segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Crítica: O Diário de uma Adolescente (The Diary of a Teenage Girl, 2015)

Baseado no livro de Phoebe Gloeckner, "O Diário de uma Adolescente" narra a descoberta de novos desejos de uma jovem enquanto se envolve com o namorado da própria mãe.

por Fernando Labanca

Apesar da vibe indie e descolada, "The Diary of a Teenage Girl" não é de fácil digestão e muito menos de fáceis conclusões. O longa nos coloca na década de 70 e revela uma fase de descobertas para a jovem Minnie Goetze (Bel Powley), narrando sua primeira relação sexual e como aquilo definiu seus próximos passos, como aquilo a transformou em outra pessoa. Poderia até ser um evento comum, como na vida de qualquer garota se não fosse seus complicados laços familiares. Uma mãe distante (Kristen Wiig) que vive em um universo próprio e que abriga em sua casa Monroe (Alexander Skarsgard), um namorado abusivo, com quem Minnie se envolve sexualmente. É naquele homem mais velho que ela acaba encontrando paixão e um corpo que negue suas tantas neuras e inseguranças.


É constantemente desconfortável acompanhar a jornada de Minnie. E ao mesmo tempo em que tudo parece tão errado, tudo flui de uma forma que soe compreensível, ainda mais quando conhecemos tão bem nossa protagonista, suas falhas e seu jeito único de encarar a vida. O roteiro, muito bem escrito, aliás, acerta ao não condenar a relação entre a jovem e aquele homem mais velho, não crucificá-los. Não por mostrar o ato como correto ou simplesmente aceitável, mas por deixar que esse julgamento acontecesse por aquele que assiste. Sim, de fato, Monroe é um escroto, mas ainda assim, fico feliz pelo longa não cair na armadilha clichê de redenções, oferecendo consequências fantasiosas e irreais sobre o caso. De certa forma, é bastante verossímel às relações que vão sendo construídas e todas suas resoluções.



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Bel Powley é um achado. Não haveria outra atriz para interpretar a personagem principal. Seu jeito malicioso somado ao seu olhar inocente. A atitude de alguém que age com toda a segurança de quem sabe o quer, mas que no fundo é tão perdida como todos nós um dia fomos (e que ainda somos). Tudo o que ela diz e faz é tão condizente com seus 15 anos, suas discussões imaturas e todos seus receios, sua curiosidade sobre o próprio corpo e tudo o que poderia encontrar no sexo. Um vício, um refúgio, uma necessidade. É tudo uma questão de procura, de alguém que está sempre procurando algo, sempre querendo ser achada, amada, compreendida mesmo que vivendo sua realidade fodida. Powley traz verdade a tudo isso. É uma atuação forte, corajosa.

O visual da obra chama a atenção, com todas suas cores, texturas e movimentos. É interessante quando ele dialoga tão bem com a protagonista, como se cada locação escolhida tivesse sido criado por ela mesma, assim como indica seu promissor talento como ilustradora. As estampas sempre tão coloridas e os detalhes tão cheios de personalidade acabam por dizer muito sobre ela. As intervenções gráficas são belas e somam a narrativa pelo curioso contraste que cria, da inocência colorida e divertida das ilustrações que sempre invadem seu melancólico e caótico estado de ser. Como se ela não compreendesse tao bem sua vida e passasse a criar, mesmo que em sua mente, uma versão melhor dela, pois de fato, nada é tão bonito e romântico como ela, erroneamente, visualiza. Se o design de produção acerta, temos ainda outros elementos que funcionam na tela, como a ótima trilha musical e figurinos que tão bem representam os anos 70 e a direção de Marielle Heller.

É sempre bom encontrar esses pequenos e bons projetos guiados por uma mulher, logo que o cinema, infelizmente, ainda é uma arte comandada por homens. "O Diário de uma Adolescente" é apenas o primeiro trabalho de Marielle Heller como diretora e roteirista, que já se mostra promissor. O longa, por sua vez, peca pelo ritmo, que nem sempre é dos melhores, onde sua trama não nos prende 100% do tempo e isso acontece quando a história dá voltas e voltas e muitas vezes não sai do lugar. Porém, é uma obra que fascina, que traz fortes argumentos e uma protagonista intrigante. Sendo mulher, homem, jovem ou adulto, é fácil se identificar com alguns de seus discursos e nesta sua luta constante em ser achada. No fundo, todos temos o desejo de sermos tocados, de sentir nossa existência sendo comprovada pelos braços de outros. E devido a isso, seu final é tão delicado e tão belo, quando fala sobre amor próprio e tudo aquilo que erramos em acreditar que receberemos do mundo de fora.

NOTA: 8




País de origem: EUA
Duração: 102 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Marielle Heller
Roteiro: Marielle Heller
Elenco: Bel Powley, Alexander Skarsgard, Kristen Wiig, Christopher Meloni


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