terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Crítica: Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016)

O que você (realmente) precisa pra sobreviver no mundo?

por Fernando Labanca

"Capitão Fantástico" é, dentre tantas qualidades que não cabem em uma crítica, um filme mágico. É coração puro, cheio de alma. Dirigido pelo ator Matt Ross, o longa narra a história de uma família que vive na floresta. Com treinamento rígido para sobreviver, os filhos encontram no corajoso pai, Ben (Viggo Mortensen) uma espécie de mentor, aquele que os ensina tudo o que precisam e tudo o que é necessário para continuar vivendo naquele ambiente. Entre manusear ferramentas, caçar animais selvagens e plantar seus próprios alimentos, Ben vê no legado de Noam Chomsky a sabedoria que não encontrou em nenhum Deus. A jornada dos personagens se inicia quando recebem a notícia de que a mãe, que por um longo tempo se manteve afastada e em tratamento devido sua bipolaridade, se suicidou. Todos embarcam para a cidade, afim de impedir que ela seja enterrada e seja cremada, assim como escreveu em seus últimos pedidos. No entanto, no mundo afora, as leis de sobrevivência são outras e o pai terá que enfrentar o julgamento de todos aqueles que são contra seus excêntricos métodos de ensino.


É sempre difícil ser crítico quando o que temos em nossa frente é uma obra tão singela e tão bonita quanto esta. Parece até cruel querer dissecá-la, ainda mais quando eu a vi inteiramente com o coração e nem tanto com os olhos. Apesar de não ter uma carreira extensa por trás das câmeras, - este é apenas seu segundo longa-metragem - Matt Ross realiza aqui um trabalho admirável, bem conduzido, onde chegou a vencer o prêmio Um Certo Olhar no último Festival de Cannes. As cenas são belas e enaltecidas pela grande qualidade da produção, que entrega uma belíssima fotografia e um cuidado muito grande com cada detalhe, seja no divertido figurino até nos objetos que compõe aquele inusitado universo vivido pelos personagens na floresta, nos fazendo acreditar naquela rotina e naquele modo de vida.

Aliás, o grande acerto do roteiro foi conseguir entregar verdade a um tipo de vida tão distante do nosso, a encontrar a honestidade necessária para cada situação, possibilitando para nós, como público, embarcar em sua aventura e em todas as suas excêntricas composições. Todos os personagens são bem construídos e os diálogos encontram o equilíbrio entre a doçura dos fortes laços afetivos existente entre eles e a bravura que todos carregam em si. É interessante como cada filho reage de forma diferente ao mesmo tipo de confronto, nascendo, dessa forma, alguns conflitos que alteram o tom da obra, que mesmo nunca perdendo o humor, não deixa de enxergar a dramaticidade de seus eventos. O longa trilha muito bem pelos tantos gêneros que resolve abraçar, da comédia ao drama, da aventura a espontâneas sequências musicais. E nada parece forçado ou fora do lugar. Pelo contrário, tudo funciona e tudo é lindo ao nosso olhar. Para um acabamento ainda mais refinado, uma delicada e inspirada trilha sonora, que faz de cada instante ainda mais belo do que já é.

"Capitão Fantástico" traz, também, apesar da leveza, um texto bastante crítico sobre o que é realmente necessário para viver. E no desprendimento total daquilo que tanto nos define - ou que achamos que nos define - como pessoas, Ben busca pelo o que ele acredita ser o necessário, construindo seu próprio modo de vida, auto-suficiente, longe de um mundo e uma sociedade que já não entende mais o que é preciso, que cria necessidades e mais necessidades que não os acrescenta mais, um acumulado de escolhas, pertences e doutrinas que não são suas, apenas a reprodução continua de um padrão que confunde consumo com interação social, que aceita a fé com olhos vendados, que busca em uma casa e uma faculdade o ápice da conquista pessoal. Vivemos em um sistema que parece não nos oferecer alternativas. É assim que o filme que toca, por encontrar uma alternativa e defende-lá de forma pura, sem jamais ter pretensão de dizer como a vida deve ser vivida, apenas nos inspira, nos caminha a compreensão, a um olhar mais duro para com a forma como lidamos em nossa sobrevivência. "Capitão Fantástico" tem esse poder, de nos fazer refletir sobre se o que procuramos e obtemos é realmente o que nos falta, o que nos preenche.

A obra é repleta de momentos marcantes, sempre guiados por um cuidado e uma delicadeza comovente. Como não se emocionar na sequência musical de Sweet Child O' Mine? Ou nos simples discursos de cada membro dessa encantadora família? Existe compaixão em cada ato, em cada olhar, em cada abraço. Existe verdade e existe coração ali, presente em cada um desses belos e ricos instantes. O elenco funciona perfeitamente bem, existe uma sintonia brilhante entre todos eles, onde acreditamos naqueles laços, naquela dependência que todos sentem um pelo outro. Viggo Mortensen é aquele ator subestimado, que já provou inúmeras vezes seu enorme talento, mas nunca parece o bastante. Fico feliz por este seu papel que finalmente será lembrado como uma das grandes performances masculinas deste ano que passou. Um trabalho incrível, comovente e muito honesto em cada gesto. O jovem George MacKay também se destaca, além da excelente participação da sempre competente e também subestimada Kathryn Hahn. Daqueles filmes que termina e nos deixa com um sorriso no rosto. Longe de ser tolo como uma comédia independente qualquer e diferente do que parecia, "Capitão Fantástico" não é nada inofensivo. É forte, é poderoso, é autêntico. Faz bem para alma, nos inspira e nos faz amar tudo o que nos foi mostrado. O filme é sobre muitas coisas, entre elas, talvez, sobre como pais são realmente esses seres fantásticos, que criam um universo próprio de proteção a seus filhos, onde nada os detém, onde serão sempre invencíveis.

NOTA: 9


País de origem: EUA
Duração: 118 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Diretor: Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Nicholas Hamilton, Frank Langella, Ann Dowd, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Annalise Basso





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