sexta-feira, 9 de novembro de 2012

3 em 1: HITCHCOCK


Alguns diretores de cinema tiveram suas filmografias marcadas na história, obras atemporais que farão sentido muitos anos depois de serem lançadas. Alfred Hitchcock (1899 - 1980) é um deles, tem em sua lista de filmes verdadeiras obras-primas que até hoje são lembradas como as melhores de todos os tempos. O que faço aqui, nada mais é que comentar três filmes que tive a oportunidade de ver recentemente e que vale a pena comentar, e porque não, tentar incentivar os novatos, assim como eu, a conhecer esta estranha e interessantíssima mente de Hitchcock.

por Fernando Labanca



Janela Indiscreta (Rear Window, 1954)

Filmado inteiramente em apenas dois cenários, o quarto do protagonista e o condomínio no qual ele vive, ou seja, a vista de sua janela. Logo, tinha tudo para ser monótono, mas não é. Toda a trama se concentra no mesmo lugar, os personagens não se movem, a paisagem nunca muda, no entanto, sua história é crescente e o bom roteiro prende a atenção, assinado por John Michael Hayes e baseado no conto "It Had to be Murder" de Cornell Woolrich. Teve uma refilmagem no ano de 1998 com Christopher Reeve e Daryl Hannah nos papéis principais, além do suspense "Paranóia" (2007) de D.J Caruso, no qual teve grande inspiração. Recebeu quatro indicações ao Oscar, Melhor Diretor, Fotografia, Roteiro e Trilha Sonora.

Em um bairro de Nova York, o fotógrafo profissional Jeffries (James Stewart) se mantem confinado em seu apartamento por ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Para perder seu tempo, ele passa as horas de seu dia observando seus vizinhos, tentando compreender a rotina de cada um, da dançarina ao compositor festeiro, do casal apaixonado à mulher "coração partido", cada um com seu mundo vivendo numa diferença de poucos metros. Eis que certa noite, vê algo muito incomum, a saída repentina de um vizinho durante a madrugada, logo, o sumiço de sua esposa, fazendo Jeffries crer que o homem seja um assassino e passa a coletar provas, através de seu binóculo, para incriminar o desconhecido. Para isso conta com a ajuda de sua namorada, Lisa (Grace Kelly), que logo se vê interessada no caso, ao mesmo tempo em que precisa reatar os laços com ele, logo que os dois vivem discutindo por suas diferenças.

Como disse anteriormente "Janela Indiscreta" tinha todos os elementos (ou a ausência deles) para ser algo monótono, mas não é graças ao roteiro bastante dinâmico, mesmo diante de um cenário tão limitado, acaba usando os diálogos e as situações para ganhar ritmo e consegue. Era necessário um excelente diretor para comandar tudo isso, Hitchcock prova todo seu talento, a maneira como compõe cada sequência, o bom uso da câmera que caminha por toda a vizinhança e entra no apartamento de Jeffries sem corte, captando cada elemento importante para a compreensão da trama. Com sua câmera subjetiva, nos faz entrar dentro da obra, somos o protagonista, o que ele vê também é o que vemos, o prazer que Jeffries sente ao invadir a privacidade dos outros, passa a ser o nosso prazer também. Hitchcock sabe brincar com essas possibilidades que só o cinema é capaz.

É uma mistura de gêneros bem ordenada, do suspense que nos envolve, que nos faz querer revelar os mistérios, da comédia que diverte com seus diálogos bem escritos e o doce romance entre o casal principal que no meio de tanto mistério precisam se resolver. Tudo isso funciona também graças ao ótimo elenco, James Stewart demonstra toda a curiosidade e ansiedade de seu personagem e nos convence sobre suas ideias malucas, já Grace Kelly é uma beldade que encanta a cada palavra e trás uma naturalidade deliciosa para as cenas. Mas quem acaba roubando a cena é a enfermeira Stella, interpretada por Thelma Ritter, engraçada, entrando e saindo nas horas certas e com, definitivamente, os melhores diálogos.

"Inteligência. Nada causou a raça humana tantos problemas quanto a inteligência". Poderia listar aqui as tantas frases marcantes que o filme possui e são por elas que o filme acaba valendo a pena, pois de situações que de longe soam tão pequenas ou tão absurdas, o roteiro parece tirar o melhor proveito de tudo, de uma história simples, acabamos presenciando uma grande análise psicológica da sociedade. "Janela Indiscreta" é sobre o quanto é impossível julgar os outros pelo o que vemos de longe, como não há como julgar o vizinho pelo o que ouvimos através das paredes ou o que vimos pela fresta da porta, a vida que cada um guarda é um eterno mistério, o que o ser humano vive em sua privacidade jamais será compreendido, o que ele mostra ao mundo é a versão do que ele espera que os outros vejam, não necessariamente a versão real.

No entanto, toda a história tão detalhada se perde ao seu final, na pressa de acabar, tudo acaba se resolvendo de forma rápida e sem muito sentido, indo contra a tudo o que havia sido feito até ali. Porém, apesar de seu final fraco, não prejudica tanto o resultado geral, ainda é uma obra que merece respeito e admiração.

NOTA: 8



Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958)

Considerado para muitos como a obra-prima do diretor e presente em algumas listas como um dos melhores filmes de todos os tempos, "Um Corpo Que Cai" é mais uma vez uma mistura de gêneros, do suspense criado através de situações bem inusitadas que geram facilmente a curiosidade daquele que assiste, com um romance açucarado, com direito a beijos longos e diálogos inspiradores, típicos dos filmes daquela época. Indicado ao Oscar de Melhor Som e Melhor Direção de Arte, ficou marcado também pelo efeito criado pelo próprio Hitchcock em dar a famosa sensação de vertigem, muito utilizado em outros títulos, através do zoom e o afastamento da câmera. Baseado no livro "D'Entre les Morts" de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, curiosamente, escrito com um único intuito, servir de base para o filme de Hitchcock.

John "Scottie" Fergunson (James Stewart) é um detetive que sofre de acrofobia, e graças a este medo, compromete uma missão em seu trabalho e devido a isso é afastado. Eis que um antigo amigo, sabendo de sua situação, entre em contato pedindo que ele encare mais um trabalho, observar sua esposa. Madeleine (Kim Novak) anda com um comportamento estranho nas últimas semanas, some de repente, age como se estivesse possuída por um espírito que a fizesse agir de forma suspeita. Scottie passa, então, a seguir a bela moça, e sem que pudesse controlar, passa a sentir uma forte atração por ela, ao mesmo tempo, uma curiosidade sobre seu caso, no qual, se mostra decidida a cometer um suicídio, no entanto, para salvá-la, o detetive terá que encarar seu maior medo, a altura.


"Um Corpo que Cai" tem uma história bastante imprevisível e este, sem sombra de dúvida, é seu grande mérito. Definitivamente não há como prever os próximos passos dos personagens e de suas tramas, onde cada cena caminha por um caminho desconhecido, indo totalmente na contramão do que se espera. A breve sinopse que coloquei é apenas uma pequena parte do plano maior, a premissa de uma louca viagem, cheia de mistérios, acontecimentos inusitados e um amor improvável. No entanto, até que toda a explicação inicial termine, o filme é bastante arrastado, morno, eu diria, sem nenhum grande momento ou algo que faça algum sentido, quando enfim, o longa começa a mostrar sua verdadeira face, suas reais intenções, é então que tudo passa a ficar interessante, os personagens crescem e as peças deste estranho quebra-cabeça começam a se juntar. É tudo muito original nesta obra, a relação de amor entre o casal é interessantíssima, é na verdade, o grande foco do filme, é belo o que ambos precisam enfrentar para enfim se amarem, Scottie, que precisa encarar o medo, encarar as mentiras e todo o plano mal intencionado que fazem as suas costas, Medeleine, encarar uma crise de identidade, desconstruindo sua personalidade para ser amada, onde já não mais se sabe quem ela realmente é.

Hitchcock constrói cenas bem marcantes, tem o dom da imagem e consegue trabalhar perfeitamente todos os elementos necessários para sua filmagem, desde as cores, como o vermelho gritante das estampas no restaurante, utilizando delas para criar e manipular o clima que precisa a cada situação, valendo citar a bela fotografia, deixando cenas como as da floresta parecerem verdadeiras pinturas. O cuidado com a escolha do figurino, construindo personalidades através deles, se utilizando ainda de inúmeros recursos, seja de efeito de câmera ou até mesmo de animações para nos inserir naquele louco universo de vertigem, nos colocando na pele do protagonista. Hitchcock nos oferece um cinema de grande qualidade, chega a ser belo o cuidado que ele tem com cada sequência, cada composição.

Apesar dos inúmeros pontos positivos, "Vertigo", mais uma vez, deixa a deseja em seu final. Tenho que admitir que é um final surpreendente, não há como esperar o que ocorre, no entanto, esta surpresa não é nada agradável. Chega a ser bizarra sua sequência final, não faz sentido, parece desrespeitar tudo o que havia sido feito antes, uma pena, deixando aquela sensação de que o filme precisava terminar e colocaram um final mais rápido, mais do que isso, deixando uma grande sensação de vazio. Claro, é Hitchcock, vale muito a pena ver, conhecer, só não espere por um final a altura das grandes ideias que o longa teve.

NOTA: 7 



Psicose (Psycho, 1960)

Para muitos, o grande clássico do terror. Para outros, o melhor filme de todos os tempos. Dentre tantos títulos que alcançou ainda é reconhecido por sua cena épica, o esfaqueamento no banheiro, a sequência que parece definir o gênero. "Psicose" de Hitchcock marcou sua época e hoje é visto como obra-prima. Baseado no livro de Robert Bloch, no qual o diretor gastou milhões para ter o direito e curiosamente, gastou mais milhões para comprar todos os livros já no mercado para impedir as pessoas de lerem e descobrir o final antes de ver seu filme, logo que, seu final é a grande arma da trama. Indicado ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte, Fotografia e Atriz Coadjuvante (Janet Leigh). Teve uma refilmagem em 1998 por Gus Van Sant que foi bastante criticada e tinha Vince Vaughn (?) e Anne Heche nos papéis principais.

Marion (Janet Leigh) é secretária de uma imobiliária, tudo parecia normal até que ela decide não depositar os quarenta mil dólares de seu chefe no banco, guardando as notas em sua bolsa e fugindo daquele lugar sem demonstrar medo das consequências, pega a estrada sem destino e cansada, decide parar num motel antigo, o Motel Bates. O local já quase não recebia hóspedes, devido o desvio da estrada principal. É comandado por Norman Bates (Anthony Perkins) que tenta levar adiante o negócio iniciado por seus pais, seu pai havia morrido e sua mãe ainda morava num casarão logo ao lado do Motel. Marion, é então, recepcionada por este bom rapaz, tímido e sem jeito com as palavras, os dois acabam iniciando uma longa conversa, não muito tempo depois ela é esfaqueada, brutalmente assassinada no banheiro de seu quarto. A partir de então, o Motel Bates passa a ser visitado por aqueles que procuram Marion e por aqueles que procuram o dinheiro sumido, sem saberem que ali havia inúmeros outros mistérios.


O grande clássico do terror é bem diferente do terror que hoje conhecemos ou até mesmo do que definimos de terror. Há poucos sustos, a violência é bem sutil e rápida e pouco tememos pela vida dos personagens. É o conhecido terror psicológico, todo o mistério que ronda aquele lugar é o que acaba nos envolvendo e nos fascinando, o mistério por trás da morte da até então protagonista, o que há por trás daquela cena tão surpreendente, muito mais do que tudo isso, o que há por trás da mente daquele indivíduo chamado Norman Bates, ele é o terror do filme. Filmado em preto e branco, por opção do diretor, por não querer fazer um filme "ensanguentado" demais. Este é Hitchcock, criando um terror sem muitas mortes e pouco sangue, provando que o que vemos hoje está muito longe de ser terror, há muito com que se aprender com "Psicose".


Lançado numa época onde estranhamente, as pessoas não tinham tanto interesse em permanecer na sala de cinema até o final da obra, Hitchcock vem com todas as armas possíveis para prender seu público e consegue. Matar a protagonista antes da metade do filme, uma das atrizes mais famosas e queridas da época, é uma ousadia que pouco se vê. Seu final é outra grande aposta de Hitchcock, a curiosidade que causa durante toda a trama para enfim descobrirmos as verdades e a espera vale muito a pena. Diferente dos outros títulos que vi, "Psicose" tem um final digno, perturbador, complexo, doentio, nos revelando uma das personalidades mais enigmáticas da história do cinema, Norman Bates.

Anthony Perkins faz de Norman um personagem épico, toda sua construção detalhada, seus olhares, seu sorriso tímido, onde na mesma cena consegue transformar toda sua doçura em psicopatia, por ele já vale a pena conferir a obra. Vencedora do Globo de Ouro, Janet Leigh também convence na pele de Marion. Um bom elenco, diálogos mais uma vez, bem pensados, fotografia impecável, uma direção segura, um roteiro bem elaborado com direito a um final excelente, elementos que fazem de "Psicose" um marco. É interessante como mesmo vendo hoje, a obra faz muito sentido. É claro que é preciso ver compreendendo a época em que foi lançado e o que era feito, entendo as limitações de filmagem e tudo o que hoje parece forçado mas antes era natural para aquele cinema, e levando tudo isso em consideração, "Psicose" é um grande acerto de Alfred Hitchcock e é com esta resenha que encerro minha postagem. 

NOTA: 9

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