segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Crítica: 2 Coelhos (2012)

Sei que muitas pessoas já desejaram ver um filme nacional como este. Grandioso, com efeitos especiais, muitas cenas de ação, muito barulho e explosões. Ainda que carregue em si, um tom crítico, muito comum no cinema do Brasil, "2 Coelhos" é entretenimento puro, claramente inspirado nas grandes produções hollywoodianas e que não deixa nada a desejar a concorrência, e diferente da fonte em que bebe, ainda consegue, acima de tudo, trazer conteúdo, com muito estilo e inteligência.

por Fernando Labanca

Edgar (Fernando Alves Pinto) é um cara que vive na cidade de São Paulo e tem sua vida alterada quando, em um acidente de carro, mata uma mulher e seu filho. Devido a grande influência de um deputado, consegue se livrar da prisão e assim, passa uma temporada em Miami e quando retorna, depois de dois anos, decide por em prática seu elaborado plano e como em nenhum momento em sua vida, agora tinha uma missão a ser cumprida, tinha um porquê de estar vivo. Com uma bomba que funciona através de um sensor de proximidade, Edgar arquiteta toda uma estratégia, envolvendo diversas pessoas, em diversas situações, para um único propósito, matar dois coelhos em uma cajadada só, eliminando o deputado que o salvou, símbolo do falho sistema de justiça, e também um criminoso, Maicon (Marat Descartes), que sempre escapou da prisão devido ao suborno de políticos influentes. E para este plano, também entra em ação, Julia (Alessandra Negrini), uma promotora pública que possui informações necessárias e que é uma peça fundamental para todo o quebra-cabeça.


Quem assistir "2 Coelhos" estará diante de muitas inovações, no que diz respeito ao cinema nacional. O diretor Afonso Poyart, por incrível que pareça, seu primeiro longa-metragem, oferece ao público um leque de surpresas, de animações 3D, efeitos especiais extremamente bem-feitos, explosões, e referências a cultura pop e nerd, tudo o que raramente vimos por aqui e de forma tão competente. Chega até ser estranho ver atores brasileiros em meio a todas essas intervenções e cenários, como a cidade de São Paulo ser palco de sequências eletrizantes, deixando qualquer produção estrangeira no chinelo. É estranho, mas ao mesmo tempo, prazeroso, dá aquele orgulho de ver um cinema nacional, mesmo que feito para a massa, ter tantas qualidades, e mesmo diante de tantos efeitos, oferece ainda conteúdo, uma história bem contada, um roteiro bem planejado, cheio de reviravoltas e um final surpreendente, e tudo isso exposto para as telas pelas mãos de um novato, mas extremamente talentoso diretor, que acerta ao buscar referências lá fora, acerta mais ainda, por superá-las. 

O melhor deste filme é que mesmo tendo tantas inovações visuais, não as tem como única coisa boa a oferecer, percebemos isso quando nos sentimos fortemente atraídos pela história, pelo louco plano do protagonista, onde aos poucos um complexo quebra-cabeça vai sendo montado. Como Edgar mesmo diz em certo momento, "Ás vezes, a gente precisa se distanciar do papel para enxergar o desenho todo, com mais clareza". O roteiro assinado também por Poyart, aposta nesta premissa, e nós, como público, precisamos estar atento a cada informação mostrada, e tentarmos a cada passo das situações, enxergar com uma certa distância os fatos para tentarmos entender os porquês, como se um segundo filme acontecesse em nossa mente, logo que os acontecimentos são narrados em ordem não cronológica, opção que faz desta ideia algo muito mais interessante. Um ponto crucial é nos dado, a morte da família e este momento vai sendo reprisado durante a trama, no entanto, a cada vez que a vimos nos é apresentado um outro ponto de vista e quanto mais repertório temos sobre aquele universo de Edgar, enxergamos aquele momento com outros olhos. O roteiro brinca sabiamente com essas jogadas, se aproximando e se afastando dos acontecimentos e a cada novo looping, vemos tudo de forma diferente, até chegarmos ao seu final, quando tudo faz sentido e não há como não se emocionar com o resultado final. O bom roteiro também sabe brincar com seus personagens, tudo funciona quase como um tabuleiro de xadrez, cada um tem sua função muito bem definida, no entanto, demoramos a entender exatamente quais são elas e até este momento de revelação, nunca sabemos os planos de cada um e de que lado eles estão. Enfim, uma trama surpreendente, onde cada passo é uma surpresa, surpresas que de fato, são muito agradáveis. 

Fernando Alves Pinto tem uma longa carreira como ator, principalmente nos cinemas, mas infelizmente nunca teve seu reconhecimento a até hoje passa despercebido pelo público. Este, com certeza, foi um de seus maiores projetos, espero que o reconhecimento chegue. Parece entender a loucura de seu personagem, convence e encara bem o filme como protagonista. Alessandra Negrini também surpreende ao abandonar os trejeitos televisivos para encarnar a mocinha no cinema, não se mostra perdida a todas as intervenções visuais e prova ter sido uma boa escolha para o papel. Os coadjuvantes são ótimos, Caco Ciocler, que emociona com seu frágil personagem, Marat Descartes que rouba a cena com seu vilão, além do carisma de Thaíde, Neco Villa Lobos e Robson Nunes. 

Por trás da violência, dos palavrões, que claro, não poderiam faltar se tratando de um filme de ação nacional, "2 Coelhos" é repleto de boas intenções, que dá uma volta em seu louco, complexo, divertido e inteligente roteiro para chegar a um final surpreendente, que agrada, que emociona, que nos faz sentir que toda aquela viagem valeu muito a pena. Um filme que se admite ser feito para entreter, é feito para a massa e isso em nenhum momento o diminui, muito pelo contrário, é entretenimento de qualidade, que abusa de efeitos especiais para contar uma boa história, o que já é muito raro, e ainda mais no Brasil, mais raro ainda, é tipo o que Michael Bay jamais conseguiu fazer lá fora e Afonso Poyart conseguiu em seu primeiro filme. Excelente roteiro, excelente diretor, excelentes atores. Para completar, ainda nos deparamos com uma bela fotografia, uma edição dinâmica e bem feita e uma incrível trilha sonora, assinada por André Abujamra e Marcio Nigro, de nacionais como Matanza e Lenine às internacionais de Radiohead, emocionando com sua "Exit Music" e 30 Seconds to Mars e seu clássico "Kings and Queens", muito bem inseridas nas cenas. Em suma, "2 Coelhos" representa o Brasil muito bem, diverte e entretém de forma bastante eficiente. Recomendo. E muito. 

NOTA: 9




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