sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Crítica: Sob a Pele (Under the Skin, 2013)

Novo longa dirigido por Jonathan Glazer (Reencarnação, 2004), fez bastante burburinho há alguns meses atrás quando imagens da atriz Scarlett Johansson nua apareceram na internet. Infelizmente, sei que grande parte do público foi atrás da obra por causa de sua presença, o que provavelmente saíram bem frustrados. Não se trata de algo comum na carreira de Johansson, é um sci-fi extremamente original que se difere e muito do é lançado. Evocando o cinema de Stanley Kubrick, o que vemos é uma obra nada convencional, que possui cenas inquietantes, visualmente chocantes.

por Fernando Labanca

Penso que um dos grandes erros da divulgação de "Sob a Pele" foi logo em sua sinopse. Em todos os sites já nos entregam o fato da protagonista ser uma alienígena. É uma pena. Este detalhe poderia ser a grande surpresa de seu final e durante sua projeção, esta dúvida no público poderia ter sido a grande força da obra. Infelizmente, começamos o filme já sabendo disso, pois sim, Scarlett Johansson interpreta uma alienígena que perambula pelas ruas da Escócia a procura de uma presa, homens livres e de boa aparência, para se alimentar, sem lamentar, com a frieza de um serial killer. Tudo muda quando se depara com um homem incomum. É então que começa a se sentir mais humana, e como consequência disso, se torna mais frágil.


"Under the Skin" é uma obra bastante ousada, inovadora eu diria. Jonathan Glazer realiza uma ficção científica muito única, longe do espaço, a ação ocorre nas ruas, no cotidiano das pessoas, e este seu realismo é mostrado de forma crua, seca e que entra em um forte contraste quando o diretor se joga ao surreal, nos entregando sequências visualmente perturbadoras, trash, porém impecáveis. Todas as soluções que o diretor encontra são bem originais, que apesar de buscar referências em Kubrick, seu visual choca justamente por ser tão novo, por buscar alternativas jamais alcançadas. A trilha sonora, que muito remete à "2OO1", assim como os sons e ruídos, causam tanto incômodo quanto aquilo que vemos. A lentidão e o uso mínimo de diálogos também fazem parte desta sua proposta. Glazer domina tão bem aquilo que tem mãos, constrói uma obra extremamente original, um sci-fi como nunca se viu igual. Vale ressaltar a fantástica sequência onde um dos corpos presos pela alienígena se desintegra e a sequência final, tão perturbadora quanto delicada.

Entretanto, não pude deixar de sentir uma certa insatisfação ao seu decorrer. Não me importo de ver uma obra monótona, com tanto que tenha o que dizer, o que mostrar. "Sob a Pele", infelizmente, não possui tanto argumento para preencher seus longos minutos, até a primeira hora de longa, pouca coisa, de fato, acontece - você poderá sair, dar uma volta, beliscar alguma coisa na cozinha, voltar e não ter perdido nada - o roteiro nos expõe um ciclo tedioso de uma trama que não sai do lugar. É tudo muito arrastado e lento, sei que estas características fazem parte de sua intenção, mas quando o silêncio tem pouco a dizer, sua função deixa de ter sentido. Por fim, vi uma obra visualmente rica mas que logo me causou o desinteresse por digeri-la.

Não teve muito o que Scarlett Johansson fazer em cena, ainda assim, é impossível não elogiá-la, sua coragem é admirável, mesmo que desde sempre ter abusado de sua sensualidade no cinema, resolveu se expor justamente neste, num projeto tão arriscado que não agradará todos os públicos, onde sua nudez tem um propósito e surge longe de ser sensual ou provocativo, sua presença tem o poder de chocar, assim como o resto do filme. 

É difícil definir exatamente qual é o público de "Sob a Pele", alguns provavelmente amarão e acharão genial, outros, apenas, odiarão. Se trata de algo nonsense, com roteiro pouco explicativo, e talvez essas dúvidas que a trama vai deixando é o que nos prenda até o final, entretanto, fui assistir com uma certa empolgação devido aos grandes elogios, mas acabei me decepcionando, confesso que cansei, cheguei ao ponto de torcer para acabar. Vale pela experiência muito única que Jonathan Glazer nos oferece, entretanto, sua monotonia cansa, seu vazio entendia. É muito bom ver uma obra tão bizarra, tão original, a verdade é que o cinema carece um pouco disso, e a obra tinha tudo para ser uma nova referência. Muitos apontaram este como sendo o nascimento de um clássico, "Under the Skin" tem a aparência e o formato de um clássico sim, mas diferente de um, é facilmente esquecido.

NOTA: 6





País de origem: Reino Unido
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Paris Filmes
Elenco: Scarlett Johansson
Diretor: Jonathan Glazer
Roteiro: Jonathan Glazer, Walter Campbell

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