sábado, 5 de julho de 2014

Crítica: O Homem Duplicado (Enemy, 2014)

Dirigido por Denis Villaneuve (Incêndios, Os Suspeitos), o filme fora baseado no livro de José Saramago e tem causado algumas discussões sobre sua trama confusa e seu final "mind blow". De fato, se trata daquelas obras que terminam e deixam um rastro de perguntas e nos faz revirar a mente tentando encontrar respostas ou alguma interpretação lógica para toda aquela loucura apresentada. Um suspense psicológico intrigante e extremamente bem conduzido.

por Fernando Labanca

Adam Bell (Jake Gyllenhaal) é um professor de história, que vive uma vida solitária e sem grandes emoções. Mantém uma relação com Mary (Mélanie Laurent), mas sem nenhum compromisso. Eis que numa noite qualquer, assistindo a um filme, percebe que um dos figurantes é exatamente como ele, e curioso pelo estranho acontecimento, começa a pesquisar sobre este ator e sobre a existência desconhecida de seu sósia, nascendo, então, uma obsessão por este homem. Do outro lado, Anthony (Gyllenhaal) é um ator que de início se assusta com a presença de seu duplo, mas não demora muito até perceber que pode tirar alguns proveitos desta situação.


O diretor Denis Villeneuve tem trilhado um caminho interessante em Hollywood, logo após seu excelente trabalho no thriller "Os Suspeitos", lançado ano passado, ele consegue, mais uma vez, provar a que veio, revelando não só uma direção competente, mas uma obra de extrema qualidade. De origem canadense, ele coloca como cenário o local que provavelmente deve conhecer bem, a cidade de Toronto, e capta suas paisagens em sequências um tanto quanto hipnotizantes, como se seus prédios estivessem prestes a se colidirem, dão uma sensação de desproteção, nos acanha, e este sentimento de vulnerabilidade nos acompanha até seu final, tudo parece repulsivo. E ao seu decorrer, este sentimento de aversão é acentuado com a aparição de aranhas, que surgem em cena em função da linguagem que o roteiro resolveu seguir, a metáfora.

Quando uma obra que se utiliza tanto de metáforas e simbolismos para alcançar suas intenções, parte do público pode acabar saindo frustrado ao se perder no meio do processo, logo que sua compreensão não vem fácil, e de imediato, pouco fará sentido. Provavelmente o público se dividirá e é natural que isso aconteça, entre aqueles que dizem ter entendido e aqueles que dizem não entender. Aqueles que dizem entender dirão que a obra é genial e aqueles que dizem não entender dirão que é uma bosta. Assim como quando estamos diante de qualquer obra de arte ou qualquer outra obra subjetiva do cinema, dizer que entendeu e começar a colocar significado para tudo é uma grande perda de tempo, é quase como querer compreender o que estava na cabeça dos criadores de tudo aquilo, jamais alcançaremos tal feito, portanto, o que nos resta ao final de "O Homem Duplicado" é criar hipóteses, criar versões do filme em nossa própria mente. Ninguém estará errado ou certo, existem muitos detalhes, e provavelmente iremos ver uma nova obra quando assistirmos pela segunda vez.

"O caos é uma ordem ainda indecifrável". É assim como Saramago sintetizou sua obra, é assim que Villeneuve inicia seu longa. Acompanhamos, então, a conturbada mente deste protagonista e sua obsessão ao se deparar com seu duplo, como se fosse uma versão de si mesmo vivendo outra rotina. É até irônico o fato de seu sósia ser um ator, mais irônico ainda é quando este mesmo ator decide se camuflar em outra vida, revitalizando aquela antiga ideia de que a vida do outro é sempre mais interessante. O protagonista perambula pelo mundo como um ser insignificante, que parece renegar a própria existência, existência que parecia não existir até que se encontra com Anthony, é quando passa a se questionar do que é feito, qual a identidade que os diferem. O roteiro é bem interessante e repleto destas peculiaridades que causam curiosidade e intrigam, lançam diversas ideias e diálogos que nos forçam a pensar a cada instante. No começo da obra, Adam, em sua aula de história reflete sobre alguns pontos da sociedade, sobre como as ditaduras controlam uma ideia e sobre como alguns pensadores acreditavam que os séculos eram apenas uma repetição do anterior. "É um padrão que se repete ao longo da história". A cena surge como uma cena banal, e este é o jogo proposto por Denis Villeneuve, colocar as respostas onde menos imaginamos.

Jake Gyllenhaal funciona bem no gênero, parece compreender a loucura de seus personagens e da trama, marcando mais um bom momento em sua longa filmografia. O destaque, porém, fica para a atriz Sarah Gadon, que interpreta a esposa do ator, uma coadjuvante forte e que parece devorar cada cena em que está presente. A trilha sonora é outro ponto positivo da obra, dando o tom angustiante e hipnotizador que a trama necessitava.

"O Homem Duplicado", falha, ao meu ver, em suas altas pretensões. Acredito que houve uma necessidade exagerada em querer ser complexo, criando dúvidas e questionamentos em instantes que obviamente não precisavam, por vezes, suas metáforas acabam sufocando o próprio andamento da trama, soando forçada em alguns momentos. Apesar dos "exageros", trata-se de um suspense bem amarrado, bem escrito, que surpreende por suas brilhantes ideias, se faz valer mais por suas reflexões, não necessariamente pelos simbolismos usados para isso. O filme trás um estudo interessante e complexo sobre identidade na sociedade atual, sobre como vivemos de acordo com  um padrão. Se nossa existência fora baseada em tantas outras experiências, até que ponto podemos afirmar que o que somos hoje faz parte de nossa própria identidade? Somos o produto de um protótipo já testado, somos a farsa de uma tragédia já vivenciada.

NOTA: 8




País de origem: Canadá, Espanha, EUA
Duração: 90 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Elenco: Jake Gyllenhaal, Sarah Gadon, Mélanie Laurent, Isabella Rossellini
Diretor: Denis Villeneuve
Roteiro: Javier Gullón

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