quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Crítica: Demolição (Demolition, 2015)

Novo longa-metragem do já renomado diretor Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas), "Demolição" traz autenticidade a um tema batido e constrói, ao seu decorrer, um produto marcante, original e de extrema sensibilidade.

por Fernando Labanca

Ainda não consigo entender como uma das maiores pérolas de 2016 não chegará aos cinemas. Vejo "Demolição" como o melhor filme em território norte americano do canadense Jean-Marc Vallée, o mais completo e o que mais alcança a genialidade e brilhantismo de sua obra-prima, "CRAZY - Loucos de Amor" (2005). É admirável toda a trajetória do cineasta e fico feliz que ele tenha chegado até aqui, entregando um produto tão incrível e, ao mesmo tempo, tão diferente do que ele já fez. Há muito de Jason Reitman aqui também, que ao assinar a produção do longa, recupera em toda sua construção, a espontaneidade e doçura do cinema independente. E assim como em "Livre", o último trabalho do diretor, temos aqui um protagonista que precisa lidar com o luto e parte em uma jornada de autodescobertas, de aceitação de seu novo mundo. Ainda é um relato delicado, muito longe da obviedade, oferecendo um roteiro difícil, que jamais encontra soluções e palavras fáceis.


Jake Gyllenhaal dá vida a Davis, que segue confortável em seu trabalho e ao lado de uma esposa na qual não se importa em dar atenção. Eis que ela falece em um acidente de carro e ele precisa enfrentar um período de luto em que não faz parte, logo que chega a estranha conclusão de que não a amava. Nesta fase sentimentalmente confusa em que se encontra, Davis começa a perceber o mundo a sua volta e passa a ter um senso avançado de curiosidade sobre tudo o que lhe cerca, inclusive das pessoas. É neste momento em que seu destino cruza com Karen (Naomi Watts), responsável pelo setor de reclamações de consumidores, ao fazer uma carta de insatisfação de um produto, sem esperar que seria respondido. Ambos iniciam uma inusitada amizade, é então que ele conhece o filho dela, Chris (Judah Lewis), um jovem problemático de quinze anos que logo percebe ter muito o que aprender com o jeito libertador e sincero que aquele misterioso homem tem vivido.

O luto é um tema já muito discutido no cinema, logo as chances de parecer banal ou irrelevante são sempre grandes. Que bom quando surgem obras como "Demolição", que encontram palavras novas para dizer sobre um sentimento, muitas vezes, indecifrável. Até mesmo quando é confuso em suas intenções, é sincero. É bizarro e nonsense a jornada de Davis, sua relação com os demais, sua relação com a vida, com a morte. Não há como definir ou julgar suas estranhas atitudes ao longo do filme. Justamente por isso, penso que o longa não poderia ter transmitido melhor esta fase de perda. É um universo novo a ser decifrado, um país estrangeiro que só quem é nativo compreende. É insano, mas ainda assim, muito sincero tudo o que fala, a forma como fala. O roteiro trata com humor cada passagem, mas sem jamais esquecer a delicadeza de cada personagem, de cada encontro, de cada evolução.


"Demolição" é, acima de tudo, libertador. É um grito, uma urgente necessidade de se rebelar. Se destruir é, também, uma forma de construção, nosso protagonista se lança a uma jornada de constantes modificações, de transformações. De renascimento. Sua cura é encontrada na demolição de seu perfeito universo. Dessa forma, a todo instante algo está sendo desconstruído, seja um refrigerador, seja as paredes de uma casa, seja um conceito, uma convenção social. É libertador quando nós, enquanto público, sentimos nossa dor e insatisfação sendo recompensadas neste universo caótico criado pelo personagem. No fundo, todos adoraríamos um dia na pele de Davis, ter a coragem de fugir, de destruir tudo aquilo que deixou de ter significado, de dançar loucamente na frente de estranhos, sem se preocupar com o depois. É curioso este encontro dele com o adolescente, que além da amizade que nasce ali, nasce esse laço de compreensão. Chris, que também é bastante complexo, vive uma vida cheia de dúvidas, de receios, que encontra em sua rebeldia, uma fuga e naquele homem, a inspiração que faltava para ser, enfim, sincero consigo mesmo.

A obra traz uma montagem fantástica. Cada corte, uma soma, um novo motivo de contemplação. É belo a construção criada por Jean-Marc Vallée. Suas sequências são de extremo bom gosto, são criativas, dinâmicas e não decaem ao seu decorrer. A boa trilha musical traz ainda um novo gás a produção. Enfim, tudo funciona bem aqui e o diretor orquestra cada elemento com maestria, entregando um produto requintado, deslumbrante, agradável aos olhos e a alma.

Jake Gyllenhaal tem se tornado sinônimo de filme bom. Ao menos, nos últimos anos, ele não tem errado e "Demolition" vem para somar em sua admirável filmografia. Chris Cooper e Naomi Watts, mais uma vez, grandes coadjuvantes. O jovem Judah Lewis é uma excelente revelação e chama a atenção com seu forte personagem. É interessante a relação entre todos eles em cena, a maneira como o roteiro vai costurando essas inesperadas aproximações. Bem distante de clichês, da obviedade, o que vemos em cena é um roteiro brilhante, bem escrito, autêntico e cheio de personalidade. O final, assim como toda a obra, é permeado de sensibilidade, de significados, de humanidade. É mais um daqueles filmes que termina e me deixa feliz, preenchido, inspirado.

NOTA: 9




País de origem: EUA
Duração: 100 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Bryan Sipe
Elenco: Jake Gyllenhaal, Judah Lewis, Chris Cooper, Naomi Watts, Heather Lind


4 comentários:

  1. Excelente filme. Interessante que os filmes que Jake Gyllenhaal tem participado acabam levando o espectador a tentar compreender a historia mesmo apos o filme acabar, exemplo disto é "O homem duplicado"

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    1. Sim, isso é bem verdade! Ele tem feito alguns filmes bem interessantes nos últimos anos e tanto "Demolição" quanto "Homem Duplicado" nos faz ter várias reflexões

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  2. Eu gosto da sua avaliação, obrigado, pessoalmente, eu gostei do filme. Eu gosto de filmes que fazem você se sentir como se estivesse ao lado do caráter, é curioso que em demolição, Jake Gyllenhaal faz você se sentir o que ele sente quando ele é incapaz de sentir qualquer coisa. Jean-Marc Vallée definitivamente faz um excelente direção de trabalho. Demolição elenco faz um bom trabalho, eu acho que, no final, eu acho que tem um ritmo bastante lento, no entanto, o filme inteiro vale a pena a história, elenco e direção.

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    1. Obrigado pelo comentário, Valeria! Que bom que gostou da crítica! É muito isso mesmo que vc disse, o filme consegue passar os sentimentos do protagonista quando nem mesmo ele compreende o que está acontecendo, o que está sentindo. E nós, como público, acabamo sentindo tanta coisa! A direção é realmente ótima...torna o filme ainda melhor!

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