sexta-feira, 6 de junho de 2014

Crítica: Refém da Paixão (Labor Day, 2013)

Sinto que atualmente no cinema, requer muita coragem para se fazer um filme de romance, falar sobre o amor sem parecer piegas, sem cair no clichê, sem fugir daquilo que já foi tão explorado. Como é maravilhoso, então, quando nos deparamos com obras como "Labor Day", que em pleno 2014 encontrou um jeito novo de ser romântico e o brilhante roteiro parece ter encontrado as palavras certas para decifrar este sentimento, que é ao mesmo tempo, honesto, inteligente e tocante. O filme também marca mais um bom momento na carreira deste grande diretor, Jason Reitman e da atriz Kate Winslet, indicada ao Globo de Ouro por sua atuação.

por Fernando Labanca

Baseado no livro "Fim de Verão" de Joyce Maynard, o filme narra um inusitado final de semana de uma família. Henry (Gattlin Griffith) é um jovem que passa por uma fase de descobertas, sente atração pelas garotas da escola e pelas belas mulheres que estampam as capas de revista, e dentro de casa se esforça para ser um homem modelo, se esforça em salvar sua mãe, Adele (Kate Winslet), da solidão, que mesmo anos depois, não conseguiu se recuperar do término de seu casamento, além de um segredo do passado que a impede de ser feliz. Até que num fatídico feriado, o Dia do Trabalho, os dois resolvem fazer algumas compras, é lá que se deparam com Frank (Josh Brolin), um homem misterioso e intimidador, que pede por ajuda e os convence a levá-lo para casa, é lá que ele se revela um criminoso foragido. E aos poucos, Frank vai conquistando a confiança de ambos, vai preenchendo o vazio daquela casa, daquelas vidas.


"Podia sentir sua solidão e carência antes que eu soubesse o que era."

Jason Reitman é um diretor interessante, elogiado e premiado por "Obrigado Por Fumar", "Juno" e "Amor Sem Escalas", muitos apontaram seu fracasso com a comédia "Jovens Adultos" (2011) e até mesmo com este, "Refém da Paixão". Vejo de forma diferente, tanto este quanto seu trabalho anterior são filmes difíceis, se antes ele deu uma nova abordagem à comédia indie, neste, ele revitaliza o romance. É um diretor ousado, que faz algo que ninguém está esperando. Vejo uma filmografia coerente e de grande qualidade. E "Labor Day" é só mais uma prova de tudo isso, do quão bom ele é, do quão suas escolhas são bem pensadas, é um filme que veio para somar, e entrar para sua lista, assim como todos que ele já realizou, dos filmes que merecem uma chance, que são dignos de admiração.

É um trabalho notável de uma boa direção, em cada instante, cada olhar, cada silêncio. A fotografia, iluminação e trilha sonora, composta por Rolfe Kent, ajudam nestes momentos de contemplação, tudo o que surge na tela é belo e o olhar de Reitman sobre a história é de uma delicadeza muito única. É. até hoje, seu material mais sério, continuando, porém, com a maturidade de seus trabalhos anteriores. O roteiro, também assinado por Jason Reitman, é um primor de bom gosto, parece que tudo está encaixado em seu devido lugar, e mesmo que não tenha muitos conflitos ou reviravoltas, os bons diálogos e o clima de suspense dão o tom da obra. Os flashbacks e a sensação de mistério é o grande diferencial neste "romance", que reformula o gênero, onde apenas ao final compreendemos de fato os protagonistas da história, compreendemos suas dores, suas perdas e o quanto aquele final de semana foi significativo. Tanto a belíssima narração em off, quanto as falas dos personagens são ditas de forma honesta, e como disse anteriormente, de forma inteligente, pois recriam algumas definições, seu roteiro parece encontrar uma nova solução para dizer coisas óbvias, encontra novas formas de dizer sobre amor, sobre sexo, sobre afeto.

Kate Winslet é aquela atriz que chegou no nível onde não precisa provar mais nada, e ainda assim ela sempre dá o seu melhor e sempre surpreende, sua personagem é complicada, uma dona-de-casa desiludida, que perdeu alguém que amava, mas não a vontade de amar. Sua entrega, mais uma vez, magnífica. Josh Brolin, um grande ator, não conseguiria imaginar outro a interpretar Frank. E a revelação, o jovem Gattlin Griffith, que encara o protagonista de forma convincente, mandou muito bem. Não poderia deixar de citar a bela narração de Tobey Maguire, que interpreta Henry mais velho, um ótimo trabalho.

"Por todas as discussões de partes do corpo e hormônios eles esquecem de mencionar o que se sente. 
Há outro tipo de fome. A fome pelo toque humano. Desejo. As pessoas nunca explicam como é. 
O anseio."

"Labor Day" é mais uma daquelas obras com um coração enorme, feita com tanto sentimento, é aquele tipo de filme que nos conforta, nos aquece, nos faz acreditar, mais uma vez, no amor, nas relações. Parece que durante seus minutos acreditamos um pouco mais nas pessoas, na humanidade e o quanto esses seres podem nos surpreender, apesar das angústias, das perdas, do vazio, há sempre algo bom a se dizer, há sempre um bom acontecimento a nossa espera. É um filme que fala dessa ausência, da falta do contato, do olhar, das palavras. Por fim, vi algo belo, humano, delicado. Uma trama simples capaz de emocionar de forma intensa. Um romance maduro, que tem a coragem de falar sobre amor sem medo de ser piegas. Recomendo.

NOTA: 9 




País de origem: EUA
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Paramount Pictures
Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Clark Gregg, Brooke Smith, J.K Simmons, James Van Der Beek
Diretor: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman





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