quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Crítica: Permissão

Quando o eterno é tempo demais. 

por Fernando Labanca

Eu estou em uma fase que ando procurando filmes maduros sobre relacionamentos modernos. "Permission" pode até não ser muito marcante, nem mesmo uma grande obra, mas, com certeza, vem para debater alguns assuntos relevantes e só por isso merece uma chance. Tem coisas interessantes a dizer e diz com sinceridade. Questiona sobre como saber se aquela pessoa com a qual nos relacionamos é "a" pessoa, aquela que deveríamos viver a eternidade ao lado. E ao duvidar disso acaba por trazer uma verdade desconfortável: a de que, talvez, a vida seja curta demais para se viver uma única história de amor. 

"Permission" se inicia quando um casal de longa data está prestes a dar o próximo passo, o casamento. Anna (Rebecca Hall) nunca namorou ninguém além de Will (Dan Stevens) e isso passa a atormentá-la, pois ele nunca soube o que é a vida além deles. É então que ela surge com uma inesperada proposta: o liberta a transar com outra mulher por uma noite. O trato se expande e Anna passa a ter o passe livre também. A partir dessa traição consentida, ambos começam a questionar sobre a vida que construíram juntos e se ficar com uma única pessoa é o que realmente querem dali para frente. 


A obra é, curiosamente, um projeto entre família e amigos. O diretor Brain Crano é casado com o ator David Joseph Craig, que faz o irmão de Rebecca Hall no filme, que por sua vez estudou e é grande amiga do ator Dan Stevens, além de ser casada com Morgan Spector, que também está presente no elenco. Ou seja, um grupo de pessoas que se conhecem muito bem na vida real e decidiram se juntar para fazer um longa-metragem. Essa intimidade é nítida na tela e todos se mostram muito a vontade durante as cenas. A história flui quase como uma peça de teatro com poucos personagens que precisam se enfrentar o tempo todo. E entre questionamentos, discussões e desilusões, todos parecem estar evoluindo, seguindo um novo rumo. O filme revela este instante de ruptura na vida amorosa desses amigos, que ou aceitam o destino ou se permitem arriscar outra saída. 

-O que há de errado comigo?
-"Eu não sei quem eu sou sem você!". Foi isso o que disse, certo? Você não gostaria de saber?

O cinema sempre nos ensinou sobre "o destino". Sobre como o universo nos prepara para encontrar uma pessoa especial e quando encontramos essa pessoa é com ela que devemos ficar para sempre. Nossa cultura é assim. É o que nossos pais esperam de nós. Talvez nós esperamos isso de nós mesmos também. É bom, então, quando vem um filme para quebrar um pouco esse idealismo romântico. "Permission" não vem para falar sobre relacionamentos abertos e nem menosprezar a traição, vem para dizer que tudo bem se apaixonar outra vez. Estar com alguém a vida toda pode ser assustador. É quase como retirar a chance de nos perder nos braços de outras. É quase como não nos permitir conhecer a pessoa ideal para nós porque optamos pelo conforto de uma relação já estabelecida. E se "a" pessoa estiver lá fora? Em outro canto a nossa espera. O filme fala justamente sobre esta permissão. Sobre permitir se conhecer melhor. Porque relacionamentos camuflam indivíduos e muitas vezes eliminam desejos particulares. Como Will poderia saber o que é amor a dois se ele nunca soube o que é solidão? Como desejar um casamento se ele nunca soube o que é sua vida sem ela? Como saber que o parceiro é "a" pessoa quando ele é a única pessoa?

Rebecca Hall, como sempre, ilumina o filme. É uma atriz com boa presença, que encanta, que traz verdade. Dan Stevens, mais uma vez, ótimo. Os dois juntos funcionam é é ótimo quando eles também funcionam com os outros parceiros que surgem na trama. Nos faz desejar esse estranho experimento por eles. Me encanta toda a direção de arte do filme, também, e neste capricho do diretor em enquadrar tão bem suas sequências. Na segunda metade da obra, a história vai perdendo a força, foge um pouco do foco, tornando alguns momentos arrastados e alguns deles, dignos de serem deletados. No mais, um produto elegante, sexy, sensível e que busca se aprofundar nessa complexidade que são os relacionamentos. São respostas difíceis, o que é ótimo vindo de um gênero que sempre procurou pelas saídas mais convencionais. "Permission" vem para dizer que é um alívio existir fins, porque eternidade é tempo demais para se viver junto. Que seja eterno enquanto dure, mas é natural que não dure para sempre.

NOTA: 8


País de origem: EUA
Título original: Permission
Ano: 2017
Duração: 96 minutos
Distribuidor: -
Diretor: Brian Crano
Roteiro: Brian Crano
Elenco: Rebecca Hall, Dan Stevens, François Arnaud, David Joseph Craig, Morgan Spector, Gina Gershon, Jason Sudeikis




3 comentários:

  1. Péssimo filme, um filme que vai tentar tirar as pessoas do caminho da salvação.

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  2. O título me incomoda um pouco, mas optei por ler a ironia contida nele.

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  3. Parte do texto:

    " Como Will poderia saber o que é amor a dois se ele nunca soube o que é solidão? Como desejar um casamento se ele nunca soube o que é sua vida sem ela? Como saber que o parceiro é "a" pessoa quando ele é a única pessoa? "

    Pra isso serve o namoro, para você conhecer a pessoa, saber se é com essa pessoa que você quer passar o resto da sua vida.

    Literalmente, esse filme serve para distorcer as pessoas de mente fraca a fazerem o errado.

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