sexta-feira, 27 de junho de 2014

Crítica: A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014)

Adaptação do best seller de John Green, "A Culpa é das Estrelas" poderia até ser só mais uma trama sobre a adolescente com câncer que acaba se apaixonando. Sim, de certa forma, é mais uma sim. Entretanto, a trama acaba trazendo algumas mudanças nesta história tão batida, traz ideias inteligentes e bastante reflexivas. E mais do que tudo isso, tem o grande mérito de ser uma ótima adaptação, onde depois de muitas tentativas frustradas de ler e ver o filme, finalmente vejo uma obra que respeita não só o texto original, mas as sensações e a emoção que o livro trazia.

por Fernando Labanca

Hazel Grace (Shailene Woodley) é uma jovem que já convive com o câncer há alguns anos. Já se acostumou com a ideia de morrer e de que alguma hora tudo irá acabar, de repente, magoando aqueles que a cercam, como seus pais. E por causa deles, decide encarar um grupo de apoio ao lado de jovens que passam pela mesma fase complicada de sua vida. É lá que acaba conhecendo Augustus Waters (Ansel Elgort), um garoto galanteador e carismático. A amizade surge fácil e logo se apaixonam, mesmo que ambos tenham uma visão diferente sobre a doença, porém Hazel desde o início o alerta, é uma granada e a qualquer momento poderá explodir, mas nada faz com que ele se afaste, ainda mais quando Gus decide realizar o grande desejo de Hazel, encontrar com o autor de seu livro favorito e ter finalmente as respostas sobre a história que nas páginas não houve um fim.


Sim, desde a primeira vez que vi o trailer tive um certo preconceito sobre a obra, logo que não é o primeiro sobre o tema. Resolvi dar uma chance para o livro, gostei. Ao me deparar com o filme não demorei muito a perceber o quão fiel ele era, desde a composição dos personagens até a ordem dos acontecimentos. Como sempre digo aqui no blog, não acho que seja uma obrigação a adaptação ser feita de forma tão literal, resgatar as sensações e a emoção que se tem ao ler estão acima de se ter um texto fiel. Por isso, vejo "A Culpa é das Estrelas" um filme um tanto quanto raro em questão de adaptação. Mais do que respeitar a obra original, senti o esforço não apenas dos roteiristas, mas da boa direção de Josh Boone e dos atores ali presentes em conseguir transpor os sentimentos do livro para a tela. É realmente emocionante o que se vê em cena, ainda que possua aquela leveza de um filme adolescente, o drama existe e funciona perfeitamente bem, nos entregando um final belo, que poderá surpreender os desavisados e partir o coração dos mais sensíveis. Porque chorar é um efeito colateral de se estar vendo "A Culpa é das Estrelas".

Mais do que um romance entre adolescentes com câncer, e sei que muita gente vai limitá-lo desta forma, trata-se uma obra que faz pensar sobre algumas questões. Ainda que a trama do autor Peter Van Houten e sua importância na história não me agrade muito - aliás, ele acaba se tornando mais interessante no filme com a boa atuação de Willem Dafoe - acho interessante esta busca de Hazel pelo final não descrito no livro que ele escreveu e que ela tanto admira. Livro que conta a história de uma garota com câncer e que termina drasticamente no meio de uma frase, assim que a protagonista morre. Essa sua jornada em querer descobrir o que acontece com os outros personagens da história diz muito sobre seu medo do futuro, sobre querer ter a certeza de que as pessoas que ama ficarão bem assim que ela partir, que suas vidas continuarão independente de sua existência. Enquanto isso, Augustus tem como principal medo, o esquecimento, de não conseguir realizar algo importante em vida e ser esquecido. A relação que nasce entre eles é interessante, estas duas visões sobre a vida e morte acabam que se completando, Hazel compreende a existência da dor e Gus vai aceitando o fato de que ser especial não é realizar um ato heroico ou ter o nome estampado num jornal. Aceitar isso como verdade é quase como ignorar a beleza real do mundo, a beleza das pequenas coisas, dos pequenos atos e gestos, daquilo que realmente torna as pessoas tão especiais, tão únicas.

Josh Boone, que já havia realizado o bom "Ligados Pelo Amor" (2012), prova mais uma vez que está no caminho certo. Gosto de suas escolhas, de como o filme flui, da sensibilidade e humor de cada cena, da trilha sonora pop que muito conversa com o universo apresentado. O roteiro, assinado pelos mesmos de "500 Dias Com Ela", é bem correto, a narração em off funciona bem e comove em diversos momentos, assim como os diálogos. Os personagens são bem desenvolvidos e ganham vida pelas ótimas interpretações. Sinto que grande parte da emoção da obra surge pela entrega e verdade de Shailene Woodley, como não se afeiçoar por sua Hazel Grace? Ansel Elgort se sai bem também e os dois possuem uma bela sintonia. Impossível não se apaixonar pelo casal e sofrer ao lado deles. Ainda no elenco, Laura Dern se destaca como a mãe de Hazel.

Tenho que afirmar que existem momentos que me incomodam no filme, como quando o casal é aplaudido no museu de Anne Frank ou a importância que é dada desnecessariamente a outras subtramas como a de Isaac (Nat Wolff) e do autor Peter Van Houten. Entretanto, diferente de qualquer adaptação que tenha visto nos últimas anos, culpo o livro, pois se há defeitos no longa, eles vieram diretamente das páginas de John Green. Em suma, a adaptação resulta numa obra extremamente adorável, gostosa de ver e que ganha ainda mais pontos por ter como protagonistas esse casal, tão envolvidos e tão honestos em cada olhar. Vi uma obra tão emocionante quanto pretendia ser, que diverte e comove na medida certa, sem parecer forçado ou melodramático demais. Me admira esta visão que a trama traz sobre a morte, como um mero efeito colateral de se estar vivo, onde a protagonista mesmo tendo a certeza de seu fim, que sempre opta pelo "quando" e não pelo "se", não começa a viver intensamente fazendo tudo aquilo que não fez, realizando seus últimos sonhos, de fato, ninguém faria isso. Hazel tem o pé no chão, continua vivendo sua vida normalmente, amando, perdendo, seguindo em frente. "A Culpa é das Estrelas" é sobre amor, mas é também um pouco sobre matemática e como alguns infinitos são maiores que outros. Recomendo.

NOTA: 9




País de origem: EUA
Duração: 125 minutos
Distribuidor: Fox Film
Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Willem Dafoe, Nat Wolff
Diretor: Josh Boone
Roteiro: Michael H.Weber, Scott Neustadter



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