quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Crítica: Negócio das Arábias (A Hologram for the King, 2016)

Um filme estranho. E isso é um elogio.

por Fernando Labanca

Ao longo de seus minutos fiquei constantemente me perguntando sobre o que exatamente era o filme. Uma comédia, talvez...depende de seu humor. Um drama motivacional? Talvez. Depende muito do momento em que vive a pessoa que assiste. Sim, porque no fundo, "A Hologram for the King" pode significar algo diferente para cada um. Resolvi não encaixá-lo em algum gênero ou criar qualquer tipo de expectativa, logo que seu início deixa claro que não possui muitas pretensões. Refletindo sobre tudo isso e somando ao fato sua lentidão, cheguei a conclusão de que é muito fácil detestá-lo. E respeito e entendo aqueles que o odiarem. Por alguma razão que não sei muito bem, porém, me senti estranhamente atraído pela obra, por sua calmaria, por sua atmosfera. Existe algo sendo dito ali e não são com palavras fáceis.


O filme se inicia quando Alan Clay, vivido por um carismático Tom Hanks, após diversos fracassos pessoais, se envolve em um inusitado projeto no trabalho. Na Arábia Saudita, ele e sua equipe de TI teriam que vender um sistema extremamente avançado de videoconferência por projeção holográfica para o Rei. Lá, Alan precisa lidar com os choques culturais e sua crise de ansiedade, que aumenta devido a tantos obstáculos que é obrigado a enfrentar. 

Baseado no livro de Dave Eggers, no qual o próprio Tom Hanks já havia demonstrado uma admiração pela obra, "Negócio das Arábias" traz o retorno do alemão Tom Tykwer na direção. É preciso ressaltar, se trata de uma bela direção. O extremo oposto do revigorante e dinâmico "Corra Lola, Corra" (1998), sua obra mais cultuada. Seu novo trabalho é tranquilo, calmo, de poucos diálogos e poucas ações. No entanto, ainda há beleza em sua construção e um cuidado em cada sequência. A edição se destaca, a forma como algumas cenas são fundidas é interessante, como quando o protagonista tem suas alucinações. As locações é outro ponto que chama a atenção. Fiquei me perguntando onde tudo aquilo foi gravado, é bonito e causa um choque por sua grandiosidade. A trilha sonora, também assinada por Tykwer acentua a delicadeza de suas passagens, da paz que transmite. Claro que, no fim, o que realmente nos prende à produção é a divertida e descompromissada atuação de Tom Hanks, que causa uma empatia fácil, que nos convida à sua jornada.

Acredito que a falta de foco da trama poderá afastar grande parte do público, que talvez desista antes de seu sensível final. Não existe um tema e um propósito muito nítido e isso faz falta. Ao mesmo tempo, quando o roteiro, por fim, encontra um sentido e revela suas boas intenções, tudo surge de forma não muito convencional, onde o encontro do protagonista com a própria vida e com outros indivíduos, inclusive o inusitado início de um romance, foge da obviedade e encontra um tom surpreendentemente maduro para suas resoluções. Alan representa este sonho americano não realizado, da família perfeita e casa própria, deste fracasso pessoal de não ter conquistado aquilo, aparentemente, conquistado por todos. Neste sentido, é curioso sua anomalia nas costas, aquela falha física que leva a culpa por todos os seus erros, que nunca é retirada pelo seu receio de não encontrar outra justificativa. "A Hologram for the King" também é sobre adaptação, sobre se distanciar de tudo aquilo que lhe é comum para se encontrar, sobre se reerguer depois de ter caído e encontrar uma nova razão para continuar quando parece não haver mais. É sobre como uma floresta pode se tornar um abrigo, sobre como terrenos vazios se tornam impérios. Não sei como ou quando, mas enquanto o assistia me vi sendo invadido de boas sensações. Senti paz e um adorável conforto.

NOTA: 7,5




País de origem: EUA
Duração: 98 minutos
Distribuidor: Mares Filmes
Diretor: Tom Tykwer
Roteiro: Tom Tykwer
Elenco: Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury





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