quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Crítica: 99 Casas (99 Homes, 2014)

Quanto vale o seu sucesso?

por Fernando Labanca

Inspirado em eventos reais, "99 Casas" retoma a crise econômica que ocorreu em 2008 nos Estados Unidos e como o colapso nos bancos afetou o mercado imobiliário. Na trama, Rick Carver (Michael Shannon) é um corretor de imóveis, que dono de seu próprio e promissor negócio, encontrou algumas saídas para lucrar na crise e sobreviver no mundo capitalista (nem que para isso ele precise forjar alguns documentos). Sangue frio, ele não se afeta em ver famílias sendo despejadas de suas residências e é desta forma que seu destino cruza com o do jovem Dennis Nash (Andrew Garfield). Pai solteiro, ele também divide a casa com sua mãe (Laura Dern) e devido algumas dívidas, todos são obrigados e se retirar do lugar que viveram durante anos. Sem salário fixo e sem perspectivas para o futuro, Dennis acaba aceitando uma oferta tentadora de trabalho, vinda do próprio Rick Carver, o homem que lhe tirou tudo.


Lançado no Festival de Veneza em 2014, onde venceu o Prêmio de Melhor Filme, "99 Casas" é mais um trabalho notável do diretor Ramin Bahrani (A Qualquer Preço, 2012). Se trata de um thriller envolvente, que cria uma premissa extremamente interessante no começo e a desenvolve com todo o cuidado possível, oferecendo, ao final, muito mais do que um texto rico sobre as consequências da crise e como dentro do capitalismo são sempre os mais fracos que caem. O roteiro oferece reflexões sobre ética, moral, sobre integridade. O protagonista parece caminhar sempre por uma linha tênue, onde sua árdua busca por recuperar sua casa, símbolo de sua dignidade como homem e como pai, é logo substituída por ambição, pelo fascínio que encontra no poder, na superioridade. Dennis é um personagem complexo, é até difícil definir suas motivações ao mesmo tempo em que é compreensível seus passos, justamente porque o texto é real e sabemos o quão corruptível o ser humano pode ser. A relação entre o jovem e seu mentor é o que torna este filme tão grandioso. É muito forte o que existe ali, o que nos deixa aflitos e curiosos sobre os próximos passos que darão ou até que ponto seguirão fiéis dentro de seus próprios valores.



Os primeiros dez minutos de produção são catárticos. Andrew Garfield, em uma de suas melhores atuações até aqui, nos derruba junto com ele, nos afoga junto ao seu desespero. Desde a sequência do tribunal até o forte momento em que sua família é despejada, somos despertados por um turbilhão de sensações. É triste, é real e nos deixa com uma profunda angustia, não só pelo o que ocorre com Dennis, mas com todos os indivíduos retratados. A entrega de Garfield é comovente e Michael Shannon, como coadjuvante, entrega mais uma grande interpretação. Shannon é brilhante em cada cena, construindo um ser instigante e com seu tom de voz quase que linear, assusta mais que muito vilão por aí, ainda que o roteiro evite algo caricato, o ator dá um show.

Confesso que não tinha expectativas quanto ao filme. Se cheguei a ver o trailer, mal me recordava. Por fim, me deparei com um espetáculo, com ótimas ideais, um roteiro bem escrito e uma direção segura, além das fantásticas atuações. "99 Homes" é uma obra intrigante, que trabalha muito bem a ideia do "que você faria?", nos colocando pra dentro da trama e nos fazendo refletir sobre como reagiríamos em tal situação, sobre até que ponto nos conhecemos para saber o quanto perder nos afetaria e o quanto ganhar nos transformaria. É fácil olhar e julgar as atitudes do protagonista, no entanto, jamais saberemos como é estar em seu lugar. Esta é a grandeza do filme, a dúvida inquietante que nos traz.

NOTA: 9






País de origem: EUA
Duração: 112 minutos
Diretor: Ramin Bahrani
Roteiro: Amir Naderi, Ramin Bahrani
Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário #NuncaTePediNada