quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Crítica: A Chegada (Arrival, 2016)

O cultuado diretor Denis Villeneuve (O Homem Duplicado, Sicário) cumpre o que prometia e entrega uma ficção científica que renega qualquer fórmula, inteligente e na altura dos grandes clássicos do gênero. Desde já, um dos melhores filmes do ano.

por Fernando Labanca

Baseado no conto "A História de Sua Vida" de Ted Chiang, conhecido como o novo Philip K.Dick na literatura, "A Chegada" inova ao trilhar por caminhos não tão óbvios da ficção científica e fascina pela maneira única com que trabalha seus elementos, desde a jornada de sua protagonista à invasão alienígena. E nada depende de respostas fáceis. A trama pode soar simples, no entanto, está nos pequenos detalhes sua grande genialidade. Acompanhamos Louise Banks (Amy Adams), tradutora e linguista que é procurada pelo exército norte-americano para se comunicar com alienígenas, assim que doze objetos não identificados são estacionados em doze países diferentes, nitidamente, desejando algo da Terra. Entretanto, para que exista algum tipo de comunicação entre a outra raça, ela desenvolve táticas para decifrar aquela desconhecida linguagem.




Ao longo dos anos, Hollywood agiu como se tivesse compreendido a função dos aliens na Terra e seguiu fiel à sua fórmula de sucesso. "A Chegada" surpreende ao encontrar soluções jamais discutidas na ficção científica. Além da atmosfera realista que o diretor Denis Villeneuve consegue imprimir sobre suas sequências, a relação que o roteiro acaba construindo entre os personagens e aqueles seres enigmáticos é fascinante, e dessa forma, a obra acaba oferecendo algo novo ao público, uma outra maneira de encarar o gênero e de sentir outras sensações diante daquilo já tão debatido. A jornada da protagonista é intrigante e facilmente nos vemos em seu lugar, adentrando a um local, predominantemente composto por homens, encontrando sua voz e sentindo um receio profundo diante daquela inusitada situação. O primeiro encontro entre os humanos e as criaturas - que eles passam a chamar de heptapods - é assustador, claustrofóbico mas estranhamente convidativo. Aliás, o filme todo trabalha em cima deste encanto do homem por aquilo que ele desconhece, por este fascínio que temos diante do desconhecido.

A partir de então, todo o trabalho feito por Louise e sua equipe é de uma inteligência extrema. A maneira como ela encontra para decifrar os tantos códigos dentro daquela nova língua, visando se comunicar, visando ter alguma resposta, nos instiga. Parece uma ideia tão simples, no entanto, este contato entre humanos e alienígenas nunca fez tanto sentido como neste filme, que percebe e revela que antes de qualquer combate, antes de qualquer decisão, existe a comunicação. Chega a ser comovente este poder exercido pelas palavras, neste poder existente no diálogo entre duas raças distintas. Parte de nossa civilização, comunicar, dentro da obra, é a maior arma diante de uma guerra iminente, é a única esperança da humanidade. Logo, muito mais do que ser um filme sobre invasão alienígena, "A Chegada" é sobre este mundo composto por homens que falam mas que se recusam a ouvir. A presença das criaturas, portanto, surge como um reflexo, um momento onde os personagens precisam olhar para si mesmos, questionar a realidade, questionar o que faz deles humanos. Não deixa de ser, também, sobre esta forte relação que acaba nascendo entre a linguista e os heptapods, que ao decorrer da trama, alteram sua percepção do universo, alcançando um clímax surpreendente e inimaginável ao seu final.

Denis Villeneuve, apesar de ser extremamente talentoso e de ter construído uma filmografia admirável até aqui, não me parecia a escolha mais óbvia para dirigir uma ficção científica. No entanto, diante da obra, não restam dúvidas de que ele era a melhor pessoa para comandar este projeto, que mesmo trazendo ideias tão complexas e de difícil compreensão, não ignora o público (o que nos dá ainda mais esperança para "Blade Runner 2049", no qual será o diretor). Mas esqueça explosões, perseguições ou qualquer elemento presente em filmes do gênero. Denis entrega um cinema primoroso, contemplativo, que encontra na força de seus personagens e diálogos o seu grande entretenimento. O design de produção se faz presente e chama a atenção por diversas soluções que encontra. Indicando que os alienígenas se comunicam de forma não linear, eles desenvolveram uma sequência de glifos circulares, que além de terem significados reais, tornam a experiência de ver este estudo ainda mais intrigante e muito mais crível. Válido citar o desenho inovador das criaturas, que causam um certo arrepio - devido, também, ao som e ruídos que emitem - e nos deixam ali, hipnotizados todas as vezes que aparecem e claro, sempre curiosos sobre o que, de fato, eles estão tentando dizer. O som, a fotografia e a incômoda e magistral trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson - repetindo a pareceria com o diretor que se iniciou em "Os Suspeitos" - fazem da produção um espetáculo que precisa ser presenciado em uma tela grande.



"A Chegada" não é um produto fácil. Não é óbvio. E que bom que não é. Que bom que conseguiram adaptar o conto que muitos dizem ser inadaptável. Que bom que Villeneuve viu a beleza existente nesta história e soube transpor isso com tamanha maestria. Sim, é um filme lindo. Não somente por suas imagens impactantes, mas principalmente por suas ideias, pelo encanto que encontra na história de todos nós, na nossa comunicação, em nossos dons, em nossa memória, na livre escolha. Nesta nossa escolha diária de aceitar viver mesmo sabendo dos percalços, mesmo aceitando que o futuro não seja tão acolhedor. E ter Amy Adams como protagonista é mais um presente. É uma atriz que faltam adjetivos, que nos convida a sua jornada e mesmo que saibamos de seu potencial, sempre nos surpreende, sempre mostra um lado que não havia revelado antes. Sua performance é digna de prêmios. Diante de tantas qualidades, é inevitável não sentir, nesta altura do ano, que "Arrival" é um dos melhores filmes que tivemos em 2016.

NOTA: 9




País de origem: EUA
Duração: 116 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg






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