quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Crítica: Bem-vindos ao Meu Mundo (Welcome To Me, 2014)

Mais do que fazer piada da bizarrice que é a televisão, "Welcome To Me" é o melancólico retrato de uma sociedade que aprendeu a revelar tanto sobre a própria rotina que passou a encená-la.

por Fernando Labanca

Seria cômico se não fosse tão trágico. Essa frase sintetiza bem o que é este filme, que mescla humor, uma boa dose de vergonha alheia e um constante clima melancólico. "Bem-Vindos ao Meu Mundo" é, também, o trabalho que mais exigiu da atuação de Kristen Wiig, que longe do palco cômico do SNL, busca reconhecimento como atriz e este, definitivamente, é seu melhor momento, ela é a alma de tudo isso. Aqui, Wiig dá vida a Alice Klieg, uma mulher solitária que sofre de transtorno bipolar e que vê sua rotina se transformar quando ganha na loteria. Grande apreciadora dos ensinamentos de Oprah, Alice acredita que o dinheiro lhe trará a chance de brilhar, de finalmente estar no holofote e para isso acontecer, ela entra em contato com uma emissora de TV decadente, oferecendo milhões para ter seu próprio programa, com roteiro, direção e produção feitos por ela mesma.


Há algo de "O Show de Truman" aqui e aquela estranha curiosidade pela vida alheia, mesmo que sendo uma realidade simulada. Existe, principalmente, a estranheza de "Sinédoque, Nova York" - a obra mais conturbada e mais autoral de Charlie Kaufman - presente em suas criações, neste egocentrismo da protagonista, que reformula, diante dos outros, como um produto a ser vendido, a própria vida. E que o faz para compreender sua existência, entender o que antes era confuso, reviver para dizer o que não havia dito. Mesmo que jamais alcance o brilhantismo das obras citadas, "Welcome To Me" tem seu valor. Diferente delas, também, temos uma forte protagonista feminina, insana, exagerada e extremamente interessante, que realiza bizarrices diante de nossos olhos, que nos faz rir de improváveis situações. Não encaro o roteiro como um estudo sério sobre sua doença, a bipolaridade é apenas um pequeno detalhe que justifica as ações impensadas de Alice. No geral, é um texto divertido, inusitado, original, que brinca naturalmente com o absurdo. O programa de auditório criado é simplesmente hilário, que acaba por fazer sátira ao que encontramos na TV e neste fascínio que a audiência encontra na tragédia do próximo.

Acredito, no entanto, que o longa evita alcançar voos mais distantes, parece limitado mesmo com uma ideia tão boa em mãos. É, ainda assim, extremamente genial, mas ficamos a espera de algo a mais, e esta grandiosidade e loucura que o roteiro permitia nunca chega. Faltou mais inspiração na direção de Shira Piven, que entrega um produto mais simples do que poderia ter sido. Sinto isso, principalmente pela força de Kristen Wiig como atriz. É nítido que ela aguentaria ir muito mais além e que ela merecia uma trama ainda mais absurda e mais conflituosa. Gostei muito de sua atuação e se há alguns anos atrás eu me perguntava o porquê dela não protagonizar filmes era por que eu sentia que era aqui que ela poderia chegar e ela pode ainda mais. O restante do elenco é ótimo também, da ternura da sempre versátil Linda Cardelline ao olhar triste de Wes Bentley. Thomas Mann, Joan Cusack e James Marsden não decepcionam e para completar, uma Jennifer Jason Leigh desperdiçada.

"Bem-vindos ao Meu Mundo" faz uma interessante analogia ao vazio presente no mundo de hoje. Confesso que depois que vi o filme, o enxergo com facilidade a cada vez que me aventuro pelas redes sociais. Algumas pessoas se colocam nessa posição, criam o próprio show, uma vitrine aberta de suas conquistas ou de tudo aquilo que elas querem que os outros saibam sobre sucesso, de tudo aquilo que sua simples rotina mereça ser vista. Há um momento em que o público é obrigado a ver, por longos minutos, Alice Klieg comendo um pedaço de bolo ao vivo. É uma cena estúpida e seria inútil se ela não fosse tão reveladora. Sim, a obra tem seus erros, mas quando me deixou estático enquanto seus créditos finais desciam percebi o quanto fui atraído por sua estranha trama, por sua deliciosa insanidade. Vale uma conferida, sem dúvidas.

NOTA: 7,5 




País de origem: EUA
Duração: 105 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Diretor: Shira Piven
Roteiro: Eliot Laurence
Elenco: Kristen Wiig, Wes Bentley, Linda Cardelline, James Marsden, Joan Cusack, Thomas Mann, Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh

2 comentários:

  1. Arrazô na crítica. O filme não é brilhante, mas é uma super crítica recheada de momentos hilários e uma atuação irretocável da protagonista.

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    1. Valeu!!! Muito obrigado!
      E sim...o filme vale pelas críticas que faz e pela atuação dela

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