sexta-feira, 18 de julho de 2014

Crítica: A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped, 2011)

Sucesso no Festival Sundance, "A Música Nunca Parou" fora baseado no livro "O Último Hippie" de Oliver Sacks. E assim como os excêntricos casos do famoso neurologista, a trama acompanha a jornada de um pai em recuperar as memórias do filho através das canções que embalaram os anos 60. E Entre Bob Dylan, Beatles e Grateful Dead, acompanhamos esta tocante história, extremamente simples em seu formato, mas intensamente emocionante.

por Fernando Labanca

Nos anos 50, Henry (JK Simmons), um grande admirador da música, costumava fazer um jogo com seu pequeno filho, Gabriel, onde a cada vez que uma canção tocava ele teria que dizer a que lembrança ela estava ligada. Anos depois, já na adolescência, Gabriel (Lou Taylor Pucci) passou a seguir seus próprios passos, descobriu o rock, passou a questionar o governo e o modo como seus pais viviam, e depois de uma briga com seu pai, decidiu fugir de casa. Quase vinte anos depois, ele reaparece no hospital, diagnosticado com um tumor no cérebro, que o tornou num ser irreconhecível, incapaz de ter alguma memória concreta. É então que Henry, no esforço de se conectar novamente a seu filho, passa a apostar novamente na música, acreditando que ela poderia lhe trazer as lembranças de sua vida novamente, ele contrata uma musicoterapeuta (Julia Ormond), que com seus discos de vinil chega a conclusão que Gabriel apenas respondia à estímulos diante das canções que ele ouvia na juventude, diante de suas músicas favoritas ele reascendia, se tornava consciente, novamente vivo.



"A Música Nunca Parou" é o filme de estreia do diretor Jim Kohlberg, que realiza um trabalho simples, nitidamente feito com pouco orçamento, onde não há muitas variações de locações e cenários. Logo, a obra acaba se sustentando por suas boas ideias e por seu poderoso elenco, que encara os diálogos e engrandecem aquilo que poderia ter sido menor. 

Parece sempre haver um elemento chave em cada instante que o torna algo maior, e ter colocado Lou Taylor Pucci e J.K.Simmons como protagonistas foi de grande acerto. Simmons, que ainda não ignora seu carisma e seu bom humor, finalmente entrega uma performance marcante num personagem dramático e seu embate com o Taylor Pucci é magistral, este jovem ator que sempre acaba surpreendendo e nunca, de fato, foi reconhecido, é mais um belo trabalho em sua carreira, a força de seu olhar, a maneira insana e descontrolada, ao mesmo tempo doce com que interpreta Gabriel é fantástica. As coadjuvantes são ótimas também, Cara Seymour e Julia Ormond, ainda que a personagem de Cara, como a mãe, pudesse ter sido mais aproveitada. Além das boas atuações, a obra, assim como a trama exigia, conta com uma ótima trilha sonora, de Beatles com sua épica "All You Need is Love" e Bob Dylan com seu "Mr.Tamborim Man", passando ainda por nomes como Rolling Stones e The Grateful Dead, entre outras bandas e ótimas canções.

O roteiro, ainda que de início dê a sensação de girar e não sair do lugar, acaba surpreendendo. Ao seu final, não esperava sentir o que senti, não da forma como senti, de repente me vi sendo invadido por uma grande emoção. A trama, mesmo que simples, cresce, o drama é muito bem inserido e muito bem guiado pelo roteiro e quando menos esperamos somos só lágrimas assistindo aquele encontro, entre pai e filho. É simplesmente belo o resultado final, intensamente comovente. A ideia da obra é genial, o que existe ali em cena é algo gigantesco, poderoso. A história do pai que perde o filho após uma briga sem sentido, o filho que sempre esteve distante, com sua fuga, essa distância, pela primeira vez se torna concreta. Ao retorno, Henry tenta, não só, trazer as lembranças de volta à mente de Gabriel, tenta restabelecer uma relação que nunca existiu, precisa encontrar seu filho, literalmente. É belíssimo essa relação que nasce entre eles, esta busca por memórias. É interessante como a música surge neste cenário, e como ela é capaz de resgatar sensações passadas, é brilhante então, quando Henry compreende que para conversar com Gabriel, ele precisaria aprender suas canções favoritas, ainda que rejeitasse o gosto musical do filho, apenas por conseguir se aproximar, compreendê-lo, ser o pai que nunca foi, ter o filho que nunca teve. E se no passado não havia afeto entre eles, como consequência, nunca existiram boas lembranças, passa a ser preciso, então, inserir uma nova memória, uma nova sensação, seria necessário uma nova música para estabelecer este novo contato.

Um filme que surpreende, que parece pouco, mas não é. Existem muitas obras que exploram este poder da música na vida das pessoas, mas poucas conseguiram ser tão profundas como esta, dá uma importância a ela como quase nunca foi vista, relata como as personagens se envolvem nas canções e nas histórias que elas produzem, nos sentimentos, na poesia. A música não surge como um espetáculo, surge de forma introspectiva, intimista, ainda assim, admirável, envolvente. Longe de querer ser um musical com uma soundtrack de sucesso, "A Música Nunca Parou" é um drama honesto, que mostra esta aproximação entre pai e filho, ambos usando canções como forma de comunicação, de contato. Extremamente emocionante, inteligente, belo, fascinante. Vale pela trilha, pela grande ideia explorada de forma tão delicada, pelas atuações marcantes de Lou Taylor Pucci e J.K.Simmons. Vale pelo final, que desponta como um dos mais emocionantes que vi este ano, simples, porém profundamente tocante. Recomendo.

NOTA: 9,5




País de origem: EUA
Duração: 105 minutos
Distribuidor: Europa Filmes
Elenco: Lou Taylor Pucci, J.K.Simmons, Julia Ormond, Cara Seymour, Mia Maestro
Diretor: Jim Kohlberg
Roteiro: Gary Marks, Gwyn Lurie

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