente como se voltassem as boas lembranças do passado.
    Um bom entretenimento para a toda família

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  2. Uoool...q massa! Consegui convencer alguém a assistir um filme!! Valeu, Dener!

    "Conseguiu adentrar em nossos sentimentos e anseios de forma sutil e marcante"...foi exatamente esta sensação que tive tbm ao assistí-lo...

    e como vc disse, qndo o filme terminou fiquei com vontade de mais, poderia ter ficado na sala de cinema vendo horas e horas desta história, pois é incrível como tudo funciona tão bem nele, desde as atuações perfeitas e a trilha sonora, claro, recheada de boas canções!

    Mais uma vez, obrigado pelo comentário! Volte sempre, hehe

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