terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Crítica: Sing Street - Música e Sonho (Sing Street, 2015)

Para o último post do ano resolvi escrever sobre uma das obras mais incríveis que vi em 2016!

Recentemente indicado ao Globo de Ouro como Melhor Filme de comédia, "Sing Street" marca o retorno de John Carney (Mesmo Se Nada Der Certo) na direção de mais uma obra adorável, que ao trazer toda a beleza dos anos 80, constrói um produto nostálgico, encantador e definitivamente, imperdível.

por Fernando Labanca

Bastante elogiado pelos Festivais que passou, "Sing Street" ficou por muito tempo com um destino incerto aqui no Brasil. Eis que foi salvo pela Netflix e finalmente poderá ser apreciado por aqui. Se trata do mais novo trabalho do diretor John Carney, que conta, mais uma vez, uma história envolvendo músicas...sem necessariamente ser um musical. É um gênero que ele, como músico, tem dominado como ninguém. Assim como suas deliciosas obras anteriores, "Sing Street" tem potencial para listar entre os favoritos de muita gente, isso porque existe algo de muito mágico no cinema de Carney, quase que inexplicável. É fácil de gostar, de se envolver. É fácil se apaixonar pelo o que ele nos apresenta. Tudo parece estar em seu devido lugar e ainda assim sempre nos surpreende positivamente, sempre nos oferece mais uma razão para amar aquilo que ele cria. Sim, você vai querer viver neste filme!


Provavelmente há muito de John Carney aqui, quando ele faz um nostálgico relato sobre a adolescência em Dublin na década de 80, cidade na qual o diretor nasceu e onde iniciou sua carreira como baixista de uma banda de rock (e curiosamente também filmava seus próprios videoclipes). Época habitada por uma sociedade decadente, pessoas abandonam seus lares e partem para Londres em busca de um futuro melhor, de oportunidades. A esperança existe apenas no outro lado do mar e é preciso ter coragem para partir. É neste cenário que vive Conor (Ferdia Walsh-Peelo), que ouve suas canções em alto e bom som para não ter que ouvir as discussões de seus pais que estão prestes a se separar. Para economizarem, eles decidem colocar o filho em outra escola, lugar em que Conor terá que se adaptar e enfrentar um bullying humilhante e constante. Eis que certo dia avista uma bela garota, Raphina (Lucy Boynton), que é uma modelo sonhadora, e para conquistá-la ele decide chamá-la para participar do videoclipe de sua banda. O problema é que ele não tem uma banda. Com a ajuda de novos amigos, eles criam a Sing Street e ao som de um Rock n roll futurista, começam a filmar vídeos pela cidade com a participação especial de Raphina que, infelizmente, não corresponde os mesmos sentimentos que o jovem rapaz tem por ela.

"Sing Street" já nos ganha por toda sua atmosfera. O longa faz um resgate delicioso da década de 80 e encontra sua beleza em cada detalhe. Nas roupas, cabelos e maquiagens exagerados, nos objetos que compõe cada cena. Nas canções que embalam a vida daquelas pessoas e na simples apreciação que elas tem diante de um videoclipe e como aquilo representava tão bem as músicas que ouviam. Em como as bandas influenciavam na cultura daquela geração, que se encontrava sempre aberta a um novo tipo de conceito, a uma nova motivação, a uma nova identidade que melhor os representasse. Dessa forma, é curioso a evolução do protagonista, em como ele vai absorvendo e se alimentando dos discos que ouve, que o leva sempre para uma nova direção, que o fazem amadurecer. Da excentricidade de um Duran Duran à melancolia empolgante do The Cure. E tudo isso se soma em suas experiências pessoais, dentro de um local e uma comunidade que não o aceita, pelo contrário, o rejeita, o faz sempre parecer menor do que realmente é. Se no começo, cantar era apenas por conquistar o coração de uma garota, aquilo acaba sendo sua definição, de alguém que precisa de força para encarar tudo aquilo que o faz cair. Chega a ser comovente vê-los cantando enquanto são xingados por estranhos lá no fundo, ou quando Conor imagina o clipe perfeito em sua mente, vivendo o amor que almeja e vendo a felicidade que não existe naqueles que o cercam.

É aquele tipo de filme que você sempre acha impossível ficar melhor, mas ele sempre fica. São tantos instantes marcantes e adoráveis que é difícil escolher o melhor. A verdade é que você sairá cantando todas as canções e querendo viver um pouco de tudo aquilo. Viver os anos 80 da forma como foi recriado, ser amigo daqueles jovens e sentir toda a liberdade que eles sentem diante de um microfone. Como é divertido e delicioso quando eles começam a gravar os videoclipes. John Carney sabe, com todos os seus bons artifícios, encontrar a naturalidade necessária para suas situações e faz tudo parecer tão aceitável e tão convidativo. E com todas as suas ótimas referências visuais, ele encontra a beleza no improviso e em cada ato há algo a ser admirado. Não esquecerei tão cedo os shows da banda e a montagem brega de seus vídeos, como o divertido The Riddle of The Model. Com composições feitas pelo próprio Carney em parceria com Gary Clark, todas as canções são incríveis e ficarão na mente assim que o filme acabar. Drive it Like you Stole it, Up, Brown Shoes entre outras, não parecem escritas nos tempos de hoje e justamente por isso são tão fascinantes de ouvir. Curiosamente, para a canção final, Go Now, Carney conta com a participação de Adam Levine e Glen Hansard, músicos de seus dois projetos anteriores.

O elenco jovem e desconhecido faz bem à obra, são todos muito competentes e existe uma sintonia muito boa entre todos eles. O roteiro, também assinado por John Carney, constrói toda a jornada de seus personagens de forma brilhante, incrivelmente bem escrita. "Sing Street" traz este conceito do Rock N Roll, sobre se arriscar, sobre correr o risco constante de ser ridicularizado e fazer mesmo assim. Sobre ter coragem de aceitar os desafios da vida e enfrentá-los. Por isso, é uma obra tão libertadora, nos inspira a crescer, a lutar por aquilo que acreditamos, mesmo em tempos difíceis. Dessa forma, porém, seu final, ainda que belo, traz um certo tom melancólico. Até que ponto são sonhos arriscados sendo vividos e não imagens de alguém que evita tanto a viver que aprendeu a sonhar demais? Romântico, leve, despojado, um filme apaixonante do começo ao fim, que fará você querer rever outras tantas vezes. Pode ser exagero afirmar que nasceu um clássico aqui, no entanto, de qualquer forma, nasceu uma obra que merece ser lembrada daqui muitos e muitos anos.

NOTA: 10



País de origem: Irlanda
Duração: 106 minutos
Distribuidor: Netflix
Diretor: John Carney
Roteiro: John Carney
Elenco: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Mark McKenna, Ben Carolan, Aidan Gillen








3 comentários:

  1. Realmente muito bom, descrevendo uma realidade local, no caso Dublin, onde com a recessão da e´poca muitos faziam de tudo para migrar para outros países mais desenvolvidos e é claro para as cidades mais importantes como Londres, uma família com diversos problemas e um jovem artista que inspirado transforma um pouco seu mundo nebuloso, nota eu não consigo dar a qualquer forma de arte, mas digo que vale muito a pena assistir...

    ResponderExcluir

Deixe um comentário #NuncaTePediNada